Ele estava à beira de desistir de tudo. De tudo o que era material, para ser mais preciso. As encomendas de quadros, desde que expôs em Santarém, começaram a aparecer-lhe no seu correio eletrónico num ritmo nunca antes acontecido ou sequer, cogitado. Tinha decidido não pintar mais. Ter pintado aquela pega de caras fora apenas uma inspiração de momento e, a festa brava não era, irónica e contraditoriamente, uma paixão sua. Também já não escrevia. O último romance seu fora editado há mais de dez anos, apesar da insistência da editora, que tinha gostado muito da aceitação pública dos seus trabalhos, nomeadamente de ele ter tido um título no lugar mais alto dos escaparates durante quase meio ano. Há muitos anos, muitos mais do que os livros, que tinha pendurado a guitarra e fechado o piano. Gostava de tocar os clássicos e, aos serões, atacava com tanto fervor as teclas para executar a Dança do Fogo do grande Manuel de Falla como dedilhava com mestria o Concerto para Aranjuez de Joaquin Rodrigo. Aliás, a este gosto pelos mestres espanhóis não lhe era alheia a costela castelhana herdade de D. Pilar Jurado de Navarra, sua avó paterna e de quem ouviu imensas histórias. A mim pessoalmente, contou-me muitas da guerra civil espanhola quando eu lhes visitava a casa, mormente para tomar um Pedro Domecq, na companhia do neto e de um outro amigo, tertulianos do verbo, amantes de Pessoa e de Cervantes e da arte de Velasquez. Talvez um dia eu aqui traga alguma dessas histórias. Ele tinha nascido para as artes, cursado na faculdade de Belas Artes da Universidade de Madrid e não desperdiçou nenhum dos seus conhecimentos. Um dia caímos de exaustão, uma noite inteira a discutir Brasília e Niemeyer sendo que de antemão sabia que ele, tal como eu, fazia da arquitetura uma das suas paixões. Quando olhamos para o relógio, responsabilizamos de imediato o Pedro Domecq do qual, diga-se de passagem, nunca lhe faltava na garrafeira uma solera reserva. De todas as suas atividades criativas não se lhe viam sinais de vontade de continuar e isso, para quem conhecia a sua garra, era motivo de grande preocupação. Só fiquei descansado acerca da sua saúde mental quando, na semana passada, o encontrei a passear no paredão da praia, de mão dada com Elisabete, com quem está casado há mais de trinta anos. À mesa do café, onde desenvolvemos mais do que dois dedos de conversa desta vez sem brandy, ele, virando-se para Elisabete, afirmou, quase solenemente e com um ar tão sério como o de quando tocava Miguel Llobet ou Regino Sains de La Maza, que ainda não desistiu de fazer amor. E enquanto eu dava uma sonora gargalhada, Elisabete não conseguiu evitar o rubor nas suas, sempre jovens, maçãs do rosto.
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