Nunca falei ao senhor Ismael sobre o meu projeto de livro, embora já me tivesse passado pela cabeça que, se um dia eu escrevesse, ele teria como protagonista Ismael Gúsman. Conhecendo-o como eu o conheci, tenho a certeza que ele levantaria o avental azul-escuro para limpar o suor do pescoço, tiraria a boina e coçaria a cabeça. Depois perguntaria o porquê de ser ele. Conhecendo-o como eu o conheci, ele não gostaria de ser o protagonista mas apenas mais um, devidamente contextualizado. Seria aí que eu lhe diria que ele não estava sozinho. O seu pai Ismael Gúsman y Toledo, seu filho Ismael Gúsman Júnior, seu netinho Isamelito ou Ismaelzinho como também era chamado, os seus vizinhos, Ismaelix, Mendix e Ismael ben-Avraham, mais o tio deste, Ishamel Baruch, Agatha Christie, Uderzo, Daniel Silva, Isabela, Ekatrina Smirnova, o Espinheira, a Fernandinha e até a D. Laurentina, para além de alguns amigos meus, entre outros, não esquecendo a misteriosa senhora de Trás-os-Montes e o inspetor Ismael Sacadura Flores e o coxo, fariam parte da história e, se me apetecesse, ao longo do pseudolivro, o tal que nunca escrevi mas que um dia, se me desse na real gana escrever, escreveria, ainda apareceriam mais. Nessa altura, Ismael levantar-se-ia, iria buscar uns salgadinhos num pires de loiça de segunda, caqueirado nos bordos, dois copos grossos de vidro mas muito bem lavados, um canjerão meio de tinto, porque ele não bebe mas faz companhia e depois de acender um Português Suave sem filtro, cigarro a que ele se habituou depois de deixarem de ser produzidos os Provisórios, daria uma, vá lá, duas baforadas e dir-me-ia, veja lá xenhor Constantino em que é que me vai meter.
Postulado que Ismael Gúsman nunca soube deste seu protagonismo, assentemos no que ele me sugeriria para a minha virtual escrita ou como se diz hoje em dia nos meios intelectuais, para a minha putativa narração. Começaria com certeza por me propor que fossemos todos vizinhos, num só prédio, nos juntássemos em famílias tipo, os ixes eram todos franceses e viviam no segundo esquerdo, os escritores compartilhavam o apartamento do primeiro direito, D. Laurentina, seria a irmã mais velha da falecida mãe de Fernandinha e vivia com a sobrinha no rés-do-chão, Isabela e Ekatrina, já o sabemos, moravam juntas no sexto andar do número quarenta e três e assim sucessivamente. A misteriosa trasmontana ocupava a espaços um dos apartamentos do quinto andar. Eu dir-lhe-ia que isso não poderia ser, visto que, embora só agora tivesse sido publicado, já em mil novecentos e cinquenta e três, José Saramago tinha escrito Claraboia com a mesma estrutura. Pois bem alvitraria ele que, sendo assim, ainda teríamos a hipótese já que, tirando as bailarinas, todos moravam na Quinta do Conde (onde aquelas até poderiam ter morado no início), pôr todos a viver na mesma rua, uma rua, sei lá, que aos poucos se fosse extinguindo. Claro que isso seria como que plagiar o Mário Zambujal que já tinha escrito Histórias do Fim da Rua sobre o mesmo tema. Como tenho a certeza que ele encontraria uma solução, sugerir-me-ia que escrevesse um livro policial, “O crime do número 43” em que, depois de muitas cenas canalhas, o inspetor Ismael Sacadura Flores em fim de festa, reuniria todos na tasca da Rua dos Correeiros e, um a um, iria divulgando os motivos pelo qual ele ou ela poderia ter sido o assassino de Isabela e ao mesmo tempo ilibando-os até que, perante as evidências, quiçá Fernandinha, ou a misteriosa senhora de Trás-os-Montes ou, porque não, o respeitável senhor Ishmael Baruch, afinal um agente da Mossad infiltrado em tabernas, teatros revisteiros e cabarets, acabasse confessando que teria morto à facada à pobre corista italiana. Claro está que Mrs. Christie e o seu inseparável Poirot já o fizeram bem melhor e nem a rua dos Correeiros é o Nilo, nem o comboio do Rossio é o Expresso do Oriente e eu ousaria propor que, com tantos personagens, bastaria encontrar umas musas inspiradoras, uns velhos mal dizentes e uns personagens a atirar aos descobridores e escreveria um poema épico. E se a inspiração fosse muita, mas muita mesmo, dividi-lo-ia em cantos.
Seria aqui que o meu amigo galego me daria uma palmadinha nas costas e me diria sem pestanejar Oiça lá xenhor Constantino, eu tenho muita conxideração por voxemecê, mas não quer ir chatear o Camões? E acabaríamos os dois com o resto do vinho que ainda ficara no canjerão.