sexta-feira, 2 de março de 2012

108. Ismael (31) - Um ato falhado. Ou dois...


Certa vez foi à noitinha, o Chico do Cachené, chamou-me e disse Farinha, e por aí a fora. É mais ou menos assim que começa um fado de Lisboa cantado pelo saudoso Fernando Farinha a contar resumidamente a história da vida do Chico do Cachené. Uma ocasião, é assim que começa um amigo meu cada vez que quer contar uma história. Também acho interessante a fórmula, porque cada história começa num determinado momento que pode muito bem ser ocasional. Por era uma vez, começa a maioria das histórias que conhecemos, que nos foram contadas pelos nossos avós, pelos nossos pais e que agora continuamos a contar aos nossos filhos e aos nossos netos. Pois sendo eu um contador de histórias, nenhum dos meus leitores me perdoaria se eu, neste primeiro volume de uma trilogia que se adivinha, a saber, as “histórias da tasca na baixa”, os “contos da floresta virgem” e as “fábulas da folha de couve”, não tivesse pelo menos um conto, uma história, um folhetim, um episódio, um simples passo, que não começasse por era uma vez… pois então que não me perdoem, porque ainda não será hoje que eu vou começar a minha história pela tão célebre frase.

Já que me mostraste a tua, agora vou-te mostrar a minha. Pode ter sido um ato falhado. A minha amiga madeirense (*) que coça pulgas como ninguém e avó de umas quantas, resolveu virar-se para o seu senhor e atirar-lhe com essa pérola durante um passeio que faziam pelo Norte de Portugal. Ato falhado, acho eu e não sei como é que aquela rural acabou por explicar ao seu homem por onde andavam os seus pensamentos. Tanto quanto ela nos explicou, deveria ter dito ao marido, Já que mostraste o Tua, agora vou-te mostrar o Minho. Nem sempre o que parece é, nem sempre o que é, parece.

Todas as tardes, durante um largo período de tempo, até que o pide de serviço achasse que aqueles jogos não eram mais que um pretexto para estarem mais de três juntos, um comportamento considerado muito suspeito pelo salazarismo, jogou-se à sueca na tasca do meu amigo Ismael. O Rogério era dos poucos que não jogava mas assistia e se vos vou contar esta história foi porque ele ma contou, pois eu nessa época não teria idade para frequentar locais onde se jogassem cartas. Entre as três e as seis, o movimento na tasca do galego era muito reduzido. Os almoços já tinham terminado de ser servidos, um ou outro cliente entrava e saía depois de ter bebido o seu morangueiro ou o bagacinho caseiro que o Ismael servia à socapa, raramente alguém para um carapauzinho de escabeche ou mesmo para uma ginjinha e muito menos para um pastel de bacalhau. Turistas eram poucos, já que  naquele tempo Lisboa não estava na moda e o resto andava a trabalhar e, sendo assim, principalmente no verão, a baixa era um autêntico deserto. Nos intervalos das viagens o Sebastião não tirava, literalmente, o cu, ou, literariamente, o rabiosque da tasca do Ismael, só para “morder” (entre aspas, claro) a Fernandinha, um desgraçado daqueles que, às quatro da manhã, quando a Isabella, entretanto assassinada, vá lá saber-se por quem (**), chegava do teatro, ia logo meter-se na cama da italiana. O ardina, o jovem imberbe Ismael da Sacola, como era conhecido, porém já com os seus dezanove anos completos, à espera de ser chamado para as sortes. O nosso conhecido Ishmail Baruch, velho sabido, campeão da bisca lambida, mas de reconhecidos méritos na sueca, com muitas renúncias à mistura e o filho do senhor Ismael da Farmácia que, por não se lhe conhecer profissão, também era conhecido pelo vadio da outra banda e que saía todas as manhãs, perto do meio-dia da madrugada, da Quinta do Conde para vir arranjar emprego em Lisboa, mas que nem tentava, pois o pai ia-lhe dando para os gastos. As tardes, quando não havia sueca na tasca do Ismael, passava-as ele no Largo do Carmo, com um bandolim mal afinado a tocar polkas para dar nas vistas.

Os quatro sentados à roda de uma mesa e o mais que sabido e um tanto ou quanto batoteiro, nosso conhecido Sebastião, a não perder a oportunidade para espreitar a mão de Fernandinha, bisbilhotando-lhe o jogo e daí tirando vantagens. Fernandinha estava mais que ruborizada de tanto descaramento e irritadíssima por o seu jogo estar as ser devassado a cada jogada. E numa afirmação de inconformismo marcou a sua posição,  se você volta a despir as calças… ainda tentou emendar, corrigindo para, se você volta a me ver as cartas, mas já ninguém a ouviu. O ato falhado é assim mesmo. Nem que seja numa tasca de vinhos e petiscos, à roda de uma mesa de sueca e quando uma gargalhada não chega para colmatar o embaraço de quem o tem.

(*) O autor refere-se a uma blogger muito apreciada que se apresenta como avó de pulgas.
(**) Segundo o autor, com sete facadas, logo sete o que tornou o crime deveras sangrento.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

107. Ismael (30) - Mas afinal quem é que é esse tal Castro Ribeiro?



Francisca escreve muito bem, dizia o inspetor Ismael Sacadura Flores olhando para o jovem Espinheira, depois deste lhe ter lido a página noventa do manuscrito. O jovem paleólogo tinha conseguido decifrar a terceira parte do conto de Francisca enquanto, por outro lado, se ocupava das biografias que ela escreveu de alguns dos personagens, eventualmente envolvidos na morte por esfaqueamento da pobre corista italiana. Sete facadas é coisa que não se faz a ninguém, mas esta infeliz não conseguiu ter melhor sorte. Leia-me isso outra vez pedia, quase encarecido, o inspetor Ismael Flores ao jovem estudante de Letras e avençado do Estado, leia-me outra vez, Espinheira, que isso é tão bonito. E o Espinheira leu.

«A idiossincrasia do que parecia ser o chefe do grupo, dado que todos os restantes pareciam idolatrá-lo, criou-me a ilusão de que seria idóneo. Quando me desloquei a caminho do deserto, estava realmente convencido que o era. No entanto pequenos igarapés cortavam o terreno em quase todo o seu comprimento e em toda a sua largura, criando malhas incomensuráveis de água, o que nos obrigou a dividirmo-nos em ínfimos grupos de apenas três indivíduos mas que mal cabíamos nas igaras estacionadas em fila. Chegamos finalmente a uma pequena ilha, ao fim de mais de 12 horas de viagem sem nada comermos. Apenas um gole de água, que um dos indígenas me ofereceu, por uma única vez. Quando chegamos, o meu aspeto apresentava-me como um ser ignóbil. A ilha estava iluminada aparentando ser uma igreja natural. De repente, tive a sensação de me ter deixado iliçar. Ígneos archotes debruavam um caminho que me conduziria ao mais ignoto dos mundos. Eu, que não era da igualha destes autóctones, estava a ser convidado a sentar-me à volta de uma mesa coberta das mais exóticas iguarias. Não arranjei coragem para ilidir. Só pensava se sairia dali ileso»

É ou não é lindo, Espinheira?, confesse lá. Espinheira que não era pago para dar opiniões ou para confessar o que quer que fosse, mas apenas para decifrar os quase hieróglifos cursivos de Francisca, assentiu com a cabeça e perguntou ao inspetor se afinal queria saber alguma coisa sobre o Dr. Castro Ribeiro ou não. O inspetor Ismael Sacadura, olhou para o relógio e ao reparar que ali por perto estava o Rogério, cumprimentou-o tirando a boina basca que por vezes usava, principalmente quando estava frio. Rogério que se tinha sentado na mesa ao lado era todo ouvidos no conto de Francisca que, penso eu, narrador destes feitos, ainda poderá vir a ser uma coisa interessante. Levantou-se então o inspetor, arrastando consigo o jovem futuro licenciado em filologia românica, sentando-se ambos numa mesa mais recatada. E entre dois carapaus de escabeche e um branquinho caseiro dos lados de Torres Vedras, diz Espinheira que a páginas quarenta e oito e também sessenta e dois, Francisca se refere ao seu ex-marido nos seguintes termos.

“O Castro Ribeiro era um homem muito interessante na sua juventude. O padrinho dele, um padre de uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães, depois de ter mandado o menino estudar no Seminário Maior do Porto, ainda o enviou para Coimbra terminar o ensino liceal, dado que o Nuno, seu primeiro nome, não era dado às coisas da Igreja. Vivendo numa República, Castro Ribeiro terminou os cinco anos do curso de Direito em oito, mas entre bebedeiras e mulheres ficou-lhe uma famosa reputação de advogado honesto e competente, com escritório montado em Vila Nova de Gaia. Especializado em importações e exportações logo se deu com os maiores produtores de vinho do Porto, com as suas festas privadas e com as inevitáveis bacantes. Vinho e mulheres, mulheres e vinho. Bem me avisaram quando me casei com ele...”, lamentava-se Francisca às tantas, mas o inspetor pediu a Espinheira que saltasse as partes piegas que isso seria coisa mais falada no futuro e nada adiantaria para desvendar o crime. E assim Espinheira obedeceu, de modo que ouvimo-lo, quero dizer, ouvimo-lo não, eu é que inventei isto pois sou o narrador, mas fica bem dizer ouvimo-lo continuar, já saltando alguns parágrafos. “Contratado que foi para descobrir o que se teria passado com uma conta de um judeu famoso, de origens russas, aberta em Zurique, vem Castro Ribeiro muitas vezes a Lisboa”. Senhor Inspetor, vou agora saltar aqui umas frases que, ou são piegas ou são carnavalescas se não se importa, solicitou a permissão, o jovem Espinheira, ao inspetor encarregado por este homicídio, que todos sabemos ser Ismael Sacadura Flores. Entretanto, Ismael Sacadura Flores, pediu a Ismael Gusman, o dono da tasca da Rua dos Correeiros e meu amigo, galego de nascimento, que lhe trouxesse mais dois carapaus, com bastante molho e uma fatia de pão, enquanto Espinheira acabava de arrotar o gás de um pirolito, com sabor a limão, que tinha acabado de beber. Salte sim, Espinheira, deixe para outra ocasião as pieguices e fale-me lá dessa conta na Suíça, anuiu o inspetor ao pedido de Espinheira, sem qualquer tipo de contestação. Oh senhor Inspetor, retorquiu o Espinheira um bocado embaraçado. Se eu lhe contar tudo agora não fica nada para dar algum suspense à cena. Não acha que deveríamos deixar para depois do escabeche. É que até a mim me estão a apetecer uns carapauzinhos.

Enquanto os dois comiam, levantei-me, dirigi-me discretamente ao balcão, olhei para o decote de Fernandinha, hoje um pouco mais atrevido do que é costume, ainda mais atendendo à época e falei baixinho ao ouvido do meu amigo Ismael Gúsman. Sabe meu caro, eu suponho que aquele número atrás da medalhinha que os judeus andam à procura tem alguma coisa a ver com a conta na Suíça, o que é que você acha? E depois de o ver franzir os dois sobrolhos de uma só vez é que me atrevi a perguntar. Mas diga-me cá uma coisa amigo Ismael, o que é que isso pode ter a ver com o facto do Dr. Castro Ribeiro andar às seis da manhã, em pleno Cais do Sodré, quando a Ribeira já se enche de pescado, frutas e legumes, orégãos e flores, entre elas gladíolos e magnólias, aos gritos de “eu mato aquela puta, eu mato aquela puta”? O Ismael olhou para mim com um ar muito sério, quase como se fosse meu pai e repreendeu-me. Constantino, estamos em mil novecentos e cinquenta e seis, o menino ainda nem fez um ano de idade, isso são palavrões que se digam? É por estas e por outras que eu gosto mais de escrever ficção científicas do que romances de época. Acho que um dia destes ainda escreverei, “2087, o assassínio de uma corista em Andrómeda”.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

106. Cinquenta e sete


Naquele tempo eu e o meu irmão Leopoldo jogávamos à bola onde quer que fosse, numa praceta alcatroada da estrada ou numa de terra batida entre prédios, numa eira de trigo e milho, numa clareira onde quatro pinheiros ou outras quaisquer quatro árvores cortadas ou em pé, serviam de balizas, no adro da ermida onde íamos à missa ou no largo do liceu com balizas feitas de malas e agasalhos, onde só era golo se a bola passasse rasteira, vá lá a meia altura, pelo meio da baliza, pois, caso contrário seria “altas” ou no “poste”, invisível, imaginado no prolongamento do monte de pastas e livros. E era por detrás do prédio dela, pisando ervas e cardos, destruindo arbustos. Naquele tempo em que eu era um pequeno e esguio avançado-centro e o Leopoldo o guarda-redes, onde os árbitros somos nós e a voz mais poderosa, aquela que decidia se o jogo ia continuar ou não, era a do dono da bola, naquele tempo discutia-se se uma bola foi “altas”, ao “poste” ou golo, na voz alta, estridente e esganiçada de crianças, onde para o avançado era sempre golo e para o guarda-redes nunca o era, acontecia chegarem a vias de facto, até que, no fim, pudesse ser erguida a taça. E ela na janela a ver os miúdos da sua idade a jogarem à bola com, quem sabe, mais olhos para o avançado-centro do que para o guarda-redes, o médio ou o defesa, ela que quando acabava o jogo, ou antes, fechava a janela, corria as cortinas e se fechava em casa com os longos cabelos dos seus doze anos, por vezes transformados em bonitas tranças, sainha curta e bata branca, muito branca, quando caminhava para a escola. E o avançado-centro esbaforido e de rosto vermelho de cansaço que se exibia marcando golos, limpos ou ao “poste”, para a menina de doze anos, debruçada sobre o parapeito da janela ou que, de banho já tomado, na sua calça de fazenda vincada e camisa bem engomada, um pullover se era inverno, a esperava às escondidas na rua em frente à porta da saída da escola e depois se atravessava numa qualquer travessa para não ser visto e já com ela de costas lhe admirava os longos cabelos negros.

Passam-se os anos, a menina de doze anos casou com o avançado-centro, há dois filhos e um neto e a menina que fazia tranças no cabelo hoje usa-os mais curtos, já não são tão negros assim e é uma felicidade somar mais um ano aos seus doze anos e, viver com a graça de Deus, mais este vinte e oito de fevereiro, não com doze, nem com treze, nem com catorze mas com alegria e não vou dizer quantos mais. E o avançado-centro, que agora já não é esguio o suficiente para correr em cima de cardos e marcar mais um golo ao Leopoldo, limpo ou ao poste, mas que ainda tem fôlego para cantar as quadras dos parabéns a você e erguer lá no alto uma taça mas agora de champanhe.

As coisas que a gente se lembra quando se cumpre mais um ano de vida. Parabéns, amor e que contes muitos que eu vou contando histórias.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

105. Ismael (29) - Uma tasca sempre às vossas ordens



Quando tento escrever algo com mais sentido, coerência ou até graça, não me sai nada da cabeça. É por isso que me socorro muitas vezes de livros escritos há mais de duzentos anos, por autores completamente desconhecidos do grande público, encontrados aqui e além em alfarrabistas anónimos e lhes roubo meia dúzia de ideias, leio almanaques do primeiro quartel do século XX com anedotas do Bocage e desfaço-as em contos e leio alguns livros de filosofia para debitar umas frases com enfase e erudição. Costumam dizer os críticos que o escritor fulano de tal sofre a influência do grande romance realista queirosiano, ou que beltrano é um fruto do novelismo contestatário camiliano, ou, ainda, que sicrano é mais um que seguiu a escola da poesia parnasiana. Outros desenvolvem a sua escrita socorrendo-se por exemplo do filósofo judeu sefardita Edgar Morin para construírem algo que se pareça fruto de um pensamento complexo, mesmo que só fique bem na adjetivação da sua obra ou, outros ainda, são tão lineares e racionais que, diriam os críticos com toda a pompa e alguma circunstância, os seus romances, ensaios e ficções são mais cartesianos que o próprio pensamento de Descartes. Pois eu, para além das dicas sobre os truques que uso e que já foram supra referidas, antes que a crítica me venha a classificar e englobar num qualquer grupo ou numa qualquer escola literária, classifico-me a mim próprio, passe a redundância, como um homem de escrita de influência predominantemente franciscana. E não me venham falar que de S. Francisco de Assis não se conhecem obras escritas mas sim as mais variadas biografias, que talvez eu estivesse a confundir-me com o padre António Vieira e tal, mas aí já seria jesuíta. E como eu não lhes quereria responder apenas, pois! tenho, portanto, que esclarecer que o meu franciscanismo não provém de nenhum santo ou padre mas sim do facto da maioria da minha sustentação literária estar, última e praticamente, confinada ao manuscrito de Francisca, esse sim, um compêndio escrito de alto a baixo, nas margens e nos rodapés, profícuo em contos como os ”Contos das ilhas de lá”, em novelas policiais como “O Dia da morte de uma bailarina”, cujo texto já é quase todo do vosso conhecimento,  em ficção como “A chapa das notas de vinte paus”, já para não falar na série de contos “Na taberna do galego”, onde eu me inspirei para que hoje em dia ande a escrever um bloglivro.  Também me inspiro nas suas capacidades de biógrafa não autorizada, sendo que bebi muito na obra de Francisca desde a biografia do  “Dr. Nuno Castro Ribeiro” subtitulada  “proeminente e honrado advogado de Vila Nova de Gaia”, à biografia da grande bailarina neoclássica Ekatrina Smirnova, neta de um velho judeu russo, expulso pelo czar Nicolau II, durante os famosos progroms passando pela, de entre as mais importantes, obra biográfica e histórica  “Fernandinha, a roliça beirã”, como ela mesmo a intitulou. Desta inspiração franciscana poderão sair e deverão mesmo sair mais alguns episódios de Ismael mas isto só será possível enquanto a taberna estiver aberta, os clientes continuarem a cá vir, nem que seja comer um pãozinho com cheiro, que coisa boa de comer e beber não irá faltar nesta tasca, assim os governos no-lo permitam. Enquanto a Teresa, a Luísa, a Assíria, o Rogério, a Janita, a Teté, a Margarida, o Eufrázio, o Manel, a Cida, a Manu, a Eva, o Maceta, o Chuva, a Paula, o Carlos, a Piedade, a AvoGi, a Fatyly, a Canto, a Justine, o Rafeiro, a Catarina, a Custódia, a Eva, a Lis, a Maray, o Peras e tantas e tantos outros aqui entrarem, o negócio da taberna vai dando para os trocos, não fechará a porta por falência e terão aqui alguém fortemente inspirado pela manuscritora Francisca a escrever para vocês.

E nesta tertúlia, que se reúne aqui pela tasca do meu amigo Ismael ainda há tempo e apetite para uns croquetes de atum com arroz de pimentos e um verde de Ponte de Lima. Alguém alinha?


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

104. Ismael (28) - O dia em que o inspetor Ismael Sacadura Flores desvendou quem matou Isabella




Era hoje. Ia ser desvendado quem foi que matou Isabella. A reunião foi convocada num misto de passa-palavra, de convites e de intimações. Nem de outro modo poderia ser, dado o caráter heterogéneo dos intimados e convidados e, dadas as circunstâncias. O inspetor Ismael Sacadura Flores não era apenas o mais qualificado diretor de departamento da PJ, mas também o grande estratega da corporação. Apenas uma ligeira desavença, devido a coisa de somenos importância, que se um dia me aprouver vos contarei, mas que adianto, para que vejam como os homens se chateiam uns com os outros, chegam até a vias de facto ou guerreiam-se em conflitos locais e por vezes mundiais. Um desentendimento por causa de um arroz de lampreia entre o inspetor Sacadura e o senhor Ministro da Justiça, fez com que o primeiro nunca tenha chegado a diretor nessa mesma polícia criminal, embora todos saibamos que, na liça, quem tinha razão era mesmo o inspetor Ismael Sacadura Flores. Mas adiante, o que hoje interessa menos são as incidências de um arroz de lampreia mal sucedido e mais o crime, hediondo já se sabe e como ele deve ser tratado. Pois se restassem dúvidas aos meus leitores e leitoras relembro que estou a referir-me às sete facadas que prostraram no soalho daquele sexto andar do número quarenta e três, já sem vida, a linda, a elegante e até simpática, atrever-me-ia a escrever deveras simpática, corista italiana do teatro de revista.

O Dr. Castro Ribeiro recebeu um telegrama de Francisca, sua ex-esposa, um telegrama em que referia assuntos de comum interesse. O local do encontro seria na célebre taberna, superiormente gerida, como se diz hoje, pelo meu amigo e empreendedor, como também se diz hoje, Ismael Gúsman. Já o Rogério não precisou nem de ser intimado nem de ser convidado pois, para ele, não havia melhor convite do que o cheiro dos passarinhos fritos. A Isaurinha bate-sola, que não perdia uma para ficar frente a frente com a Fernandinha, a vontade dela era puxar-lhe os cabelos nem que fosse em pensamento, quando soube que Sebastião também lá ia estar, cancelou um compromisso com um construtor civil que estava a erigir, em dois lotes na Quinta do Conde, prédios de três andares com loja e sobreloja. Para o Espinheira bastou um telefonema do inspetor Sacadura, aliás o mesmo inspetor que fez o favor de chegar a Toronto no Canadá um bilhete de ida e volta e uma intimação da Interpol para que a misteriosa idosa de Trás-os-Montes não se pudesse recusar a estrar presente. O velhinho Ismail Baruch que andava a chá de limão e Saridon, para tratar de uma grande constipação que só o fazia sair de casa às cinco da tarde para, às escondidas do sobrinho ir beber uma ginjinha e espreitar as pernas da Fernandinha, lá estaria também. Difícil foi conseguir as presenças de Ekatrina Smirnova, a braços com um invulgar trabalho de pernas para a estreia do bailado da Companhia no próximo fim-de-semana e o Dr. Ismael ben-Avraham que alegou estar de serviço nas urgências dos Capuchos, embora não haja nenhum registo de que este médico alguma vez tenha feito serviço naquela unidade hospitalar (unidade hospitalar em vez de hospital, deste estilismo é vocês não estavam à espera, confessem). Se um piscar de olho do chefe de brigada Ismaelix foi o suficiente para trazer Ekatrina com ele, diziam na época que eram mais as vezes que Ekatrina dormia na cama de Ismaelix do que na sua cama, no mesmo apartamento onde a vítima veio a ser esfaqueada, já para convencer o judeu foi necessário que o outro chefe de brigada Ismael de Almeida, que já conhecemos dos seus dotes especiais para alimentar pombos a milho,  lhe acenasse com dois Montecristo nº 3 e mesmo assim ficasse ainda de arranjar uns Partagas Lusitaneas  que um contrabandista famoso, que costumava parar no Barba Roxa, um bar mal afamado do Largo de S. Paulo, lhe arranjava todos os meses, vindos diretamente de Cuba. Francisca essa, altiva e presunçosa tinha a certeza que a sua presença seria indispensável e fez-se representar sem convite, nem intimação. Sebastião, acabado de chegar de uma viagem que fez como ajudante de cozinheiro num paquete italiano, que levava europeus para trabalharem nas américas, ajudava a tia Francisca a subir e a descer dos autocarros e a entrar e a sair do vapor, pois, naquele tempo, a viagem da Quinta do Conde, num velho autocarro dos Belos e uma viagem no Sul Expresso, um cacilheiro que mais parecia um charuto, não era coisa pouca. E se já sabemos que Sebastião tinha um forte alibi, pois andava embarcado no dia em que mataram Isabella, pobrezinha, com sete facadas e que além disso andava embeiçado pela criatura, também acabou por fazer parte dos presentes. Mas este com intimação policial, o que, como acabei de escrever nas três ou quatro linhas acima da necessidade de acompanhar a tia Francisca, não teria sido preciso.

E se às sete horas da tarde já todos estavam a postos para escutar as alegações policias, passava já da meia-noite, entre iscas com elas, lombinhos na chapa, passarinhos fritos, saladas de orelha, pasteis de bacalhau, sandes de torresmos, carapaus de escabeche, ovos cozidos com e sem sal, sangacho de atum com feijão-frade, vinho tinto do Cartaxo, morangueiro de Ponte de Lima, laranjadas e pirolitos, para além da caixa em forma de pirâmide triangular dos palitos Confiança, os melhores para palitar dentes, que esteve sempre em cima da mesa, vários maços de tabaco consumidos, quando, num ambiente pesado, com uma nuvem de fumo a pairar-lhes sobre as melenas, o Inspetor Ismael Sacadura Flores concluiu e anunciou quem matou Isabella Vicentini. Alguns viraram as cabeças para um lado, outros para o outro. Os restantes baixaram a cabeça, exceto uma pessoa que olhou pra o teto, mas não nos pareceu, que alguém tivesse ficado admirado.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

103. Ismael (27) - Seio familiar



No seio familiar não houve surpresas. A minha mãe disse-me que já estava à espera, pois já era um hábito de família. E relembrava-me que o meu irmão Leopoldo, deste há muitos anos, escreve programas de computador e que o meu mano Paulinho escreveu já uma tese de mestrado, outra de doutoramento e passa o tempo a escrever artigos em revistas. Já para não falar nos teus filhos, rematou. Só me faltou dizer que eu saio a eles, logo eu que sou o mais velho. O meu pai quis também saber do que é que tratava o livro, mas quando lhe comecei a explicar e depois de ter voltado ao princípio duas vezes, ele achou tão complicado que me contou a anedota da moça que quando recebia aerogramas escritos pelo namorado, no tempo da guerra, os levava ao farmacêutico para decifrar. O meu pai aproveita quase todos os ensejos para dizer uma graça. Acho que ele tem a quem sair. Adiante.

Depois falamos de coisas mais práticas, eles quiseram saber quando é que sai o livro, quanto é que vai custar, se eu já tenho muitas encomendas e tal e foi aqui que surgiu a confusão toda. Expliquei-lhes que isto não era bem um livro, nem tão pouco eu próprio sabia se não seria um abuso estar a chamar-lhe livro, pois não é de papel (tenho de fazer um parêntesis para vos dizer que descortinei neste preciso momento o primeiro sinal de admiração pois, que eles saibam, livro é mesmo papel e não há cá nem fun-funs, nem gaitinhas), é escrito na internet e que só quem tem esta ligação é que me pode ler. Talvez se algum dia vier a ser publicado, aí sim, poder-se-á vir a chamar livro, mas haverá sempre quem diga que, como livro, o melhor era eu ter ficado quieto e não se falava mais nisso, mas nós já sabemos como cruel é a crítica. Pelo sim, pelo não, lá me foram dizendo para quando eu fosse lá a casa com a tal internet, lhe lesse umas paginazitas para verem se eu tinha jeito para a coisa. Depois despedi-me, com um beijo, da minha mãe, que ficou com uma lágrima no olho, cheia de pena da Isabella e que ainda me perguntou porque é que deram logo sete facadas à rapariga, que isso não se faz, não há direito, palavras dela. E saí com o meu pai.

O meu pai, pôs-me um braço por cima do ombro, caminhamos no corredor direitos à porta, descemos as escadas lado a lado e, já na rua, suspirou-me, com que então escritor! Eu corei um pouco, porque sou modesto e aproveitei para lhe pedir desculpa por naquele dia, quando eu andava na escola primária, em que ele me ofereceu a minha primeira caneta de tinta permanente eu tê-la deixado roubar. Pela primeira vez ele confessou que nunca se tinha importado com isso pois sempre pensou que eu viria a ser jogador de futebol. Como estávamos longe da taberna do Ismael, entramos no café lá do bairro e fomos beber dois abafadinhos. Quando me vim embora ainda me perguntou, mas sete facadas porquê?


domingo, 19 de fevereiro de 2012

102. Ismael (26) - Correntes



Oh Senhor Constantino, assim começou a conversa que o meu amigo Ismael Gúsman quis ter comigo, mas com sotaque galego. E porque não estou com vontade de o fazer, nem sei escrever muito bem em galego, vou-vos relatar tudo isto em português. Oh Senhor Constantino, eu até estou com medo. Eu que tinha acabado de entrar na taberna da Rua dos Correeiros fiquei bastante baralhado. Medo de quê?, pensei em perguntar-lhe, mas não perguntei. Olhei primeiro para o fundo da sala e como o pide não estava lá, achei que não era coisa política. Olhei para as prateleiras, intactas e arrumadinhas, não havia sinais de assalto ou tentativa, também não seria por aí. Diga-me o que é que o aflige, amigo Ismael, ainda pensei em incentivá-lo a prosseguir, mas não o incentivei. Olhei-lhe o rosto, os olhos tinham um ar normal, não me pareceu que estivesse doente. Oh homem acalme-se e diga-me o que é que tem, pensei ainda em dizer-lhe, mais ou menos de uma forma imperativa, embora tentando não o forçar em nada, mas não lhe disse coisa alguma, já que Ismael estava numa pilha de nervos como nunca lhe houvera visto. Desembuche, homem, sou todo ouvidos, foi o que finalmente me ocorreu, mas acabei por, naquele instante, ficar calado.

Tudo isto não durou mais do que uma fração de segundo, quer os meus pensamentos não consumados nem em palavras nem em atos, quer os meus olhares, que rondaram, a bem dizer, os trezentos e sessenta graus. Não mais de que uma breve fração de segundo o que, em determinadas circunstâncias, tem tendência a parecer-nos uma eternidade. Mas o que é a eternidade senão um somatório de pequenas frações de tempo que arrastamos e acumulamos por séculos e séculos? E se eu agora desatasse aqui a filosofar sobre o tempo, sobre a eternidade, sobre o sobrenatural, sobre o exoterismo, sobre quiçá o apocalipse, sobre o julgamento final, sobre a redenção das almas. Não teria interesse nenhum, juro-vos, não só porque não sou especialista em nenhum destes assuntos, mas também porque me desviaria completamente do tema deste texto e, mais ainda, do real objetivo do compêndio que ando a compilar. Voltando ao assunto que me levou a escrever este capítulo, o qual não é definitivo pois ainda o porei à consideração daquela moça que encontrei um dia à mesa do café e que por coincidência ou não, vim a saber mais tarde, é filha do senhor Ismael da Ervanária, doutor licenciado em farmácia e responsável técnico daquele estabelecimento da Quinta do Conde. Se ela achar que o deva publicar então levá-lo-ei ao vosso conhecimento.

E neste nano-segundo decorrido desde que Ismael me disse, Oh senhor Constantino, eu até estou com medo e este preciso momento em que estou a dar continuidade à frase, já quase que me ia perdendo. Oh Senhor Constantino, eu até estou com medo de não dar seguimento a isto, acabou finalmente por concluir a frase. E, ato contínuo, mostrou-me então uma carta anónima, acabadinha de chegar no correio das dez da manhã, com uma oração a S. Judas Tadeu, uma série de ameaças veladas em castigos e punições, a ele e à sua família que, para o efeito, era naqueles tempos ainda e só o Ismael Gúsman Júnior ou simplesmente Júnior, como era conhecido o seu filho, já que o neto, o Ismaelzinho, ainda não tinha nascido e ainda uma série de recompensas, nomeadamente a sorte grande na Lotaria Nacional consoante ele escrevesse ou não uma nova oração, juntasse àquela e mandasse a sete pessoas diferentes num prazo de três dias.

Eu lembro-me desta cena perfeitamente como se fosse hoje. Bem sei que naquele tempo toda aquela gente já tinha esquecido a morte de Isabella, a corista italiana que tinha sido assassinada com sete facadas, sete sim, não foram poucas, o que era normal, pois isso tinha sido há dezoito anos atrás. Nunca mais na Rua dos Correeiros, nem tão pouco na Quinta do Conde houve similar tragédia. Mas era disso mesmo que Ismael e outros, que eu também vim a saber terem recebido cartas similares, tinham receio que se viesse a repetir, se quebrassem aquela corrente. E meus amigos e amigas que tiveram a paciência de me ler até aqui, quereis saber como é que lhe respondi e o que é que eu, efetivamente, fiz? Molhei os lábios num copo de tinto, daquele carrascão que deixa os bordos todos vermelhos, dei-lhe um beijo na testa e disse-lhe, Ismael, meu caro e grande amigo, durante os três dias não apague o sinal do meu beijo; isto é um selo que merece ostentar se tiver a coragem de quebrar essa corrente.