quinta-feira, 10 de maio de 2012

137. Ismael (51) - Seria ela capaz de uma coisa dessas?



Poderia Isaurinha ter sido ela a autora do execrável crime? Isaurinha era uma moça acima dos trinta anos, mas de ar jovial. Sebastião andava pelos vinte e tal e, claro está, mais jovial ainda. Isaurinha era alta e esbelta. Sebastião, embora coxeando ligeiramente, era alto e bem constituído. Isaurinha tinha o seu palminho de cara. Sebastião, para homem, poder-se-ia dizer que era um pedaço. Isaurinha não era culta talvez o suficiente pra se apresentar a um concurso de televisão, se naquele tempo já houvesse concursos de televisão, mas não era nenhuma bruta. Era mesmo capaz de escrever uma frase com sujeito, predicado e complemento direto, ou mesmo com nome predicativo do sujeito, mas era voz corrente, discurso direto e por vezes comentado em voz passiva, entre o pessoal da Quinta do Conde de que ela não fazia a menor ideia do que era um sintagma. Sebastião também não, apesar de falar qualquer coisinha de inglês e arranhar o italiano. E o que é que tudo isto poderá contribuir para responder à questão inicial? Poderia Isaurinha ser a autora de crime tão hediondo? Isaurinha tinha já uma considerável experiência de vida. Não só vivera largos anos com o nosso taberneiro Ismael Gusmán, o galego, bem como, o que já é do conhecimento geral, andou enrolada com o filho do senhor Ismael da farmácia. Sebastião, por seu turno, não terá frequentado apenas os bares de má fama do Cais do Sodré. Embarcadiço, dos sete mares marinheiro, de todos os portos vadio, de mulheres de vida fácil, meretrizes de esquina e bailarinas de varão e de uma noite amantes, de uma noite Sebastião lhes era amante também, em uma noite só que fosse, Sebastião lhes frequentava as alcovas. Esta frase foi mesmo poética, reflete o narrador. Quites, diria Sebastião, se o confrontassem com Isaurinha. Poderia, então, Isaurinha ter perpetrado tão arrepiante desenlace? Isaurinha morava na Quinta do Conde, com seu pai, um honesto trabalhador manual, artífice dos coiros e dos fios ensebados, do martelo e da bigorna, das formas, do formão e da sovela, da arte de bem coser e martelar, de bem colar e de bem pregar e para bem da verdade, da nobre arte de bem engraxar e de bem puxar lustre, um, por assim dizer, artista, trabalhador e honesto sapateiro. Sebastião morava na Quinta do Conde, na casa de sua tia, emprestada porém tia, uma viúva respeitada e respeitadora que se, por acaso, o escritor lhe inventou um caso com um inspetor de polícia era caso que só pela cabeça do escritor podia passar para além do jovem Espinheira que sempre desconfiou de que ali haveria moira na costa, dado os embrulhinhos, ora de chamuças, bem denunciadas pelo seu cheirinho a caril, ora croquetes de atum de lata, ora dos dois, que o inspetor sempre levava quando apanhava o autocarro em Cacilhas, uma mulher de vários talentos, mormente a de contista e criadora de ficções de caráter erótico ou, para ser mais preciso, de textos para mentes desempoeiradas mas um tanto ou quanto safadas, uma anotadora de factos do dia-a-dia, uma observadora de olhares, de movimentos e de silêncios, em suma uma criativa. Isaurinha frequentava a mesma farmácia que Sebastião, Sebastião ia ao mesmo lugar de frutas que Isaurinha, Isaurinha comprava castanhas quentes e fumegantes ao homem do carrinho com assador, Sebastião era perdido por castanha assada. Isaurinha fazia um bacalhau à Braz como não existe, ainda hoje, um único restaurante que o faça. Sebastião encostava-se ao parapeito da janela de Isaurinha, sem que esta alguma vez o desconfiasse, a saborear o cheiro dos seus cozinhados. Isaurinha vestia vestidos colados ao corpo, realçando glúteos, excrescências peitorais, curvas perigosas. Sebastião usava calça à boca-de-sino e boina basca. Isaurinha ouvia o Tide na telefonia do carvoeiro, durante a semana, Sebastião ouvia o relato da bola na mesma telefonia, aos domingos. Poderia Isaurinha Bate-Sola ter consumado um crime que tem tanto de sanguinário como de horrível? Isaurinha viajava de cacilheiro de Cacilhas para o Cais das Colunas no Terreiro do Paço, só que era rara a viagem em que não se nauseava. Sebastião fazia o mesmo percurso mas nunca, em toda  a sua vida, Sebastião enjoou numa vigem. Sebastião conhecia perfeitamente a tasca de Ismael Gusmán, amigo do escritor, como já várias vezes aqui foi referido. Isaurinha era ela própria a concubina, a amante, a esposa que Ismael estimava desde que a cantadeira Lucrécia, um dia, se finou e se juntou ao Criador. Sebastião comia com gosto pataniscas de bacalhau com arroz malandrinho de feijão. Isaurinha garantia, embora em surdina, que um dia haveria de ser a sua patanisca, o seu caldo do arroz, o seu feijão encarnado. Sebastião olhava para Isaurinha como que lhe suplicando isso e ainda um arroz de lingueirão com alcabozes ou jaquinzinhos fritos. Isaurinha ripostava olhando para Sebastião oferecendo-lhe tudo e a ainda a sobremesa. Poderia Isaurinha ser tão vil que cravara não uma, nem duas, mas sim sete vezes a faca no peito de uma modesta bailarina de revista? Era esta a pergunta, nestes ou em termos parecidos, alguns deles já aqui usados pelo escritor, que o inspetor Ismael Sacadura Flores fazia aos presentes na célebre reunião da tasca de Ismael, na rua do Correeiros, enquanto entre ela e Sebastião o inspetor dissecava semelhanças e cumplicidades. E, tendo Isabella Vicentini se atravessado no caminho dos dois, pois se Sebastião já convergia com Isaurinha, que necessidade havia de se formar ali um entroncamento? É neste mar de ciúmes e paixões, de amores e ódios, de fados e romantismos, de músicas e silêncios, de nuvens e de cacimbo, que Ismael Sacadura Flores navega, onde Sebastião flutua e onde, provavelmente Isaurinha Bate-Sola se poderá afundar. Mas o escritor fundeia aqui. Mandou parar a máquina e baixar a fateixa. Não ficará à deriva, mas só responderá à pergunta se poderá ter sido Isaurinha a execrável criminosa, mais tarde, lá pelo virar da maré.


terça-feira, 8 de maio de 2012

136. Genoveva




Gabo-lhe a paciência, mas também a ingenuidade. A primeira pessoa que lê o que escrevo é a minha mulher. Não publico nada que ela não tenha lido primeiro. Nunca me propôs alterar o sentido de um texto, mas dá-me sugestões para as continuidades. E faz comentários.

"amor, a nossa empregada não se chama Genoveva"
"eu sei"
"mas escreveste várias vezes Genoveva"
"mas também não digo que é a empregada. A propósito, se fosse a empregada não seria despropositado eu gabar-lhe a beleza das mãos?"
"então sou eu amor?"
"não"
"não?"
"não"
"porque não?"
"não tens cabelos loiros e compridos"
"pois não"
"logo não podes ser a Genoveva"
"pois não... inventaste a Genoveva?"
"inventei"
"ah"
"..."
"e quem é a Genoveva?"
"não te disse que inventei?"
"disseste"
"então..."
"podias ter-lhe dado outro nome..."
"podia"
"porque é que não deste?"
"porque não me apeteceu"
"apeteceu-te Genoveva?"
"apeteceu"
"se quiseres deixo crescer o cabelo"
"para quê?"
"e posso pintá-lo de loiro"
"para quê?"
"para amarrares a brisa"
"mas hoje nem uma aragem corre”,
"não estás a ser romântico"
"desculpa"
"posso ser a tua Genoveva?"
"podes"
"posso mesmo?"
"eu disse que sim"
"posso amarrar-te com os meus cabelos loiros?"
"só depois de me fazeres um sumo de ancoras selvagens"

Fiquei com a impressão que a minha mulher não vai querer ler mais nenhum dos meus posts

domingo, 6 de maio de 2012

135. Ismael (50) - Estes não são os suspeitos do costume



Com apenas dois toques, nem um, nem três, mas realmente com apenas dois toques, se bateu à porta fechada, naquele fim de tarde, da tasca do galego Ismael Gusmán. Se Fernandinha não tivesse sido mandada embora daquele período histórico e apenas autorizada a voltar à novela lá para meados dos anos setenta do século XX, sob pena de graves consequências para a sua integridade física e, principalmente, para a integridade mental do narrador e dos leitores desta trapalhada, teria sido ela e levantar-se prontamente daquele banco de pernas altas, em que se costumava sentar por detrás do balcão, onde assentava um cotovelo e, de palma da mão em concha virada para cima, pousava o queixo nas horas mortas e espreitava de viés para a televisão a preto e branco, colocada numa prateleira por cima de um quadro com a fotografia de D. Ismael de Gusmán y Toledo, o falecido pai do meu amigo Ismael. Teria sido ela a levantar-se, como dizia, a encaminhar-se célere para a porta, para, corrido que fosse o ferrolho e entreaberta a dita, espreitar no lusco-fusco que àquela hora já era, sim porque a reunião se estava a alongar e a perguntar quem seria que tão despropositadamente batia assim na porta de uma taberna, sem usar a aldraba para o fazer. Teria sido, portanto e volto a repetir, Fernandinha que se iria inteirar do motivo de tão inesperada, para ela, quanto inoportuna visita, principalmente sendo aquela uma reunião da iniciativa de um inspetor muito conceituado da nossa polícia Judiciária. Muitos anos se haveriam de passar para que a eficaz e necessária polícia de investigação criminal viesse a ter um outro Flores, tão proeminente como o nosso Ismael Sacadura Flores, esse que um dia ainda presidiria a uma Câmara Municipal, quem haveria de dizer, deixando mais pobre a produção telenovelesca. Mas isso são coisas do futuro e nós cá continuamos em 1956 que foi quando Isabella Vicentini foi, efetivamente e, nunca é demais repetir, barbaramente assassinada. Com Fernandinha, coisa que muitas leitoras e principalmente leitores ainda hoje não perdoam ao escritor, fora de cena, quem teve que ir abrir a porta foi o nosso anfitrião, Ismael Gusmán, caramba que o narrador é chato, já lhe conhecemos o nome. Mais chato é o escritor ripostaria o narrador, sabendo de antemão que os outros também o sabem. Ora quem bate apenas duas vezes, nem uma, nem três, apenas duas, querendo com a sua presença inteirar-se de tudo e dos porquês das coisas, fazendo toc  toc em todas as portas, não poderia deixar de ser outra senão a comissária de polícia Alexandra Semião, mais conhecida nos meios policiais por Xana, só não podendo ser chamada de Xana Toc Toc porque essa já é uma marca registada, que os miúdos, vá-se lá saber porquê, gostam de ver no Canal Panda.

Apresentada que foi a comissária Alexandra Semião aos presentes, que ficaram a saber por quem seriam depois acompanhados à Esquadra da Mouraria e já com a porta da taberna novamente fechada, serviu à senhora, o nosso Ismael, o Gusmán, porque o outro é polícia, um café em chávena de vidro de onde exalava um cheirinho a bagaço mas que, por mor da senhora comissária Xana estar de serviço, todos comeram e calaram, não fosse o diabo tecê-las. E continuou então o inspetor Ismael Sacadura Flores, a quem Xana tratava por, «Ó Sacadura isto», «Ó Sacadura aquilo», só faltando mesmo tratá-lo por Sacadura filho, Sacadura amor ou Sacadura querido, tal era a intimidade que aparentava ter com o, efetivamente chamado, Sacadura, que com a sua dedução racional e linear, que como sabem, leitoras e leitores, já vos tive ocasião de dizer antes, conduziu à descoberta da careca do pilantra, que é como quem diz, conduziu a quem cometeu tão horrendo crime e que, se não fosse aviltante para a própria natureza do crime, dir-se-ia, quem molhou a sopa no peito da bela, elegante, simpática e também sexualmente poderosa, bailarina italiana, só que isso do sexualmente poderosa não está nas cogitações do escritor revelar neste livro. E é neste contexto que, virando-se para o Dr. Castro Ribeiro lhe perguntou se este não teria nada a dizer aos presentes sobre a sua relação familiar com o marinheiro Sebastião, não tendo contudo a intenção de deixar o juiz de direito jubilado, Castro Ribeiro, falar, já que aquilo não era um interrogatório, mas sim uma preleção.

E abrindo um caderninho pouco maior do que um bloco de apontar números de telefone, leu em voz baixa num murmúrio que nem um tísico conseguiria apanhar uma só palavra, duas ou três linhas, tendo-o voltado a fechar, guardando-o de seguida no bolso do lado direito do casaco. E continuou agora em discurso direto, apenas para deixar descansar o narrador, que já lhe dói a garganta de tanto narrar, dando, por sua vez, a vez ao escritor, que está folgado das pontas dos dedos, de continuar a escrever, pois que ainda é jovem, apresentável e de boas famílias. Só que por causa das tosses e talvez fazendo birra por causa desta inesperada atitude do narrador, isto hoje está bonito, está, resolveu o escritor dar um salto no discurso e passar quase para os finalmente.

«… E é assim, que vamos encontrar Francisca, a tratar como irmã a pobre Raquel Baruch, a quem chamavam Rosa da Madragoa, pois todas as manhãs saía do cais de Santos com uma canastra à cabeça a apregoar sardinha viva da costa. Nunca o senhor Ishmail perdoou ao Nuno, que era assim, por Nuno, que a sua sobrinha se referia a ele quando escrevia em cartas de papel fininho e, não menos de baixa gramagem, envelopes circundados com as cores nacionais, vermelho e verde e que traziam já pré impressos a menção “por avião” quando escrevia para seu tio Ishmail Baruch, que na época ainda vivia na Áustria». Neste momento Castro Ribeiro baixou a cabeça e olhou para o chão, que é para onde olham as pessoas que baixam  a cabeça, desde que não estejam de olhos fechados. Continuou Sacadura ou seja, mais formalmente como o momento exige, Ismael Sacadura Flores: «Quando o jovem Sebastião nasceu, ainda não se notava que iria ser coxo como o seu tio-avô Ishmail, mas via-se logo que era a cara chapada de Castro Ribeiro, seu pai. Nuno Castro Ribeiro vinha com alguma frequência a Lisboa por mor da sua paixão por Raquel, que conheceu um dia que teve de escolher um rodovalho para grelhar numa paródia de comes e bebes com outros colegas advogados num congresso em Lisboa, deixando vazios, por dois ou três dias por semana, os seus aposentos em Vila Nova de Gaia onde em tempos teve um escritório de advogados, mas isso foi antes de se ter tornado juiz, mas nunca foi capaz de assumir a paternidade do futuro marinheiro». O narrador ousa interromper o escritor para informar que naquele dia, não só o rodovalho era fresquíssimo mas também a salada mista estava magnífica, com tudo o que tinha direito, incluindo os pimentos assados e para perguntar aos leitores se isto não está a ficar romântico, digno de uma novela radiofónica, onde um juiz de direito, ex-advogado de nome e créditos firmados na praça nortenha, que até come rodovalho que é um peixe fino e caro, se apaixona por uma simples peixeira, vendedora de carapaus e de sardinhas, vá lá de chicharros também e, uma vez por outra, rodovalhos. Voltando de novo ao escritor e ao discurso direto do inspetor Sacadura:  «Quando Raquel morreu, após ter escorregado numa rampa de acesso ao Mercado da Ribeira e batido com a canastra numa montra e com a cabeça no chão, pensa-se mesmo que a canastra só serviu para a desequilibrar ainda mais, Nuno veio a conhecer Francisca que era como que uma perceptora de Raquel e foi amor à primeira vista». Cá está mais uma cena romântica, tão linda, que faz até chorar, ousa interromper de novo, o narrador. E continua o inspetor da polícia: «Casaram pouco tempo depois e Castro Ribeiro pode assim ajudar a criar o filho, a quem tratava carinhosamente por Sebas, este que sempre tratou afetuosamente Francisca por tia e esta, por sua vez, que sempre tratou, carinhosa e afetuosamente, para poder usar os mesmos adjetivos, Sebastião, como um filho. E porque é que o senhor Ishmail Baruch, nunca perdoou o Dr. Nuno Castro Ribeiro?» perguntou o inspetor Ismael à assistência, ciente que, apesar do discurso um bocado enrolado do polícia, não se tinham esquecido ainda de que foi praticamente assim que o inspetor, pela mão do escritor, já que o narrador nem se quer meter nisso, começou este pedaço de texto. Pois continuou então o reputado Ismael Sacadura: «Nunca lhe perdoou porque não gostou nada, ouso até dizer, não gostou mesmo nada, mas mesmo nada, friso, repito e acrescento que poderá ter sido ou terá mesmo sido a gota de água que fez transbordar o copo, ou seja, o que conduziu ao corte de relações entre os dois homens, de saber que um homem de tantos recursos, como era e ainda é o Dr. Castro Ribeiro, e com aquela afinidade familiar, ex-namorado da sua sobrinha, que sabe-se lá por que razão teria escolhido Portugal para viver, sem se saber ainda se naquele tempo, em meados dos anos trinta do século passado, Portugal iria entrar ou não na Segunda Grande Guerra e também não se saber ainda se viria a haver alguma Segunda Grande Guerra e se o Hitler iria perseguir ou não os judeus ou quiçá outro povo, pai, embora não oficialmente assumido do seu sobrinho-neto, se abastecia de charutos marados num quiosque rasca do Cais do Sodré em vez de os comprar na sua loja, a genuína casa havanesa, a única importadora autorizada dos mais puros charutos cubanos. E se Castro Ribeiro tinha recursos para os comprar! E se eles eram de primeira qualidade! Primeiríssima! E se quisessem uma testemunha, não do crime, mas sim da qualidade dos seus puros, era chamarem o Dr. Ismael ben-Avraham, o seu mais conhecido consumidor».

Aqui chegados, o escritor começa a entrar com as ideias em parafuso, quer continuar a escrever um livro mas está a sair-lhe uma coisa embrulhada em folha de tabaco e, por isso, pede ao narrador para tomar ele as rédeas do texto antes que ninguém fique a não perceber patavina da história. E é assim que Constantino, outra vez no comando da narrativa, se vê obrigado, para rematar, a dizer que isto que acabamos de ler explica muita coisa.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

134. Temporal



Quando hoje acordei senti uma vontade inexpugnável de escrever. Por outro lado, o narrador que há em mim, divertia-se com este impulso e saía de mansinho para se assomar à janela. Lá fora chovia e fazia um vento pré-ciclónico. Eu, escritor, queria dizer que as gotas que me cobriam, como se de uma diáfana cortina se tratasse, os vidros da minha janela, auguravam que lá fora chovia. Eu, escritor, queria escrever que o zumbido que pelas frinchas das janelas e das portas me penetrava os tímpanos, sugeria-me que lá fora o vento enrolava nuvens, transportava pólenes, beijava gaivotas e acariciava os ramos do meu plátano. Eu, narrador, abri um pouco a janela e fechei-a de seguida. Constatei e transmiti ao escritor, como se lhe fizesse um favor, que lá fora chovia a cântaros e que um vendaval arrasava árvores e telhas. Sem querer, estive quase a deixar escapar um palavrão, mas o escritor reprimiu-o. Eu, escritor, que hoje pela manhã acordei cedo com uma inexpugnável vontade de escrever, terrível vontade essa, obsessiva compulsão para o papel e a caneta, reprimi o palavrão do narrador e não o escrevi. Com palavrões não se faz poesia e a chuva que bate em pancadas no zinco do telhado da garagem em frente à minha janela, umas vezes fortes, outras irregulares, mas suaves, pode não ser poesia mas escreve pautas de fás sustenidos e bemóis de sol e de dó, em compasso ordenado numa sinfonia concorrente com a do cantar do rouxinol. Eu, narrador, preocupei-me em contar ao escritor que hoje os pássaros não saíram dos ninhos, não abandonaram o resguardo das folhagens, não espreitaram para fora das chaminés, não colocaram asas fora dos telheiros. Eu, escritor, depressa compreendi que o pica-pau não sairia do buraco da sua árvore para acompanhar a sinfonia das águas cadentes no telhado de zinco da garagem em frente à minha janela, nem o silvar da flauta de vento que me entrava pela frincha da janela do quarto de dormir. Eu, narrador, quis que o escritor soubesse e disse-o em voz alta, que aquela frincha precisava de conserto e não de concerto e que existiam fitas isoladoras apropriadas. Talvez que hoje fosse um dia bom para os arranjos, talvez que hoje fosse o dia certo para que saísse à rua e na loja de ferragens procurar remédio para as frinchas da minha janela do quarto de dormir. Eu, escritor, pensei que isso não seria muito conveniente se bátegas de água fustigavam campos e estradas, enchiam represas e barragens, lavavam almas empoeiradas, molhavam mais a imensidão do mar, se o vento sacudia para-chuvas. Eu, escritor, olhei-me de pantufas e de pijama de cetim, acendi o cachimbo, dei duas baforadas e preparei-me para descrever o pequeno-almoço, que em breve Genoveva me serviria, de crepes de centeio com doce de mirtilo e amoras, de leite de cabra em jarro da Companha das Índias, de café quente de São Tomé (que Genoveva preparava primorosamente), cujos aromas se misturavam com âmbares do perfume de Genoveva, com as rosas do seu odor a sabonete e com os pólenes transportados pela brisa que, agora sim, amainara o vento, prendera-o com amarras feitas com fios dos cabelos loiros de Genoveva e beijava o fumo exalado da minha pipa de antigo marinheiro. E a tosta morna já aguardava o foie-gras, a melancia e o ananás, descascados pelas finas e brancas mãos de Genoveva, cobriam por completo um desenhado prato de porcelana, o sumo de ancoras silvestres resplandecia nos resplandecentes cristais que a cristalina Genoveva parecia beijar quando lhe tocava com os veludos. Eu, narrador, gritei para mim próprio, escritor, que as torradas já se estavam prontas na torradeira, que o copo de leite tinha de ir de imediato para o micro-ondas de forma a evitar as torradas, acabadas de sair, não viessem a arrefecer. Eu, escritor cheguei à cozinha, não sem antes ouvir a crítica do narrador que me censurou do meu aspeto desgrenhado, com a barba por fazer, embora de cara lavada, olhei para o leite no pacote tetra-pak brotei-o alvo para um copo de vidro, olhei para a amarela cor de margarina que a manteigueira de plástico continha, dei de caras com azul anil da toalha de mesa que tinha deixado de véspera, reparei no cor-de-laranja dominante que emanava da fruteira repleta de laranjas e tangerinas, tomei nota do vermelho doce de morangos ainda no frasco de supermercado e deslumbrei-me coma o roxo das glicínias que da floreira me trepavam o candeeiro de jardim. Eu, escritor, sabia que aquela seria uma manhã de arco-íris. Eu, narrador, tomei o pequeno-almoço, vesti uma inenarrável gabardina, penteei os cabelos, fixei-os com brilhantina e saí para comprar o isolamento para as frinchas da janela. E se vos narrei, narrado está.


terça-feira, 1 de maio de 2012

133. Ismael (49) - Isaurinha Bate-Sola saiu-se bem



«Ó homem, deixe-se disso», vociferou Isaurinha Bate-Sola. «Isso agora não interessa para nada», rematou. Afinal a célebre frase da televisiva Teresa Guilherme não passa, aparentemente, de um plágio. Decorria o ano de 1956 e, reunidos na tasca de Ismael Gusmán, na Rua dos Correeiros em Lisboa, os suspeitos e não suspeitos, os inspetores da polícia e até o taberneiro, ouviam a preleção de Ismael Sacadura Flores. Afinal quem teria matado com sete facadas uma pobre, infeliz, desgraçada, desditosa, desventurada, infortunada, malfadada corista italiana que ganhava, parece que honestamente, o pão, mostrando as pernas e fazendo realçar as nádegas, sobre sapatos de salto muito alto, num teatro de revista no Parque Mayer, em Lisboa, era o que se pretendia saber e vinha agora o jovem Espinheira ainda imberbe, quiçá eivado de pensamentos malinos que à época eram deveras, feroz, assanhada e diga-se que, para bem da moral e dos costumes, justamente censuráveis, propor à assembleia que se fizesse uma pausa para que ele pudesse ler mais um capítulo, mais propriamente o VII, do conto de Francisca, apelidado com algum a propósito, diria o narrador, quiçá porque adora a palavra quiçá, quiçá desanuviador do pesado ambiente que entretanto se gerara, apelidado, dizia o narrador, como um conto de perdição. «Isso agora não interessa para nada» é pois a frase chave deste intermédio que surgiu no referido meeting, frase que hoje estamos a ver terá sido proferida pela primeira vez por Isaurinha Bate-Sola. O escritor ainda pesquisou alguma literatura antiga desde Estrabão até Sófocles, passando por Platão e Aristóteles, lendo minuciosamente o antigo testamento, procurando em Émile Zola e Eça de Queiroz, em Camões e Cervantes, em Jean-Paulo Sartre e António Damásio, de Pessoa e Álvaro de Campos a Drummond de Andrade, de Jorge Amado a Erico Veríssimo, de Descartes a Lavoisier, de Martinho Lutero a João XXIII, não se encontrou elocução similar, pelo que «Isso agora não interessa para nada», à falta de melhor, vai ser atribuída a Isaurinha Bate-Sola, já que neste relambório ainda não teve qualquer mérito, tendo encornado até, passe o calão de circunstância para dizer o mesmo que colocar um par de chifres, o meu amigo Ismael Gusmán, o que para o escritor é imperdoável e procedido, em várias ocasiões e situações, como uma puta, que é o que ela era na verdade, coitado do pai, um honesto sapateiro. Quem não gostou muito disto tudo foi, claro está, a nossa romancista surpresa, a nossa contista de eleição, a nossa anotadora de serviço, a inesperada amante de Ismael Sacadura Flores, a parte-corações, pois até o Rogério ficou dececionado, a tia, talvez emprestada, de um marinheiro sem sextante nem rumo, mas acima de tudo a grande inspiradora do escritor que aqui modestamente se apresenta, como Constantino Guardador de Vacas, já que não tem mais idade para sonhar, a nossa bem conhecida Francisca. E se não chegaram a vias de facto foi por causa de Ismael Gusmán.

Ismael Gusmán era uma boa pessoa. Disso creio que o narrador já conseguiu levar a mensagem aos leitores deste conto de Constantino, cuja biografia já teve ocasião de ser publicada. O narrador, neste momento e uma vez já conhecem detalhadamente o escritor, apenas pode acrescentar que ele é benfiquista e que isso não foi incluído na biografia para não criar divisões entre os seus leitores, pois consta que há pelo menos dois que são do Atlético e um que é adepto do Carrazeda Futebol Clube, uns seis que torcem pelo Sesimbra e, ainda outro, pelo Quarteirense. Ismael Gusmán era um homem pacífico, apaziguador e absolutamente nada presunçoso. Quando soube que o escritor iria referir estas suas caraterísticas de homem comedido, desempoado, simples, humilde, encabulado, recatado, falou ao ouvido do escritor para que ele não gastasse todos os sinónimos num só texto ao que o narrador acedeu e nem vai aqui reproduzir o que mais sobre Ismael Guzmán o escritor se espraiou. Pois Ismael Gusmán, apagou a luz e no silêncio repentino que se instalou, o jovem, o imberbe, o mancebo, fez ouvir a sua voz e leu para quem quis ouvir, que foram todos menos Isaurinha Bate-Sola, o sétimo capítulo de “Contos da ilha de lá”  de cuja autora, Francisca, só não se notou que estava ruborizada porque as luzes continuavam apagadas.

“Os membros da tribo só saíam da aldeia por dois motivos. Caçar e, quando se tornava necessário, iniciar o ritual do casamento. Era da tradição que qualquer jovem da tribo, antes de casar, fosse desvirginada por um ‘estrangeiro’. Por um lado, a jovem nunca seria acusada pelo futuro marido de que tivera tido um romance antes com alguém do mesmo grupo. Isso diminuía drasticamente as relações de desconfiança. Por outro lado, uma vez que a cerimónia era pública, haveria a certeza que a jovem era virgem antes do casamento. Desta vez, o estrangeiro escolhido fora eu. Quando a jovem parou de lacrimejar, respirei fundo. Abstraí-me da plateia e fiz amor com ela. Para ser preciso, o ato durou apenas o tempo de a desflorar. Uma ladainha ecoou em todo o anfiteatro e como que por magia, as nuvens, que desde há horas cobriam os céus, desapareceram e o luarejar misturou-se com a luz dos archotes. Foi um ato lancinante. Para mim, por me ter prestado a tão lapuz ritual. Para a implume jovem, porque o seu rosto se contorceu de dor no momento da penetração. Quando a ladainha que as anciãs entoavam em uníssono terminou, o chefe ergueu alto o lábaro com as armas da tribo - um falcão com focinho de jacaré. Numa lemniscata desenhada no chão, onde num dos círculos me sentei e, no outro, se sentou o futuro noivo, o tratado que antes haveria assinado com sangue, foi-nos lido em voz alta, por uma espécie de feiticeiro. Teria de ficar na aldeia até que a gravidez da jovem se consumasse”. 

E depois de lido mais um capítulo do conto de Francisca, Ismael Sacadura Flores recomeçou a sua preleção tendo-se vindo a saber no final da mesma quem teria morto Isabella Vicentini. E correndo o risco de que algum dos meus leitores me ameace a mim, Constantino, com sete facadas por não revelar o autor material de tão horrendo e indescritível crime pede o escritor ao narrador que vos comunique que isso fica para mais tarde. Na sua incomensurável bondade trouxe Ismael Gusmán ao escritor duas bolachas torradas e um copo de leite. E assim continuou este a escutar atentamente o inspetor Ismael Sacadura Flores até que adormeceu de cansaço.


domingo, 29 de abril de 2012

132. Ismael (48) - O fotógrafo



Ismael Pião tinha um sonho de menino. Não um sonho como o do Tony Carreira mas, de qualquer maneira, um sonho. Talvez se ele sonhasse em voz alta a mãe o tivesse levado a sério. Mas ele sonhava calado, silencioso mesmo e quase sempre a preto e branco. Eu diria mais, Ismael Pião sonhava a preto e branco, 200 ASA. E quando ele, antes de ir para a cama, apagava a luz e o quarto mergulhava na escuridão, entrava direto na câmara escura e não fosse uma pequena luz de presença vermelha, muito sumida, que lhe aliviava os receios, dir-se-ia que os químicos começavam a penetrar-lhe a mente, chegando até a ter flashes que o faziam saltar arrepiado. Mas não era muito negativo o nosso Ismael Pião embora, nem por isso, deixasse de acordar inundado em suores, como se algo lhe escorresse corpo abaixo. Nessas alturas sentia-se como que pendurado numa corda com duas molas da roupa. Foi numa dessas ocasiões em que, apesar da escuridão do quarto, Ismael Pião passou a noite em branco graças a dois refletores que a vizinha do prédio em frente improvisou, ao ter estendido um par de lençóis brancos, numa quinta-feira, dia da barrela em sua modesta habitação, que ele decide revelar a sua mãe, que vestia sempre vestidos de chita, um pouco desbotados como uma cor acabada de inventar por um qualquer Ismael Gevaert ou talvez, muito provavelmente, por Ism Aemoto Fuji (estão aqui ao lado a soprar-me ao ouvido que poderá ter sido Ismael Smith Kodak), o seu desejo, a sua vontade, a sua obsessão, o seu fetiche, a sua queda, a sua inclinação, o seu desarrumo mental pela fotografia. A mãe, coitada, que vivia entre satisfazer todas as vontades ao filho e a realidade nua e crua do dia-a-dia, mormente a hipótese de fazer do seu filhinho um homem, decidiu que ele iria trabalhara para os TLP, que era uma empresa de futuro e bem ligada, se é que isso queria dizer alguma coisa.

O nosso Ismael Pião, temos aqui que lhe chamar nosso, ou melhor, porque já o fizemos antes, continuar a chamar nosso, pois de hoje em diante, quando se falar de fotografia neste livro de histórias sem imagens, nunca mais nos poderá sair da cabeça Ismael Pião, depois de se ter visto enredado em aparelhos telefónicos de todos os modelos, abri-los para ver se por dentro havia espelhos que refletissem a voz dos seus utilizadores, até ter percebido por fim que o som e a luz tinham formas de se propagar de maneiras muito diversas e que se não fossem as perturbações eletromagnéticas em fitas nunca a voz poderia ser registada, ao contrário da imagem que impressionava, isso sim, sais cristalinos de prata bastando que os comprimentos de onda, cala-te que isto não é nenhum livro de física, disse às tantas o narrador ao escritor e este calou-se porque isto não é um livro de física. Finalmente, depois de ter visto que os telefones de disco não tocavam discos, não se assemelhando sequer a uma grafonola, mas sim usavam um discador em forma de disco onde se enfiava o dedo indicador para o fazer rodar, largou postes, fios, troncas, cavilhas, discadores não sem antes ter telefonado para casa e gritado a plenos pulmões para o bocal «mamã vou ser fotógrafo!»

Free-lancer em várias revistas e jornais, viu-se confrontado com os custos do equipamento fotográfico, com a dificuldade que um rookie tem em se impor num espetro que já está ocupado por tubarões e acabou por cair nas garras da Judiciária. Não, não cometeu nenhum crime. O nosso Ismael Pião acabou por arranjar emprego na Polícia Judiciária como fotógrafo de cenas de crime. Mas aquele dia foi fatídico. Ismael Sacadura Flores, o já nosso conhecido inspetor de polícia, acabara de receber um telefonema, que a menina das troncas encavilhou direta para o gabinete policial, antes de continuar o seu crochet, demasiado perturbador para o seu dia de trabalho que acabava de se iniciar. Tinha havido um horrível crime no número 43 da Rua dos Correeiros, num sexto andar onde morava uma menina, cria o chefe de brigada Ismaelix, que usava um bigode à Chalana, porém branco e uma trança até ao meio das costas, que seria italiana. Com passo apertado, bate na porta do gabinete de fotografia, Ismael Pião ainda estava deitar duas colheres de açúcar na caneca de café de cevada que D. Gina, a empregada que vendia cafés de cevada lhe tinha levado, teve de o engolir à pressa, o que foi mau, muito mau, porque queimou o céu-da-boca e a ponta da língua, pegou na máquina fotográfica, colocou-a ao ombro, abriu a gaveta dos rolos, pelo sim pelo não enfiou no bolso dois rolos virgens de vinte e quatro fotografias cada e saiu com um passo tão apressado como o do inspetor Sacadura, tendo até tido dificuldade em o apanhar já que o dito Ismael Flores lhe levava quase um corredor de avanço. Subiram apressadamente a escada do 43, dois em dois e até três em três degraus, quando o patamar entre pisos lhes dava balanço para tal e, com a porta já aberta por outros polícias, mormente pelo chefe Ismaelix, o que tem um bigode à Chalana, deparam com o corpo de Isabella Vicentini, deitada no chão, com marcas visíveis de facadas, que hoje sabemos terem sido sete, por debaixo de uma blusa branca de cambraia de algodão. Ismael Pião olhou para o corpo da jovem bailarina e ficou estarrecido. De repente dá-se-lhe uma volta ao estômago de tal maneira que uma mão na boca quase foi impotente para segurar um vómito. Mas não era apenas o estômago que lhe andava às voltas pois a cabeça de Pião não parava de girar e não sabemos com que guita puxaram Ismael Pião já que ele girou três vezes e saiu porta fora girando ainda escada a baixo. Diz quem o viu pela janela do sexto andar, que tão depressa vomitava como rodopiava direito ao Terreiro do Paço. Pensa-se que terá ido assim até à Quinta do Conde onde morava, ora vomitando, ora girando.

Ninguém mais soube dele. Hoje, à hora do almoço encontrei-o num restaurante no Gradil. Já com os cabelos brancos, senta-se sempre perto da bancada das sobremesas. Quando acaba de almoçar gira na cadeira para pegar o seu pratinho de arroz doce. 


sexta-feira, 27 de abril de 2012

131. Ismael (47) - Biografias



Se alguma vez este livro, cujo nome provisório já o conhecem e que, vá lá, repitam comigo, é “Pasteis há muitos, Senhor Ismael”… Não? Não era este? Está bem, mas por hoje fica este, vier a ser publicado, vou entrar em consenso com o editor para que a capa tenha badanas. Se há coisa que eu adoro num livro são as badanas. Numa delas vem a biografia do autor, na outra um pequeno resumo para que os críticos literários badanistas se pronunciem sobre o livro fazendo um grande brilharete e deixando os que os leem, (leem?) a pensarem que eles é que são mesmo os presidentes da junta. E para que é que eu disse que servia a outra badana, para quê? Ora muito bem, estavam com atenção, é para a biografia sim, senhoras e sim, senhores. Portanto senhores editores fiquem aí com uma pequena nota biográfica do escritor. Se não couber na badana, apertem a letra, por favor.

Nascido em Lisboa, depressa emigrou para Almada, tinha apenas quatro dias de idade. Não esperou, portanto, pelos conselhos de sua excelência o Primeiro-Ministro. Em Almada se fixou até aos 25 anos, tendo transitado para o Seixal, no início dos anos 80 do século passado, porque o preço da habitação era mais baixo. Hoje diz com naturalidade ter tripla naturalidade, naturalmente, sendo um alfacinha almadense que não se “qu(s)eixa” de morar no Seixal. Já passou por 56 primaveras e no verão, se Deus lhe permitir, somará mais uma (isto de fazer primaveras no verão, só mesmo para os eleitos). É casado, tem uma filha e um filho, que são maravilhosos e um não menos maravilhoso neto. Quando for grande quer ser bisavô, vamos lá a ver quantas primaveras demorará. Formou-se em engenharia e andou pelos computadores até se tornar doméstico, mas sempre com os impostos em dia. Mesmo que não o quisesse o Gaspar está à espreita e portanto não tem hipóteses. Gosta de fotografar, como amador, porque de facto ama a luz e o seu registo. Escreve essencialmente para a gaveta e não na gaveta porque se o fizesse já teria as mãozinhas todas tortas de tanto escrever. Há mais de oito anos que começou a escrever em blogues, sempre é mais confortável do que em gavetas, sendo que o seu antigo blogue, O PreDatado, chegou mesmo a ter sete leitores por dia. Hoje dedica-se mais a contar histórias no Constantino Guardador de Vacas, de onde acabou de sair do armário, quer dizer, da gaveta, para o prelo. Contos do Nosso Tempo será o primeiro livro que tem as suas palavras impressas. Tentou antes fazê-lo a partir de uma encadernação caseira, mas a cola usada era de má qualidade, sendo que o livro nunca se chegou a consumar. A sua biografia foi escrita com uma mão e um braço completamente ligados devido a um ataque do seu gato Schubert, seu coprotagonista numa série blogosférica. Tem ainda duas gatas, duas tartarugas e vários peluches, além de uma bola de futebol e um calendário com uma gaja nua. Nua não, em biquine.

Coitada da Fernandinha, se lesse o título provisório que acabei de dar ao livro. Ela que foi a melhor cozinheira de pastéis de bacalhau de Lisboa. Hoje está reformada com pouco mais de trezentos e sessenta euros por mês mas, mesmo assim, muito agradecida ao doutor Passos Coelho por ele não lhe roubar o subsídio de férias. É que, coitadinha, todos os anos tira umas fériazitas, da sua vida rotineira na Quinta do Conde, onde ainda mora, para passar quinze dias na Cova do Vapor, onde apenas a troco da estadia, faz uns salgadinhos para o dono de uma mercearia todo o terreno, que até vende bilhas de gás e fechos éclair, que tem um chalé com terraço e tudo. Mas olhem que mesmo assim a Fernandinha está gordinha, continua roliça e coradinha e, se não fosse a Isaura Bate-Sola, que Deus tem, poder levar a mal lá no Céu e rogar-lhe alguma praga, dir-se-ia que ainda era mulher para romper meias solas. O Rogério é que deve ficar satisfeito de o saber. Um dia destes ainda o vamos ver, numa esplanada na Cova do Vapor a escrever a biografia não autorizada de Fernandinha, a beber uma imperial e a lambuzar-se de pastéis de bacalhau e rissóis de berbigão. E depois digam cá se ele não e muito melhor a escrever biografias do que o Constantino.