quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

87. Ismael (12) - Afinal havia um coxo


No quinto andar, a esta distância dos acontecimentos, já nem eu me lembro e creio que nem o Espinheira (de quem vos tenho vindo a falar aos poucos) foi capaz de me esclarecer, se seria no quinto direito ou no quinto andar frente já que no quinto esquerdo não teria sido, pois havia mais de três anos que estava encerrado por mor de uma penhora, que morou uma velhota misteriosa. Só era vista pela casa entre Setembro e Maio uma vez que, por questões associadas ao seu sistema hormonal, não aguentava nem muito calor, nem muito frio. Nessa altura, meados de Maio, mais coisa menos coisa, embrulhava a trouxa, comprava passagem e viajava até ao Canadá onde tinha lá uma filha, por sinal bem casada com um polaco e ainda duas sobrinhas que esperaram uma carta de chamada da tia para emigrarem. Diz-se que esta senhora era de Trás-os-Montes mas desde que saiu da terra para emigrar para o Canadá nunca mais lá voltou. Uns falam que foi por desgosto de amor, outros dizem que ela tinha umas contas a ajustar com um conterrâneo que veio morar, crê-se também que, para a Quinta do Conde, a verdade é que a pobre velhota (este pobre nada tem de material é apenas para enriquecer a escrita), alugou um apartamento na baixa, vivia entre Lisboa e Toronto, fazia caminhada todas as manhãs, dando duas voltas ao Rossio, contando as estátuas das fontes como entretenimento e, pelas nove da manhã, antes de ir à missa na igreja de S. Domingos, bebia uma ginjinha, na Ginjinha do Rossio, que pertencia a outro Espinheira que não o paleólogo de quem vos voltarei a falar. Palavra de escuteiro.

Ora no fatídico dia em que Isabela pereceu, terá comentado com um reformado, que se sentava junto ao Teatro Nacional D. Maria II a dar milho aos pombos, de que teria ouvido passos no andar de cima. Ela não achava nada de anormal ouvir passos nos andares de cima já que o prédio tinha vários moradores. Mas vindos do sexto andar esquerdo? Não… ali havia mistério. A menina Isabela tinha chegado tarde do teatro, que ela bem o sabia, pois a sua crónica insónia não a deixava pregar olho antes das quatro da manhã, embora às oito já estivesse a pé e a caminhar, vingando-se depois na sesta das três da tarde. Ora, se a menina chegou tarde e com uns passinhos tão leves, não poderia andar com tacões altos às sete da manhã, já o dia começara a romper, pois nunca a vira levantar-se para abrir a janela antes do meio-dia, meio-dia e picos. E a mais que ela bem lhe pareceu ter ouvido um grito. Não se meteu, porque não tem nada a ver com a vida dos vizinhos, só estranhou os tacões pelo que o barulho lhe pareceu algo irregular, de alguém que fosse manco. O reformado que dava milho aos pombos junto ao Teatro Nacional, levantou os olhos do chão, olhou para a misteriosa senhora de Trás-os-Montes e respondeu, Pois!

Quando a misteriosa senhora de Trás-os-Montes, já após ter feito o check-in, àquele tempo no único terminal do aeroporto de Lisboa se preparava para partir, Ismael Sacadura Flores, o inspetor encarregado do “caso corista” não a deixou embarcar.

 Em Toronto, duas sobrinhas esperaram muito tempo pela tia trasmontana.

domingo, 8 de janeiro de 2012

86. Ismael (11) - copos


Tinham acabado as festas, Baltazar, Belchior e Gaspar já tinham entregado os presentes ao Menino Jesus, as mesas já haviam sido levantadas, as passas sobrantes, os pinhões, e até as frutas cristalizadas um dia destes serviriam para fazer um bolo inglês. Quando abri o frigorífico já nem um pouco do borrego assado no dia de Reis, envolto em gordura coalhada, sequer sobrava. Os queijos haviam levado um sumiço e até do pedaço de presunto comprado na feira de Natal só sobrava o osso. Tinha de sair para a escola, a minha mãe atrás de mim com uma caneca de café acabadinha de fazer e uma fatia de bolo-rei e eu a dizer que não tinha tempo para tomar o pequeno-almoço, farto que estava de bolos, filhoses e fatias paridas. Sei que ela ficou com uma lágrima no olho por eu ter sido tão brusco ao fechar o portão da escada, mas o Sr. Ramalho não iria esperar para pôr a carreira em andamento até Cacilhas só porque aqui o moi même tinha de tomar o cafezinho e assim saí e assim, sem nada no bucho, cheguei à faculdade.

Com aulas atrás de aulas acabei devorando uma sandes de queijo e um sumol num dos intervalos e uma bica e dois cigarros noutro. Quando por volta das cinco da tarde saí do Técnico estava com uma fome de lobo e não pensei em mais ninguém, nem em mais nada. Apanhei o metro até ao Rossio e dirigi-me à Rua dos Correeiros, à tasca do meu amigo Ismael. Passarinhos acabados de fritar, rissóis de camarão e pastelinhos de bacalhau, como só a Fernandinha os sabia fazer, só naquela tasca recôndita, mal iluminada onde o Rogério se senta a ler e a escrever.
   
Ainda não vos falei do Rogério, tampouco da Fernandinha, mas deixarei para mais tarde alguns detalhes e quiçá, umas narrativas dos personagens. Hoje apenas vos digo que a Fernandinha era a moça que o Ismael tinha contratado para a cozinha. Uma jovem beirã, faces rosadas, um pouco anafadinha para a idade mas que não deixava de ser a cobiça de quantos paravam na taberna. Sabe, xenhor Constantino (apesar de eu me irritar com este tratamento, jovem de pouco mais de vinte anos que eu era), se voxê quisesse tinha ali um bom partido. E eu começava-me a rir, oh homem, vossemecê não acha que ainda sou muito novo para me prender? Não sei que idade tinha o Ismael Gusmán, mas já teria entrado nos cinquenta, o filho, Ismael Gusmán como o pai, a quem tratávamos por Júnior já era crescidote na altura e o senhor Ismael já não era novo quando teve aquela aventura com a cantadeira Lucrécia, Deus tenha a sua alma em descanso porque era boa mocinha mas, enfim, muito fraca de corpo e, naquele tempo, a tuberculose era fatídica. Ou então, venha de lá quem saiba, teria sido de ciúmes da Isaurinha bate-sola, pois se se morre de amor, também se morre de ciúme. No entanto, aquela contratação da Fernandinha, trazia água no bico. Adiante.

Ficamos depois ali mais de uma hora a falar de namoradas e a comer rissóis de camarão, passarinhos fritos e pastéis de bacalhau e eu a vingar-me da bebida que em casa não bebia, não que não tivesse havido espumante, anis e vinho abafado, mas um adolescente e ainda por cima estudante, não se mete nessas coisas. Não foi portanto de admirar que um bom jarro de tinto já me tenha dado um certo tremor nas pernas. Não dei parte fraca mas acho que ao senhor Ismael não lhe passou despercebida a cor dos meus olhos. Quando lhe dei as boas noites e lhe acenei com a mão como quem faz continência, estava quase na hora do último vapor do Terreiro de Paço para Cacilhas. Voei, literalmente, e lembro-me de um homenzinho de camisa azul e panamá branco, de virola dobrada, gritar-me salta ou ficas em terra. Saltei.

Durante uns quatro ou cinco dias não tive oportunidade de passar pela taberna do galego pois um exame de eletrotecnia e uma discussão do trabalho de uma disciplina tão parva que já nem me lembro o nome, me ocuparam mais horas do que aquelas que eu gostaria de ter despendido. Para mim há outras coisas boas (muito boas) na vida que não seja só estudar, mas obrigações, são obrigações.

Seja bem aparexido sr. Constantino, cumprimentou-me o Sr. Ismael mal bati com a cabeça nos espanta-espíritos, anjinhos em latão amarelo tocando sinos com uma vareta, suspensos na porta que sinalizavam a nossa entrada. Respondi-lhe à saudação com um aperto de mão e meio abraço e aproximamo-nos de uma mesa isolada quando ele me atacou. Oiça lá xenhor Constantino, o tintinho faz boxê perder o xuízo ou está a ficar maluquinho de tanto estudo? E eu com uma cara de parvo que nem imaginam, fazendo-me de novas sobre o que ele estava a falar. Esperto e perspicaz, o meu amigo galego dá uma gargalhada e diz-me baixinho, não, não xenhor, não o estou a criticar de ter passado o tempo a bater olhos à Fernandinha, mas que história é essa de me ter passado a tarde a chamar xudeu, de me dixer que eu era tal e qual o xenhor ben-Avraham e dizer-me que um dia ainda vai desvendar o crime das sete facadas?

Nesse dia, li um livro de Asterix, folheei três páginas de Herman Hess e decidi-me por Edgar Morin. E nem a voz abafada de um bardo cantando como se estivesse atado a uma árvore me inspirou o resto do dia. Quando adormeci, em vez de sonhar com Isabela voavam à roda da minha cabeça seis passarinhos fritos e três pastéis de bacalhau.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

85. Ismael (10) - Feliz Ano Novo!


Quando calcorreia os arquivos da cidade, do cartório para as igrejas, das igrejas para a Torre do Tombo, da Torre do Tombo para as câmaras municipais, o senhor Espinheira vai descobrindo coisas que, não só o espantam a ele, mas também a quem ele conta. A propósito de uma casita que recebeu de herança na baixa de Lisboa, mais precisamente na Rua dos Correeiros, foi lendo uns papéis por aqui e por ali, até que descobriu a abertura de um auto da Polícia Nacional de um crime que se tinha dado num sexto andar do número quarenta e três. Foi, casualmente, numa tertúlia dos confrades das iscas com elas que me falou do assunto.

O senhor Espinheira é um homem bastante reservado no que consta a matérias sobre investigação. Depois compila tudo e quando acha que já está na altura certa, publica. Naquele dia lembrou-se de me falar da coisa, segundo ele, por duas razões que não me pareceram muito acertadas. A primeira teria a ver com o meu voraz apetite por iscas com elas. A segunda, talvez mais trabalhada por ele, foi a do meu conhecimento da vida de Ismael Gusmán. E se não fosse intrigante ele ter associado o crime do número quarenta e três à tasca do Ismael, já me deixaria com a pulga atrás da orelha o facto de ele saber algo sobre o caso, uma vez que esse crime tinha sido inventado por mim, para apimentar as minhas histórias e as do meu amigo do peito, Ismael Gúsman, galego nato e criado em Lisboa. E fiquei a matutar com os meus botões se Ismael ben-Avraham existe mesmo e não é uma criação que fiz ao estilo (mal copiado) do que criaria a senhora Agatha Christie, se o homem é mesmo médico, se é judeu e se fuma puros charutos cubanos. E Ekatrina, e Isabela e Ismaelix?

Esta conversa com o Espinheira e o crime do número quarenta e três, sexto andar, onde foi assassinada Isabela, a corista italiana, com sete facadas, num ato de violência indescritível, está separada por mais de cinquenta anos e ainda hoje me causa tanta estranheza ter ocorrido, que desde esse dia que não tenho andado a bater bem. Porque seria que ele me veio falar daquilo com o falacioso argumento do meu prazer pelas iscas com elas? Ou terá ele tido conhecimento de que Isabela é uma personagem de ficção? Ou terá lido o manuscrito de Francisca? Ou será algum enredo ligado com a misteriosa senhora de Trás-os- Montes?

Quando voltar a encontrar o Espinheira vou-lhe dizer cara a cara, olhos nos olhos, sem qualquer receio de vir a ser desmentido, de que não há prato que eu mais deteste do que as iscas com elas. E que só estava nessa reunião dos confrades das iscas porque me enganei no andar. Até porque se notava logo que eu não tinha o chapéu da confraria e que o laço na camisa e os sapatos de verniz era o meu traje de gala para mais uma noite de Reveiilon.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

84. Ismael (9) - Açúcar e canela


Lembro ainda dos carrinhos com rodas de madeira, dos índios e dos cowboys montados em cavalos de plástico, dos livros do pato Donald e dos seus três sobrinhos que me dava o Menino Jesus. Lembro-me do frio das noites de Natal que teimava em entrar pela frincha da porta da cozinha e do alguidar de barro onde a massa era batida e abafada. Não amor, com as tuas calças não. Isto é preciso força de homem. E depois de amassada a farinha, bem amassada com água quente e abóbora e um cálice de aguardente, apropriadamente fermentada e umas mãos fortes esmurrando-a e virando-a e, depois de se polvilhar com uma mãozinha de farinha seca, as cinco chagas de Cristo. Um pano branco, muito bem passado a ferro fará a primeira cobertura. Depois os cobertores e as calças de homem. Para levedar e a tornar fofa. À noite, bem à noitinha, a avô sentada em frente ao fogareiro com o óleo bem quente, que um salpico de água haveria de testemunhar a temperatura, esticava as filhós com as mãos e punha-as a fritar. Saíam loiras, fofinhas e bem cheirosas. Ainda hoje me lembro do cheiro daqueles fritos, num misto de aromas de abóbora com aguardente que perfumavam toda a cozinha. Depois eram temperadas com açúcar e canela. Nessa época não se bebia coca-cola e por isso o pai natal não aparecia pendurado nas varandas, nem a bater às janelas das casas. Naquele tempo, os bafos da vaquinha e do burro aqueciam o Menino em leito de palha enquanto Maria e José o adoravam no presépio. Num carreiro, desenhado com areia por entre o musgo, três reis, montados em camelos, seguiam a estrela que o meu pai colocava bem lá no cimo da árvore de Natal e, apesar de nós nunca termos visto neve, bolinhas de algodão penduradas no pinheiro mostravam que dentro de minha casa e apesar do calor da cozinha e do cheiro das filhós, do açúcar e da canela e das fatias douradas que a minha mãe já se preparava para fritar, mostravam que na minha casa também poderia nevar. Mãe, ainda falta muito para o Menino Jesus chegar? Perguntava eu enquanto olhava pelo canto do olho para ver quando é que o Menino deixaria a manjedoura onde dormia de cabelos loiros, muito loiros e bracinhos no ar para vir trazer os presentes à chaminé, até que, vencido pelo sono, já o sapatinho que há horas tinha nas mãos me pendia, era levado ao colo para a cama, com um beijinho e o aconchego dos lençóis.

Um dia relembrava as minhas noites de Natal com Ismael Gúsman. Uma lágrima corria-lhe no rosto. Diz que enquanto o neto cá morou até um triciclo lhe deu. Interrogava-se como é que seria o Natal lá longe para onde tinha emigrado. Depois, quando ficou só, às cinco da tarde fechava a tasca da Rua do Correeiros, já a noite começava a cair e, chegado à Quinta do Conde, comia uma sopa de couves, um naco de pão com qualquer cossita, como ele me costumava dizer, acendia o rádio transístor na mesa de cabeceira e adormecia, talvez ao som do Adeste Fideles. Ah é verdade, Sr. Constantino, pero não foi na noite de Natal, no!. En los Reyes como é o costumbre lá de mi terra. E falou-me de novo no triciclo.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

83. Ismael (8) - O manuscrito de Francisca


Seis anos Ismael Gúsman viveu com Isaura Peres. Francisca que adorava romances de amor não poderia estar mais feliz com este romance. Francisca chegou a morar no Porto. Filha do Alentejo quis o destino que, por força do trabalho do marido, um ilustre juiz de direito, tivesse de se deslocar para o norte do país. Não viveu aí muitos anos, o casamento não correu bem, pois o Dr. Castro Ribeiro era de mulheres, tendo decido rumar de novo a Sul. Mas regressar ao Alentejo não estava nas suas cogitações mais próximas. Nesse tempo grassava a fome e a miséria pelos campos alentejanos. Os jornaleiros alimentavam-se de toucinho cozido num caldo de água e acelgas e, se havia um naco de pão era porque o caseiro, ou o maioral do gado dispensava um pouco do que o patrão lhes dava. As pessoas emigravam para França e para a Alemanha que precisavam ser reconstruídas e havia trabalho. Quem cá ficava também não se fixava nos campos. É verdade que houve a campanha do trigo mas não chegava para todos. Francisca, que dela não possuía fortuna e como o Dr. Castro punha e dispunha, bem suportado por um regime que protegia os mais fortes, viu-se forçada a regressar com uma mão atrás e outra à frente. Ficará para mais tarde contar a vida atribulada de Francisca. Vem assim, a nossa alentejana, quando regressou ao sul, a fixar-se na Quinta do Conde. Foi aí que conheceu o meu amigo galego, Ismael Gúsman e o seu arrastar de asa à filha do sapateiro a jovem Isaura Peres, a quem todos chamavam Isaurinha bate-sola.

Naquele dia abafado de maio, trovejava e rezava-se a Santa Bárbara. Francisca precisava de ir à mercearia. Queria fazer uma sopinha e faltava-lhe o nabo. Sem nabo, para Francisca, sopa não era sopa. A mercearia do Sr. Rodrigues tinha de tudo. D. Francisca era vaidosa e até para ir à mercearia se aperaltava. Usava um carrapito muito bem composto com dois ganchos de madrepérola que o seu sobrinho Sebastião lhe tinha trazido de uma viagem que fez às Canárias. O sobrinho de Francisca era um belo rapaz, embarcadiço, tratava dos camarotes e das copas, ganhava para se governar. Só era pena ser manco, pois que se tratava de uma bela figura. Diziam que se tinha apaixonado por uma corista italiana e que andava na vida do mar para juntar um dinheirinho. Vestiu um vestido de chita às flores, calçou uns sapatos abertos, que mais pareciam sandálias, fino recorte a condizer com a sua anterior condição, colocou um cinto que lhe realçava a estreita cintura, pegou num pequeno cabaz de verga e um guarda-chuva, não fosse a trovoada lhe pregar uma partida e saiu.

Naquele dia na mercearia o encontro entre Francisca e Isaura foi tudo menos alegre. A filha do sapateiro estava disposta a abandonar o galego e Francisca ficara perplexa. Tão amorosos que eles eram. Depois, assim como se fossem duas grandes confidentes, veio Isaurinha bate-sola a confessar que soubera que Ismael tinha tido outra mulher, da qual nascera um rapaz, tal e qual a carinha do pai que até lhe puseram o mesmo nome e que, sempre que o galego estava com ela, ela se imaginava como uma substituta. Parece até que a moça era bailarina, amiga de uma tal Isabela que tinha sido assassinada uns meses atrás e a última coisa que Isaura queria era ver-se envolvida em crimes de sangue. Entrou Sebastião na mercearia, encharcado até á medula mas no seu tão inconfundível como harmonioso coxear, trocou olhares com Isaurinha, deu um beijo na testa da tia Francisca e pediu uma gasosa.

Quando regressou a casa Francisca colocou o nabo de lado. Pegou num bloco de apontamentos e gatafunhou umas frases. Juntou dois com dois mas não lhe dava quatro. Toda a história de Isaurinha bate-sola lhe cheirava a esturro a ponto de não ter acreditado nem  em uma única palavra? O que teria Isabela a ver com a mãe de Ismael Gusman Júnior? Porque é que o seu sobrinho andava a desencaminhar Isaurinha bate-sola se a sua paixão era uma bailarina do parque Mayer? O filho era tal e qual o pai mas quem seria a paixão de Ismael? Disse-me o Espinheira, bem recentemente, que apesar de toda a sua formação paleológica, uma das mais indecifráveis escritas era a do manuscrito de uma tal Francisca, da Quinta do Conde.

Eu era muito pequeno e nunca soube nada do que acima escrevi. Tive de inventar tudo para preencher mais um capítulo do meu livro. Mas fica bem haver histórias de amor, que com paciência desenvolverei, descreverei até a cor dos cortinados do quarto de Isaurinha Peres, a filha do sapateiro, do candeeiro de teto de Francisca, a qualidade das pantufas que Ismael usava em casa e os afagos que o bobby, o cão rafeiro, do marinheiro Sebastião recebia de cada vez que voltava de viagem. Mas agora só vos pretendo dizer que na tasca de Ismael Gusmán, que apenas comecei a frequentar já nos inícios dos anos setenta, pendurados numa parede, havia, como decoração, uma bigorna de sapateiro, duas sapatilhas de ballet e um ramo de hortaliça com dois nabos dependurados. Todas as semanas, um homem de bigode à Chalana, mas totalmente branco e com um sotaque de emigrante francês, substituía a verdura por outra mais viçosa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Ismael (7) - Todo livro tem um tema, ou não...


Nunca falei ao senhor Ismael sobre o meu projeto de livro, embora já me tivesse passado pela cabeça que, se um dia eu escrevesse, ele teria como protagonista Ismael Gúsman. Conhecendo-o como eu o conheci, tenho a certeza que ele levantaria o avental azul-escuro para limpar o suor do pescoço, tiraria a boina e coçaria a cabeça. Depois perguntaria o porquê de ser ele. Conhecendo-o como eu o conheci, ele não gostaria de ser o protagonista mas apenas mais um, devidamente contextualizado. Seria aí que eu lhe diria que ele não estava sozinho. O seu pai Ismael Gúsman y Toledo, seu filho Ismael Gúsman Júnior, seu netinho Isamelito ou Ismaelzinho como também era chamado, os seus vizinhos, Ismaelix, Mendix  e Ismael ben-Avraham, mais o tio deste, Ishamel Baruch, Agatha Christie, Uderzo, Daniel Silva, Isabela, Ekatrina Smirnova, o Espinheira, a Fernandinha e até a D. Laurentina, para além de alguns amigos meus, entre outros, não esquecendo a misteriosa senhora de Trás-os-Montes e o inspetor Ismael Sacadura Flores e o coxo, fariam parte da história e, se me apetecesse, ao longo do pseudolivro, o tal que nunca escrevi mas que um dia, se me desse na real gana escrever, escreveria,  ainda apareceriam mais. Nessa altura, Ismael levantar-se-ia, iria buscar uns salgadinhos num pires de loiça de segunda, caqueirado nos bordos, dois copos grossos de vidro mas muito bem lavados, um canjerão meio de tinto, porque ele não bebe mas faz companhia e depois de acender um Português Suave sem filtro, cigarro a que ele se habituou depois de deixarem de ser produzidos os Provisórios, daria uma, vá lá, duas baforadas e dir-me-ia, veja lá xenhor Constantino em que é que me vai meter.

Postulado que Ismael Gúsman nunca soube deste seu protagonismo, assentemos no que ele me sugeriria para a minha virtual escrita ou como se diz hoje em dia nos meios intelectuais, para a minha putativa narração. Começaria com certeza por me propor que fossemos todos vizinhos, num só prédio, nos juntássemos em famílias tipo, os ixes eram todos franceses e viviam no segundo esquerdo, os escritores compartilhavam o apartamento do primeiro direito, D. Laurentina, seria a irmã mais velha da falecida mãe de Fernandinha e vivia com a sobrinha no rés-do-chão, Isabela e Ekatrina, já o sabemos, moravam juntas no sexto andar do número quarenta e três e assim sucessivamente. A misteriosa trasmontana ocupava a espaços um dos apartamentos do quinto andar. Eu dir-lhe-ia que isso não poderia ser, visto que, embora só agora tivesse sido publicado, já em mil novecentos e cinquenta e três, José Saramago tinha escrito Claraboia com a mesma estrutura. Pois bem alvitraria ele que, sendo assim, ainda teríamos a hipótese já que, tirando as bailarinas, todos moravam na Quinta do Conde (onde aquelas até poderiam ter morado no início), pôr todos a viver na mesma rua, uma rua, sei lá, que aos poucos se fosse extinguindo. Claro que isso seria como que plagiar o Mário Zambujal que já tinha escrito Histórias do Fim da Rua sobre o mesmo tema. Como tenho a certeza que ele encontraria uma solução, sugerir-me-ia que escrevesse um livro policial, “O crime do número 43” em que, depois de muitas cenas canalhas, o inspetor Ismael Sacadura Flores em fim de festa, reuniria todos na tasca da Rua dos Correeiros e, um a um, iria divulgando os motivos pelo qual ele ou ela poderia ter sido o assassino de Isabela e ao mesmo tempo ilibando-os até que, perante as evidências, quiçá Fernandinha, ou a misteriosa senhora de Trás-os-Montes ou, porque não, o respeitável senhor Ishmael Baruch, afinal um agente da Mossad infiltrado em tabernas, teatros revisteiros e cabarets, acabasse confessando que teria morto à facada à pobre corista italiana. Claro está que Mrs. Christie e o seu inseparável Poirot já o fizeram bem melhor e nem a rua dos Correeiros é o Nilo, nem o comboio do Rossio é o Expresso do Oriente e eu ousaria propor que, com tantos personagens, bastaria encontrar umas musas inspiradoras, uns velhos mal dizentes e uns personagens a atirar aos descobridores e escreveria um poema épico. E se a inspiração fosse muita, mas muita mesmo, dividi-lo-ia em cantos. 

Seria aqui que o meu amigo galego me daria uma palmadinha nas costas e me diria sem pestanejar Oiça lá xenhor Constantino, eu tenho muita conxideração por voxemecê, mas não quer ir chatear o Camões? E acabaríamos os dois com o resto do vinho que ainda ficara no canjerão.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

81. Ismael (6) - Boina, dia da mãe e sócio do Benfica


Estava a terminar o ano de mil novecentos e sessenta e seis. Ismael Gúsman tinha nascido em trinta e um e vindo com o tio para Lisboa no fim da guerra civil, apenas com oito anos de idade. No dia oito de dezembro fazia o que fazia em todos os domingos e dias santos. Vestia a sua melhor camisa, o fato preto de três peças e os sapatos de verniz que eram bem limpos e abrilhantados com azeite na véspera. Saía cedo de casa e, como a D. Laurentina, uma trintona bonita de cabelos negros e olhos cor de azeitona, tinha ficado sem o seu homem na queda dum andaime nuns prédios altos que andavam a fazer lá para Lisboa, como ela dizia, ele acompanhava-a à missa em Azeitão. Hoje era dia da mãe e Ismael, que já não se lembrava da sua, dizia mesmo que não sabia se a tinha conhecido, iria rezar-lhe três Avés Maria e um Padre Nosso. Depois apanhariam a carreira e iriam comer uma caldeirada a Setúbal.  Foi nesse momento, embrenhado nestes pensamentos, que Ismael Gúsman se lembrou que hoje não podia ser, que hoje não poderia acompanhar D. Laurentina à igreja.

Tinha sido no início do mês passado que o senhor Augusto parou lá pela tasca, num dia que fora buscar mercadoria aos armazéns de S. Domingos a fim de abastecer a sua venda de roupas. Carregado com dois pesados embrulhos de roupa interior e meias angorá, que se vendiam muito bem naquela época, tinha descansado os pulsos lá no senhor Ismael, saboreado um pastelinho de bacalhau superiormente confecionado pela Fernandinha e bebido um tintinho do Cartaxo. Depois falou-lhe que os garotos iam ser batizados na igreja de S. Tiago em Almada no próximo dia oito e que fazia muita questão que ele estivesse presente. A sua mulher, que na altura estava grávida de oito meses e que previa que o mais novo nascesse lá para Dezembro, insistiu muito e os miúdos lá fizeram a doutrina e agora, com doze anitos o mais velho, era já hora de serem batizados. E haveriam de fazer a primeira comunhão, se Deus quisesse. Pela amizade que tinham um pelo outro não poderia faltar ao batizado dos garotos.

Quando o meu pai conheceu o Ismael num torneio de chinquilho que o Pombalense foi fazer à Quinta do Conde, estava longe de vir a imaginar que o seu filho mais velho se iria tornar um amigo do peito de Ismael Gúsman. Nesse dia Ismael, que não se esqueceu de tirar a boina galega ao entrar na igreja, rezou pela mãe dele. Assistiu ao meu batizado, partilhou do nosso lanche e à noite bebeu um bagacinho enquanto dava um abraço ao meu pai pelo nascimento do meu irmão mais novo que resolvera vir ao mundo naquele mesmo dia. Tienes alí más um xócio para o Benfica, Augusto! O meu pai sorriu e, sabendo que a minha mãe, embora não tivesse assistido ao nosso batizado estava bem e feliz com o seu novo rebento ao lado, virou de um só gole o seu copinho de aguardente.

Constou-nos mais tarde que no regresso à Quinta do Conde, o Ismael, por não a ter levado à caldeirada, passou a noite toda em casa de D. Laurentina a pedir-lhe perdão.