No quinto andar, a esta distância dos acontecimentos, já nem eu me lembro e creio que nem o Espinheira (de quem vos tenho vindo a falar aos poucos) foi capaz de me esclarecer, se seria no quinto direito ou no quinto andar frente já que no quinto esquerdo não teria sido, pois havia mais de três anos que estava encerrado por mor de uma penhora, que morou uma velhota misteriosa. Só era vista pela casa entre Setembro e Maio uma vez que, por questões associadas ao seu sistema hormonal, não aguentava nem muito calor, nem muito frio. Nessa altura, meados de Maio, mais coisa menos coisa, embrulhava a trouxa, comprava passagem e viajava até ao Canadá onde tinha lá uma filha, por sinal bem casada com um polaco e ainda duas sobrinhas que esperaram uma carta de chamada da tia para emigrarem. Diz-se que esta senhora era de Trás-os-Montes mas desde que saiu da terra para emigrar para o Canadá nunca mais lá voltou. Uns falam que foi por desgosto de amor, outros dizem que ela tinha umas contas a ajustar com um conterrâneo que veio morar, crê-se também que, para a Quinta do Conde, a verdade é que a pobre velhota (este pobre nada tem de material é apenas para enriquecer a escrita), alugou um apartamento na baixa, vivia entre Lisboa e Toronto, fazia caminhada todas as manhãs, dando duas voltas ao Rossio, contando as estátuas das fontes como entretenimento e, pelas nove da manhã, antes de ir à missa na igreja de S. Domingos, bebia uma ginjinha, na Ginjinha do Rossio, que pertencia a outro Espinheira que não o paleólogo de quem vos voltarei a falar. Palavra de escuteiro.
Ora no fatídico dia em que Isabela pereceu, terá comentado com um reformado, que se sentava junto ao Teatro Nacional D. Maria II a dar milho aos pombos, de que teria ouvido passos no andar de cima. Ela não achava nada de anormal ouvir passos nos andares de cima já que o prédio tinha vários moradores. Mas vindos do sexto andar esquerdo? Não… ali havia mistério. A menina Isabela tinha chegado tarde do teatro, que ela bem o sabia, pois a sua crónica insónia não a deixava pregar olho antes das quatro da manhã, embora às oito já estivesse a pé e a caminhar, vingando-se depois na sesta das três da tarde. Ora, se a menina chegou tarde e com uns passinhos tão leves, não poderia andar com tacões altos às sete da manhã, já o dia começara a romper, pois nunca a vira levantar-se para abrir a janela antes do meio-dia, meio-dia e picos. E a mais que ela bem lhe pareceu ter ouvido um grito. Não se meteu, porque não tem nada a ver com a vida dos vizinhos, só estranhou os tacões pelo que o barulho lhe pareceu algo irregular, de alguém que fosse manco. O reformado que dava milho aos pombos junto ao Teatro Nacional, levantou os olhos do chão, olhou para a misteriosa senhora de Trás-os-Montes e respondeu, Pois!
Quando a misteriosa senhora de Trás-os-Montes, já após ter feito o check-in, àquele tempo no único terminal do aeroporto de Lisboa se preparava para partir, Ismael Sacadura Flores, o inspetor encarregado do “caso corista” não a deixou embarcar.
Em Toronto, duas sobrinhas esperaram muito tempo pela tia trasmontana.