Poderia Isaurinha ter sido ela a autora do execrável
crime? Isaurinha era uma moça acima dos trinta anos, mas de ar jovial.
Sebastião andava pelos vinte e tal e, claro está, mais jovial ainda. Isaurinha
era alta e esbelta. Sebastião, embora coxeando ligeiramente, era alto e bem
constituído. Isaurinha tinha o seu palminho de cara. Sebastião, para homem,
poder-se-ia dizer que era um pedaço. Isaurinha não era culta talvez o
suficiente pra se apresentar a um concurso de televisão, se naquele tempo já
houvesse concursos de televisão, mas não era nenhuma bruta. Era mesmo capaz de
escrever uma frase com sujeito, predicado e complemento direto, ou mesmo com
nome predicativo do sujeito, mas era voz corrente, discurso direto e por vezes
comentado em voz passiva, entre o pessoal da Quinta do Conde de que ela não
fazia a menor ideia do que era um sintagma. Sebastião também não, apesar de
falar qualquer coisinha de inglês e arranhar o italiano. E o que é que tudo
isto poderá contribuir para responder à questão inicial? Poderia Isaurinha ser
a autora de crime tão hediondo? Isaurinha tinha já uma considerável experiência
de vida. Não só vivera largos anos com o nosso taberneiro Ismael Gusmán, o
galego, bem como, o que já é do conhecimento geral, andou enrolada com o filho
do senhor Ismael da farmácia. Sebastião, por seu turno, não terá frequentado
apenas os bares de má fama do Cais do Sodré. Embarcadiço, dos sete mares
marinheiro, de todos os portos vadio, de mulheres de vida fácil, meretrizes de esquina
e bailarinas de varão e de uma noite amantes, de uma noite Sebastião lhes era
amante também, em uma noite só que fosse, Sebastião lhes frequentava as alcovas.
Esta frase foi mesmo poética, reflete o narrador. Quites, diria Sebastião, se o
confrontassem com Isaurinha. Poderia, então, Isaurinha ter perpetrado tão
arrepiante desenlace? Isaurinha morava na Quinta do Conde, com seu pai, um
honesto trabalhador manual, artífice dos coiros e dos fios ensebados, do
martelo e da bigorna, das formas, do formão e da sovela, da arte de bem coser e
martelar, de bem colar e de bem pregar e para bem da verdade, da nobre arte de bem
engraxar e de bem puxar lustre, um, por assim dizer, artista, trabalhador e
honesto sapateiro. Sebastião morava na Quinta do Conde, na casa de sua tia,
emprestada porém tia, uma viúva respeitada e respeitadora que se, por acaso, o
escritor lhe inventou um caso com um inspetor de polícia era caso que só pela
cabeça do escritor podia passar para além do jovem Espinheira que sempre
desconfiou de que ali haveria moira na costa, dado os embrulhinhos, ora de
chamuças, bem denunciadas pelo seu cheirinho a caril, ora croquetes de atum de
lata, ora dos dois, que o inspetor sempre levava quando apanhava o autocarro em
Cacilhas, uma mulher de vários talentos, mormente a de contista e criadora de
ficções de caráter erótico ou, para ser mais preciso, de textos para mentes
desempoeiradas mas um tanto ou quanto safadas, uma anotadora de factos do dia-a-dia,
uma observadora de olhares, de movimentos e de silêncios, em suma uma criativa.
Isaurinha frequentava a mesma farmácia que Sebastião, Sebastião ia ao mesmo
lugar de frutas que Isaurinha, Isaurinha comprava castanhas quentes e fumegantes
ao homem do carrinho com assador, Sebastião era perdido por castanha assada. Isaurinha
fazia um bacalhau à Braz como não existe, ainda hoje, um único restaurante que
o faça. Sebastião encostava-se ao parapeito da janela de Isaurinha, sem que
esta alguma vez o desconfiasse, a saborear o cheiro dos seus cozinhados.
Isaurinha vestia vestidos colados ao corpo, realçando glúteos, excrescências
peitorais, curvas perigosas. Sebastião usava calça à boca-de-sino e boina
basca. Isaurinha ouvia o Tide na telefonia do carvoeiro, durante a semana,
Sebastião ouvia o relato da bola na mesma telefonia, aos domingos. Poderia
Isaurinha Bate-Sola ter consumado um crime que tem tanto de sanguinário como de
horrível? Isaurinha viajava de cacilheiro de Cacilhas para o Cais das Colunas
no Terreiro do Paço, só que era rara a viagem em que não se nauseava. Sebastião
fazia o mesmo percurso mas nunca, em toda a sua vida, Sebastião enjoou
numa vigem. Sebastião conhecia perfeitamente a tasca de Ismael Gusmán, amigo do
escritor, como já várias vezes aqui foi referido. Isaurinha era ela própria a
concubina, a amante, a esposa que Ismael estimava desde que a cantadeira Lucrécia,
um dia, se finou e se juntou ao Criador. Sebastião comia com gosto pataniscas
de bacalhau com arroz malandrinho de feijão. Isaurinha garantia, embora em
surdina, que um dia haveria de ser a sua patanisca, o seu caldo do arroz, o seu
feijão encarnado. Sebastião olhava para Isaurinha como que lhe suplicando isso
e ainda um arroz de lingueirão com alcabozes ou jaquinzinhos fritos. Isaurinha
ripostava olhando para Sebastião oferecendo-lhe tudo e a ainda a sobremesa.
Poderia Isaurinha ser tão vil que cravara não uma, nem duas, mas sim sete vezes
a faca no peito de uma modesta bailarina de revista? Era esta a pergunta,
nestes ou em termos parecidos, alguns deles já aqui usados pelo escritor, que o
inspetor Ismael Sacadura Flores fazia aos presentes na célebre reunião da tasca
de Ismael, na rua do Correeiros, enquanto entre ela e Sebastião o inspetor
dissecava semelhanças e cumplicidades. E, tendo Isabella Vicentini se
atravessado no caminho dos dois, pois se Sebastião já convergia com Isaurinha,
que necessidade havia de se formar ali um entroncamento? É neste mar de ciúmes
e paixões, de amores e ódios, de fados e romantismos, de músicas e silêncios,
de nuvens e de cacimbo, que Ismael Sacadura Flores navega, onde Sebastião
flutua e onde, provavelmente Isaurinha Bate-Sola se poderá afundar. Mas o
escritor fundeia aqui. Mandou parar a máquina e baixar a fateixa. Não ficará à
deriva, mas só responderá à pergunta se poderá ter sido Isaurinha a execrável
criminosa, mais tarde, lá pelo virar da maré.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
terça-feira, 8 de maio de 2012
136. Genoveva
Gabo-lhe a paciência, mas também a
ingenuidade. A primeira pessoa que lê o que escrevo é a minha mulher. Não
publico nada que ela não tenha lido primeiro. Nunca me propôs alterar o sentido
de um texto, mas dá-me sugestões para as continuidades. E faz comentários.
"amor, a nossa empregada não se chama Genoveva"
"eu sei"
"mas escreveste várias vezes Genoveva"
"mas também não digo que é a empregada. A propósito, se fosse a empregada não seria despropositado eu gabar-lhe a beleza das mãos?"
"então sou eu amor?"
"não"
"não?"
"não"
"porque não?"
"não tens cabelos loiros e compridos"
"pois não"
"logo não podes ser a Genoveva"
"pois não... inventaste a Genoveva?"
"inventei"
"ah"
"..."
"e quem é a Genoveva?"
"não te disse que inventei?"
"disseste"
"então..."
"podias ter-lhe dado outro nome..."
"podia"
"porque é que não deste?"
"porque não me apeteceu"
"apeteceu-te Genoveva?"
"apeteceu"
"se quiseres deixo crescer o cabelo"
"para quê?"
"e posso pintá-lo de loiro"
"para quê?"
"para amarrares a brisa"
"mas hoje nem uma aragem corre”,
"não estás a ser romântico"
"desculpa"
"posso ser a tua Genoveva?"
"podes"
"posso mesmo?"
"eu disse que sim"
"posso amarrar-te com os meus cabelos loiros?"
"só depois de me fazeres um sumo de ancoras selvagens"
Fiquei com a impressão que a minha mulher não vai querer ler mais nenhum dos meus posts
domingo, 6 de maio de 2012
135. Ismael (50) - Estes não são os suspeitos do costume
Com apenas dois toques, nem um, nem três, mas realmente com
apenas dois toques, se bateu à porta fechada, naquele fim de tarde, da tasca do
galego Ismael Gusmán. Se Fernandinha não tivesse sido mandada embora daquele
período histórico e apenas autorizada a voltar à novela lá para meados dos anos
setenta do século XX, sob pena de graves consequências para a sua integridade
física e, principalmente, para a integridade mental do narrador e dos leitores
desta trapalhada, teria sido ela e levantar-se prontamente daquele banco de
pernas altas, em que se costumava sentar por detrás do balcão, onde assentava
um cotovelo e, de palma da mão em concha virada para cima, pousava o queixo nas
horas mortas e espreitava de viés para a televisão a preto e branco, colocada numa
prateleira por cima de um quadro com a fotografia de D. Ismael de Gusmán y
Toledo, o falecido pai do meu amigo Ismael. Teria sido ela a levantar-se, como
dizia, a encaminhar-se célere para a porta, para, corrido que fosse o ferrolho
e entreaberta a dita, espreitar no lusco-fusco que àquela hora já era, sim
porque a reunião se estava a alongar e a perguntar quem seria que tão
despropositadamente batia assim na porta de uma taberna, sem usar a aldraba
para o fazer. Teria sido, portanto e volto a repetir, Fernandinha que se iria inteirar
do motivo de tão inesperada, para ela, quanto inoportuna visita, principalmente
sendo aquela uma reunião da iniciativa de um inspetor muito conceituado da
nossa polícia Judiciária. Muitos anos se haveriam de passar para que a eficaz e
necessária polícia de investigação criminal viesse a ter um outro Flores, tão
proeminente como o nosso Ismael Sacadura Flores, esse que um dia ainda
presidiria a uma Câmara Municipal, quem haveria de dizer, deixando mais pobre a
produção telenovelesca. Mas isso são coisas do futuro e nós cá continuamos em
1956 que foi quando Isabella Vicentini foi, efetivamente e, nunca é demais
repetir, barbaramente assassinada. Com Fernandinha, coisa que muitas leitoras e
principalmente leitores ainda hoje não perdoam ao escritor, fora de cena, quem
teve que ir abrir a porta foi o nosso anfitrião, Ismael Gusmán, caramba que o
narrador é chato, já lhe conhecemos o nome. Mais chato é o escritor ripostaria
o narrador, sabendo de antemão que os outros também o sabem. Ora quem bate
apenas duas vezes, nem uma, nem três, apenas duas, querendo com a sua presença
inteirar-se de tudo e dos porquês das coisas, fazendo toc toc em todas as portas, não poderia deixar de
ser outra senão a comissária de polícia Alexandra Semião, mais conhecida nos
meios policiais por Xana, só não podendo ser chamada de Xana Toc Toc porque essa
já é uma marca registada, que os miúdos, vá-se lá saber porquê, gostam de ver
no Canal Panda.
Apresentada que foi a comissária Alexandra Semião aos
presentes, que ficaram a saber por quem seriam depois acompanhados à Esquadra
da Mouraria e já com a porta da taberna novamente fechada, serviu à senhora, o
nosso Ismael, o Gusmán, porque o outro é polícia, um café em chávena de vidro
de onde exalava um cheirinho a bagaço mas que, por mor da senhora comissária
Xana estar de serviço, todos comeram e calaram, não fosse o diabo tecê-las. E
continuou então o inspetor Ismael Sacadura Flores, a quem Xana tratava por, «Ó Sacadura
isto», «Ó Sacadura aquilo», só faltando mesmo tratá-lo por Sacadura filho,
Sacadura amor ou Sacadura querido, tal era a intimidade que aparentava ter com
o, efetivamente chamado, Sacadura, que com a sua dedução racional e linear, que
como sabem, leitoras e leitores, já vos tive ocasião de dizer antes, conduziu à
descoberta da careca do pilantra, que é como quem diz, conduziu a quem cometeu
tão horrendo crime e que, se não fosse aviltante para a própria natureza do
crime, dir-se-ia, quem molhou a sopa no peito da bela, elegante, simpática e também
sexualmente poderosa, bailarina italiana, só que isso do sexualmente poderosa
não está nas cogitações do escritor revelar neste livro. E é neste contexto que,
virando-se para o Dr. Castro Ribeiro lhe perguntou se este não teria nada a
dizer aos presentes sobre a sua relação familiar com o marinheiro Sebastião,
não tendo contudo a intenção de deixar o juiz de direito jubilado, Castro
Ribeiro, falar, já que aquilo não era um interrogatório, mas sim uma preleção.
E abrindo um caderninho pouco maior do que um bloco de
apontar números de telefone, leu em voz baixa num murmúrio que nem um tísico
conseguiria apanhar uma só palavra, duas ou três linhas, tendo-o voltado a
fechar, guardando-o de seguida no bolso do lado direito do casaco. E continuou
agora em discurso direto, apenas para deixar descansar o narrador, que já lhe dói
a garganta de tanto narrar, dando, por sua vez, a vez ao escritor, que está
folgado das pontas dos dedos, de continuar a escrever, pois que ainda é jovem,
apresentável e de boas famílias. Só que por causa das tosses e talvez fazendo
birra por causa desta inesperada atitude do narrador, isto hoje está bonito,
está, resolveu o escritor dar um salto no discurso e passar quase para os
finalmente.
«… E é assim, que vamos encontrar Francisca, a tratar como
irmã a pobre Raquel Baruch, a quem chamavam Rosa da Madragoa, pois todas as
manhãs saía do cais de Santos com uma canastra à cabeça a apregoar sardinha viva
da costa. Nunca o senhor Ishmail perdoou ao Nuno, que era assim, por Nuno, que a
sua sobrinha se referia a ele quando escrevia em cartas de papel fininho e, não
menos de baixa gramagem, envelopes circundados com as cores nacionais, vermelho
e verde e que traziam já pré impressos a menção “por avião” quando escrevia
para seu tio Ishmail Baruch, que na época ainda vivia na Áustria». Neste
momento Castro Ribeiro baixou a cabeça e olhou para o chão, que é para onde
olham as pessoas que baixam a cabeça,
desde que não estejam de olhos fechados. Continuou Sacadura ou seja, mais
formalmente como o momento exige, Ismael Sacadura Flores: «Quando o jovem
Sebastião nasceu, ainda não se notava que iria ser coxo como o seu tio-avô
Ishmail, mas via-se logo que era a cara chapada de Castro Ribeiro, seu pai.
Nuno Castro Ribeiro vinha com alguma frequência a Lisboa por mor da sua paixão
por Raquel, que conheceu um dia que teve de escolher um rodovalho para grelhar
numa paródia de comes e bebes com outros colegas advogados num congresso em
Lisboa, deixando vazios, por dois ou três dias por semana, os seus aposentos em
Vila Nova de Gaia onde em tempos teve um escritório de advogados, mas isso foi
antes de se ter tornado juiz, mas nunca foi capaz de assumir a paternidade do
futuro marinheiro». O narrador ousa interromper o escritor para informar que
naquele dia, não só o rodovalho era fresquíssimo mas também a salada mista
estava magnífica, com tudo o que tinha direito, incluindo os pimentos assados e
para perguntar aos leitores se isto não está a ficar romântico, digno de uma
novela radiofónica, onde um juiz de direito, ex-advogado de nome e créditos
firmados na praça nortenha, que até come rodovalho que é um peixe fino e caro, se
apaixona por uma simples peixeira, vendedora de carapaus e de sardinhas, vá lá
de chicharros também e, uma vez por outra, rodovalhos. Voltando de novo ao
escritor e ao discurso direto do inspetor Sacadura: «Quando Raquel morreu, após ter escorregado
numa rampa de acesso ao Mercado da Ribeira e batido com a canastra numa montra
e com a cabeça no chão, pensa-se mesmo que a canastra só serviu para a
desequilibrar ainda mais, Nuno veio a conhecer Francisca que era como que uma
perceptora de Raquel e foi amor à primeira vista». Cá está mais uma cena
romântica, tão linda, que faz até chorar, ousa interromper de novo, o narrador.
E continua o inspetor da polícia: «Casaram pouco tempo depois e Castro Ribeiro
pode assim ajudar a criar o filho, a quem tratava carinhosamente por Sebas,
este que sempre tratou afetuosamente Francisca por tia e esta, por sua vez, que
sempre tratou, carinhosa e afetuosamente, para poder usar os mesmos adjetivos,
Sebastião, como um filho. E porque é que o senhor Ishmail Baruch, nunca perdoou
o Dr. Nuno Castro Ribeiro?» perguntou o inspetor Ismael à assistência, ciente
que, apesar do discurso um bocado enrolado do polícia, não se tinham esquecido
ainda de que foi praticamente assim que o inspetor, pela mão do escritor, já
que o narrador nem se quer meter nisso, começou este pedaço de texto. Pois continuou
então o reputado Ismael Sacadura: «Nunca lhe perdoou porque não gostou nada,
ouso até dizer, não gostou mesmo nada, mas mesmo nada, friso, repito e
acrescento que poderá ter sido ou terá mesmo sido a gota de água que fez
transbordar o copo, ou seja, o que conduziu ao corte de relações entre os dois homens,
de saber que um homem de tantos recursos, como era e ainda é o Dr. Castro
Ribeiro, e com aquela afinidade familiar, ex-namorado da sua sobrinha, que
sabe-se lá por que razão teria escolhido Portugal para viver, sem se saber
ainda se naquele tempo, em meados dos anos trinta do século passado, Portugal
iria entrar ou não na Segunda Grande Guerra e também não se saber ainda se
viria a haver alguma Segunda Grande Guerra e se o Hitler iria perseguir ou não os
judeus ou quiçá outro povo, pai, embora não oficialmente assumido do seu sobrinho-neto,
se abastecia de charutos marados num quiosque rasca do Cais do Sodré em vez de
os comprar na sua loja, a genuína casa havanesa, a única importadora autorizada
dos mais puros charutos cubanos. E se Castro Ribeiro tinha recursos para os
comprar! E se eles eram de primeira qualidade! Primeiríssima! E se quisessem
uma testemunha, não do crime, mas sim da qualidade dos seus puros, era chamarem
o Dr. Ismael ben-Avraham, o seu mais conhecido consumidor».
Aqui chegados, o escritor começa a entrar com as ideias em
parafuso, quer continuar a escrever um livro mas está a sair-lhe uma coisa
embrulhada em folha de tabaco e, por isso, pede ao narrador para tomar ele as
rédeas do texto antes que ninguém fique a não perceber patavina da história. E
é assim que Constantino, outra vez no comando da narrativa, se vê obrigado,
para rematar, a dizer que isto que acabamos de ler explica muita coisa.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
134. Temporal
Quando hoje acordei senti uma vontade inexpugnável de
escrever. Por outro lado, o narrador que há em mim, divertia-se com este
impulso e saía de mansinho para se assomar à janela. Lá fora chovia e fazia um
vento pré-ciclónico. Eu, escritor, queria dizer que as gotas que me cobriam,
como se de uma diáfana cortina se tratasse, os vidros da minha janela, auguravam
que lá fora chovia. Eu, escritor, queria escrever que o zumbido que pelas
frinchas das janelas e das portas me penetrava os tímpanos, sugeria-me que lá
fora o vento enrolava nuvens, transportava pólenes, beijava gaivotas e
acariciava os ramos do meu plátano. Eu, narrador, abri um pouco a janela e fechei-a
de seguida. Constatei e transmiti ao escritor, como se lhe fizesse um favor, que
lá fora chovia a cântaros e que um vendaval arrasava árvores e telhas. Sem
querer, estive quase a deixar escapar um palavrão, mas o escritor reprimiu-o. Eu,
escritor, que hoje pela manhã acordei cedo com uma inexpugnável vontade de
escrever, terrível vontade essa, obsessiva compulsão para o papel e a caneta,
reprimi o palavrão do narrador e não o escrevi. Com palavrões não se faz poesia
e a chuva que bate em pancadas no zinco do telhado da garagem em frente à minha
janela, umas vezes fortes, outras irregulares, mas suaves, pode não ser poesia
mas escreve pautas de fás sustenidos e bemóis de sol e de dó, em compasso
ordenado numa sinfonia concorrente com a do cantar do rouxinol. Eu, narrador,
preocupei-me em contar ao escritor que hoje os pássaros não saíram dos ninhos,
não abandonaram o resguardo das folhagens, não espreitaram para fora das
chaminés, não colocaram asas fora dos telheiros. Eu, escritor, depressa
compreendi que o pica-pau não sairia do buraco da sua árvore para acompanhar a
sinfonia das águas cadentes no telhado de zinco da garagem em frente à minha janela,
nem o silvar da flauta de vento que me entrava pela frincha da janela do quarto
de dormir. Eu, narrador, quis que o escritor soubesse e disse-o em voz alta,
que aquela frincha precisava de conserto e não de concerto e que existiam fitas
isoladoras apropriadas. Talvez que hoje fosse um dia bom para os arranjos,
talvez que hoje fosse o dia certo para que saísse à rua e na loja de ferragens procurar remédio para as frinchas da minha janela do quarto de dormir. Eu,
escritor, pensei que isso não seria muito conveniente se bátegas de água
fustigavam campos e estradas, enchiam represas e barragens, lavavam almas
empoeiradas, molhavam mais a imensidão do mar, se o vento sacudia para-chuvas.
Eu, escritor, olhei-me de pantufas e de pijama de cetim, acendi o cachimbo, dei
duas baforadas e preparei-me para descrever o pequeno-almoço, que em breve
Genoveva me serviria, de crepes de centeio com doce de mirtilo e amoras, de
leite de cabra em jarro da Companha das Índias, de café quente de São Tomé (que
Genoveva preparava primorosamente), cujos aromas se misturavam com âmbares do
perfume de Genoveva, com as rosas do seu odor a sabonete e com os pólenes
transportados pela brisa que, agora sim, amainara o vento, prendera-o com
amarras feitas com fios dos cabelos loiros de Genoveva e beijava o fumo exalado
da minha pipa de antigo marinheiro. E a tosta morna já aguardava o foie-gras, a melancia e o ananás, descascados
pelas finas e brancas mãos de Genoveva, cobriam por completo um desenhado prato
de porcelana, o sumo de ancoras silvestres resplandecia nos resplandecentes
cristais que a cristalina Genoveva parecia beijar quando lhe tocava com os
veludos. Eu, narrador, gritei para mim próprio, escritor, que as torradas já se
estavam prontas na torradeira, que o copo de leite tinha de ir de imediato para
o micro-ondas de forma a evitar as torradas, acabadas de sair, não viessem a
arrefecer. Eu, escritor cheguei à cozinha, não sem antes ouvir a crítica do
narrador que me censurou do meu aspeto desgrenhado, com a barba por fazer,
embora de cara lavada, olhei para o leite no pacote tetra-pak brotei-o alvo para um copo de vidro, olhei para a amarela
cor de margarina que a manteigueira de plástico continha, dei de caras com azul
anil da toalha de mesa que tinha deixado de véspera, reparei no cor-de-laranja
dominante que emanava da fruteira repleta de laranjas e tangerinas, tomei nota
do vermelho doce de morangos ainda no frasco de supermercado e deslumbrei-me
coma o roxo das glicínias que da floreira me trepavam o candeeiro de jardim.
Eu, escritor, sabia que aquela seria uma manhã de arco-íris. Eu, narrador,
tomei o pequeno-almoço, vesti uma inenarrável gabardina, penteei os cabelos,
fixei-os com brilhantina e saí para comprar o isolamento para as frinchas da
janela. E se vos narrei, narrado está.
terça-feira, 1 de maio de 2012
133. Ismael (49) - Isaurinha Bate-Sola saiu-se bem
«Ó homem, deixe-se disso», vociferou Isaurinha Bate-Sola.
«Isso agora não interessa para nada», rematou. Afinal a célebre frase da
televisiva Teresa Guilherme não passa, aparentemente, de um plágio. Decorria o
ano de 1956 e, reunidos na tasca de Ismael Gusmán, na Rua dos Correeiros em
Lisboa, os suspeitos e não suspeitos, os inspetores da polícia e até o
taberneiro, ouviam a preleção de Ismael Sacadura Flores. Afinal quem teria
matado com sete facadas uma pobre, infeliz, desgraçada, desditosa,
desventurada, infortunada, malfadada corista italiana que ganhava, parece que
honestamente, o pão, mostrando as pernas e fazendo realçar as nádegas, sobre
sapatos de salto muito alto, num teatro de revista no Parque Mayer, em Lisboa,
era o que se pretendia saber e vinha agora o jovem Espinheira ainda imberbe,
quiçá eivado de pensamentos malinos que à época eram deveras, feroz, assanhada
e diga-se que, para bem da moral e dos costumes, justamente censuráveis, propor
à assembleia que se fizesse uma pausa para que ele pudesse ler mais um capítulo,
mais propriamente o VII, do conto de Francisca, apelidado com algum a
propósito, diria o narrador, quiçá porque adora a palavra quiçá, quiçá
desanuviador do pesado ambiente que entretanto se gerara, apelidado, dizia o
narrador, como um conto de perdição. «Isso agora não interessa para nada» é
pois a frase chave deste intermédio que surgiu no referido meeting, frase que hoje estamos a ver terá sido proferida pela
primeira vez por Isaurinha Bate-Sola. O escritor ainda pesquisou alguma
literatura antiga desde Estrabão até Sófocles, passando por Platão e Aristóteles,
lendo minuciosamente o antigo testamento, procurando em Émile Zola e Eça de
Queiroz, em Camões e Cervantes, em Jean-Paulo Sartre e António Damásio, de
Pessoa e Álvaro de Campos a Drummond de Andrade, de Jorge Amado a Erico
Veríssimo, de Descartes a Lavoisier, de Martinho Lutero a João XXIII, não se
encontrou elocução similar, pelo que «Isso agora não interessa para nada», à
falta de melhor, vai ser atribuída a Isaurinha Bate-Sola, já que neste
relambório ainda não teve qualquer mérito, tendo encornado até, passe o calão
de circunstância para dizer o mesmo que colocar um par de chifres, o meu amigo
Ismael Gusmán, o que para o escritor é imperdoável e procedido, em várias ocasiões
e situações, como uma puta, que é o que ela era na verdade, coitado do pai, um
honesto sapateiro. Quem não gostou muito disto tudo foi, claro está, a nossa
romancista surpresa, a nossa contista de eleição, a nossa anotadora de serviço,
a inesperada amante de Ismael Sacadura Flores, a parte-corações, pois até o
Rogério ficou dececionado, a tia, talvez emprestada, de um marinheiro sem
sextante nem rumo, mas acima de tudo a grande inspiradora do escritor que aqui
modestamente se apresenta, como Constantino Guardador de Vacas, já que não tem
mais idade para sonhar, a nossa bem conhecida Francisca. E se não chegaram a
vias de facto foi por causa de Ismael Gusmán.
Ismael Gusmán era uma boa pessoa. Disso creio que o narrador
já conseguiu levar a mensagem aos leitores deste conto de Constantino, cuja
biografia já teve ocasião de ser publicada. O narrador, neste momento e uma vez
já conhecem detalhadamente o escritor, apenas pode acrescentar que ele é benfiquista
e que isso não foi incluído na biografia para não criar divisões entre os seus
leitores, pois consta que há pelo menos dois que são do Atlético e um que é adepto
do Carrazeda Futebol Clube, uns seis que torcem pelo Sesimbra e, ainda outro,
pelo Quarteirense. Ismael Gusmán era um homem pacífico, apaziguador e
absolutamente nada presunçoso. Quando soube que o escritor iria referir estas
suas caraterísticas de homem comedido, desempoado, simples, humilde,
encabulado, recatado, falou ao ouvido do escritor para que ele não gastasse
todos os sinónimos num só texto ao que o narrador acedeu e nem vai aqui
reproduzir o que mais sobre Ismael Guzmán o escritor se espraiou. Pois Ismael
Gusmán, apagou a luz e no silêncio repentino que se instalou, o jovem, o
imberbe, o mancebo, fez ouvir a sua voz e leu para quem quis ouvir, que foram
todos menos Isaurinha Bate-Sola, o sétimo capítulo de “Contos da ilha de lá” de cuja autora, Francisca, só não se notou que
estava ruborizada porque as luzes continuavam apagadas.
“Os membros da tribo só saíam da
aldeia por dois motivos. Caçar e, quando se tornava necessário, iniciar o
ritual do casamento. Era da tradição que qualquer jovem da tribo, antes de casar,
fosse desvirginada por um ‘estrangeiro’. Por um lado, a jovem nunca seria
acusada pelo futuro marido de que tivera tido um romance antes com alguém do
mesmo grupo. Isso diminuía drasticamente as relações de desconfiança. Por outro
lado, uma vez que a cerimónia era pública, haveria a certeza que a jovem era
virgem antes do casamento. Desta vez, o estrangeiro escolhido fora eu. Quando a
jovem parou de lacrimejar, respirei fundo. Abstraí-me da plateia e fiz amor com
ela. Para ser preciso, o ato durou apenas o tempo de a desflorar. Uma ladainha
ecoou em todo o anfiteatro e como que por magia, as nuvens, que desde há horas
cobriam os céus, desapareceram e o luarejar misturou-se com a luz dos archotes.
Foi um ato lancinante. Para mim, por me ter prestado a tão lapuz ritual. Para a
implume jovem, porque o seu rosto se contorceu de dor no momento da penetração.
Quando a ladainha que as anciãs entoavam em uníssono terminou, o chefe ergueu
alto o lábaro com as armas da tribo - um falcão com focinho de jacaré. Numa
lemniscata desenhada no chão, onde num dos círculos me sentei e, no outro, se
sentou o futuro noivo, o tratado que antes haveria assinado com sangue, foi-nos
lido em voz alta, por uma espécie de feiticeiro. Teria de ficar na aldeia até
que a gravidez da jovem se consumasse”.
E depois
de lido mais um capítulo do conto de Francisca, Ismael Sacadura Flores recomeçou
a sua preleção tendo-se vindo a saber no final da mesma quem teria morto
Isabella Vicentini. E correndo o risco de que algum dos meus leitores me ameace
a mim, Constantino, com sete facadas por não revelar o autor material de tão
horrendo e indescritível crime pede o escritor ao narrador que vos comunique
que isso fica para mais tarde. Na sua incomensurável bondade trouxe Ismael
Gusmán ao escritor duas bolachas torradas e um copo de leite. E assim continuou
este a escutar atentamente o inspetor Ismael Sacadura Flores até que adormeceu de
cansaço.
domingo, 29 de abril de 2012
132. Ismael (48) - O fotógrafo
Ismael Pião tinha um sonho de menino. Não um sonho como o do
Tony Carreira mas, de qualquer maneira, um sonho. Talvez se ele sonhasse em voz
alta a mãe o tivesse levado a sério. Mas ele sonhava calado, silencioso mesmo e
quase sempre a preto e branco. Eu diria mais, Ismael Pião sonhava a preto e
branco, 200 ASA. E quando ele, antes de ir para a cama, apagava a luz e o
quarto mergulhava na escuridão, entrava direto na câmara escura e não fosse uma
pequena luz de presença vermelha, muito sumida, que lhe aliviava os receios,
dir-se-ia que os químicos começavam a penetrar-lhe a mente, chegando até a ter flashes que o faziam saltar arrepiado. Mas
não era muito negativo o nosso Ismael Pião embora, nem por isso, deixasse de
acordar inundado em suores, como se algo lhe escorresse corpo abaixo. Nessas alturas
sentia-se como que pendurado numa corda com duas molas da roupa. Foi numa
dessas ocasiões em que, apesar da escuridão do quarto, Ismael Pião passou a
noite em branco graças a dois refletores que a vizinha do prédio em frente
improvisou, ao ter estendido um par de lençóis brancos, numa quinta-feira, dia
da barrela em sua modesta habitação, que ele decide revelar a sua mãe, que
vestia sempre vestidos de chita, um pouco desbotados como uma cor acabada de
inventar por um qualquer Ismael Gevaert ou talvez, muito provavelmente, por Ism
Aemoto Fuji (estão aqui ao lado a soprar-me ao ouvido que poderá ter sido Ismael
Smith Kodak), o seu desejo, a sua vontade, a sua obsessão, o seu fetiche, a sua
queda, a sua inclinação, o seu desarrumo mental pela fotografia. A mãe,
coitada, que vivia entre satisfazer todas as vontades ao filho e a realidade
nua e crua do dia-a-dia, mormente a hipótese de fazer do seu filhinho um homem,
decidiu que ele iria trabalhara para os TLP, que era uma empresa de futuro e
bem ligada, se é que isso queria dizer alguma coisa.
O nosso Ismael Pião, temos aqui que lhe chamar nosso, ou
melhor, porque já o fizemos antes, continuar a chamar nosso, pois de hoje em
diante, quando se falar de fotografia neste livro de histórias sem imagens,
nunca mais nos poderá sair da cabeça Ismael Pião, depois de se ter visto
enredado em aparelhos telefónicos de todos os modelos, abri-los para ver se por
dentro havia espelhos que refletissem a voz dos seus utilizadores, até ter
percebido por fim que o som e a luz tinham formas de se propagar de maneiras
muito diversas e que se não fossem as perturbações eletromagnéticas em fitas
nunca a voz poderia ser registada, ao contrário da imagem que impressionava,
isso sim, sais cristalinos de prata bastando que os comprimentos de onda,
cala-te que isto não é nenhum livro de física, disse às tantas o narrador ao
escritor e este calou-se porque isto não é um livro de física. Finalmente,
depois de ter visto que os telefones de disco não tocavam discos, não se
assemelhando sequer a uma grafonola, mas sim usavam um discador em forma de
disco onde se enfiava o dedo indicador para o fazer rodar, largou postes, fios,
troncas, cavilhas, discadores não sem antes ter telefonado para casa e gritado
a plenos pulmões para o bocal «mamã vou ser fotógrafo!»
Free-lancer em
várias revistas e jornais, viu-se confrontado com os custos do equipamento fotográfico,
com a dificuldade que um rookie tem
em se impor num espetro que já está ocupado por tubarões e acabou por cair nas
garras da Judiciária. Não, não cometeu nenhum crime. O nosso Ismael Pião acabou
por arranjar emprego na Polícia Judiciária como fotógrafo de cenas de crime.
Mas aquele dia foi fatídico. Ismael Sacadura Flores, o já nosso conhecido
inspetor de polícia, acabara de receber um telefonema, que a menina das troncas
encavilhou direta para o gabinete policial, antes de continuar o seu crochet,
demasiado perturbador para o seu dia de trabalho que acabava de se iniciar.
Tinha havido um horrível crime no número 43 da Rua dos Correeiros, num sexto
andar onde morava uma menina, cria o chefe de brigada Ismaelix, que usava um
bigode à Chalana, porém branco e uma trança até ao meio das costas, que seria
italiana. Com passo apertado, bate na porta do gabinete de fotografia, Ismael
Pião ainda estava deitar duas colheres de açúcar na caneca de café de cevada
que D. Gina, a empregada que vendia cafés de cevada lhe tinha levado, teve de o
engolir à pressa, o que foi mau, muito mau, porque queimou o céu-da-boca e a
ponta da língua, pegou na máquina fotográfica, colocou-a ao ombro, abriu a
gaveta dos rolos, pelo sim pelo não enfiou no bolso dois rolos virgens de vinte
e quatro fotografias cada e saiu com um passo tão apressado como o do inspetor
Sacadura, tendo até tido dificuldade em o apanhar já que o dito Ismael Flores
lhe levava quase um corredor de avanço. Subiram apressadamente a escada do 43,
dois em dois e até três em três degraus, quando o patamar entre pisos lhes dava
balanço para tal e, com a porta já aberta por outros polícias, mormente pelo
chefe Ismaelix, o que tem um bigode à Chalana, deparam com o corpo de Isabella
Vicentini, deitada no chão, com marcas visíveis de facadas, que hoje sabemos
terem sido sete, por debaixo de uma blusa branca de cambraia de algodão. Ismael
Pião olhou para o corpo da jovem bailarina e ficou estarrecido. De repente
dá-se-lhe uma volta ao estômago de tal maneira que uma mão na boca quase foi
impotente para segurar um vómito. Mas não era apenas o estômago que lhe andava
às voltas pois a cabeça de Pião não parava de girar e não sabemos com que guita
puxaram Ismael Pião já que ele girou três vezes e saiu porta fora girando ainda
escada a baixo. Diz quem o viu pela janela do sexto andar, que tão depressa vomitava
como rodopiava direito ao Terreiro do Paço. Pensa-se que terá ido assim até à
Quinta do Conde onde morava, ora vomitando, ora girando.
Ninguém mais soube
dele. Hoje, à hora do almoço encontrei-o num restaurante no Gradil. Já com os
cabelos brancos, senta-se sempre perto da bancada das sobremesas. Quando acaba
de almoçar gira na cadeira para pegar o seu pratinho de arroz doce.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
131. Ismael (47) - Biografias
Se
alguma vez este livro, cujo nome provisório já o conhecem e que, vá lá, repitam
comigo, é “Pasteis há muitos, Senhor Ismael”… Não? Não era este? Está bem, mas
por hoje fica este, vier a ser publicado, vou entrar em consenso com o editor
para que a capa tenha badanas. Se há coisa que eu adoro num livro são as
badanas. Numa delas vem a biografia do autor, na outra um pequeno resumo para que
os críticos literários badanistas se pronunciem sobre o livro fazendo um grande
brilharete e deixando os que os leem, (leem?) a pensarem que eles é que são
mesmo os presidentes da junta. E para que é que eu disse que servia a outra
badana, para quê? Ora muito bem, estavam com atenção, é para a biografia sim,
senhoras e sim, senhores. Portanto senhores editores fiquem aí com uma pequena
nota biográfica do escritor. Se não couber na badana, apertem a letra, por
favor.
Nascido em Lisboa,
depressa emigrou para Almada, tinha apenas quatro dias de idade. Não esperou,
portanto, pelos conselhos de sua excelência o Primeiro-Ministro. Em Almada se
fixou até aos 25 anos, tendo transitado para o Seixal, no início dos anos 80 do
século passado, porque o preço da habitação era mais baixo. Hoje diz com
naturalidade ter tripla naturalidade, naturalmente, sendo um alfacinha
almadense que não se “qu(s)eixa” de morar no Seixal. Já passou por 56
primaveras e no verão, se Deus lhe permitir, somará mais uma (isto de fazer
primaveras no verão, só mesmo para os eleitos). É casado, tem uma filha e um
filho, que são maravilhosos e um não menos maravilhoso neto. Quando for grande
quer ser bisavô, vamos lá a ver quantas primaveras demorará. Formou-se em
engenharia e andou pelos computadores até se tornar doméstico, mas sempre com
os impostos em dia. Mesmo que não o quisesse o Gaspar está à espreita e
portanto não tem hipóteses. Gosta de fotografar, como amador, porque de facto
ama a luz e o seu registo. Escreve essencialmente para a gaveta e não na gaveta
porque se o fizesse já teria as mãozinhas todas tortas de tanto escrever. Há
mais de oito anos que começou a escrever em blogues, sempre é mais confortável
do que em gavetas, sendo que o seu antigo blogue, O PreDatado, chegou mesmo a
ter sete leitores por dia. Hoje dedica-se mais a contar histórias no
Constantino Guardador de Vacas, de onde acabou de sair do armário, quer dizer,
da gaveta, para o prelo. Contos do Nosso Tempo será o primeiro livro que tem as
suas palavras impressas. Tentou antes fazê-lo a partir de uma encadernação
caseira, mas a cola usada era de má qualidade, sendo que o livro nunca se
chegou a consumar. A sua biografia foi escrita com uma mão e um braço completamente
ligados devido a um ataque do seu gato Schubert, seu coprotagonista numa série
blogosférica. Tem ainda duas gatas, duas tartarugas e vários peluches, além de
uma bola de futebol e um calendário com uma gaja nua. Nua não, em biquine.
Coitada
da Fernandinha, se lesse o título provisório que acabei de dar ao livro. Ela
que foi a melhor cozinheira de pastéis de bacalhau de Lisboa. Hoje está
reformada com pouco mais de trezentos e sessenta euros por mês mas, mesmo assim,
muito agradecida ao doutor Passos Coelho por ele não lhe roubar o subsídio de férias.
É que, coitadinha, todos os anos tira umas fériazitas, da sua vida rotineira na
Quinta do Conde, onde ainda mora, para passar quinze dias na Cova do Vapor,
onde apenas a troco da estadia, faz uns salgadinhos para o dono de uma
mercearia todo o terreno, que até vende bilhas de gás e fechos éclair, que tem um chalé com terraço e
tudo. Mas olhem que mesmo assim a Fernandinha está gordinha, continua roliça e
coradinha e, se não fosse a Isaura Bate-Sola, que Deus tem, poder levar a mal lá
no Céu e rogar-lhe alguma praga, dir-se-ia que ainda era mulher para romper
meias solas. O Rogério é que deve ficar satisfeito de o saber. Um dia destes
ainda o vamos ver, numa esplanada na Cova do Vapor a escrever a biografia não
autorizada de Fernandinha, a beber uma imperial e a lambuzar-se de pastéis de
bacalhau e rissóis de berbigão. E depois digam cá se ele não e muito melhor a
escrever biografias do que o Constantino.
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