Aquela iria ser a mãe dos seus filhos. Para o Joaquim Colaço, o Quim , não havia qualquer sombra de dúvida. Bonita e elegante vestia bem, embora parecesse não ter um vasto guarda- roupa, gostava de usar aquela saia plissada anos cinquenta e uma blusa de chita vintage às flores, com que se costumava apresentar nos bailes da sociedade aos domingos e, um vez por outra via-se com um vestido de organdi, não muito justo mas que, ainda assim, lhe fazia realçar as curvas, empinar os glúteos e sobressair o bonito peito que um soutien, onde era possível descortinar uma sensual renda de cetim, melhor o enaltecia. Para o Quim, sei-o, terá sido amor à primeira vista.
O Quim era um galã, moda antiga, muito influenciado por Errol Flyn, usava um bigode finíssimo que lhe embelezava o sorriso e, de quando em quando, deixava crescer uma pequena pera que o assemelhava ao RobIn Hood. Aliás, o Quim chegou durante os tempos da adolescência a ser mesmo alcunhado de Joaquim dos Bosques. Quando o viram de braço de dado com Marianinha, ela de cabelo ondulado, apanhado em cima como que fazendo uma coroa, vestindo um vestido aveludado em bordeaux, que nunca ninguém lhe tinha visto antes, qual Olívia de Havilland e ele com um sobrepeliz de pele de vaca e brilhantina na cabeça, pareciam um casal por detrás da claquete de Michael Curtiz. Mas a surpresa não era a forma como se apresentavam, embora o vestido de Marianinha fizesse um vistão, nem como cuidavam e penteavam o cabelo. O que causou surpresa em todo o bairro, conhecidas que eram as constantes recusas de Marianinha e a vida um bocado cabeça ao vento e desbragada do Quim, foi o facto de se encontrarem juntos. Quim tinha levado a sua avante. Mas como em todas a histórias que conheço e que vos tenho aqui contado não há bela sem senão, quando se oficializou o namoro, Quim foi autorizado a frequentar a casa de Marianinha, todos os dias da semana exceto à quinta feira. Quinta feira era o dia da barrela e a porta de casa de Marianinha não se abria para ninguém.
A primeira questão se pôs a Quim era o que seria esse tal dia da barrela. Ele conhecia vários dias famosos, o dia do trabalhador que naquele tempo não era feriado, mas que sempre que coincidia com um fim de semana se comemorava com idas ao campo e piqueniques, o dia de Natal, que sempre foi comemorado em sua casa com bacalhau e filhós, o dia do pagamento da renda de casa, que calhava sempre a dia oito de cada mês, mas do dia da barrela ele nunca tinha ouvido falar. Quando, naquela quinta feira, a curiosidade superou o compromisso, Quim bateu, como de costume, três vezes na aldraba do portão. Marianinha nunca se sentiu tão encavacada e sem soluções. Ainda procurou um lençol para se cobrir, mas sem qualquer sombra de êxito. Afinal de contas, era o dia da barrela e toda a roupa da casa estava a lavar. Num desespero, enrolou-se na organza do cortinado da sala e abriu a porta ao seu Robin. Quando o Joaquim Colaço deparou com toda aquela transparência viajou até à floresta de Sherwood e nadou nu nos lagos de Nottingham.
