O Miguel foi meu professor e meu amigo. Eu era ainda um jovem pós-adolecescente e Miguel um adulto com comportamentos etariamente dúbios. Ora parecia uma criança pequena na sua ingenuidade e espírito de partilha, ora um velho macambúzio e embirrante. Mas esta segunda personalidade só aprecia depois de uma noite de jogo mal passada. Miguel apostava forte e sofria as consequências. Durante a semana, entre uma aula de Química, que ele explanava com mestria e com o ar mais einsteiniano que se possa imaginar e uma partida de bilhar, tomávamos café, discutíamos futebol e política e um dia, sem que nada de absolutamente extraordinário tivesse acontecido, passamos mais de seis horas a discutir religião. Miguel dizia-se ateu convicto e praticante, o que mais admiração me causou, dada a sua bagagem no conhecimento das divinas matérias. Aos fins de semana eu nunca via o Miguel. Partia à sexta-feira à noite para uma fazenda no Alentejo e passava quarenta e oito horas a jogar póquer. Umas vezes aparecia, à segunda-feira, alegre, conduzindo ora um Porsche 411, ora um Mercedes classe E. Outras vezes telefonava-me para que eu o fosse buscar ao Alentejo porque, além de já ter perdido o carro, nem dinheiro para o autocarro de regresso a Lisboa ele tinha. Nunca soube onde ficava a tal herdade, pois Miguel sempre estava num local diferente quando, às vezes ainda perdido de bêbado da última garrafa de whisky, se me aparecia desfraldado e em adiantado estado de deixa-me estar não me digas nada. Um dos momentos negros desta cumplicidade foi eu ter de penhorar quase metade da minha herança para lhe resgatar a namorada que ele tinha apostado num lance sem qualquer hipótese. Pagou-me tudo até ao último tostão mas não voltou para Florbela. Eu não perdi nada. Não só, como disse, recuperei o dinheiro como fiquei com Florbela por mais de seis meses. Florbela deixou-me, não tenho vergonha de o dizer, porque eu não lhe acrescentava adrenalina como Miguel. Nunca a tinha apostado e, isso, ela achava que não era de homem.
Do meu convívio durante tanto tempo com Miguel, ficou-me o maldito costume de apostar. Durante muito tempo eu não saía de nenhum impasse, não dava um único passo em frente que não tivesse de fazer uma aposta antes de avançar. No dia em que eu e o meu amigo Zé Manel passeávamos junto ao lago Zurique, em mais um intervalo de uma chatérrima viagem de serviço, ao avistarmos uma geladaria, sem exagero a mais de cem metros, virei-me para o Zé e disse-lhe que apostava com ele que a miúda do balcão era portuguesa. Ele deu uma gargalhada e disse-me que comigo não arriscaria apostar a namorada. Eu propus-lhe que desta vez ficassemos em que quem perdesse pagaria os sorvetes. O Zé Manel só teria de chegar perto da moça e pedir em português, os dois gelados. O Zé ainda barafustou comigo porque ia ficar com cara de parvo quando ao pedir os gelados a rapariga não entendesse patavina e propôs-me que fizesse o pedido em inglês. Eu perguntei-lhe, sabes alemão Zé Manel? Não? Pois a aposta é em português e está feita. O Zé Manel pediu, em vicentino português e educado, um gelado, se faz favor e a menina no balcão perguntou-lhe, quantas bolas?
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