quarta-feira, 25 de abril de 2012

130. 25 de Abril, Sempre!



Hoje não há post. Enquanto não me roubarem o feriado do dia 25 de Abril, eu comemoro-o. Se mo roubarem, comemorá-lo-ei na mesma, clandestinamente.

VIVA O 25 de ABRIL!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

129. Ismael (46) Reencontro na esplanada


Voltei a encontrar a jovem da pastelaria. Desta vez estava mesmo numa esplanada e não fumava. Em Sesimbra o céu estava azul e ela também estava de azul. Um polo fino e curto, de algodão azul, que lhe deixava ver um piercing no umbigo. Uma perna estava cruzada sobre a outra e, embora ainda não estejamos no verão, já apresentavam uma cor a rondar o que, provavelmente com alguma falta de rigor cromático, chamaremos bronzeado. Como a saia branca que vestia era curta, podia-se admirar um bonito par de pernas, bem acima da curva do joelho. Ao pescoço, um pequeno lenço azul com um nó e um brinco pendente de uma só orelha. Escusado será dizer que o brinco condizia com as vestes, a roupa com o mar e o mar com a cor dos seus olhos.  E como o texto está a ficar muito azul tenho de referir para que nos libertemos da cor e nos centremos no essencial, que apesar de ela não estar a comer uma sandes de fiambre com manteiga e a lamber os dedos, nem desta vez estar a ler Luís Sepúlveda e nos termos encontrado apenas uma vez há já alguns meses atrás, reconheci-a. Ela nem por isso, o que me deixou um pouco com a autoestima em baixo. Ainda assim atrevi-me a cumprimenta-la.

Não seria repetir mas, como já se deu a entender, a receção ao escritor não foi nada efusiva, antes mesmo pelo contrário. O que consolou quem aqui relata os factos foi que a jovem da pastelaria não achou, nem por um momento que o tipo, ou seja, o escritor, fosse um penetra ou um engatador, estilo zezé camarinha, sesimbrense na circunstância. Mas quando olhou para um personagem daqueles, em tempo mais primaveril que invernoso, vestido de gabardina, com uns óculos de massa com uma haste partida e unida com adesivo medicinal, de botas rurais ensebadas, o cabelo comprido e meio despenteado que se não atribui à brisa vespertina que se fazia sentir, com uma macheia de folhas A4 impressas debaixo do braço, mais parecendo um cromo saído do maio de 68, na margem esquerda do Senna antes de molhar o croissant na chávena de café, à espera da hora de repetir pela terceira vez o exame de filosofia na Sorbonne, raciocínio a que muito a teria ajudado um livro de Edgar Morin que ele carregava junto às folhas A4, de que apenas se reparava em metade do título (“Amour, Poésie, Sagesse”, pode o narrador adiantar) e que, com a atrapalhação de cumprimentar a jovem, ainda deixou cair “A náusea” do Jean-Paul Sartre mesmo aos seus pés, não tendo sido propositado para lhe ver as pernas, pois disso ela tinha a certeza já que tinha uma cruzada por cima da outra, bem apertadas, que reconheceu naquela figura o escritor do livro sem tema, do livro sem nome ou quiçá do que nunca venha a a tomar a forma de um livro, pois se o escritor não o sabe, muito menos ela, que é apenas uma jovem que, por acaso, um dia, se encontraram numa pastelaria, quando ela comia uma sandes de fiambre com manteiga.

E num mar de azul e atrapalhação o diálogo não foi muito profícuo embora em vez de falarem do tempo, dos signos do zodíaco ou do estado a que este país está a chegar e, muito menos, de futebol ou da prestação da Luciana Abreu num programa da TVI, falaram efetivamente do livro que o, aqui, narrador e, fora daqui, escritor, anda a escrever, do tema que concretamente ela aprovou, da evolução do crime da Rua dos Correeiros que mereceu dela uma expressão muito em voga, mais propriamente, «ganda maluco». Depois ele ofereceu-lhe uma bebida, ela aceitou uma água do luso natural, ele pediu para ele um descafeinado que bebeu sem açúcar e, depois de ter engolido um pastel de nata, mas antes de se despedirem, ela ainda lhe perguntou «mas afinal aquela ideia de não ter sido Isabella a assassinada mas sim uma irmã gémea, deixou-a cair?», ao que o narrador respondeu «não me obrigue a escrever hoje o fim do livro porque já tenho muitos episódios na gaveta e seria um desperdício jogá-los no lixo». Finalmente, apesar do escritor ter feito um gesto de aproximação de como quem vai dar dois chochos, um em quem bochecha, a ação acabou abortada a meio, seguindo-se um aperto de mão e cada um foi para seu lado. Para ser mais rigoroso, ele foi para a paragem dos autocarros para a Quinta do Conde e ela ficou sentada no mesmo lugar.

Já sentado num dos bancos do autocarro, do lado da janela, que hoje em dia se não pode abrir a não ser em caso de emergência, assim o obriga o ar condicionado, viu a viatura afastar-se, não sem um último sorriso para a garota que gosta de sandes de fiambre e viu-a ainda abrir o fecho de correr e tirar da mala um batôn azul claro. Porque tudo isto é muito rápido, o escritor não o viu, mas o narrador está apto a afirmar que ela deu um retoque nos lábios.


domingo, 22 de abril de 2012

128. O Caracol




Em tempos que já lá vão, havia no meu bairro um grupo de rapazes que rondavam pela mesma idade mais ano menos ano.  Entre os quinze e os doze anos ou depois, já mais velhos, entre os dezanove e os dezasseis, sendo que, quando chegamos aos vinte e cinco, os de vinte e dois já fazem pouca diferença. Um grupo que jogava à bola ou ao pião, um grupo que ia ao baile ou ao cinema, um grupo que namorava ou que entretanto juntava os trapinhos, quase todos fazendo igual, quase todos ao mesmo tempo, mais ano, menos ano. Neste limitado leque de idades havia o Madeirense e o Pintarroxo, o Terrível e o Marado, que também era madeirense, o Zé Tangas e o irmão, o Meia-Lua,  os manos Vianas, o Quim, o Manecas,  o Grilo, o Augusto, o Chico e o Capote, o Nico e o Manivelas, o Carapinha e o Carlos, que é meu irmão, o Mesquita, o Caracol e o Tóninho, para nomear apenas os que de repente me vêm à cabeça. Com uns eu tinha uma relação mais próxima e ainda hoje somos amigos. Com outros eu mantinha distância por não me inspirarem confiança ou simpatia. O Pintarroxo, que é pintor e que não deve a sua alcunha à profissão, já que o seu pai também era assim conhecido e também o seu avô, ainda é meu amigo e sempre que preciso algum trabalho de pinturas é a ele que recorro. Quando posso vou ao café do Terrível, a quem sempre trato pelo nome próprio. O Capote era meu cunhado e infelizmente já faleceu, como também faleceu o meu amigo Marado. O Zé tangas, o irmão, os manos Vianas, o Nico vejo-os a espaços. O Manivelas morava na mesma praceta mas não fazia parte do grupo. Não nutria por ele a mínima simpatia e nem sei o que é feito dele. Pelo Caracol não só não tinha qualquer simpatia como não me inspirava confiança nenhuma. Era de quem eu me afastava mais. Não gostava dele, nunca simpatizei com o personagem, era desasseado, intriguista e ruim de lidar. Chegou a tentar roubar-me um projeto de namorada. Dava-se com o Manivelas, mas com a nossa malta só convivia com o Nico pois morava porta com porta. O Chico era o melhor a pescar, o Carapinha era o melhor a correr e até tinha uma camisola de atleta do Benfica, o Capote era o melhor de todos pois estava sempre de bem com cada um e pregava o amor de Cristo, o Quim era o que cantava melhor o fado, o Madeirense era o mais brincalhão e dos mais duros a jogar à bola, o Manecas era o que mais percebia de música pop, o Meia-Lua convivia pouco com a gente, fez-se homem cedo de mais, não acompanhava com crianças, apesar de ser da nossa idade. O Carlos era o melhor guarda-redes, o Zé tangas era o mais descarado pois, naquele tempo, já andava com o braço por cima do pescoço da namorada, o que era um escândalo para a época e era também o mais mentiroso. Aliás, era o tangas de serviço. O Caracol não pertencia a este grupo e até tremíamos quando ele se tentava aproximar. Normalmente dispersávamos para não lhe dar cunfias. O Marado não perdia um baile na Sociedade, o Grilo era o mais desconfiado, o Augusto o que mais prendia o machinho, o Tóninho era maricas pelo que apenas morava lá na praceta mas o grupo de amigos dele era outro. O Pintarroxo jogava bem à bola, até jogou no Piedade, os Vianas eram os meus companheiros na catequese, o Mesquita só aparecia para jogar futebol. O Manecas e Quim gostavam da mesma miúda que eu, as mães deles queriam por força ser comadres da minha sogra, mas a namorada era minha. Do Quim nada sei e o Manecas apesar de o ver com pouca frequência ainda é um bom amigo. O Caracol, diziam, metia a mão onde não devia e também por isso não pertencia ao nosso grupo. Na vida uns têm mais sorte, outros têm menos, outros fecham-lhe a porta. Os mais atraiçoados foram o Marado e o Capote que morreram cedo. Demasiado cedo. Do Tóninho, a quem arranjei emprego pois acabou por ocupar a vaga que deixei numa loja de pronto a vestir quando eu tinha catorze anos, nunca mais lhe soube do rasto. O Nico vi-o no funeral do pai dele. O Caracol andou pelos caminhos da droga e do alheio e passou vários anos à sombra. Nunca gostei do Caracol. Hoje, quando me viu, pediu-me 50 cêntimos para uma bica. É claro que lhe dei e darei sempre que mo pedir. E mesmo que mo não peça. Alguns não tiveram sorte. Outros fecharam-lhe a porta. 

sábado, 21 de abril de 2012

127. Coisas minhas



Somos 21 contistas. Talvez para alguns dos meus amigos seja novidade. Em Maio, a editora Esfera do Caos publicará "CONTOS DO NOSSO TEMPO" . Aqui o vosso amigo é um dos autores. Ainda não está definido o local do lançamento que divulgarei oportunamente. Fiquem com a capa e espero que venham a gostar.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

126. Ismael (45) - Ligações perigosas



Quando Jürgen Grass jurou sob sua honra e da dos Grass, família proeminente da Renania –Westfália  e amicíssima da  família Schneider, uma abastada família de banqueiros, artesãos e alfaiates judaica, seus vizinhos e ainda aparentados devido ao casamento de uma prima afastada de Jürgen com Ismael Schneider o principal alfaiate de Remscheid que, se algo lhes acontecesse durante a guerra, ele próprio se encarregaria de converter em ouro todos os bens antes que as SS o conseguisse e que depositá-lo-ia numa conta na Suíça cujo número estaria suficientemente camuflado para que ninguém o descobrisse e também que, ainda sob compromisso de honra, custasse o que custasse, passe a atualidade da expressão, percorreria Seca e Meca, passe aqui  a ironia da expressão, até que encontrasse um familiar dos Schneider  a quem confiar tão presumível fortuna, estava longe, muito longe de imaginar que numa viagem que não parecia ser de risco, dada a conhecida neutralidade suíça,  que entre Chur e Lugano, viesse a ser vítima de um traiçoeiro assalto que entre uma mala com um acordeão, uma pequena bolsa com duas sandes de frankfurter-würstchen e uma weiss bier, uma par de militärstiefel, ainda haveria de ficar sem um cordão fino de ouro com uma medalhinha, onde fora colocada uma fotografia em ponto pequeno de Nossa Senhora. E porque é que se diz aqui que o assalto fora traiçoeiro? Será apenas intenção do escritor e por vezes narrador de contos adjetivar o assalto? Não nos parece e para que não restem dúvidas que nesta novela e tampouco nos contos que fazem parte desta coletânea de coisas que ora são contos, ora não são, não se gastam adjetivos em vão, cá vai a explicação de porque é que esse assalto foi traiçoeiro.

Faz o narrador aqui um parêntesis para lamentar que a cronologia tenha obrigado Fernandinha a viajar até ao futuro, a saltar vinte anos para a frente, deixando para trás tudo quanto de bom trouxe a esta novela, nomeadamente os pasteis ou bolinhos de bacalhau como são chamados no norte do país e também nomeadamente a sua permanente coscuvilhice, a querer sempre saber o que se passa com o desenvolvimento do crime e ainda nomeadamente com o seu pseudoflirt com Sebastião, o marinheiro, pois que como é bom de ver nunca poderia ter acontecido e, finalmente, nomeadamente um avental novo que ao escritor tanto trabalho deu em encontrar a condizer com a decoração das paredes da tasca do meu amigo e seu patrão Ismael Gusmán. Mas isto são contingências de um não-livro, de um quase não-blog e definitivamente um não-pastel de bacalhau, o que nos obrigará a falar provavelmente de moqueca de camarão, de pita shwarma ou de polvo em molho vinagrete o que também não é petisco de se jogar fora. Feito que está o lamento, retomemos o que da viagem de Jürgen Grass da Alemanha a Israel , com passagem pela Suíça, Itália, Grécia, Turquia e Chipre, nos interessa e diga-se, em abono da verdade, algo efetivamente nos irá interessar.

Viajava então Jürgen numa confortável carruagem proporcionada pela Wagon-Lits quando conheceu no bar-restaurante um simpático italiano que, apesar de vestir uma camisa negra, não lhe motivou nenhuma desconfiança. A guerra já tinha acabado e apesar de ainda não ter sido inventada a minissaia nem o biquíni pequenino às bolinhas amarelas, cada qual veste aquilo que muito bem lhe apetecesse e ninguém tem nada a ver com isso. Eu por exemplo, estou a escrever este texto em roupão, com os chinelos de quarto enfiados. Mas se estivesse descalço, o que é que alguém tinha a ver com isso? Conversa para aqui, conversa para acolá, às tantas já estava o nosso Jürgen com três canecas de cerveja no bucho, daquelas canecas de litro e o nosso vígaro italiano a pedir-lhe vinte paus emprestados que lhe pagaria no sábado, quando recebesse a semanada lá da fábrica, etecetera e tal. E é aqui que se dá a traição. Depois de se ver com os vinte paus no bolso, que naquele tempo eram em francos suíços, vinte paus de franco já estão a ver o balúrdio que era,  e depois do Jürgen ter pago do seu bolso, coitado, a despesa que fizeram no bar e que, pode o narrador garantir, ainda custou uma nota, porque nos restaurantes dos comboios a coisa não é barata, principalmente nas carreiras internacionais, mais ou menos ao preço que pagamos, hoje em dia, nas nossas áreas de serviço, não é que o italiano gama o que acima foi descrito e ainda um relógio de pulso que tinha sido comprado horas antes na gare de Berna, ao pobre do alemão, enquanto este dito cujo alemão estava a tirar uma soneca, a ressonar e tudo, à conta das bejecas bebidas e depois desaparece mesmo com o comboio em andamento? Por sorte ou coincidência, apesar da Margarida Rebelo Pinto dizer que as não há, uma senhora que costumava fazer as limpezas das carruagens e que por acaso estava a gozar um dia de feriado, quando viu o alemão a blasfemar em alemão, praticamente a grunhir e a dizer uma montanha de asneiras tais como «f.…-se, uma destas é que eu não estava à espera, car…», mas isto tudo em alemão, o que nem dá para traduzir completamente porque parece mal, ter exclamado em voz alta para quem a quis ouvir, «isto só pode ter sido obra do senhor Vicentini», mas em suíço-alemão que é ainda mais complicado de traduzir.

Ora, Francisca que não perde pitada destas coscuvilhices, aproveitou logo a deixa para insinuar no seu manuscrito que, apesar das vicissitudes da viagem, Jürgen seguiu até Israel, não antes de ter passado por Atenas, para ver, segundo a própria Francisca que é pouco dada a estas coisas da História e dos fenómenos da Natureza, os estragos que a guerra fez nos monumentos, pois parece que aquilo estaria tudo em ruinas, com o objetivo de reunir com a Mossad. «Ora a verdade, segundo Francisca, e ela é uma mulher muito bem informada nestas coisas, se calhar sabe muito mais do que diz», dizia o jovem Espinheira sentado num banco ao balcão da tasca e conversando informalmente com o meu amigo Ismael Gusmán, «é que consta por aí que nem Ishmail Baruchi é tio de Ismael ben-Avraham, nem este é sobrinho do primeiro, bem entendido. E se assim for, talvez sejam agentes secretos à procura da medalha. Só não sabemos bem, porque está difícil de descodificar no manuscrito, porque é que ele só falava numa sobrinha chamada Raquel, que há muitos anos vivia em Portugal e era especialista em peixe de assar na brasa».

«Com peixe na brasa ou com ervilha e ovos escalfados quem pagou as favas foi a Isabella, essa é que é essa. E logo com sete facadas», rematou o meu amigo Ismael, limpando as mãos ao avental azul preso à cintura e desviando-se para ir aviar mais um copo a um freguês que tinha acabado de entrar na taberna. «E um piresinho de torresmos, faxavôr», pediu o cliente.


segunda-feira, 16 de abril de 2012

125. Ismael (44) - A apreensão da Francisca


Quem anda um bocado aborrecida com o escritor é a Francisca. Eu entendo-a, se estivesse no lugar dela talvez estivesse com o mesmo estado de espírito. Dizia Francisca, um dia destes, que apesar do interesse de Ismael Sacadura Flores no seu conto, as atenções andavam todas viradas para as anotações no manuscrito que podiam dar pistas para esclarecer o crime que vitimou, blá, blá blá, Isabella Vicentini, blá blá blá, sete facadas, blá, blá, blá, Rua dos Correeiros e que o escritor está a ceder à pressão que lhe fazem para desvendar, logo, o mistério, isto é, o nome ou os nomes dos assassinos, pois apesar dos protagonistas já saberem o resultado, desde o capítulo vinte oito, a verdade, verdadinha, e quando a verdade é nua e crua, dói, a verdade, dizia o narrador desta novela, é que os leitores do projeto de livro, atualmente apenas posts em blog, ainda não o sabem. Francisca, apesar de tudo, não está contra a que o escritor dedique mais tempo a escrever histórias, relatando factos que eventualmente possam ter ocorrido ou ficcionando outros que eventualmente possam não ter ocorrido, ou até mesmo misturando realidade e ficção e onde, os protagonistas, tal como já foi dito em disclaimer exclusivo, possam apenas ser uma mera coincidência com personagens reais, vivos ou mortos. Ou, então, escrever um livro de suspense que mete crimes e espionagem e muitos tipos de nomes estrangeiros, como um tal Freitag que só apareceu uma vez. Na realidade o blog é dele, ele escreve o que bem quer e bem lhe apetece, se um dia algum livro dele vier a ser publicado, a singelo ou em coletânea, que tenha êxito é o que ela lhe deseja, mas o escritor podia ter sido um pouco menos parcimonioso na forma como tem divulgado o seu, dela, “Conto da ilha de lá”, como já lhe chamou, provisoriamente, o jovem Espinheira.

Estava a Francisca a desabafar com o senhor Ismael Rodrigues, dono da mercearia no seu quarteirão lá na Quinta do Conde, toda esta preocupação com o que se estava a passar com o seu “Conto da ilha de lá”, nomeadamente a apreensão que lhe estava a causar o facto de que se a divulgação do ou dos criminosos vier a ser feita um dia destes, tudo o resto de ” Ismael, a série” ou dos “Relatos dentro de uma lata de atum”, nome provisório e alternativo a “Histórias à sombra de um carapau de escabeche”, deixará de ter interesse e o seu “Conto da ilha de lá” ficará no texto como um conto inacabado, que na posteridade poderá vir a ser publicado ou não, tudo dependendo do grau de notoriedade com que ela mesma venha a ficar no mundo literário, quando de repente, como que vindo do nada, lhe entra mercearia dentro um pombo-correio com uma mensagem agarrada à anilha, o que lhe fez soltar uma grande exclamação: “Ora esta, este é o pombo-correio do senhor Ismael Gusmán, o amigo galego do escritor, que tem uma tasca na Rua dos Correeiros!”. Esta exclamação já não pode ser ouvida pelo senhor Ismael Rodrigues, o dono da mercearia pois, ao mesmo tempo, a estridente campainha do seu telefone de mesa já tocava e se ouvia lá de dentro qualquer coisa como, Quem fala?...  Ah o senhor Espinheira… como está?…Urgente? Pois sim senhor, faça o favor de dizer… ah é para a D. Francisca? Por acaso ela está ali mesmo, vou já chamá-la… enquanto no aparelho de telefonia se ouvia, com muito ruído, uma interrupção do programa de fados e guitarradas, para comunicar a D. Francisca que grrrrr… conto….grrrrrrr…capítulo seis… grrrr… E quando Francisca percebeu que não estava no Pátio das Cantigas e que não tinha nenhuma filha no Brasil e que muito menos se chamava Rosa, entra porta dentro, passe o pleonasmo, o Filipinho, de calções e suspensórios sobre uma camisa branca e de cabelo com brilhantina e risco ao lado, gaguejando e quase sem poder falar com a emoção, D. Francisca, D. Francisca, o seu conto… Ao que ela respondeu, apertando o garoto contra o seu vestido de chita da tabela, às flores pretas e brancas, dada a sua condição de viúva, já sei meu filho, já sei, o sexto capítulo do meu conto vai hoje ser publicado pelo narrador.

Capítulo 6
“Apesar da minha fraqueza física, motivada pela fome e quiçá pela situação inusitada, não quis parecer um qualquer jagodes. Levemente acariciei-lhe os seios. Primeiro um, depois outro. Tive uma surpresa. Não posso jactar-me de ter tido muitas mulheres na minha vida. Ainda sou relativamente jovem, falta um bom par de anos para atingir os quarenta. Nunca tive nenhuma mulher insensível ao toque nos mamilos. Pensei que a minha inabilidade ou a minha retração fossem as responsáveis. Toquei-lhes com a ponta da língua numa tentativa de os bolinar. Nenhuma reação da jovem, nem um tremor, nem uma expressão de prazer. Completamente insensível. Num instante, o chefe da “tribo” levantou-se e começou a jacular. Tal a velocidade com que emitia os sons, uma evidente forma primitiva de fala, que o joco se instalou entre os assistentes. Arrepiei no meu jogo amoroso e ato contínuo a jovem começou a jeremiar. Fez-se silêncio, só não absoluto porque, do goto da rapariga, se escutava um ténue choro. Alguns dias mais tarde, entendi essa insensibilidade dos seios das mulheres da aldeia”. 

Francisca saiu a correr da loja do senhor Ismael Rodrigues e foi direita a casa. E enquanto comia uma chamuça e um croquete de atum que o inspetor Flores lhe tinha trazido na véspera, diretamente da tasca de Ismael Gusmán, as lágrimas corriam-lhe pelo rosto. Tinha sido muita emoção e ela iria anotar isso num outro manuscrito que se propôs escrever. E deu um leve sorriso como se agora fosse ela própria a mestra do suspense.



sexta-feira, 13 de abril de 2012

124. Ismael (43) - Ismael ben-Avraham passa à segunda volta



Ora diga lá Espinheira o que é que consta a páginas setenta e dois e seguintes do manuscrito que nos serviu para consolidar o que vamos de seguida dizer sobre o senhor doutor Ismael ben-Avraham. Depois, antes que Espinheira abrisse a boca, virando-se para Francisca, disse-lhe, com a sua licença minha senhora. Já não teve tempo de ver a cara com que Francisca recebeu este ‘minha senhora’ assim lançado pelo inspetor e, tal como sabemos, também amante, pois que tinha ainda solicitado ao Espinheira um momentinho se faz favor, já que teve necessidade de, primeiro, ir verter águas. Ouviu-se o correr do autoclismo, a torneira da água de lavar as mãos a correr, o que mostra que o nosso inspetor tinha hábitos higiénicos muito avançados para a época. No entanto, quando saiu dos lavabos, vinha a assobiar e a apertar os botões da braguilha. E dirigindo-se ao nosso Ismael Gusmán, o inspetor Ismael Sacadura Flores perguntou-lhe, o que Ismael entendeu como uma ordem, se não podia servir uns copos de água às senhoras ou mais uma rodada de gasosa espanhola que para ele se contentaria com um copo de tinto. Nenhum dos presentes se admirou de, mesmo em serviço, o inspetor Ismael Sacadura Flores beber o seu copinho e comer uns torresmos ou uma conserva de atum pois foi coisa que sempre o viram fazer. Agora que sabemos que a nossa Fernandinha não era moça que ali pudesse estar, conforme relatado em capítulo próprio, os pastelinhos de bacalhau estavam fora de questão. E posta que foi a introdução, vamos lá ouvir o jovem Espinheira que está ali danadinho para intervir, se bem que o inspetor o pudesse ter feito ele mesmo.

Senhor inspetor Ismael Sacadura Flores, senhores chefes de brigada, Dr. Ismael de Almeida e Monsieur Ismaelix, senhor Ismael Gusmán, nosso digníssimo anfitrião e não disse mais nada pois o inspetor, enfastiado com tanta cerimónia, repreendeu-o com veemência, tanto que há testemunhas de que o jovem Espinheira terá ficado corado que nem um tomate e deveras acabrunhado. Oh homem, leia-nos o que escreveu a senhora dona Francisca nas páginas que lhe indiquei, caramba! Esta interjeição foi, para um homem tão educado como sabemos que o inspetor o é, e agora também que tem hábitos higiénicos, foi, dizia, um pouco a despropósito mas teve de ser narrada pois foi assim mesmo que o inspetor Flores interjecionou. O pobre, que é como quem diz em tom paternalista, o jovem, com o manuscrito na página setenta e dois aberto de par em par, começou então a ler as considerações que Francisca fez sobre a localização de Ismael ben-Avraham em anotações que apontavam o médico para as bancadas do Estádio da Luz, inaugurado dois anos antes, a assistir a uma daquelas maravilhosas noites de futebol que vieram a afamar aquele estádio como o Inferno da Luz, para o que, diz quem assistiu, muito contribuiu a fantástica vitória sobre o grande Barcelona daqueles tempos por quatro bolas a zero. Tudo isto está aqui escrito no manuscrito, faz tenção de informar o jovem estudante, que todos sabem gostar muito mais de ciclismo do que de futebol, o que ato contínuo provocou uma reação ao sobrinho de Francisca, o marinheiro Sebastião que, sendo ele sportinguista, não hesitou em deitar a língua de fora à sua própria tia. Mal-educado foi a única coisa que veio ao pensamento de Francisca mas que não lhe saiu sequer boca e, por isso, o escritor não colocou em discurso direto. Entretanto, é rigoroso dizer que nem com esta provocação, Francisca tirou os olhos e os ouvidos do jovem Espinheira que continuava a ler o seu manuscrito. O doutor Ismael ben-Avraham, que não conseguiu disfarçar um sorriso, imitava Francisca e fulminava com os olhos, quer o jovem Espinheira, quer a capa do manuscrito.

Teve então que interromper a leitura do manuscrito o inspetor Ismael Sacadura Flores, mediante alguma estupefação dos presentes e até perante um protesto lavrado oralmente pelo nosso amigo galego, pois como ele fez questão de afirmar, as noites gloriosas do seu Benfica não podiam ser assim tão abruptamente interrompidas, nem que em causa estivessem outros interesses superiores da Nação, como fosse o caso de se desvendar o assassino de Isabella Vicentini, disse, num misto de português e galego que a maioria não percebeu patavina. E perguntam nesta altura os leitores desta pseudonovela dramática, com ares de conto policial trafulha, misturado com histórias do autor, passadas numa tasca da Rua dos Correeiros, pertença de um seu amigo, galego como todos o sabem, porque é que o inspetor que estava tão ávido de que o jovem Espinheira lesse o manuscrito o viria assim, de um modo tão abrupto como se disse e nunca é demais repetir o adjetivo, a interromper. E aqui é a vez de o inspetor confrontar os presentes que essa tinha também sido a desculpa ou, na opinião do próprio Ismael ben-Avraham, o álibi que o ilibaria de qualquer suspeição sobre o crime da Rua dos Correeiros número 43, sexto andar. Mas Isabella tinha sido morte com sete facadas e um crime tão horrendo não poderia ser tratado de ânimo leve. Até porque o inspetor Ismael Sacadura Flores andava há algum tempo a sofrer algumas pressões superiores para que fechasse rapidamente o caso, uma vez que dada a falta de bons inspetores criminais, já estava a ser preciso para investigar o estranho desaparecimento dos animais de estimação da esposa de um detentor de um alto cargo governativo, falava-se até de um boi almiscarado. Não, não era o ministro o boi almiscarado, mas adiante, pois acho que já entenderam. E para que todos os presentes soubessem porque é que ele interrompeu o jovem Espinheira, esclareceu detalhadamente que foi pela grande contradição encontrada quando o Doutor, em depoimento escrito, dado nas instalações da própria Polícia Judiciária, declarações essas datadas e assinadas, afirmou perentoriamente que tinha estado a trabalhar nas urgências do Hospital dos Capuchos, num turno de vinte e quatro horas, só tendo saído ao meio dia do dia do crime que, segundo a perícia legal teria ocorrido cerca das sete horas da manhã, mas cuja uma ausência suspeita, a horas ainda não definidas neste fascículo, teria sido testemunhada por uma enfermeira feia. E é aqui que um dos presentes, mais concretamente Isaurinha Bate-Sola se levanta, se vira para Francisca e diz do alto dos seus saltos, oh minha senhora, então a senhora, que até parece ser uma fervorosa adepta de futebol, não sabe que um jogo só dura hora e meia, vá lá com o intervalo e com as compensações mais uns vinte e poucos minutos e que às sete da manhã, o doutor Ismael ben-Avraham ou lá como é que se pronuncia este nome estrangeiro, podia muito bem ter dado as facadas à rapariga? E neste momento, a enfermeira feia que tinha acabado de entrar, a pedido do inspetor, deu uma gargalhada, o que obrigou o inspetor a pôr ordem na sala.

Foi neste ambiente que já tendia para a peixeirada que o inspetor abriu as goelas, mandou parar a discussão que já se iniciava entre a Francisca e a Isaurinha Bate-Sola, decidiu que iria fazer mais revelações sobre os outros presentes que, como já sabemos desde o episódio vinte e oito, acabou por revelar quem foi o autor do hediondo, sanguinário e até mesmo incompreensível crime e anunciou que o doutor Ismael ben-Avraham passaria à segunda volta.