De novo inquietação. Um enorme afluxo de gafanhotos aparece de entre o nevoeiro e esbarra-se contra uma parede de faz-de-conta. Para lá do mundo não há nada, só o espaço dos gafanhotos. Um a um parecem querer se levantar mas logo uma rajada de Sol penetrante os cega. Ele assustou-se e escondeu-se por detrás do arco-íris não sem ter sido perseguido por um gafanhoto manco que troava de cada vez que a perna de pau assentava no soalho. Foi atendido por uma funcionária de uma secretaria hospitalar mal disposta e não menos mal-educada, enquanto uma criança de tenra idade relatava acontecimentos do futuro. De novo inquietação. Na sala de espera, indiferente aos cardumes de atum que invadiam o estúdio, um apresentador de televisão, de fato e com a gravata a condizer, tocava uma guitarrada e um equilibrista de pijama, do cimo de uma bola gigante contava gafanhotos. Um esfigmomanómetro circulava, primeiro em pequenos círculos e depois um pouco maiores, como se quisesse desenhar uma casca de caracol e o relógio aproximava-se vertiginosamente do meio dia. Um gafanhoto maior do que o habitual insistia em vestir um colete à prova de balas, enquanto o Presidente da Junta discursava para uma multidão de mais de dois milhares de insetos e aracnídeos. Estava exausto e ofegante. Nunca uma corrida de bicicletas o tinha extenuado tanto, nem pelos corredores do hospital, nem no estúdio de televisão, nem na pista de circo, onde se tinha esquecido do palhaço, nem a caçar gafanhotos. Provavelmente àquela hora já o palhaço teria almoçado. Pensou naquele café que não bebeu e nas formigas que subiam pelas calças do Presidente da Junta. Sorriu uma, duas vezes e quando, por fim, adormeceu já levava com ele umas boas três horas de sonhos. Não voltou a ver o equilibrista por detrás do arco-íris mas já não se inquietou.
domingo, 13 de novembro de 2011
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
73. Omo lava mais branco
Aquela iria ser a mãe dos seus filhos. Para o Joaquim Colaço, o Quim , não havia qualquer sombra de dúvida. Bonita e elegante vestia bem, embora parecesse não ter um vasto guarda- roupa, gostava de usar aquela saia plissada anos cinquenta e uma blusa de chita vintage às flores, com que se costumava apresentar nos bailes da sociedade aos domingos e, um vez por outra via-se com um vestido de organdi, não muito justo mas que, ainda assim, lhe fazia realçar as curvas, empinar os glúteos e sobressair o bonito peito que um soutien, onde era possível descortinar uma sensual renda de cetim, melhor o enaltecia. Para o Quim, sei-o, terá sido amor à primeira vista.
O Quim era um galã, moda antiga, muito influenciado por Errol Flyn, usava um bigode finíssimo que lhe embelezava o sorriso e, de quando em quando, deixava crescer uma pequena pera que o assemelhava ao RobIn Hood. Aliás, o Quim chegou durante os tempos da adolescência a ser mesmo alcunhado de Joaquim dos Bosques. Quando o viram de braço de dado com Marianinha, ela de cabelo ondulado, apanhado em cima como que fazendo uma coroa, vestindo um vestido aveludado em bordeaux, que nunca ninguém lhe tinha visto antes, qual Olívia de Havilland e ele com um sobrepeliz de pele de vaca e brilhantina na cabeça, pareciam um casal por detrás da claquete de Michael Curtiz. Mas a surpresa não era a forma como se apresentavam, embora o vestido de Marianinha fizesse um vistão, nem como cuidavam e penteavam o cabelo. O que causou surpresa em todo o bairro, conhecidas que eram as constantes recusas de Marianinha e a vida um bocado cabeça ao vento e desbragada do Quim, foi o facto de se encontrarem juntos. Quim tinha levado a sua avante. Mas como em todas a histórias que conheço e que vos tenho aqui contado não há bela sem senão, quando se oficializou o namoro, Quim foi autorizado a frequentar a casa de Marianinha, todos os dias da semana exceto à quinta feira. Quinta feira era o dia da barrela e a porta de casa de Marianinha não se abria para ninguém.
A primeira questão se pôs a Quim era o que seria esse tal dia da barrela. Ele conhecia vários dias famosos, o dia do trabalhador que naquele tempo não era feriado, mas que sempre que coincidia com um fim de semana se comemorava com idas ao campo e piqueniques, o dia de Natal, que sempre foi comemorado em sua casa com bacalhau e filhós, o dia do pagamento da renda de casa, que calhava sempre a dia oito de cada mês, mas do dia da barrela ele nunca tinha ouvido falar. Quando, naquela quinta feira, a curiosidade superou o compromisso, Quim bateu, como de costume, três vezes na aldraba do portão. Marianinha nunca se sentiu tão encavacada e sem soluções. Ainda procurou um lençol para se cobrir, mas sem qualquer sombra de êxito. Afinal de contas, era o dia da barrela e toda a roupa da casa estava a lavar. Num desespero, enrolou-se na organza do cortinado da sala e abriu a porta ao seu Robin. Quando o Joaquim Colaço deparou com toda aquela transparência viajou até à floresta de Sherwood e nadou nu nos lagos de Nottingham.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
72. Uma história sem patos
Era uma vez… poderia muito bem ser assim que eu começasse este pequeno conto. Afinal de contas quem é que nunca contou uma história, aos filhos, aos netos ou aos sobrinhos que não tenha começado por era uma vez? Mas não, não vos vou contar assim, porque nestas histórias, rara é a vez em que o sapo não se transforma em príncipe, casa com a princesa e vivem felizes para sempre. Malogradamente hoje, a minha história não tem um final feliz.
Quem conta um conto tem de lhe acrescentar um ponto, pois não é verdade que é assim que o nosso povo diz? E eu hoje atrevo-me a dizer que este de hoje já terá muitos pontos acrescentados pois, ao contrário do que costumo relatar no que aqui vos escrevo, a estes factos não assisti. Contou-me um amigo meu, que ouviu contar à mulher dele que tem uma prima que, por sua vez, é muito amiga da protagonista, que se chama Maria Inácia. Direi eu, em tom exclamativo, que raio de nome haviam de ter dado a uma moça em pequena, que ainda por cima ainda é jovem! Maria Inácia era uma cunhada da minha avó que, se fosse viva, estaria agora com os seus cento e vinte anos. Por aí. Mas para não pensarem que exagero, a outra Maria Inácia que conheço é uma senhora, mãe de um vizinho meu que se reformou agora e que, segundo creio, já não terá sido mãe muito nova. Por isso eu digo que a moça se deveria chamar Patrícia, Vanessa ou vá lá Sandra. Mas não, ela é Maria Inácia e como Maria Inácia aqui ficará registada.
Pois esta mulher tinha e parece que ainda tem um fétiche que é comum a muitas mulheres e que eu, se me permitem fazer um juízo de valor, não vejo mal nenhum nisso. O seu marido, o Salvador (cá está um nome que voltou a estar na moda), é que não estava pelos ajustes. Cada vez que a Maria Inácia se lhe aparecia com o seu sorriso número trinta e quatro, já ele sabia que ela tinha comprado mais um par de sapatos. A sorte do orçamento familiar é que, segundo a prima da mulher do meu amigo afirma e que ainda não o apresentei mas que se chama António, a Maria Inácia não era de Gucci, Dolce & Gabbana ou Prada nem mesmo de Guardiani, Fendi ou Versace. A Maria Inácia compra qualquer sapato, seja na Loja das Meias ou no Corte Inglès, na Zara ou na Calzedonia, na Bata ou na Calcantes, seja na feira de Carcavelos e até, diz a prima da mulher do meu amigo António que já a viu comprar sapatos na rua Braamcamp a uns ciganos que só vendiam camisas Lacoste, malas Vuitton e calçado Galliano de contrafação. Sem exagero, jura o meu amigo António, creio que terá ouvido a mulher dele jurar, ou talvez não, talvez seja já da safra dele acrescentar esta jura, a Maria Inácia teria uns trezentos e catorze pares de sapatos. O Salvador é que já não aguentava mais. Nem espaço para guardar os discos do Tony Carreira e da Ana Malhoa lhe sobrava lá em casa. O pior foi no dia em que procurava no closet do quarto de dormir, o cachecol e a camisola às riscas do Sporting para ir a Alvalade ver um desafio. Passou-se dos carretos. Então não é que lhe caíram em cima duas caixas com botas de inverno que lhe causaram um traumatismo craniano sem fratura e um golpe profundo num sobrolho onde teve de levar seis pontos que lhe impediam até de engelhar a testa. Quando regressou do Hospital, sem sequer saber o resultado do jogo, reuniu a sapatada e foi encher os dois contentores do lixo que havia lá na Praceta. Consta que a Maria Inácia não teve outro remédio senão dar-lhe com os pés.
domingo, 30 de outubro de 2011
71. Grande
Conheci-o há muitos anos já ele, para mim claro está, era um tipo entrado na idade. Eu era, portanto, muito mais jovem, uns bons trinta e tal anos mais novo. Por isso a minha deferência com ele, obrigava-me a tratá-lo por Sr. Máximo. Teria, não sei bem, os meus sete anos e meio quando o meu pai, parece que ainda lhe oiço as palavras, me disse, vais conhecer a pessoa mais espetacular que alguma vez virás a conhecer. E foi verdade. O Sr. Máximo, ninguém sabe se era nome ou se era alcunha, ninguém sabia de onde tinha vindo, ninguém lhe conhecia família, não se lhe sabia a idade, não era apenas uma pessoa bondosa. Era uma pessoa eloquente. E tocava sanfona e tinha uma grafonola. Era aquela pessoa que gostávamos de ver, sentado na mesa do café, sempre com um café por beber (ele esquecia-se com frequência e só descobria quando a chávena já estava fria), rodeada de amigos, contando histórias, dando uma boa gargalhada. Nunca fumou um cigarro mas, sempre que um dos amigos fumava junto, não barafustava, não fazia gestos de desagrado. Por vezes, já depois do outro ter saciado o seu vício recomendava-lhe que parasse. Mas sem uma crítica, sem nenhum azedume. Colecionava conchas e tinha bichos da seda. Casou cedo, mas infelizmente o seu casamento não durou o tempo que ele previa. Tratava a mulher como princesa, ninguém lhe conheceu um arrufo. Aliás, antes pelo contrário, as amigas da mulher, com quem esta confidenciava, tinham inveja de não terem arranjado um marido assim. A doença, levou-a ainda nova e ele jurou honrar-lhe a memória nunca mais casando. Todas as manhãs havia uma rosa vermelha fresca, acabada de podar, que ele colocava na sua sepultura. O Sr. Máximo, assim lhe chamei até ao dia em que naturalmente veio a falecer, não bebia, mas era alegre. Nos bailaricos da coletividade, já eu ia nos meus dezassete anos e o Sr. Máximo nos seus cinquenta, dançava como qualquer jovem. As senhoras, solteiras, viúvas ou separadas quase que faziam fila para dançarem com ele e as casadas, todos temos a certeza, morriam de ciúme. Nas pausas para o bufett, pagava chocolates e laranjadas a todas. Algumas preferiam gasosa, outras um chá. Quanto a cultura, parecia-me um daqueles sábios de antanho. Conhecia os filósofos da antiguidade e os modernos. Um dia vi-o dar uma lição de história ateniense absolutamente fantástica. Conhecia a mitologia grega e a romana, comparada. Dava explicações de matemática gratuitas aos filhos dos seus amigos e, de religião, ele que nunca professou nenhuma, era como se fosse um sacerdote. Ou um pastor. Ou um imã, um rabino, um ayatollah, um cádi, um califa, um lama. Morreu há três meses, vítima de uma pneumonia, calculamos que com os seus quase (ou talvez mais) noventas anos. Do Sr. Máximo ninguém sabia quando nasceu, nem de onde era. Isso complicou tudo quando os amigos, numa última homenagem, lhe mandaram fazer a lápide. Colocar o quê? Apenas o único nome conhecido, sem data nem local de nascimento, não poderia ser. Optaram por lhe deixar apenas uma frase. Simpática, creio eu.” Aqui jaz, aquele que não bebia, não fumava, não discutia com ninguém, que tinha sempre uma palavra amiga, que era o melhor dos amigos que se pode ter…”. E como ele era a pessoa mais bem-humorada que alguém poderia conhecer, acrescentaram “ … e que nunca falou mal da sogra”. E assim ficou gravado no mármore da sua lápide. No outro dia, junto à campa dele, reparei que quem passava e lia o epitáfio, não evitava comentar, este fulano era o máximo.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
70. Penalti
Pois é assim mesmo como lhe digo, meu caro Pedro. Eu bem sei que com a sua idade, com as suas barbas brancas, não há nada que o Pedro não saiba, nem nada que ainda o admire mas, se não estiver com muita pressa e eu sei que não, ficamos aqui um pouco mais à conversa. Desabafar, entende? No início eu nem era muito dado ao futebol, talvez da idade ou por ser assim franzino, não me puxava para a bola. Ainda me lembro de uma vez me terem dito, ficas aqui à defesa, o teu lugar é este, e depois com uma cana, fizeram um círculo à minha volta, não sais daqui deste espaço, percebeste? E eu que sim, com a cabeça mas meio estúpido, pensando com os meus botões, então o jogo não é andarmos todos a correr atrás da bola? E ali fiquei sem me mexer mais do que um passo para um lado e um outro para a frente, só para não sair do círculo desenhado e os outros a passarem por mim, a chutarem à baliza a marcarem golos e eu nem os via, pois se não podia sair daquele círculo como é que via os outros a marcarem golos? Mas o que eu gostava mesmo era de brincar às escondidas, aos índios e cóbois como nos livros aos quadradinhos, e ao pião. Foi o meu pai que me ensinou, sabe Pedro, lá no terreiro do pátio, ele a ensinar-me a enrolar a guita, do bico para cima, depois a inverter o pião a ensinar-me a lançá-lo, primeiro à menina, que era mais adequado para a minha idade e depois, quando eu já pegava melhor no pião e na guita ao mesmo tempo, lançar à homem, que era com mais força e eu, todo vaidoso, nos meus cinco anos de idade já a ensinar aos outros meninos a lançar o pião à homem. Mas a bola, mais cedo ou mais tarde, teria de vir ter comigo, era o meu desígnio. O meu pai trouxe-me, de uma viagem que fez ao estrangeiro, uma bola de catechu. Ena pah, uma bola de catechu! Era o único miúdo da minha rua que tinha uma bola de catechu e, claro está, estava decidido- A partir daí faria parte de todas as equipas, até que por fim, acabei por ter jeito para aquilo, sem nunca deixar de dar primazia à escola, onde além de ser o melhor aluno a ditado, nunca dava um único erro e a vocabulário também era bom, mesmo em longos textos, como o da Lebre e o Sapo-concho, eu sabia as chamadas palavras difíceis todas e além disso ainda ganhei uma taça num concurso da matemática. Pronto, tinha queda para a escola e sem deixar de estudar, sei ler desde os quatro anos, acredita Pedro?, (pena que era fraquinho a desenho), continuei a fazer parte de todas as equipas de futebol da turma e a marcar golos atrás de golos. Não admira, Pedro, que na minha galeria de ídolos o José Águas, o Torres, o Eusébio, o Artur Jorge, o Nené, o Jordão, o Magnunsson, o Nuno Gomes, estejam na primeira fila e só depois os reis D. Dinis e D. João II, o Marat, o Lincoln, o Marx, o Ghandi, o Salgueiro Maia, o Allende, o Mandela. Mais tarde, quando o meu joelho não me permitiu fazer mais corredias e o nervo ciático me travava logo à partida, troquei os retângulos das pelada pela frias bancadas do estádio e aí é que foi o pior. Começaram os tremores, as palpitações, as arritmias, a tensão arterial a subir. Pois foi Pedro, foi tudo isso, mas quando o Cardozo falhou aquele penalti, não aguentei mais e vim para aqui falar consigo e fazer-lhe companhia. Mas sabe o que mais me admirou, aqui neste local, Pedro? Foi o azul celeste dos relvados. E faça-me um favor, faça com que, à hora do jogo, faça bom tempo no Domingo, que eu já não tenho pernas para andar sempre a escorregar no piso molhado das nuvens.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
69. Há mais marés ou há mais marinheiros?
Não tenho por costume dizer, quando conto histórias, que isto que vos estou a contar é verdade, ou jurar pela minha querida saudinha que ninguém é mais verdadeiro do que eu, nem tão pouco bater com a mão direita três vezes no peito, mas que ele há coisas que até parecem mentira, lá isso há. Pois bem aquilo que vos vou contar a seguir, juro pela minha saúde que é verdade e, lá virá o tempo em que a tecnologia o permitirá, por agora vocês não veem, mas eu estou a bater com a mão direita no peito. Três vezes.
Seriam umas três para quatro da tarde, não posso precisar pois a luz ambiente era fluorescente e não se descortinava a luz do dia quando, por erro meu e falta de prática, deixei cair uma chave francesa com que trabalhava, lá em cima no desaerificador da casa da máquina. Pimba, catrapimba, pimba, pum, a chave a varrer os varandins dos vários pisos e a estatelar-se num passadiço, quatro andares mais a baixo. Segui o seu percurso com os olhos, mas não fui eu que a desviei. Só pode ter sido a Providência Divina, pois que naquele dia e àquela hora, um marinheiro que passava a centímetros e eu por consequência, foi como se tivéssemos renascido. Juro pela minha saúde como isto é verdade.
À hora do jantar, eu ainda estava lívido. É verdade que das setenta e duas horas consecutivas que iria trabalhar devido a uma arreliadora avaria a bordo, já tinham decorrido umas cinquenta sem pregar olho, o que não dá boa cara a ninguém, mas aquela era tão estranha que não passou despercebida a nenhum dos meus companheiros. Contei- lhes então o episódio acima relatado não sem uma ponta de emoção. Na verdade nem eu conhecia o marinheiro, nem ele me conhecia a mim, para poder ter qualquer tipo de qui-pro-quo com o indivíduo. Foi um acidente (incidente?) mas isso poderia acontecer a qualquer um.
Seriam umas três para quatro da tarde, não posso precisar pois a luz ambiente era fluorescente e não se descortinava a luz do dia quando, por erro meu e falta de prática, deixei cair uma chave francesa com que trabalhava, lá em cima no desaerificador da casa da máquina. Pimba, catrapimba, pimba, pum, a chave a varrer os varandins dos vários pisos e a estatelar-se num passadiço, quatro andares mais a baixo. Segui o seu percurso com os olhos, mas não fui eu que a desviei. Só pode ter sido a Providência Divina, pois que naquele dia e àquela hora, um marinheiro que passava a centímetros e eu por consequência, foi como se tivéssemos renascido. Juro pela minha saúde como isto é verdade.
À hora do jantar, eu ainda estava lívido. É verdade que das setenta e duas horas consecutivas que iria trabalhar devido a uma arreliadora avaria a bordo, já tinham decorrido umas cinquenta sem pregar olho, o que não dá boa cara a ninguém, mas aquela era tão estranha que não passou despercebida a nenhum dos meus companheiros. Contei- lhes então o episódio acima relatado não sem uma ponta de emoção. Na verdade nem eu conhecia o marinheiro, nem ele me conhecia a mim, para poder ter qualquer tipo de qui-pro-quo com o indivíduo. Foi um acidente (incidente?) mas isso poderia acontecer a qualquer um.
Quando acabei de contar aos que comigo estavam na sala, um marinheiro presente pediu autorização ao comandante para usar da palavra e retirou a queixa que tinha acabado de fazer por tentativa de homicídio. Não voltei a ver este tripulante na minha vida. Também, não tenho vontade. A história não se repete duas vezes. E nunca sabemos quais são os desígnios da dita.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
68. A falar é que a gente se entende
Noutros tempos a gente escrevia de uma maneira diferente. Colocávamos dois eles na palavra ella, escrevíamos cousas em vez de coisas e até o nosso Eça, era Queiroz em vez de Queirós. Isto para não falar que quem ia a Chang-Hai ia exatamente ao mesmo sítio de quem hoje vai a Xangai. Ou poderíamos mesmo dizer que quem fosse a uma pharmacia comprar uma uncção a poderia espalhar na pele ao mesmo rhythmo com o que faria hoje. E se estas formas de escrever não atrapalhavam a oralidade, muito menos atrapalha quem atualmente decidiu adotar o acordo ortográfico feito com os outros países que falam a língua de Camões. Falam-na, não têm forçosamente que a escrever, pois se assim fosse estaríamos a escrever à moda do século XVI.
Esta introdução vai longa e não adiantou nem atrasou quase nada à história que vos quero contar hoje e que não é exatamente uma história para se escrever mas sim uma história para se contar. Resume-se a história ao jeito do nosso povo dizer as coisas pois, do Minho ao Algarve, se encontram por todo lado genuinidades linguísticas. Conto-vos então que a minha avó materna, saudosa avó acrescento, dizia ela que quando chegava, tinha avonde e a avó da minha mulher não fazia o café na cafeteira mas sim na escolateira (chocolateira, seria) e qualquer aparelho, para ela, era um tarrasso. Hoje em dia existem já publicados vários livros com palavras próprias de cada região que valem a pena ser lidos por quem for curioso destes regionalismos linguísticos.
Mas muito mais interessantes do que as palavras isoladas são as expressões que as utilizam ou como são verbalizadas, não me referindo propriamente às expressões idiomáticas, mas sim mais ao jeito que cada um tem para dizer coisas simples, para se fazer entender. Um amigo meu, já idoso, quando lhe perguntamos então como é que isso vai ti Joaquim?, ele responde-nos, estou aqui até que o enterrador queira. Digam cá se não tem magia? Era a esta magia do dizer que eu queria chegar com toda a retórica supra. Há uns anos atrás, quando o meu filho, ainda petiz, quis encher a garrafa de água no chafariz que estava ali mesmo à mão, o ti Chico pescador logo o desincentivou. Apontou-lhe um outro chafariz, que ficava distante daquele uns bons cem metros, que para a criança deveriam parecer mil, e explicou-lhe, enche antes daquela; esta também é boa, mas na presta. E claro que percebemos perfeitamente o que ele queria dizer.
Esta introdução vai longa e não adiantou nem atrasou quase nada à história que vos quero contar hoje e que não é exatamente uma história para se escrever mas sim uma história para se contar. Resume-se a história ao jeito do nosso povo dizer as coisas pois, do Minho ao Algarve, se encontram por todo lado genuinidades linguísticas. Conto-vos então que a minha avó materna, saudosa avó acrescento, dizia ela que quando chegava, tinha avonde e a avó da minha mulher não fazia o café na cafeteira mas sim na escolateira (chocolateira, seria) e qualquer aparelho, para ela, era um tarrasso. Hoje em dia existem já publicados vários livros com palavras próprias de cada região que valem a pena ser lidos por quem for curioso destes regionalismos linguísticos.
Mas muito mais interessantes do que as palavras isoladas são as expressões que as utilizam ou como são verbalizadas, não me referindo propriamente às expressões idiomáticas, mas sim mais ao jeito que cada um tem para dizer coisas simples, para se fazer entender. Um amigo meu, já idoso, quando lhe perguntamos então como é que isso vai ti Joaquim?, ele responde-nos, estou aqui até que o enterrador queira. Digam cá se não tem magia? Era a esta magia do dizer que eu queria chegar com toda a retórica supra. Há uns anos atrás, quando o meu filho, ainda petiz, quis encher a garrafa de água no chafariz que estava ali mesmo à mão, o ti Chico pescador logo o desincentivou. Apontou-lhe um outro chafariz, que ficava distante daquele uns bons cem metros, que para a criança deveriam parecer mil, e explicou-lhe, enche antes daquela; esta também é boa, mas na presta. E claro que percebemos perfeitamente o que ele queria dizer.
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