Parece que temos novidades, disse o Inspetor Ismael Sacadura Flores, mal acabou de chegar e ainda antes de cumprimentar o jovem Espinheira que, enquanto comia uma sandes de torresmos e bebia uma schwepps de ananás, não tirava os olhos do livro de capa preta. Depois de pendurar o sobretudo no bengaleiro e também o chapéu de feltro, esfregou as mãos uma na outra, soprou-as fazendo-lhes chegar ar quente acabado de fabricar no seu próprio interior e interjeicionou, incha que está frio! O jovem Espinheira (que é o mesmo senhor Espinheira a quem já me referi em tempos, mas noutra época), assentou que sim com a cabeça. Em todo este entretanto, aproximou-se o galego Ismael Gúsman trazendo numa mão um pequeno prato onde ainda fumegavam dois pastéis de bacalhau e na outra uma taça de tinto, que era preciso aquecer as entranhas ao inspetor. Depois de perguntar ao jovem Espinheira se precisava de algo mais, retirou-se e foi ter dois dedos de conversa com a Fernandinha. Ouviu-se-lhe ainda de fundo falar em Sebastião, na expressão poucas-vergonhas e outros sussurros que poderão não ter interesse para a narrativa. Desembuche lá, Espinheira, que não tenho o dia todo, rematou o inspetor Sacadura.
Temos aqui na página doze, uma referência que não sei se lhe interessa, disse o Espinheira hesitante, pois estava com pouca vontade de entrar por ali. Pois eu confesso-lhe, Espinheira, que poucas foram as páginas onde consegui decifrar mais do que três palavras seguidas, confessou efetivamente o inspetor Ismael Flores. Continua então Espinheira, a páginas doze, diz a Francisca que “o doutor Ismael ben-Avraham vivia com os seus pais nos Alpes Austríacos, longe dos negócios da família ben-Avraham da parte do pai e da família Baruch da parte da mãe”. Conta ela também, informa o Espinheira, que “os pais do doutor foram muito mal tratados por uns italianos suíços, ou suíços italianos de Lugano, muito próximos dos camisas negras”. Não esclarece as ligações desta família suíça com a bailarina italiana Isabela, morta, como sabe senhor inspetor, com sete facadas, aqui mesmo no número quarenta e três desta Rua dos Correeiros, observa e muito bem, segundo palavras do próprio inspetor, o jovem Espinheira. Só se for lá para a frente quando eu conseguir decifrar esta espécie de hieróglifos, dando alguma esperança ao inspetor Sacadura. Ah, esqueci-me de dizer que temos aqui uma nota de rodapé, nesta mesma página doze, dizendo que “o tio, Ishmail Baruch perdeu dois irmãos, duas cunhadas, vários sobrinhos e um filho durante a depuração nazi”. E mais não diz por enquanto.
Em seguida, num só fôlego, Espinheira, depois de saltar para a página oitenta e oito leu, em voz alta, para grande espanto de todos, inclusive do Rogério que tinha chegado e discretamente se sentado na sua mesa de canto, A disceptação teve o seu epílogo. Estava decidido. Como bom dendrófobo dirigir-me-ia para o deserto. Ele caminharia para os antípodas. Sentia-me fatigado de ser sempre apoucado nas minhas decisões. Assumiria de uma vez por todas o meu eremitismo. O badano, já cambado, haveria de suportar as duas ou três horas que me faltavam para chegar ao destino. Quando as adelfas e as carvalhinhas começaram a rarear nas margens do caminho, o dia abaçanava. A alimária alentecia e nem os golpes de butuca a fariam mover. Paramos. Coligi os escassos haveres, cobri-me com um bedém, com o qual me tinha abispado antes da partida, sentei-me ao velho jeito índio, as pernas cruzadas uma sobre a outra e adormeci. A minha mente extenuada achapuçava-se de sonhos. Abentesmas albípedes cujas restantes partes corporais se não viam, bandarreavam no meu espírito deixando-me azabumbado. Como seria possível em lugar tão ermo me sentir cercado. Acordei abruptamente. Autócnes de aspeto boçal faziam a festa. Nunca na vida tinham deparado com tão alva tez. Com as mãos enrugadas esbarbavam-me o capote como que se inteirando da minha condição de real.
Fernandinha não entendeu patavina da récita, Ismael Gúsman gritou lá de dentro do balcão que os passarinhos estavam prontos se podia servi-los já ou esperavam mais um pouco, Rogério coçou a cabeça e o inspetor Ismael Sacadura Flores, ainda um pouco perplexo, com os olhos meio esbugalhados apenas conseguiu dizer, que essa Francisca era um poço de surpresas. Então ela escrevia contos e nós não sabíamos de nada? Pois vou querer seguir essa história. E, com as mãos em concha soprou-as de novo com ar quente.

