O inspetor Ismael Sacadura quis ter a certeza que o alibi do
Dr. Ismael ben-Avraham tinha consistência. Para isso nada melhor do que ir ao
próprio hospital para verificar os registos. Foi isso que, naquela inusitada
manhã, que tudo fazia crer ser pacífica, calma, brilhante e primaveril, não aconteceu.
E o que não aconteceu não foi só o inspetor Ismael Sacadura Flores não ter
saído de lá convicto de que o alibi de Ismael ben-Avraham era consistente, mas
também o facto de a manhã não ter sido pacífica, calma ou brilhante, já que de
primavera ninguém o pode negar, dado o episódio se ter passado em pleno mês de
maio.
Passou primeiro pela tasca do nosso amigo Ismael Gusmán onde
foi matabichar. Para tirar o jejum, o inspetor, que nunca usou da máxima, não
bebo em serviço, pediu uma sandes de torresmos e uma tacinha de branco. O meu
amigo galego ainda lhe perguntou se ele preferia um verde do garrafão que ele
tinha acabado de abrir e que, segundo ele, era do bom, do de Monção, mas o
inspetor, naquele dia, preferiu mesmo o maduro da Adega Cooperativa de Torres
porque o meu amigo Gusmán, lá isso, ele não vendia zurrapa nenhuma. Foi logo
ali na tasca que o dia não começou a ser pacífico. Numa correria louca, entram
dois tipos, um a correr atrás do outro, dão a volta a uma data de mesas,
continuam numa daquelas de gato e de rato, que até o Rogério, que se tinha
levantado mais cedo e se sentava já para ler o Século, deu um salto com o susto
que apanhou, coitado. Mas o inspetor, com a sua calma e sabedoria de polícia
experimentado, esticou uma perna e o tipo que fugia à frente estatelou-se no
chão que foi uma beleza. O que o perseguia, aos gritos de ladrão e de
vagabundo, trazia uma bengala na mão, cujo cabo nos pareceu ser de prata e nem
esperou que o larápio se levantasse, começou à bengalada nas costas e na cabeça
do ladrão que foi um ver se te avias, de tal forma que naquela noite, tal foi a
força e a precisão da bengala, nos calabouços da polícia ninguém dormiu com os
ais, fiteiros mas a propósito, de Ismael Torquato, mais conhecido pelo turco, que
gemeu toda a santa noite. Mas isto de ladrões que roubavam por esticão e
carteiristas era o que naqueles tempos não faltava na cidade de Lisboa. Quem
sabe, um dia mais tarde, ainda vos conte uma história real passada no elevador
da Glória e que, se ela é dramática, não deixa de ser hilariante. Mas adiante
que a prosa já vai longa, não haveria novidade nenhuma em se caçar um
carteirista se o turco, cujo nome completo é Ismael da Siva Torquato, nascido
em Lisboa, freguesia do Alto do Pina, não fosse o célebre rececionista de uma
pensão na Mouraria, pensão essa que tinha serviço de águas quentes e frias.
Também não foi brilhante porque em maio, mês de trovoadas por excelência, mal o
nosso inspetor entregou o caso do turco aos seus colegas da polícia municipal,
com a recomendação de que, após o auto por roubo, o turco deveria passar para o
foro da judiciária, já que havia algumas desconfianças de envolvimento no
assassinato de Isabella Vicentini, que não vale a pena repetir, mas que se relembra
era corista de revista no Parque Mayer, a quem foram infligidas sete facadas no
seu próprio apartamento da baixa, começou a cair uma daquelas bátegas de água,
bem acompanhada por assustadores relâmpagos e não menos temerosos ribombares de
trovões que só por algum acanhamento não o colocou de joelhos a rezar a Santa
Bárbara. Isto acabou por atrasar o nosso inspetor na sua missão no Hospital dos
Capuchos e todo este relato acaba também por atrasar os meus leitores, pois o que
mais eles querem saber, neste momento, é se o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham
se confirma ou não.
Não foi calma a manhã do inspetor Flores, Ismael de sua
graça. Para além do que se acabou de relatar, se isto fosse verdadeiramente um
livro, apareceria aqui uma série de complicações burocráticas até que a
Judiciária se conseguisse apropriar da informação que tanta falta lhe faz. Mas
não, isto não é um livro, é apenas um blogotexto, escrito em Calibri 11 no word
e depois transcrito para o espaço que me foi concedido pela blogger dot com e
por isso é que o narrador costuma ir, logo de rajada, direto ao assunto. E
seria isso que estaria a fazer neste momento se por acaso não tivesse tido a
desdita de supra referir que a manhã não tinha sido calma, pacífica e brilhante.
E, se já vimos que não foi pacífica nem brilhante, não foi calma porque o
diretor do hospital não só começou por negar ali alguma vez ter trabalhado o
tal doutor judeu Ismael ben-Avraham, mas também porque lhe negou o acesso aos
registos sem uma ordem de um Juiz de Direito. O que o narrador está aqui a
dizer, faz parecer aos seus leitores que, em 1956, Portugal era um estado de
direito, cumpridor com os direitos dos seus cidadãos e também a fazer crer que
a polícia, naquele tempo, não era de uma prepotência atroz, a todos os níveis
tolerada pela hierarquia e pela tutela. Mas fica bem falar bem do país, passe a
duplicação de termos, pois nada me garante que isto não venha a ser lido por
algum estrangeiro e não basta, hoje em dia, o país andar tão de rasto com a aquela
coisa das agências de rating e coisas
assim e tal. Mas continuando a ir direto ao assunto, como é apanágio de quem
aqui escreve, lá teve o nosso inspetor de pedir um mandato ao juiz Ismael Fagundes
de Oliveira, que naquele dia era quem estava de serviço na comarca, mas poderia
ter sido assinado por outro qualquer já que o diretor do hospital, na época o
senhor professor doutor Ismael Gutierres Fernandes, facto que pode ser
confirmado nos arquivos do referido hospital, nem olhou para o nome do juiz e mal viu uma
assinatura com um selo branco logo lhe franqueou todos os acessos.
Infelizmente não vai ser hoje, porque o texto já vai longo,
que saberemos se o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham pode ser confirmado, quando
ele, no primeiro interrogatório que lhe foi feito, referiu que teria estado a
trabalhar nas urgências do referido hospital, vinte e quatro horas seguidas, só
tendo saído de serviço ao meio dia, já após o crime ter acontecido na pessoa da
malograda Isabella. Uma testemunha anónima, uma enfermeira feia, de quem não
podemos revelar o nome por causa do segredo de justiça e que por mais de uma
vez tinha levado negas do médico judeu, afirmou em surdina que antes das seis
da manhã o doutor se ausentou um pouco, indo na sua cola a jovem enfermeira Meireles
e que só regressaram perto da oito da manhã, o que levantou algum burburinho
entre os colegas mais púdicos. Ninguém sabe se a enfermeira feia estava a
inventar aquilo por uma questão de vingança ou se teria sido verdade pois não
havia registo de ausências na folha de serviço hospitalar. Mas Francisca é perentória
a escrever no seu manuscrito ao sublinhar o adjetivo feia logo a seguir a
enfermeira, embora seja um pouco dúbia no que respeita às relações de ben-Avraham
com a enfermeira Meireles. O que os meus leitores não estranharão com certeza é
que o escritor diga que talvez mais tarde venhamos a saber sobre a validade
deste alibi, mas admirar-se-ão, sem sombra de dúvidas, por a Quinta do Conde
não ter tido protagonismo neste episódio.
