terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

100. Ismael (24) - Como Günter Freitag se vai tornar fundamental na trama



Günter Freitag nunca imaginou como aquele dia foi importante para a humanidade. Esta frase cabia bem no início de um de um livro de Edgar Wallace ou de Patricia Highsmith mas tenho de reconhecer, sem falsas modéstias que fui eu que a inventei. A verdade é que exagerei quando referi humanidade pois se Günter Freitag teve alguma influência foi nesta novela pretensiosamente intitulada como blog-livro que não tem, nem poderia ter, um desfecho imediato pois se o tivesse seria deveras prematuro. Günter Freitag nunca imaginou como aquele dia foi importante para as famílias Baruch da parte da mãe e ben-Avraham, da parte do pai, enquanto para ele, ao contrário da importância que o autor tenta fazer crer que o dia teve, foi um malfadado dia em que, numa estância alpina, apanhou uma bebedeira de caixão à cova, passe a agoirenta expressão popular, pois só canecas de litro de cerveja virou oito e shots de zuckerrohrschnaps, importada diretamente da ilha da Madeira, nem se contam. Günter Freitag nunca imaginou, pois para isso não teve tempo, como aquele dia foi importante para as histórias que o Constantino aqui conta, quando caiu em coma alcoólico, em plena viagem de comboio no seu regresso a Viena e do qual nunca mais se levantou. Sozinho e com o casaco de Herr Ismael ben-Avraham vestido, cuja troca no bengaleiro só foi possível devido à tremenda buba, foi Günter Freitag enviado para uma vala comum, acompanhado por um par de skis, duas varetas, uns óculos de plástico e um par de botas de lona, que era assim que naquele tempo se tratavam os judeus. Alguém se abotoou com a mochila pois não consta do relatório das SS. Até ao final da guerra, o jovem médico judeu, agora com uma identidade que lhe iria dar um jeitão do caneco, conseguiu emprego num posto da Cruz Vermelha nos Alpes austríacos, a tratar de pernas e clavículas partidas, quando não eram canas do nariz. O jovem médico Günter Freitag só viria a recuperar a sua antiga identidade em 1951 quando, com a ajuda do seu tio Ishmail Baruch, da parte da mãe, ingressou na Mossad, criada dois anos antes pela república da estrela do Rei David. Nesse mesmo ano, ambos são enviados para Portugal onde, de contrabando, era fácil ao, de novo, Ismael ben-Avraham comprar os seus charutos cubanos. Pensa-se que terá sido no Hospital dos Capuchos que exerceu medicina mas tal médico não consta dos registos daquela instituição. Naquele dia, tão importante para os dois judeus, Günter Freitag, entrou nesta história e assim desapareceu. Tal como em 1943, numa pequena aldeia alpina, tinha desaparecido um cordão fino de ouro, do pescoço de uma velhinha criadora de coelhos, com uma medalha em forma de coração, de abrir em duas partes. Por detrás da fotografia de uma Nossa Senhora, encerrada na medalha, um número, um único número. Pois esta medalha, que entra hoje na história, não irá desaparecer tão cedo.

Isabella Vicentini saiu feliz naquela noite fresca de Abril. A revista em cena no Parque Mayer estava a ter uma grande aceitação do público, as casas cheias sucediam-se o que justificava as suas vinte e sete semanas em cartaz. Como era habitual, foi no Riba de Oiro que jantou, a frugalidade costumeira, uma chamuça picante, uma sandes de ovo mexido com salsicha de lata e uma imperial tendo depois descido a Avenida da Liberdade, debaixo de uma luz ténue dos candeeiros a petróleo e de um céu de quarto minguante. Nos Restauradores, os bêbados do dia-a-dia, recolhidos do frio nos portões da Estação do Rossio, já fechada. Quando chegou à Rua dos Correeiros, um medo sem explicação, para quem fazia diariamente o mesmo percurso, bateu-lhe no peito e arrepiou-lhe a espinha. Ela que era bailarina e ágil, capaz de se esconder por detrás de um pau de fósforo antes que lhe notassem a presença ou de correr cem metros antes que fosse dado o tiro de partida, pressagiando fosse o que fosse, ia com medo. Mal entrou em casa, fechou rapidamente a porta, deu duas voltas à fechadura, apertou contra o peito uma medalha em forma de coração, que lhe pendia de um fino fio de ouro e rezou à sua Madonna. Uma misteriosa senhora de Trás-os-Montes ouviu nessa noite passos estranhos no andar de cima. Jurava terem sido passos de um coxo.


sábado, 11 de fevereiro de 2012

99. Ismael (23) - Salada de orelha



O jovem Espinheira passeava pelo Rossio, fazendo tempo para um novo encontro com o inspetor. Aquele crime já levava uma semana e embora não fosse o manuscrito de Francisca o único elemento da investigação, o inspetor Ismael Sacadura Flores não perdia pitada do que o Espinheira ia conseguindo descobrir. Entretanto, uma subequipa, de que o agente Ismael de Almeida era o responsável, tinha assentado arraiais na Quinta do Conde, com grande pena e contra a vontade deste, tão habituados estavam os pombos às portas do Teatro D. Maria II, à sua assídua presença e ao tão apreciado milho com que sempre os nutria. Uma outra subequipa, onde, surpresa das surpresas, o nosso amigo Ismaelix com o seu bigode à Chalana, porém branco, pontificava, fez de seu quartel-general o quinto andar sob penhora, do próprio prédio da Rua dos Correeiros onde as sete facadas fatais foram proferidas, porém no sexto, o que justificava ele ter sido visto a sair do prédio, como foi dito capítulos atrás, lado a lado com Ekatrina Smirnova também ela dançarina, porém clássica.

E já que estamos em maré de poréns, o jovem Espinheira desembarcou no Terreiro do Paço, porém no Cais das Colunas, que naquele tempo serviam de cais ao vapor e que não tinham ainda sido retiradas por causa das obras do Metropolitano, porém já repostas e seguido a pé até ao Rossio onde as fontes e o seu constante jorrar de água, porém insalubre, sempre o fascinou. Deixemo-nos agora de poréns e vamos diretos aos epílogos sem muitos todavias porque há, contudo, ainda muito que contar e também muito para ser descoberto (neste momento eu deveria começar a frase seguinte com um portanto mas não me apetece). Seria certo e sabido que a reunião entre Espinheira e Sacadura se faria na taberna do meu amigo galego, Ismael Gúsman de seu nome, como todas e todos, os que têm ainda paciência para me ler e que não deram por mal empregados os quase vinte euros que pagaram por este livro, ainda por cima de capa mole com badanas, à espera que o Círculo de Leitores o publique com capa dura, numa edição com dez por cento de desconto para os sócios, por ser novidade, bem o sabem. Não faltarão na assistência, embora discretamente, os nossos figurantes e protagonistas para compor o ramalhete, quer seja a Fernandinha que estreou um avental novo com girassóis e borboletas e já aprendeu a fazer pipis estufados e, principalmente, salada de orelha de porco com alho, cebola picada, coentro, pimenta moída, azeite e vinagre, a vinte e cinco tostões o pratinho, quer seja o tipo de fato cinzento e chapéu, que levanta sempre as maiores suspeitas desde o dia em que os esbirros da PIDE apreenderam o livro de matemática ao Constantino, o narrador desta história e autor deste intragável pseudolivro. E se pensavam que com toda esta conversa iriam ficar hoje a saber porque é que o Dr. Castro Ribeiro era citado a páginas dezassete, depois de ter sido visto a sair do Barba Roxa, um bar pouco afamado do Largo de S. Paulo, cerca das seis da manhã, perdido de bêbado e a gritar Eu mato aquela puta, eu mato aquela puta, para quem o quisesse ouvir, então tirem o cavalinho da chuva. É que o Espinheira tinha acabado de decifrar a página oitenta e nove e o conto que Francisca estava a escrever começava a interessar mais aos dois do que o próprio crime. Até o Rogério, que tinha coçado a cabeça ao fim da primeira leitura, agora estava com todos os sentidos em alerta. E foi assim que o jovem Espinheira leu mais um pequeno trecho do conto da misteriosa Francisca (aqui o autor meteu água, porque quem é misteriosa é a idosa senhora de Trás-os-Montes; e mais água meteu porque o obrigou a colocar dois parêntesis num curto espaço de texto o que, dizem alguns puristas da arte de bem escrever, não é de bom tom).

“Os autóctones tinham um ar fúfio. As gaforinas não ajudavam à criação de uma imagem menos aviltrada. No entanto os pescoços exibiam fulgentes colares de estranho metal. Ensaiaram uma ginga em meu redor e tentaram comunicar. Não sei se por ter acordado no momento, os sons que emitiam eram-me ininteligíveis. A última vez que tinha escutado algo similar, foi de uns indígenas de Timor Oriental que tentaram ensinar-me o seu galóli. Tive medo que se tratasse de antropófagos preparando a funçanata. Num pequeno hiato de tempo, um deles de aspeto galhardo, apercebendo-se de que eu, efetivamente, não estava atinando com o seu linguarejar, ensaiou uma ideografia simples mas eficaz. Aí eu não tive coragem para ilidir. Aceitei de imediato. Era um convite para repasto. Seria? “

Quem pareceu não ter ficado nada satisfeito com esta concorrência, desleal, disse ele, foi Ismael Gúsman.  A sua casa de pasto era já conceituada em toda a baixa lisboeta e se se quisesse um petisco, era ali. Logo agora que Fernandinha sabia fazer salada de orelha. Para Ismael, esta Francisca estava a sair melhor do que a encomenda. Ai estava, estava. 


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

98. Parenthesys


Quer os contos do Constantino, quer o malfadado in-folio sem nome nem jeito, já tiveram melhores dias. Quero dizer, têm-se lhes vindo a subtrahir leitores e se de facto ha aquelles bloggers, os quaes dizem que ter leitores, para elles, não é cousa d’ importancia eu pergunto, então não comprehendo porque não escrevem em privado? Quem escreve para o publico quer publico. O escritor aprecia quem lhe aprecia o fructo do seu labôr (não era para rhymar). E não se trata aqui de supplicar por commentarios ofertados em odes votivas. Não se trata de mystica, mas sim de mera constactação da realidade. As salas de cinema vazías não são só prejuízo, são também frustração para produtores, realizadores e actores. Quando vou ao theatro e olho para os lados e vejo apennas mais oito pessoas a assistirem áquela peça de Gorki representada por uma companhia de theatro em que os actores são provenientes do conservatório (quão diferentes serão os que ad-vieram de novellas televisivas?), a ovação final dos nove espectadores deve deixar n’ elles um sabor a fel na bocca. E o que dizer ao autor que acabou de passar no kiosque da feira e viu a vender por uns míseros vinténs, á escolha, quase toda a sua edição, no meio d’outros que também não venderam mais do que quarenta e does exemplares? Pois minhas amigas e meus amigos confrange-me vêr um cada vez menor numero de leitores n’este blogue mas, apesar das frustrações supra-referidas a que não sou de modo nenhum immune, vou continuar a escrever. Não entendam este texto como uma lamúria ou algo de piegas pois não sou narcisista ao ponto de criticar quem cá não lê, antes pelo contrário, se o blogue não cólhe é porque a maioria dos leitores blogosphericos n’ isto vê pouco interesse. Ainda assim, sem despeicto por blogues que se affirmam a fallar de sapatos de senhora cor-de-rosa ou  que annuncíam  aos seus leitores de que hoje espirraram duas vezes mal se levantaram de manhã, mesmo que isso dê uns milhares de leitores mensaes e dê também alguns milhares de euros annuaes (o que não é uma bagatella), vou apenas escrever aquillo que me dá gozo e, acreditem se quiserem, mesmo com mágoa de não ter conseguido cativar leitores para a minha escrita, enquanto houver um só, unzinho só, que aqui venha ler cada post de fio a pavio, não fecharei o blogue ao publico. Assim a minha mente não se decrepite e os meus dedos não se quedem gottosos. Garanto-vos que isto não é philosophia.

Estava eu aqui n’esta scisma com a minha mulher, quando ella me fez uma observação pertinnente que ainda não me tinha passado pela idéa e á qual prestei a minha melhor attenção. Ella tentou fazer-me vêr que aquelles leitores que gostam mais de ortographia antiga me abandonaram e acham que a nova é uma tyrannia collonial brasileira. Só me lê quem, embora possa não estar de acordo, não tem difficuldades em aceitar o uso d’ este Acordo Ortographico e a quem tiro o meu chapéo. Deixei-me cahir no sofá e foi ahi que decidi rever o methodo. No intuito de recuperar leitores acendera-se me uma chamma e tive esta sahida de escrever este post, sem qualquer pedantismo rethorico, apenas fazendo uso de ortographia antiga. Não sei se abusei ou não, mas pelo amor de Christo, não recuei a D. Denniz, nem a Luiz de Camões. Eça de Queiroz, outr’ora, escrevia assim e eu acho que percebi os signais. Soceguem pois os que por mor d’isso abalaram. Podeis voltar tryumphantes.

D’este que se assigna Victor de appelido Constantino.

PS. Trata-se apenas de um exercício de estilo que me deu prazer pois me obrigou a alguma pesquisa, que me fez bem porque tenho andado muito preguiçoso ultimamente. Continuarei a editar os meus textos segundo o mais recente Acordo Ortográfico.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

97. Ismael (22) - Vamos ilibar o Sebastião?


Sebastião era daqueles marinheiros que fazia jus ao ditado, uma namorada em cada porto. Desde novo que parava no cabo Espichel a olhar para o horizonte, a olhar para o imenso mar azul e salgado e a sonhar com viagens, quando era criança com Guliveres e mais tarde com Vascos da Gama. Quando chegou a hora, decidiu apresentar-se como voluntário na Marinha. Apanhou o autocarro na Quinta do Conde e só parou no Alfeite. Regressado a casa, sem carta de embarque, o seu mar era de lágrimas. Os pés chatos e dois centímetros a menos na perna direita tinham-no traído e a Marinha tinha recusado a seu alistamento. Recomposto, decidiu tirar um curso de hotelaria e facilmente a Companhia Nacional de Navegação o contratou. Mulherengo como era, não foi difícil vir a ser despedido da Companhia. No dia em que um oficial de pilotagem o apanhou durante o quarto de serviço, do dito, em menos propósitos com a sua esposa, de novo do dito, claro, no cavalo do seu camarote, foi obrigado a mudar de mares, não antes de uma valente e cinematográfica cena de pancadaria que, se tiver arte, vos contarei noutra oportunidade. Mudou-se depois para a Sociedade Geral até que uns anos mais tarde uma companhia estrangeira o engajou. Em meados dos anos cinquenta do século passado a guerra colonial ainda não tinha eclodido e, por isso, não havia dificuldade de Sebastião andar num constante vaivém trágico-marítimo. E é assim que lhe adjetivamos a vida porque quis a esta vida de marinheiro que a morte lhe apanhasse a namorada em terra. (Este bocadinho foi bonito, foi poético, não foi?)

O inspetor Ismael Sacadura Flores, com a ajuda do Espinheira, não conseguiu encontrar nenhuma referência no manuscrito de sua tia Francisca que lhe fosse negativa. Pudera! Tratava-se do seu sobrinho querido, ajudado a criar desde a morte da sua irmã mais nova em circunstâncias nunca bem esclarecidas. Quando a mãe de Sebastião apareceu morta numa viela da Madragoa, onde de manhã, de canastra na cabeça, apregoava a bela sardinha viva da costa e à noite cantava o fado, Sebastião tinha cinco anos de idade. Nem dela mais se lembrava e se a carência de mãe não pode ser substituída pela presença de outras mulheres, então Sebastião era uma exceção à regra. Mas nem pelo facto da sua tia Francisca não o mencionar como suspeito no seu manuscrito, nem pelo facto de Sebastião ter passado por um crime de sangue similar no seio da sua família, o inspetor desistiu de interrogá-lo. Ah isso não. Mais cedo ou mais tarde teria de dar o seu depoimento. Na pura das verdades, Sebastião, neste porto que é o de Lisboa, não tinha apenas uma namorada. Esta cidade de cabarets logo à saída de onde os navios atracam, esta cidade de teatros com bailarinas estrangeiras muito bonitas, esta cidade de tascas com cozinheiras roliças e provincianas, esta cidade era ela toda uma casa de perdição, onde cenas de faca e de alguidar se cantavam acompanhadas à guitarra e à viola. E se não nos falham as contas, só por defeito e nunca por excesso, contamos pelo menos três namoradas simultâneas deste nosso Poppey luso, deste nosso Bartolomeu Dias sem caravela, deste marinheiro sem farda, deste Corto Maltese de mares já por outros navegados. (Mais uma grande frase!) A Fernandinha, a quem não era de estranhar os raspanetes de Ismael Gúsman, ora porque o bacalhau com grão do Sr. Rogério não fora servido com alho, cebola e salsa picada, ora porque, às escondidas, se roçava no filho do Sr. Januário que tinha uma loja de fazendas na Rua Augusta, ora porque isto e porque aquilo e principalmente porque isso seria faltar ao respeito ao jovem Sebastião. A Isaurinha Bate-Sola, que sabemos se perdeu de amores pelo nosso homem de blusa azul e branca às riscas e calça à boca-de-sino, D. Juan das ruas lisboetas, marinheiro em paquetes estrangeiros, coxo de nascimento, pois fazia bem dois centímetros de diferença entre a perna direita e a perna esquerda, depois de ter pespegado um valente par de chifres ao meu amigo galego e taberneiro Ismael Gúsman que, mesmo assim, tal era a sua bondade, nunca teve raiva do marinheiro seu vizinho na Quinta do Conde e nem tão pouco da depravada filha do sapateiro, ela sim merecedora do mais vil e puro desprezo. Pois que se saiba, Isaurinha não lhe pôs apenas o referido par de chavelhos como ainda se abotoou com trinta e seis contos de reis, de um pequeno cofre que Ismael tinha escondido na tasca, por detrás de um grande quadro com o emblema do Glorioso SLB, bordado a ponto cruz. Isto só mais tarde é que se veio a saber pelo que, talvez, não venha a fazer parte das narrativas deste romance. E daí, talvez sim. E finalmente, Isabella, a bela e malograda corista italiana do Parque Mayer, filha sabemos agora de um fascista italiano chamado Rafaello Vicentini, com muito boas relações na nossa polícia política portuguesa, mas sabe-se lá porquê, sempre muito mal visto do, também sabemos de algumas páginas atrás, chefe de brigada da Polícia Judiciária, o afrancesado Ismaelix, que usava um grande bigode à Chalana, porém e este porém terá ainda muito que se lhe diga nesta história, porém, narrava eu, já branco. Pois se Isaurinha Peres, filha de sapateiro e puta já se vê, tinha sido já chão que dera uvas, pois nunca lhe perdoou tê-la apanhado em atos menos próprios com o filho do falecido vizinho Esteves, Deus tenha a sua alma em descanso, bom homem por sinal, já o mesmo não se pode dizer da roliça e de linguajar estranho, um misto de beirão com francês do sul, especialista em pastéis de bacalhau e sandes de sangacho de atum, a nossa bem conhecida Fernandinha e da tristemente morta à facada, logo sete, algumas das quais no peito, a malograda e bonita italiana Isabella Vicentini. Acho que foi a primeira vez que lhe enunciei o apelido, embora já o conhecêssemos dada a sua paternidade, mas fica bem, não fica?

Sebastião não era suspeito do crime, embora coxo e isso se pudesse relacionar com as descrições da misteriosa senhora de Trás-os-Montes. Pelo menos como executor. Abro aqui um parêntesis para que reparem bem na falta de imaginação do escritor que já tem dois coxos na novela, o tio Ishmail Baruch e o nosso Sebastião e não sabemos, nem sequer podemos conjeturar, se para baralhar mais as coisas ou para se baralhar mais a ele, não virá a pôr uma perna de pau a um qualquer outro personagem. O inspetor Ismael Sacadura, por aquilo que conheço dele, se ele me tivesse conhecido a mim, teria com certeza perguntado, Olha lá Constantino, e o rapaz não pode ter sido o mandante? Ao que eu responderia evasivamente, pois nesta fase não iria querer retirar o suspense aos meus leitores. Pelo menos como executor, não, isso temos a certeza, já que Francisca dizia no seu manuscrito na página 46, escrita na margem direita perpendicularmente às linhas pautadas que, no dia 14 de fevereiro de 1956, Sebastião havia partido para o Coraçau e por lá tinha permanecido, só regressando após o horrível, indescritível e sanguinário crime. E Fernandinha? Teria ela alibi? Todos sabemos ou julgamos saber, que me desculpem as minhas leitoras, daquilo que uma mulher eivada de ciúmes, sim eivada é a palavra própria, é capaz de fazer. E Isaurinha Bate-Sola, ela uma filha de sapateiro, profissão de pouco rendimento mas muita procura, de um pai que todos conheciam e respeitavam na Quinta do Conde, que usava brilhantina no cabelo e cuspia na escova de lustro para abrilhantar o verniz dos sapatos do senhor prior, sim ela Isaurinha Peres, apesar de todos os defeitos entre os quais o de ser apelidada de puta pelo escritor deste que nunca será um livro impresso, e se o for não se venderá, algumas linhas acima, apesar de se dar de corpo, já que de alma não sabemos, ao filho do falecido vizinho Esteves, mas que bem o sabemos só por carência, já que o pujante Sebastião, coxo e de pés chatos e que ela, estupida ou apaixonadamente nunca tinha reparado, passava semanas e semanas sem dar à costa, poderia lá ser trocada por uma libertina que mostra as pernas acima do joelho em palcos de perdição (se alguém se perdeu no tamanho do parágrafo, isso foi por nunca leu os Lusíadas).

Estava a começar a juntar as peças enquanto subia a Rua dos Correeiros, o inspetor Ismael Sacadura Flores quando, distraidamente, bateu com a cabeça no espanta espíritos da tasca de Ismael. Entrou, mastigou uma bolacha Maria e bebeu um bagaço. Depois disse boa noite e voltou para a esquadra. Mais tarde regressaria à Quinta do Conde.


domingo, 5 de fevereiro de 2012

96. Ismael (21) - O que diz Francisca?


Quando entrei na tasca do meu amigo Ismael, acompanhado do senhor Espinheira acabamos por nos sentar os três num insuspeito canto da taberna, como insuspeitos são todos os cantos da tasca da Rua dos Correeiros. Numa mesa ao lado, com um livro na mão, se não estou em erro de autor quase desconhecido, que mais tarde viria a ser prémio Nobel, Rogério bebia um tintinho, mas fiquei com a impressão de que terá ficado de ouvido alerta ao que se passava na nossa mesa.

Mas diga lá então, releia por favor, Espinheira, para que o meu amigo Ismael também fique a saber, pedi eu com alguma impaciência. Uns bons anos atrás, antes de se ter descoberto o autor do crime que vitimou Isabella, o inspetor Ismael Sacadura Flores, por um erro processual, não conseguiu ficar na posse do manuscrito que mais tarde me veio parar às mãos. E, de novo, recorri ao Espinheira para me ajudar a lê-lo, tal e qual como o inspetor Ismael o tinha feito talvez uns vinte anos antes. Mas havia ali elementos que eu achava muito atrativos e mostravam bem como Francisca era genial e como o seu manuscrito trouxe muita informação ao processo, sendo até pedra basilar para a confissão. De facto, Francisca era um prodígio. E então, Espinheira abriu o manuscrito de Francisca a páginas catorze, “Raffaelo Vicentini, então membro das camicie nere, foi discretamente recebido na sede da PIDE quase no final de 1945.” E fazia reparos a quão difícil era a caligrafia de Francisca para poder estar a ler com a devida pontuação. Não se preocupe amigo Espinheira, continue, continue – pondo-o assim à vontade, Ismael, que no trato era de uma grande elegância. Diz, então, Francisca, continuou Espinheira, “ A única coisa que pedia era proteção para a sua filha, Isabella de apenas doze anos de idade”. Espinheira parou de ler. Não compreendia agora, como nunca compreendeu antes, algumas das palavras e achava que estar ali, naquele momento, a dissecar o manuscrito, ainda por cima com um tipo numa mesa ao lado que ele não sabia quem era, não lhe parecia muito produtivo, nem tão pouco, ético. Senhor Espinheira então salte para a página quarenta e oito e leia-nos lá o que me leu há pouco, pedi-lhe apenas para desanuviar. A custo e só para me fazer a vontade, Espinheira puxou por um cigarro e ofereceu outro ao Ismael. Recusou, por não ser o seu tipo de tabaco, enquanto uma ponta de Português Suave meio apagada lhe pendia do canto da boca. Eu que não fumo, apenas demonstrava expectativa no olhar. Pois a páginas quarenta e oito diz Francisca – continuou Espinheira “O médico judeu, Ismael ben-Avraham entrava em casa de Isabella, mas pouca importância dava ao estado de saúde da menina que, talvez por saudade, de anafada e bem coradinha, fazendo juz à sua natureza Alpina começava agora a definhar. Ou então seria era aquela ideia fixa de vir a ser bailarina.”

Rogério, levantou-se da mesa, deixou dois escudos em cima do balcão para pagar o tinto e as azeitonas,  saudou os presentes e saiu. Espinheira respirou de alívio e, eu próprio, porque conheço o desfecho da tragédia, acabei por anuir que a página quarenta e oito talvez não interessasse muito. Afinal Isabella fora assassinada em 1956 e os idos de 1945 seriam, quase de certeza, conjeturas de Francisca. Anos mais tarde Francisca teria um grande desgosto pelo que aconteceu a Isabella já que o seu sobrinho Sebastião, um marinheiro que gostava mais dos portos do que das ondas do mar se embeiçou pela bailarina. Mas o que realmente aconteceu não se poderá saber antes da página trezentos e quarenta e três. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

95. Ismael (20) - Parabéns


O tempo passa e só damos por isso quando olhamos para o espelho e ele nos retribuiu com uns pezinhos de galinha nos cantos dos olhos. O tempo passa e só damos por isso quando olhamos para aquele blaser, que é como quem diz paletó, azul-escuro, que tudo denuncia e vemos ali pregados dois cabelos brancos que, por estranha coincidência, são nossos. O tempo passa e nós só damos por isso quando os garotos no outro lado da rua deixam fugir a bola, no jogo da rabia e nós tentamos dar uma corrida para a devolver e não lhe chegamos a tempo. O tempo passa e nós só damos por isso quando vamos a subir os degraus do autocarro e ouvimos ranger o que primeiro pensamos ser os degraus de um velho machibombo, mas rapidamente nos apercebemos que são as articulações dos nossos joelhos. O tempo passa e nós só damos por isso quando nestes dias frios que se avizinham, tomamos extrema atenção aos cuidados que é preciso ter com os idosos e preparamos as mantinhas, a botija de água quente e verificamos se há lenha suficiente para não deixar morrer a lareira.

Era uma manhã de um sábado frio, embora solarengo, de inverno. Ela saiu de casa braço dado com Constantino. Os passos dela eram curtos, não se podia mexer com a mesma agilidade de uns meses atrás, mas decididos e ela, sem receios, determinada e, sobretudo, muito feliz. Ele levou-a a tomar o pequeno-almoço e depois deixou-a no hospital. Nesse dia ele precisava ir trabalhar, ela teria os seus trabalhos umas horas mais tarde. Juntou-se a ele na mesa do almoço, mas não comeu. Não devia, não podia. Quando se deixaram, ela regressou ao hospital pelo seu próprio pé e ele voltou para o escritório. Constantino olhou para o relógio, estava na hora. Desligou o computador, fechou a pasta de documentos, colocou a máquina fotográfica à tiracolo, fechou as luzes, desceu à garagem, levou o carro, foi ele próprio para o hospital. Ela aparentava uma inusitada calma. Ele aparentava um, mais que justificado, nervoso miudinho. Entraram juntos na sala de partos e enquanto ela trabalhou, ele acarinhou-a. E fotografou.

Ao fim da tarde, quando chegou a hora de os deixar descansar, tão lindos que estavam lado a lado, mãe e filho, Constantino beijou-os e saiu. Quando entrou na tasca do Ismael, em plena Rua dos Correeiros, eufórico, gritou uma rodada para todos; hoje pago eu! Fui há vinte e sete anos quando nasceu o João. Eu sei que tu sabes mas nunca me canso de te dizer que te amo, meu filho. O tempo passa e uma pessoa nem dá por isso quando no aconchego da sua intimidade se vira para ela, com a mesma verdade, com o mesmo carinho e com a mesma vontade e lhe diz eu amo-te meu amor!

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

94. Ismael (19) - Cisma


Imprimi todas as páginas escritas do meu livro cujo nome ainda não inventei. Há pouco, enquanto tirava a fotografia a uma nuvem cujo sol-pôr a iluminava numa chama voadora, ai que bonito que isto é, ainda pensei, provisoriamente, chamar-lhe “ Ismael, Isabela e Incesto, três is, uma só história”. Mas retirei logo isso da cabeça pois, no meu livro, não tenho qualquer intenção de escrever sobre nenhum incesto. Assim impressos em Trebuchet MS 14, justificado em ambas as margens, já vai numas belas 39 páginas, somando aquelas que ainda não publiquei na Internet, já começaria a compor algo vendável. Enfiei os A4 numa pastinha plástica da Âmbar e saí, como raramente o faço, para tomar um café.

Já vi que é escritor, disse-me mesmo antes de dizer bom dia, bom dia e desculpe a intromissão, continuou sem que eu tivesse ainda reagido. A bica estava quente, uma mania que nunca entendi esta de servirem o café em chávena escaldada que me queimou os lábios mal lhe toquei com os ditos. Soltei um bolas, não em voz alta mas o suficiente para aliviar a tensão quando um tipo não está em situação de dizer um impropério. Pedi desculpa, olhei-a na mesa ao lado da minha, com um livro de Luís Sepúlveda fechado ao lado da sandes de fiambre com manteiga. Respondi-lhe que era uma tentativa. Quis saber qual era o tema e eu disse-lhe que ainda não tinha. Deu uma gargalhada e suspirou um não acredito! Depois ainda sem ter sustido completamente o riso perguntou-me como é que se pode escrever um livro sem tema?. Foi aí que eu lhe expliquei que na verdade eu não sabia bem se aquilo era um livro ou se eu iria escrever um livro. Pareceu-me confusa e obrigou-me praticamente a explicar-lhe detalhadamente todo este imbróglio. Ela foi comendo a sandes e no fim lambeu um pouco de manteiga que lhe ficou num dedo. No fim da sandes, quero eu dizer, mas não no fim da nossa conversa que ainda durou mais uma bica, desta vez em chávena apenas morna e um carioca fraquinho para ela. Sugeriu-me que fossemos até à esplanada para que pudesse fumar um cigarro e desta vez foi a minha de soltar uma gargalhada. O café não tinha esplanada.

Quando saí dali, não trazia apenas a garota na cabeça, trazia novas ideias, mas que não as explanarei agora, pois isso tiraria algum suspense. Discutimos se Isabella poderia ter uma irmã gémea que fosse na verdade o objeto do crime e que só por engano tenham recaído sobre ela as sete, logo sete, facadas; falamos também do tio do médico israelita e da coincidência de ele ser coxo, coincidência essa com o facto da misteriosa senhora de Trás-os-Montes achar que na noite do crime alguém coxeava; falamos que até pode não ser coincidência e falamos também que o meu livro não é um livro policial, que a morte de Isabella é um fait-divers para que eu possa contar as minhas histórias e as minhas relações de amizade com o galego Ismael Gusmán e que, eu próprio, nem sequer sei se na Rua dos Correeiros, 43, há ou alguma vez houve um prédio com sexto andar direito. Só não a consegui convencer como é o Dr. Castro Ribeiro um senhor de famílias, escrivão de Direito na cidade do Porto, divorciado de uma mulher com os dotes de Francisca, notívago de vocação, frequentador de cabarets, casas de alterne e outras de má porte, não tem nada a ver com esta história mas sim com um posfácio que eu terei forçosamente de escrever para me esclarecer.

Se isto tivesse sido noutros tempos, o meu amigo Ismael Gúsman ao ver a minha cara de preocupação com a evolução deste trabalho, tinha-me trazido um daqueles pãezinhos saloios, com dois lombinhos na chapa, passados em manteiga de vaca e um copinho de tinto das Gaeiras. Colocaria ao meu lado uma tacinha com mostarda e uma colher de café e dir-me-ia, batendo-me nas costas, Oh Constantino, não penxe mais nixo!