Era hoje. Ia ser desvendado quem foi que matou Isabella. A
reunião foi convocada num misto de passa-palavra, de convites e de intimações.
Nem de outro modo poderia ser, dado o caráter heterogéneo dos intimados e
convidados e, dadas as circunstâncias. O inspetor Ismael Sacadura Flores não
era apenas o mais qualificado diretor de departamento da PJ, mas também o
grande estratega da corporação. Apenas uma ligeira desavença, devido a coisa de
somenos importância, que se um dia me aprouver vos contarei, mas que adianto,
para que vejam como os homens se chateiam uns com os outros, chegam até a vias
de facto ou guerreiam-se em conflitos locais e por vezes mundiais. Um
desentendimento por causa de um arroz de lampreia entre o inspetor Sacadura e o
senhor Ministro da Justiça, fez com que o primeiro nunca tenha chegado a
diretor nessa mesma polícia criminal, embora todos saibamos que, na liça, quem
tinha razão era mesmo o inspetor Ismael Sacadura Flores. Mas adiante, o que
hoje interessa menos são as incidências de um arroz de lampreia mal sucedido e
mais o crime, hediondo já se sabe e como ele deve ser tratado. Pois se
restassem dúvidas aos meus leitores e leitoras relembro que estou a referir-me
às sete facadas que prostraram no soalho daquele sexto andar do número quarenta
e três, já sem vida, a linda, a elegante e até simpática, atrever-me-ia a
escrever deveras simpática, corista italiana do teatro de revista.
O Dr. Castro Ribeiro recebeu um telegrama de Francisca, sua
ex-esposa, um telegrama em que referia assuntos de comum interesse. O local do
encontro seria na célebre taberna, superiormente gerida, como se diz hoje, pelo
meu amigo e empreendedor, como também se diz hoje, Ismael Gúsman. Já o Rogério
não precisou nem de ser intimado nem de ser convidado pois, para ele, não havia
melhor convite do que o cheiro dos passarinhos fritos. A Isaurinha bate-sola,
que não perdia uma para ficar frente a frente com a Fernandinha, a vontade dela
era puxar-lhe os cabelos nem que fosse em pensamento, quando soube que
Sebastião também lá ia estar, cancelou um compromisso com um construtor civil
que estava a erigir, em dois lotes na Quinta do Conde, prédios de três andares com
loja e sobreloja. Para o Espinheira bastou um telefonema do inspetor Sacadura,
aliás o mesmo inspetor que fez o favor de chegar a Toronto no Canadá um bilhete
de ida e volta e uma intimação da Interpol para que a misteriosa idosa de
Trás-os-Montes não se pudesse recusar a estrar presente. O velhinho Ismail
Baruch que andava a chá de limão e Saridon, para tratar de uma grande constipação
que só o fazia sair de casa às cinco da tarde para, às escondidas do sobrinho
ir beber uma ginjinha e espreitar as pernas da Fernandinha, lá estaria também.
Difícil foi conseguir as presenças de Ekatrina Smirnova, a braços com um
invulgar trabalho de pernas para a estreia do bailado da Companhia no próximo fim-de-semana
e o Dr. Ismael ben-Avraham que alegou estar de serviço nas urgências dos Capuchos,
embora não haja nenhum registo de que este médico alguma vez tenha feito serviço
naquela unidade hospitalar (unidade hospitalar em vez de hospital, deste
estilismo é vocês não estavam à espera, confessem). Se um piscar de olho do
chefe de brigada Ismaelix foi o suficiente para trazer Ekatrina com ele, diziam
na época que eram mais as vezes que Ekatrina dormia na cama de Ismaelix do que
na sua cama, no mesmo apartamento onde a vítima veio a ser esfaqueada, já para
convencer o judeu foi necessário que o outro chefe de brigada Ismael de Almeida,
que já conhecemos dos seus dotes especiais para alimentar pombos a milho, lhe acenasse com dois Montecristo nº 3 e mesmo
assim ficasse ainda de arranjar uns Partagas Lusitaneas que um contrabandista famoso, que costumava
parar no Barba Roxa, um bar mal afamado do Largo de S. Paulo, lhe arranjava
todos os meses, vindos diretamente de Cuba. Francisca essa, altiva e presunçosa
tinha a certeza que a sua presença seria indispensável e fez-se representar sem
convite, nem intimação. Sebastião, acabado de chegar de uma viagem que fez como
ajudante de cozinheiro num paquete italiano, que levava europeus para
trabalharem nas américas, ajudava a tia Francisca a subir e a descer dos
autocarros e a entrar e a sair do vapor, pois, naquele tempo, a viagem da
Quinta do Conde, num velho autocarro dos Belos e uma viagem no Sul Expresso, um
cacilheiro que mais parecia um charuto, não era coisa pouca. E se já sabemos
que Sebastião tinha um forte alibi, pois andava embarcado no dia em que mataram
Isabella, pobrezinha, com sete facadas e que além disso andava embeiçado pela
criatura, também acabou por fazer parte dos presentes. Mas este com intimação
policial, o que, como acabei de escrever nas três ou quatro linhas acima da
necessidade de acompanhar a tia Francisca, não teria sido preciso.
E se às sete horas da tarde já todos estavam a postos para
escutar as alegações policias, passava já da meia-noite, entre iscas com elas,
lombinhos na chapa, passarinhos fritos, saladas de orelha, pasteis de bacalhau,
sandes de torresmos, carapaus de escabeche, ovos cozidos com e sem sal, sangacho
de atum com feijão-frade, vinho tinto do Cartaxo, morangueiro de Ponte de Lima,
laranjadas e pirolitos, para além da caixa em forma de pirâmide triangular dos
palitos Confiança, os melhores para palitar dentes, que esteve sempre em cima
da mesa, vários maços de tabaco consumidos, quando, num ambiente pesado, com
uma nuvem de fumo a pairar-lhes sobre as melenas, o Inspetor Ismael Sacadura
Flores concluiu e anunciou quem matou Isabella Vicentini. Alguns viraram as
cabeças para um lado, outros para o outro. Os restantes baixaram a cabeça, exceto
uma pessoa que olhou pra o teto, mas não nos pareceu, que alguém tivesse ficado
admirado.