
Sebastião era daqueles marinheiros que fazia jus ao ditado,
uma namorada em cada porto. Desde novo que parava no cabo Espichel a olhar para
o horizonte, a olhar para o imenso mar azul e salgado e a sonhar com viagens, quando
era criança com Guliveres e mais tarde com Vascos da Gama. Quando chegou a
hora, decidiu apresentar-se como voluntário na Marinha. Apanhou o autocarro na
Quinta do Conde e só parou no Alfeite. Regressado a casa, sem carta de
embarque, o seu mar era de lágrimas. Os pés chatos e dois centímetros a menos
na perna direita tinham-no traído e a Marinha tinha recusado a seu alistamento.
Recomposto, decidiu tirar um curso de hotelaria e facilmente a Companhia
Nacional de Navegação o contratou. Mulherengo como era, não foi difícil vir a
ser despedido da Companhia. No dia em que um oficial de pilotagem o apanhou
durante o quarto de serviço, do dito, em menos propósitos com a sua esposa, de
novo do dito, claro, no cavalo do seu camarote, foi obrigado a mudar de mares,
não antes de uma valente e cinematográfica cena de pancadaria que, se tiver
arte, vos contarei noutra oportunidade. Mudou-se depois para a Sociedade Geral
até que uns anos mais tarde uma companhia estrangeira o engajou. Em meados dos
anos cinquenta do século passado a guerra colonial ainda não tinha eclodido e,
por isso, não havia dificuldade de Sebastião andar num constante vaivém
trágico-marítimo. E é assim que lhe adjetivamos a vida porque quis a esta vida
de marinheiro que a morte lhe apanhasse a namorada em terra. (Este bocadinho
foi bonito, foi poético, não foi?)
O inspetor Ismael Sacadura Flores, com a ajuda do
Espinheira, não conseguiu encontrar nenhuma referência no manuscrito de sua
tia Francisca que lhe fosse negativa. Pudera! Tratava-se do seu sobrinho
querido, ajudado a criar desde a morte da sua irmã mais nova em circunstâncias
nunca bem esclarecidas. Quando a mãe de Sebastião apareceu morta numa viela da
Madragoa, onde de manhã, de canastra na cabeça, apregoava a bela sardinha viva
da costa e à noite cantava o fado, Sebastião tinha cinco anos de idade. Nem
dela mais se lembrava e se a carência de mãe não pode ser substituída pela
presença de outras mulheres, então Sebastião era uma exceção à regra. Mas nem
pelo facto da sua tia Francisca não o mencionar como suspeito no seu
manuscrito, nem pelo facto de Sebastião ter passado por um crime de sangue
similar no seio da sua família, o inspetor desistiu de interrogá-lo. Ah isso
não. Mais cedo ou mais tarde teria de dar o seu depoimento. Na pura das verdades,
Sebastião, neste porto que é o de Lisboa, não tinha apenas uma namorada. Esta
cidade de cabarets logo à saída de onde os navios atracam, esta cidade de teatros
com bailarinas estrangeiras muito bonitas, esta cidade de tascas com
cozinheiras roliças e provincianas, esta cidade era ela toda uma casa de
perdição, onde cenas de faca e de alguidar se cantavam acompanhadas à guitarra
e à viola. E se não nos falham as contas, só por defeito e nunca por excesso,
contamos pelo menos três namoradas simultâneas deste nosso Poppey luso, deste
nosso Bartolomeu Dias sem caravela, deste marinheiro sem farda, deste Corto
Maltese de mares já por outros navegados. (Mais uma grande frase!) A
Fernandinha, a quem não era de estranhar os raspanetes de Ismael Gúsman, ora
porque o bacalhau com grão do Sr. Rogério não fora servido com alho, cebola e
salsa picada, ora porque, às escondidas, se roçava no filho do Sr. Januário que
tinha uma loja de fazendas na Rua Augusta, ora porque isto e porque aquilo e principalmente
porque isso seria faltar ao respeito ao jovem Sebastião. A Isaurinha Bate-Sola,
que sabemos se perdeu de amores pelo nosso homem de blusa azul e branca às
riscas e calça à boca-de-sino, D. Juan das ruas lisboetas, marinheiro em
paquetes estrangeiros, coxo de nascimento, pois fazia bem dois centímetros de
diferença entre a perna direita e a perna esquerda, depois de ter pespegado um
valente par de chifres ao meu amigo galego e taberneiro Ismael Gúsman que,
mesmo assim, tal era a sua bondade, nunca teve raiva do marinheiro seu vizinho
na Quinta do Conde e nem tão pouco da depravada filha do sapateiro, ela sim
merecedora do mais vil e puro desprezo. Pois que se saiba, Isaurinha não lhe
pôs apenas o referido par de chavelhos como ainda se abotoou com trinta e seis
contos de reis, de um pequeno cofre que Ismael tinha escondido na tasca, por
detrás de um grande quadro com o emblema do Glorioso SLB, bordado a ponto cruz.
Isto só mais tarde é que se veio a saber pelo que, talvez, não venha a fazer
parte das narrativas deste romance. E daí, talvez sim. E finalmente, Isabella,
a bela e malograda corista italiana do Parque Mayer, filha sabemos agora de um
fascista italiano chamado Rafaello Vicentini, com muito boas relações na nossa
polícia política portuguesa, mas sabe-se lá porquê, sempre muito mal visto do,
também sabemos de algumas páginas atrás, chefe de brigada da Polícia
Judiciária, o afrancesado Ismaelix, que usava um grande bigode à Chalana, porém
e este porém terá ainda muito que se lhe diga nesta história, porém, narrava
eu, já branco. Pois se Isaurinha Peres, filha de sapateiro e puta já se vê,
tinha sido já chão que dera uvas, pois nunca lhe perdoou tê-la apanhado em atos
menos próprios com o filho do falecido vizinho Esteves, Deus tenha a sua alma
em descanso, bom homem por sinal, já o mesmo não se pode dizer da roliça e de
linguajar estranho, um misto de beirão com francês do sul, especialista em
pastéis de bacalhau e sandes de sangacho de atum, a nossa bem conhecida
Fernandinha e da tristemente morta à facada, logo sete, algumas das quais no
peito, a malograda e bonita italiana Isabella Vicentini. Acho que foi a
primeira vez que lhe enunciei o apelido, embora já o conhecêssemos dada a sua
paternidade, mas fica bem, não fica?
Sebastião não era suspeito do crime, embora coxo e isso se
pudesse relacionar com as descrições da misteriosa senhora de Trás-os-Montes.
Pelo menos como executor. Abro aqui um parêntesis para que reparem bem na falta
de imaginação do escritor que já tem dois coxos na novela, o tio Ishmail Baruch
e o nosso Sebastião e não sabemos, nem sequer podemos conjeturar, se para
baralhar mais as coisas ou para se baralhar mais a ele, não virá a pôr uma
perna de pau a um qualquer outro personagem. O inspetor Ismael Sacadura, por
aquilo que conheço dele, se ele me tivesse conhecido a mim, teria com certeza
perguntado, Olha lá Constantino, e o
rapaz não pode ter sido o mandante? Ao que eu responderia evasivamente,
pois nesta fase não iria querer retirar o suspense aos meus leitores. Pelo
menos como executor, não, isso temos a certeza, já que Francisca dizia no seu
manuscrito na página 46, escrita na margem direita perpendicularmente às linhas
pautadas que, no dia 14 de fevereiro de 1956, Sebastião havia partido para o
Coraçau e por lá tinha permanecido, só regressando após o horrível,
indescritível e sanguinário crime. E Fernandinha? Teria ela alibi? Todos
sabemos ou julgamos saber, que me desculpem as minhas leitoras, daquilo que uma
mulher eivada de ciúmes, sim eivada é a palavra própria, é capaz de fazer. E
Isaurinha Bate-Sola, ela uma filha de sapateiro, profissão de pouco rendimento
mas muita procura, de um pai que todos conheciam e respeitavam na Quinta do
Conde, que usava brilhantina no cabelo e cuspia na escova de lustro para
abrilhantar o verniz dos sapatos do senhor prior, sim ela Isaurinha Peres,
apesar de todos os defeitos entre os quais o de ser apelidada de puta pelo
escritor deste que nunca será um livro impresso, e se o for não se venderá,
algumas linhas acima, apesar de se dar de corpo, já que de alma não sabemos, ao
filho do falecido vizinho Esteves, mas que bem o sabemos só por carência, já
que o pujante Sebastião, coxo e de pés chatos e que ela, estupida ou
apaixonadamente nunca tinha reparado, passava semanas e semanas sem dar à
costa, poderia lá ser trocada por uma libertina que mostra as pernas acima do
joelho em palcos de perdição (se alguém se perdeu no tamanho do parágrafo, isso
foi por nunca leu os Lusíadas).
Estava a começar a juntar as peças enquanto subia a Rua dos
Correeiros, o inspetor Ismael Sacadura Flores quando, distraidamente, bateu com
a cabeça no espanta espíritos da tasca de Ismael. Entrou, mastigou uma bolacha
Maria e bebeu um bagaço. Depois disse boa noite e voltou para a esquadra. Mais
tarde regressaria à Quinta do Conde.