A primeira pergunta que lhe fiz foi que cara é essa e ele quase me fulminou com os olhos. Ismael estava na ombreira da porta, o espanta-espíritos batia-lhe na cabeça sem que isso o incomodasse, um cigarro português suave sem filtro no canto da boca a dar mostras de que se iria apagar. Tirou a prisca da boca apertou-a entre o polegar e o indicador e jogou-a, como se fosse um berlinde, para o pavée da rua em frente à porta da tasca. E a culpa foi toda sua, senhor Constantino!
Quase me dava um baque quando entrei na tasca do galego. Parecia que tinha havido uma revolução. Mesas e cadeiras desarrumadas, viradas de pantanas, umas ainda caídas sobre as outras, garrafas partidas pelo chão, uma grande mistura de odores de licores e vinhos. Só uma garrafa de ginginha se mantinha intacta no seu lugar costumeiro entre a máquina registadora e o prato dos carapaus de escabeche. Nas prateleiras nada, as gavetas de um pequeno aparador onde Ismael guarda toalhas de mesa, talheres e pratos, caídas e despejadas, e os cacos do que outrora foram pratos de loiça esparramados pelo chão. E sou eu que tenho a culpa, sr. Ismael? Tenha lá paciência, mas não dei por nenhum tremor de terra e mesmo que desse por isso não sou eu que comando a Natureza. E foi então que o galego me explicou tudo. Aquele homem de fato cinzento e chapéu que se senta sempre na mesa do canto. Sim esse mesmo, aquele que todos dizem que é da PIDE.
(o meu pensamento voou; o pai do galego tinha morrido na guerra civil de Espanha, mas isso tinha sido há uns bons trinta e três para trinta e quatro anos; verdade que o D. Ismael de Gúsman y Toledo era republicano, mas o seu tio materno, o que o trouxe para Lisboa, era um devoto falangista e venerava o caudillo; e tantos anos, mas tantos anos depois, a mais a uma criança que chega aqui com oito anos de idade, não o haveriam de conotar com nada; cá para nós, que ninguém nos ouve nem lê, ele nunca se declarou mas eu acho que Ismael era do contra; mas isso era eu que era muito íntimo do galego; como é que eles iriam desconfiar?)
Sabe o que foi, sr. Constantino? Foi o seu livro. Sim o seu livro, aquele de capa cinzenta que você costuma andar sempre com ele debaixo do braço. Mas vossemecê tem necessidade de andar por aí com autores russos a exibir-se? E o pior é esquecer-se dele em cima da mesa. Vou-lhe contar, o tipo de fato cinzento e chapéu, pegou no livro, levou-o com ele, ainda o chamei, mas nada. Não era passada meia hora, chegaram outros, ele não, ele desapareceu, não deve querer que saibam que é bufo, revistaram-me tudo e perguntavam-me onde é que eu escondia os outros, onde que estavam os livros do Lenin e do Stalin?
Se não fosse trágica a situação do Ismael eu ter-me-ia rebolado a rir. Os desgraçados sacaram-me o Piskonov, o meu livro de matemática e deram cabo da taberna ao galego. Divinas inteligências. E ainda por cima tive de comprar um novo, porque àquele nunca mais lhe pus a vista em cima.
