sábado, 10 de março de 2012

111. Ismael (34) - O doutor e a enfermeira feia



O inspetor Ismael Sacadura quis ter a certeza que o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham tinha consistência. Para isso nada melhor do que ir ao próprio hospital para verificar os registos. Foi isso que, naquela inusitada manhã, que tudo fazia crer ser pacífica, calma, brilhante e primaveril, não aconteceu. E o que não aconteceu não foi só o inspetor Ismael Sacadura Flores não ter saído de lá convicto de que o alibi de Ismael ben-Avraham era consistente, mas também o facto de a manhã não ter sido pacífica, calma ou brilhante, já que de primavera ninguém o pode negar, dado o episódio se ter passado em pleno mês de maio.

Passou primeiro pela tasca do nosso amigo Ismael Gusmán onde foi matabichar. Para tirar o jejum, o inspetor, que nunca usou da máxima, não bebo em serviço, pediu uma sandes de torresmos e uma tacinha de branco. O meu amigo galego ainda lhe perguntou se ele preferia um verde do garrafão que ele tinha acabado de abrir e que, segundo ele, era do bom, do de Monção, mas o inspetor, naquele dia, preferiu mesmo o maduro da Adega Cooperativa de Torres porque o meu amigo Gusmán, lá isso, ele não vendia zurrapa nenhuma. Foi logo ali na tasca que o dia não começou a ser pacífico. Numa correria louca, entram dois tipos, um a correr atrás do outro, dão a volta a uma data de mesas, continuam numa daquelas de gato e de rato, que até o Rogério, que se tinha levantado mais cedo e se sentava já para ler o Século, deu um salto com o susto que apanhou, coitado. Mas o inspetor, com a sua calma e sabedoria de polícia experimentado, esticou uma perna e o tipo que fugia à frente estatelou-se no chão que foi uma beleza. O que o perseguia, aos gritos de ladrão e de vagabundo, trazia uma bengala na mão, cujo cabo nos pareceu ser de prata e nem esperou que o larápio se levantasse, começou à bengalada nas costas e na cabeça do ladrão que foi um ver se te avias, de tal forma que naquela noite, tal foi a força e a precisão da bengala, nos calabouços da polícia ninguém dormiu com os ais, fiteiros mas a propósito, de Ismael Torquato, mais conhecido pelo turco, que gemeu toda a santa noite. Mas isto de ladrões que roubavam por esticão e carteiristas era o que naqueles tempos não faltava na cidade de Lisboa. Quem sabe, um dia mais tarde, ainda vos conte uma história real passada no elevador da Glória e que, se ela é dramática, não deixa de ser hilariante. Mas adiante que a prosa já vai longa, não haveria novidade nenhuma em se caçar um carteirista se o turco, cujo nome completo é Ismael da Siva Torquato, nascido em Lisboa, freguesia do Alto do Pina, não fosse o célebre rececionista de uma pensão na Mouraria, pensão essa que tinha serviço de águas quentes e frias. Também não foi brilhante porque em maio, mês de trovoadas por excelência, mal o nosso inspetor entregou o caso do turco aos seus colegas da polícia municipal, com a recomendação de que, após o auto por roubo, o turco deveria passar para o foro da judiciária, já que havia algumas desconfianças de envolvimento no assassinato de Isabella Vicentini, que não vale a pena repetir, mas que se relembra era corista de revista no Parque Mayer, a quem foram infligidas sete facadas no seu próprio apartamento da baixa, começou a cair uma daquelas bátegas de água, bem acompanhada por assustadores relâmpagos e não menos temerosos ribombares de trovões que só por algum acanhamento não o colocou de joelhos a rezar a Santa Bárbara. Isto acabou por atrasar o nosso inspetor na sua missão no Hospital dos Capuchos e todo este relato acaba também por atrasar os meus leitores, pois o que mais eles querem saber, neste momento, é se o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham se confirma ou não.

Não foi calma a manhã do inspetor Flores, Ismael de sua graça. Para além do que se acabou de relatar, se isto fosse verdadeiramente um livro, apareceria aqui uma série de complicações burocráticas até que a Judiciária se conseguisse apropriar da informação que tanta falta lhe faz. Mas não, isto não é um livro, é apenas um blogotexto, escrito em Calibri 11 no word e depois transcrito para o espaço que me foi concedido pela blogger dot com e por isso é que o narrador costuma ir, logo de rajada, direto ao assunto. E seria isso que estaria a fazer neste momento se por acaso não tivesse tido a desdita de supra referir que a manhã não tinha sido calma, pacífica e brilhante. E, se já vimos que não foi pacífica nem brilhante, não foi calma porque o diretor do hospital não só começou por negar ali alguma vez ter trabalhado o tal doutor judeu Ismael ben-Avraham, mas também porque lhe negou o acesso aos registos sem uma ordem de um Juiz de Direito. O que o narrador está aqui a dizer, faz parecer aos seus leitores que, em 1956, Portugal era um estado de direito, cumpridor com os direitos dos seus cidadãos e também a fazer crer que a polícia, naquele tempo, não era de uma prepotência atroz, a todos os níveis tolerada pela hierarquia e pela tutela. Mas fica bem falar bem do país, passe a duplicação de termos, pois nada me garante que isto não venha a ser lido por algum estrangeiro e não basta, hoje em dia, o país andar tão de rasto com a aquela coisa das agências de rating e coisas assim e tal. Mas continuando a ir direto ao assunto, como é apanágio de quem aqui escreve, lá teve o nosso inspetor de pedir um mandato ao juiz Ismael Fagundes de Oliveira, que naquele dia era quem estava de serviço na comarca, mas poderia ter sido assinado por outro qualquer já que o diretor do hospital, na época o senhor professor doutor Ismael Gutierres Fernandes, facto que pode ser confirmado nos arquivos do referido hospital, nem olhou para o nome do juiz e mal viu uma assinatura com um selo branco logo lhe franqueou todos os acessos.

Infelizmente não vai ser hoje, porque o texto já vai longo, que saberemos se o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham pode ser confirmado, quando ele, no primeiro interrogatório que lhe foi feito, referiu que teria estado a trabalhar nas urgências do referido hospital, vinte e quatro horas seguidas, só tendo saído de serviço ao meio dia, já após o crime ter acontecido na pessoa da malograda Isabella. Uma testemunha anónima, uma enfermeira feia, de quem não podemos revelar o nome por causa do segredo de justiça e que por mais de uma vez tinha levado negas do médico judeu, afirmou em surdina que antes das seis da manhã o doutor se ausentou um pouco, indo na sua cola a jovem enfermeira Meireles e que só regressaram perto da oito da manhã, o que levantou algum burburinho entre os colegas mais púdicos. Ninguém sabe se a enfermeira feia estava a inventar aquilo por uma questão de vingança ou se teria sido verdade pois não havia registo de ausências na folha de serviço hospitalar. Mas Francisca é perentória a escrever no seu manuscrito ao sublinhar o adjetivo feia logo a seguir a enfermeira, embora seja um pouco dúbia no que respeita às relações de ben-Avraham com a enfermeira Meireles. O que os meus leitores não estranharão com certeza é que o escritor diga que talvez mais tarde venhamos a saber sobre a validade deste alibi, mas admirar-se-ão, sem sombra de dúvidas, por a Quinta do Conde não ter tido protagonismo neste episódio.


quarta-feira, 7 de março de 2012

110. Ismael (33) - Capítulo 4



Na página noventa e três, Francisca continua a desenvolver o seu conto a que eu, abusivamente, vou chamando o “Conto das ilhas de lá”, sendo que o capítulo quatro não destoa dos três primeiros e espero que continue. O jovem Espinheira, contratado para lhe decifrar o manuscrito, com uma parca avença que apenas lhe dá para as passagens desde a Quinta do Conde à Rua dos Correeiros e para comprar uns morangos de Sintra, numa carroça parada em Cacilhas, junto ao Farol, sim porque naquele tempo ainda havia o pequeno, mas muito doce, morango de Sintra, estava preparado para começar a ler.

Alguns dos leitores deste que será um potencial livro a ser vendido um ano depois de editado na Feira de Corroios por um ou dois euros, para desempatar dinheiro à editora, começaram a ler estas páginas já a procissão ia no adro. Por outras palavras, já Ismael se tinha introduzido nas minhas histórias e já o contista Constantino tinha inventado um crime na Baixa Pombalina da cidade de Lisboa. Se no meio das suas histórias, o tipo que assina estas prosas tivesse começado a escrever um Tratado de Economia defendendo o neoliberalismo como o futuro da globalização, não sei se Francisca estaria à altura de dar pistas ao Espinheira para que este ajudasse alguém a decifrar hieróglifos mas talvez viesse, um dia, a ter a sorte de ser convidado para Ministro. Mas talvez não fosse tão confuso e não baralhasse tanto os seus leitores, nem a moça que um dia encontrou num café. Principalmente porque no meio de um Tratado de Economia de carater neoliberal o “Conto das ilhas de lá” não faria sentido e a Fernandinha não seria tão roliça já que o tempo é, efetivamente, de vacas magras. De qualquer maneira, se a tasca de Ismael não tivesse já sido substituída por uma hamburgueria americana franchisada ou fechada para especulação imobiliária, ainda se comeria lá um caldinho verde e uma sandes de ovo ao balcão e uma bica para rebater, que é assim que a classe média em decadência se alimenta nos pequenos intervalos para almoço que lhe são concedidos. Ah, estava a esquecer-me. E um copo de água da torneira, que sai mais em conta.

Estava o Constantino nos seus pensamentos futuristas, quando, como que por magia,  o inspetor Ismael Sacadura Flores lhe fez estalar dois dedos, a saber, o polegar com o médio, mesmo à frente do seu nariz e lhe perguntou, mas você quer ouvir o que a Francisca escreveu, ou não quer? E foi com a boca cheia que o contista, que mastigava um panado de porco numa bola de mistura, com um esguicho de condimento de mostarda, que por pouco não lhe sujava a camisa e bebia uma imperial (reparem como se não fosse por magia, cronologicamente isto seria impossível, a não ser que o puto Constantino, que ainda usava fraldas já se metesse nos álcoois, quanto muito estaria a mamar um biberon de leite de vaca, com um babete à frente), ficou de olhos vidrados na beleza da escrita de Francisca. Abrindo o manuscrito na página noventa e três e socorrendo-se de uma pequena cábula em papel quadriculado, com desenhos e traduções, o jovem Espinheira leu. À sua roda, Ismael, Fernandinha, Rogério e Sacadura mantinham-se em silêncio. Já não sei hei-de dizer que o contista também estava presente ou se se tinha ausentado a fim de mudar a fraldinha mijada. Efeito das bejecas, pensarão alguns. O jovem Espinheira, com toda a certeza, posso-vos afirmar, estava lá e leu.

Horas e horas sem me alimentar, atentava-me uma mesa assim. Não sabia a composição dos alimentos, mas isso não era importante. No entanto, permaneci imoto. Seria imperdoável tomar a iniciativa. Mais que imperdoável, inadequado e imbecil. O chefe tinha um ar rude, a atingir laivos de imane. Qualquer tentativa, mesmo que imaculada poderia ser considerada uma imisção nos costumes. Esperei. A cena que se seguiu foi imperdível, mesmo para um observador externo. Dois jovens, um rapaz imberbe e uma moça implume, aproximaram-se, nus. Alguns dos indígenas desviaram-se abrindo caminho para o jovem par. O que se passou de seguida é, para um leigo nos costumes, inarrável. Como que impetrando, os olhos da rapariga dirigiram-se a mim. Não teria mais de 16 anos, o que me começava a incomodar. Embora celibatário, qualquer relação que pudesse haver entre nós me pareceria ímpia. Mas, as circunstâncias, não me permitiriam impeticar com os anfitriões. Deu-me a mão e obrigou-me a levantar. Uma a uma, num ritual de sensualidade, retirou-me as vestes. Senti-me impotente para parar aquela espiral de emoções. Nunca fui casado, nunca tive filhos, mas qualquer ato que eu cometesse me acometia de incestuoso. Se alguém, da minha cultura, me visse, face a tão inusitados preparos, me acharia inábil. No entanto, o jogo iria continuar".

Ai, estou com tanto medo que a Francisca não consiga acabar este conto, suspirou Ismael Sacadura Flores. Depois, agarrou num braço da Teresa, que entretanto tinha chegado, pé ante pé, para não fazer barulho e perguntou-lhe, estás a perceber alguma coisa disto?



segunda-feira, 5 de março de 2012

109. Ismael (32) . Um álibi com lençóis



Costumo ler três livros de cada vez, outras vezes quatro e já cheguei ao cúmulo de estar a ler cinco livros em paralelo. Neste momento, não contando com a Bíblia que é um livro que leio amiúde e quase diariamente, só estou a ler mais dois. O “Abraço” do José Luís Peixoto e “Almas que não foram fardadas” do Rogério Pereira. Ambos contam histórias e este é um meio onde gosto de estar e que, quando me movimento, me movimento com algum à vontade. São obras leves, nada de romances de enredos complexos e isso permitiu-me no mesmo entretanto ler ainda “Já não se fazem homens como antigamente”, uma pequena coletânea de contos de quatro autores, o Miguel Almeida, a Daniela Pereira, o João Pedro Duarte e o Pedro Miguel Rocha. Esperem aí que eu vou fazer chichi e já volto. Pronto! Voltei. Desculpem a interrupção. Mas há algo que ainda não vos disse. É que, em simultâneo, ando a acompanhar o jovem Espinheira a decifrar a caligrafia horrível, chamar horrível é um eufemismo, de Francisca num precioso manuscrito que nos deixou, embora incompleto, a não ser que se descubra um segundo caderno, para que se possa desvendar o crime. Como bem estão recordados, refiro-me ao hediondo, sanguinário, diria mesmo que indescritível de horrendo, assassinato da bailarina, há quem lhe chame corista de revista do parque Mayer, no início da segunda metade da década de cinquenta do século passado, espero que tenham gostado do preciosismo cronológico, com sete facadas, a maioria no peito, mas que a polícia, até à data em que se desenrola esta narração, não nos permite divulgar mais pormenores. Ora hoje, depois de ter arrumado o livro do Peixoto na estante da casa de banho, onde aproveito todo o tempo “morto” para ler e o livro do Rogério aqui ao lado do meus comprimidos para o colesterol e as pautas de música para cavaquinho, peguei numas páginas do manuscrito da Francisca e comecei a ler.

Na véspera dos acontecimentos (pressupõe-se que se refere ao hediondo, sanguinário, adiante, ao crime…), Fernandinha recebeu o telefonema de um primo em segundo grau, sobrinho de D. Laurentina que, como todos ainda estão recordados, foi a tia que recolheu Fernandinha, não no rés-do-chão do número 43, como Ismael Gusmán me tinha sugerido em tempos, mas sim numa pequena casa, uma pequena vivenda com cozinha, uma sala e dois quartos, na Quinta do Conde que, quis o destino, não tinha seguido o destino, a redundância aqui é propositada, diz a própria Francisca, da família e não emigrou. Estava a comunicação complicada, entre a Fernandinha e esse seu primo em segundo grau, quase tão complicada como a frase que constituiu o parágrafo anterior, pois telefonar de uma aldeia da freguesia de Lajeosa no Concelho de Celorico da Beira para a Quinta do Conde era ainda mais difícil do que fazer como o narrador deste texto, que mistura factos de hoje em dia com os acontecimentos da época e ainda tem a paciência de ler três livros ao mesmo tempo, que não se conseguiu perceber o nome do primo, tal era o ruído. Continua então Francisca, a comunicação estava complicada mas deu para se perceber que alguém importante no meio financeiro nacional, a teria tentado contatar em Lajeosa mas que aí o informaram que Fernandinha vivia com um Barão francês em Marselha. Ele insistiu, apesar das dificuldades de comunicação, patati-patatá lá vai o narrador repetir-se e conseguiu saber por portas e travessas que a Fernandinha já estava em Portugal e que era tal a sua competência na cozinha que, se ela fosse personagem de uma história, cinquenta anos mais tarde, seria, numa daquelas reclassificações de funções feitas por consultoras internacionais, uma técnica superior de cozinha com especialização em salgadinhos na variante pastel de bacalhau. E aqui entra o narrador para perguntar se Francisca é familiar dalgum profeta ou se se está a fazer ao piso. Na verdade, Fernandinha veio a receber uma nova chamada, alguns minutos mais tarde, do tal senhor da finança, tendo até pedido ao patrão, um galego dono de uma tasca na Rua dos Correeiros, pessoa muito estimada, adepta do Benfica e do Liceo da Coruña, de sua graça Ismael Gusmán, para sair aí por volta das sete da tarde pois ainda teria que ir lavar os sovacos e outras partes que ela se ruborizaria em dizer, já que se ia encontrar com uma pessoa importante. Disseram-me mais tarde, continua Francisca, que o casal foi visto a jantar no João do Grão e que foi depois aos fados na Severa, em plena Mouraria e que, finalmente, deu entrada numa pensão com serviço de águas quentes e frias e pequeno-almoço tipo francez, sim escrito com um z numa placa metálica, junto a um candeeiro a petróleo, sita na parede do mesmo prédio da dita pensão e que, em noites de vendaval, range de tal maneira que quem dorme no quarto com janela para a dita placa não prega olho toda a noite, pelo que os donos da pensão lhes fazem uma atençãozinha no momento de fazer contas. Pois o casal, que depois dos fados se instalou na pensão, terá lá passado a noite, já que, no depoimento prestado pelo rececionista da pensão, ao chefe de brigada Ismaelix, isto já não diz a Francisca, pois o manuscrito é anterior às investigações, mas sabe-o o narrador de fonte segura e próxima da Judiciária, dizia, garantiu a pés juntos que naquela pensão, depois das duas da manhã, os únicos ruídos que se ouviam era de algumas camas, que pela idade dos entalhes já não eram o que foram antigamente ou algum flato mais sonoro por descuido de algum dos hóspedes. Portanto não houve o mínimo movimento na receção e a porta só se voltou a abrir por volta das oito da manhã, já que um rapazinho minhoto, dos seus treze anos de idade, que é marçano numa mercearia na Rua Áurea, paredes meias com o elevador de Santa Justa e que por favor dos patrões que são também os donos da pensão o deixam morar lá no cubículo e que sai sempre àquela hora para ir pegar ao trabalho.

Atendendo ao manuscrito da Francisca e ao que o narrador e contista, que todos conhecem como Constantino, acabou de escrever, parece que Fernandinha tem um irrebatível álibi já que, segundo consta nos autos que o Espinheira, uns anos mais tarde, veio a descobrir nuns arquivos da polícia e que o contista já não se lembra, ao fim destas páginas todas se já foi dito ou não, o crime ter-se-á dado por volta das sete da manhã. Ah sim, é verdade, não foi o contista e narrador quem o disse, terá sido um desabafo de uma misteriosa senhora de Trás-os-Montes ao chefe de brigada Ismael de Almeida quando este se disfarçava do homem que dá milho aos pombos. Pois ao outro, ao tal do bigode como o Chalana, porém branco, ao nosso conhecido Ismaelix, também ele, soubemos há dias, chefe de brigada da Judiciária, pois a esse, ninguém lhe faz o ninho atrás da orelha. E há de, mais dia, menos dia, dar um contributo importante para se desvendar este caso. Ou não andasse ele a dormir com Ekatrina Smirnova e o seu primeiro encontro não tivesse sido na pensão Estrela de Alva, águas quentes e frias.


sexta-feira, 2 de março de 2012

108. Ismael (31) - Um ato falhado. Ou dois...


Certa vez foi à noitinha, o Chico do Cachené, chamou-me e disse Farinha, e por aí a fora. É mais ou menos assim que começa um fado de Lisboa cantado pelo saudoso Fernando Farinha a contar resumidamente a história da vida do Chico do Cachené. Uma ocasião, é assim que começa um amigo meu cada vez que quer contar uma história. Também acho interessante a fórmula, porque cada história começa num determinado momento que pode muito bem ser ocasional. Por era uma vez, começa a maioria das histórias que conhecemos, que nos foram contadas pelos nossos avós, pelos nossos pais e que agora continuamos a contar aos nossos filhos e aos nossos netos. Pois sendo eu um contador de histórias, nenhum dos meus leitores me perdoaria se eu, neste primeiro volume de uma trilogia que se adivinha, a saber, as “histórias da tasca na baixa”, os “contos da floresta virgem” e as “fábulas da folha de couve”, não tivesse pelo menos um conto, uma história, um folhetim, um episódio, um simples passo, que não começasse por era uma vez… pois então que não me perdoem, porque ainda não será hoje que eu vou começar a minha história pela tão célebre frase.

Já que me mostraste a tua, agora vou-te mostrar a minha. Pode ter sido um ato falhado. A minha amiga madeirense (*) que coça pulgas como ninguém e avó de umas quantas, resolveu virar-se para o seu senhor e atirar-lhe com essa pérola durante um passeio que faziam pelo Norte de Portugal. Ato falhado, acho eu e não sei como é que aquela rural acabou por explicar ao seu homem por onde andavam os seus pensamentos. Tanto quanto ela nos explicou, deveria ter dito ao marido, Já que mostraste o Tua, agora vou-te mostrar o Minho. Nem sempre o que parece é, nem sempre o que é, parece.

Todas as tardes, durante um largo período de tempo, até que o pide de serviço achasse que aqueles jogos não eram mais que um pretexto para estarem mais de três juntos, um comportamento considerado muito suspeito pelo salazarismo, jogou-se à sueca na tasca do meu amigo Ismael. O Rogério era dos poucos que não jogava mas assistia e se vos vou contar esta história foi porque ele ma contou, pois eu nessa época não teria idade para frequentar locais onde se jogassem cartas. Entre as três e as seis, o movimento na tasca do galego era muito reduzido. Os almoços já tinham terminado de ser servidos, um ou outro cliente entrava e saía depois de ter bebido o seu morangueiro ou o bagacinho caseiro que o Ismael servia à socapa, raramente alguém para um carapauzinho de escabeche ou mesmo para uma ginjinha e muito menos para um pastel de bacalhau. Turistas eram poucos, já que  naquele tempo Lisboa não estava na moda e o resto andava a trabalhar e, sendo assim, principalmente no verão, a baixa era um autêntico deserto. Nos intervalos das viagens o Sebastião não tirava, literalmente, o cu, ou, literariamente, o rabiosque da tasca do Ismael, só para “morder” (entre aspas, claro) a Fernandinha, um desgraçado daqueles que, às quatro da manhã, quando a Isabella, entretanto assassinada, vá lá saber-se por quem (**), chegava do teatro, ia logo meter-se na cama da italiana. O ardina, o jovem imberbe Ismael da Sacola, como era conhecido, porém já com os seus dezanove anos completos, à espera de ser chamado para as sortes. O nosso conhecido Ishmail Baruch, velho sabido, campeão da bisca lambida, mas de reconhecidos méritos na sueca, com muitas renúncias à mistura e o filho do senhor Ismael da Farmácia que, por não se lhe conhecer profissão, também era conhecido pelo vadio da outra banda e que saía todas as manhãs, perto do meio-dia da madrugada, da Quinta do Conde para vir arranjar emprego em Lisboa, mas que nem tentava, pois o pai ia-lhe dando para os gastos. As tardes, quando não havia sueca na tasca do Ismael, passava-as ele no Largo do Carmo, com um bandolim mal afinado a tocar polkas para dar nas vistas.

Os quatro sentados à roda de uma mesa e o mais que sabido e um tanto ou quanto batoteiro, nosso conhecido Sebastião, a não perder a oportunidade para espreitar a mão de Fernandinha, bisbilhotando-lhe o jogo e daí tirando vantagens. Fernandinha estava mais que ruborizada de tanto descaramento e irritadíssima por o seu jogo estar as ser devassado a cada jogada. E numa afirmação de inconformismo marcou a sua posição,  se você volta a despir as calças… ainda tentou emendar, corrigindo para, se você volta a me ver as cartas, mas já ninguém a ouviu. O ato falhado é assim mesmo. Nem que seja numa tasca de vinhos e petiscos, à roda de uma mesa de sueca e quando uma gargalhada não chega para colmatar o embaraço de quem o tem.

(*) O autor refere-se a uma blogger muito apreciada que se apresenta como avó de pulgas.
(**) Segundo o autor, com sete facadas, logo sete o que tornou o crime deveras sangrento.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

107. Ismael (30) - Mas afinal quem é que é esse tal Castro Ribeiro?



Francisca escreve muito bem, dizia o inspetor Ismael Sacadura Flores olhando para o jovem Espinheira, depois deste lhe ter lido a página noventa do manuscrito. O jovem paleólogo tinha conseguido decifrar a terceira parte do conto de Francisca enquanto, por outro lado, se ocupava das biografias que ela escreveu de alguns dos personagens, eventualmente envolvidos na morte por esfaqueamento da pobre corista italiana. Sete facadas é coisa que não se faz a ninguém, mas esta infeliz não conseguiu ter melhor sorte. Leia-me isso outra vez pedia, quase encarecido, o inspetor Ismael Flores ao jovem estudante de Letras e avençado do Estado, leia-me outra vez, Espinheira, que isso é tão bonito. E o Espinheira leu.

«A idiossincrasia do que parecia ser o chefe do grupo, dado que todos os restantes pareciam idolatrá-lo, criou-me a ilusão de que seria idóneo. Quando me desloquei a caminho do deserto, estava realmente convencido que o era. No entanto pequenos igarapés cortavam o terreno em quase todo o seu comprimento e em toda a sua largura, criando malhas incomensuráveis de água, o que nos obrigou a dividirmo-nos em ínfimos grupos de apenas três indivíduos mas que mal cabíamos nas igaras estacionadas em fila. Chegamos finalmente a uma pequena ilha, ao fim de mais de 12 horas de viagem sem nada comermos. Apenas um gole de água, que um dos indígenas me ofereceu, por uma única vez. Quando chegamos, o meu aspeto apresentava-me como um ser ignóbil. A ilha estava iluminada aparentando ser uma igreja natural. De repente, tive a sensação de me ter deixado iliçar. Ígneos archotes debruavam um caminho que me conduziria ao mais ignoto dos mundos. Eu, que não era da igualha destes autóctones, estava a ser convidado a sentar-me à volta de uma mesa coberta das mais exóticas iguarias. Não arranjei coragem para ilidir. Só pensava se sairia dali ileso»

É ou não é lindo, Espinheira?, confesse lá. Espinheira que não era pago para dar opiniões ou para confessar o que quer que fosse, mas apenas para decifrar os quase hieróglifos cursivos de Francisca, assentiu com a cabeça e perguntou ao inspetor se afinal queria saber alguma coisa sobre o Dr. Castro Ribeiro ou não. O inspetor Ismael Sacadura, olhou para o relógio e ao reparar que ali por perto estava o Rogério, cumprimentou-o tirando a boina basca que por vezes usava, principalmente quando estava frio. Rogério que se tinha sentado na mesa ao lado era todo ouvidos no conto de Francisca que, penso eu, narrador destes feitos, ainda poderá vir a ser uma coisa interessante. Levantou-se então o inspetor, arrastando consigo o jovem futuro licenciado em filologia românica, sentando-se ambos numa mesa mais recatada. E entre dois carapaus de escabeche e um branquinho caseiro dos lados de Torres Vedras, diz Espinheira que a páginas quarenta e oito e também sessenta e dois, Francisca se refere ao seu ex-marido nos seguintes termos.

“O Castro Ribeiro era um homem muito interessante na sua juventude. O padrinho dele, um padre de uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães, depois de ter mandado o menino estudar no Seminário Maior do Porto, ainda o enviou para Coimbra terminar o ensino liceal, dado que o Nuno, seu primeiro nome, não era dado às coisas da Igreja. Vivendo numa República, Castro Ribeiro terminou os cinco anos do curso de Direito em oito, mas entre bebedeiras e mulheres ficou-lhe uma famosa reputação de advogado honesto e competente, com escritório montado em Vila Nova de Gaia. Especializado em importações e exportações logo se deu com os maiores produtores de vinho do Porto, com as suas festas privadas e com as inevitáveis bacantes. Vinho e mulheres, mulheres e vinho. Bem me avisaram quando me casei com ele...”, lamentava-se Francisca às tantas, mas o inspetor pediu a Espinheira que saltasse as partes piegas que isso seria coisa mais falada no futuro e nada adiantaria para desvendar o crime. E assim Espinheira obedeceu, de modo que ouvimo-lo, quero dizer, ouvimo-lo não, eu é que inventei isto pois sou o narrador, mas fica bem dizer ouvimo-lo continuar, já saltando alguns parágrafos. “Contratado que foi para descobrir o que se teria passado com uma conta de um judeu famoso, de origens russas, aberta em Zurique, vem Castro Ribeiro muitas vezes a Lisboa”. Senhor Inspetor, vou agora saltar aqui umas frases que, ou são piegas ou são carnavalescas se não se importa, solicitou a permissão, o jovem Espinheira, ao inspetor encarregado por este homicídio, que todos sabemos ser Ismael Sacadura Flores. Entretanto, Ismael Sacadura Flores, pediu a Ismael Gusman, o dono da tasca da Rua dos Correeiros e meu amigo, galego de nascimento, que lhe trouxesse mais dois carapaus, com bastante molho e uma fatia de pão, enquanto Espinheira acabava de arrotar o gás de um pirolito, com sabor a limão, que tinha acabado de beber. Salte sim, Espinheira, deixe para outra ocasião as pieguices e fale-me lá dessa conta na Suíça, anuiu o inspetor ao pedido de Espinheira, sem qualquer tipo de contestação. Oh senhor Inspetor, retorquiu o Espinheira um bocado embaraçado. Se eu lhe contar tudo agora não fica nada para dar algum suspense à cena. Não acha que deveríamos deixar para depois do escabeche. É que até a mim me estão a apetecer uns carapauzinhos.

Enquanto os dois comiam, levantei-me, dirigi-me discretamente ao balcão, olhei para o decote de Fernandinha, hoje um pouco mais atrevido do que é costume, ainda mais atendendo à época e falei baixinho ao ouvido do meu amigo Ismael Gúsman. Sabe meu caro, eu suponho que aquele número atrás da medalhinha que os judeus andam à procura tem alguma coisa a ver com a conta na Suíça, o que é que você acha? E depois de o ver franzir os dois sobrolhos de uma só vez é que me atrevi a perguntar. Mas diga-me cá uma coisa amigo Ismael, o que é que isso pode ter a ver com o facto do Dr. Castro Ribeiro andar às seis da manhã, em pleno Cais do Sodré, quando a Ribeira já se enche de pescado, frutas e legumes, orégãos e flores, entre elas gladíolos e magnólias, aos gritos de “eu mato aquela puta, eu mato aquela puta”? O Ismael olhou para mim com um ar muito sério, quase como se fosse meu pai e repreendeu-me. Constantino, estamos em mil novecentos e cinquenta e seis, o menino ainda nem fez um ano de idade, isso são palavrões que se digam? É por estas e por outras que eu gosto mais de escrever ficção científicas do que romances de época. Acho que um dia destes ainda escreverei, “2087, o assassínio de uma corista em Andrómeda”.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

106. Cinquenta e sete


Naquele tempo eu e o meu irmão Leopoldo jogávamos à bola onde quer que fosse, numa praceta alcatroada da estrada ou numa de terra batida entre prédios, numa eira de trigo e milho, numa clareira onde quatro pinheiros ou outras quaisquer quatro árvores cortadas ou em pé, serviam de balizas, no adro da ermida onde íamos à missa ou no largo do liceu com balizas feitas de malas e agasalhos, onde só era golo se a bola passasse rasteira, vá lá a meia altura, pelo meio da baliza, pois, caso contrário seria “altas” ou no “poste”, invisível, imaginado no prolongamento do monte de pastas e livros. E era por detrás do prédio dela, pisando ervas e cardos, destruindo arbustos. Naquele tempo em que eu era um pequeno e esguio avançado-centro e o Leopoldo o guarda-redes, onde os árbitros somos nós e a voz mais poderosa, aquela que decidia se o jogo ia continuar ou não, era a do dono da bola, naquele tempo discutia-se se uma bola foi “altas”, ao “poste” ou golo, na voz alta, estridente e esganiçada de crianças, onde para o avançado era sempre golo e para o guarda-redes nunca o era, acontecia chegarem a vias de facto, até que, no fim, pudesse ser erguida a taça. E ela na janela a ver os miúdos da sua idade a jogarem à bola com, quem sabe, mais olhos para o avançado-centro do que para o guarda-redes, o médio ou o defesa, ela que quando acabava o jogo, ou antes, fechava a janela, corria as cortinas e se fechava em casa com os longos cabelos dos seus doze anos, por vezes transformados em bonitas tranças, sainha curta e bata branca, muito branca, quando caminhava para a escola. E o avançado-centro esbaforido e de rosto vermelho de cansaço que se exibia marcando golos, limpos ou ao “poste”, para a menina de doze anos, debruçada sobre o parapeito da janela ou que, de banho já tomado, na sua calça de fazenda vincada e camisa bem engomada, um pullover se era inverno, a esperava às escondidas na rua em frente à porta da saída da escola e depois se atravessava numa qualquer travessa para não ser visto e já com ela de costas lhe admirava os longos cabelos negros.

Passam-se os anos, a menina de doze anos casou com o avançado-centro, há dois filhos e um neto e a menina que fazia tranças no cabelo hoje usa-os mais curtos, já não são tão negros assim e é uma felicidade somar mais um ano aos seus doze anos e, viver com a graça de Deus, mais este vinte e oito de fevereiro, não com doze, nem com treze, nem com catorze mas com alegria e não vou dizer quantos mais. E o avançado-centro, que agora já não é esguio o suficiente para correr em cima de cardos e marcar mais um golo ao Leopoldo, limpo ou ao poste, mas que ainda tem fôlego para cantar as quadras dos parabéns a você e erguer lá no alto uma taça mas agora de champanhe.

As coisas que a gente se lembra quando se cumpre mais um ano de vida. Parabéns, amor e que contes muitos que eu vou contando histórias.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

105. Ismael (29) - Uma tasca sempre às vossas ordens



Quando tento escrever algo com mais sentido, coerência ou até graça, não me sai nada da cabeça. É por isso que me socorro muitas vezes de livros escritos há mais de duzentos anos, por autores completamente desconhecidos do grande público, encontrados aqui e além em alfarrabistas anónimos e lhes roubo meia dúzia de ideias, leio almanaques do primeiro quartel do século XX com anedotas do Bocage e desfaço-as em contos e leio alguns livros de filosofia para debitar umas frases com enfase e erudição. Costumam dizer os críticos que o escritor fulano de tal sofre a influência do grande romance realista queirosiano, ou que beltrano é um fruto do novelismo contestatário camiliano, ou, ainda, que sicrano é mais um que seguiu a escola da poesia parnasiana. Outros desenvolvem a sua escrita socorrendo-se por exemplo do filósofo judeu sefardita Edgar Morin para construírem algo que se pareça fruto de um pensamento complexo, mesmo que só fique bem na adjetivação da sua obra ou, outros ainda, são tão lineares e racionais que, diriam os críticos com toda a pompa e alguma circunstância, os seus romances, ensaios e ficções são mais cartesianos que o próprio pensamento de Descartes. Pois eu, para além das dicas sobre os truques que uso e que já foram supra referidas, antes que a crítica me venha a classificar e englobar num qualquer grupo ou numa qualquer escola literária, classifico-me a mim próprio, passe a redundância, como um homem de escrita de influência predominantemente franciscana. E não me venham falar que de S. Francisco de Assis não se conhecem obras escritas mas sim as mais variadas biografias, que talvez eu estivesse a confundir-me com o padre António Vieira e tal, mas aí já seria jesuíta. E como eu não lhes quereria responder apenas, pois! tenho, portanto, que esclarecer que o meu franciscanismo não provém de nenhum santo ou padre mas sim do facto da maioria da minha sustentação literária estar, última e praticamente, confinada ao manuscrito de Francisca, esse sim, um compêndio escrito de alto a baixo, nas margens e nos rodapés, profícuo em contos como os ”Contos das ilhas de lá”, em novelas policiais como “O Dia da morte de uma bailarina”, cujo texto já é quase todo do vosso conhecimento,  em ficção como “A chapa das notas de vinte paus”, já para não falar na série de contos “Na taberna do galego”, onde eu me inspirei para que hoje em dia ande a escrever um bloglivro.  Também me inspiro nas suas capacidades de biógrafa não autorizada, sendo que bebi muito na obra de Francisca desde a biografia do  “Dr. Nuno Castro Ribeiro” subtitulada  “proeminente e honrado advogado de Vila Nova de Gaia”, à biografia da grande bailarina neoclássica Ekatrina Smirnova, neta de um velho judeu russo, expulso pelo czar Nicolau II, durante os famosos progroms passando pela, de entre as mais importantes, obra biográfica e histórica  “Fernandinha, a roliça beirã”, como ela mesmo a intitulou. Desta inspiração franciscana poderão sair e deverão mesmo sair mais alguns episódios de Ismael mas isto só será possível enquanto a taberna estiver aberta, os clientes continuarem a cá vir, nem que seja comer um pãozinho com cheiro, que coisa boa de comer e beber não irá faltar nesta tasca, assim os governos no-lo permitam. Enquanto a Teresa, a Luísa, a Assíria, o Rogério, a Janita, a Teté, a Margarida, o Eufrázio, o Manel, a Cida, a Manu, a Eva, o Maceta, o Chuva, a Paula, o Carlos, a Piedade, a AvoGi, a Fatyly, a Canto, a Justine, o Rafeiro, a Catarina, a Custódia, a Eva, a Lis, a Maray, o Peras e tantas e tantos outros aqui entrarem, o negócio da taberna vai dando para os trocos, não fechará a porta por falência e terão aqui alguém fortemente inspirado pela manuscritora Francisca a escrever para vocês.

E nesta tertúlia, que se reúne aqui pela tasca do meu amigo Ismael ainda há tempo e apetite para uns croquetes de atum com arroz de pimentos e um verde de Ponte de Lima. Alguém alinha?