sábado, 18 de junho de 2011

41. Fan club


Ela tem oito anos, já sabe ler e escrever. Tem uma irmã que confunde tesóides e espermatozóides, ovos e óvulos. Se eu tivesse cinco anos também faria essas confusões e muitas mais. A avó delas é tão babada com as netas como o Constantino é e será com o seu neto. E enquanto o seu neto não desenha, depois também, mas desculpem o tipo de dar primazia ao neto, (caiu um pingo de baba), vai-se deliciando com os desenhos de outras crianças. Mas há desenhos e desenhos.

A avó destas meninas resolveu deixar meio sem jeito o humilde narrador e escritor (salvos sejam os verdadeiros escritores) destes textos blogosféricos. Pegou na minha escrita sobre as focas, ainda hoje me arrepio só de pensar no balde de 20 litros que me encharcou, e contou a história às netas. Já lhes estou a ver as caras a imaginar as focas de focinho no ar, a espreitarem por tudo quanto é carapau, melhor ainda, segundo elas mesmas, a espreitar o belo do camarão, e a verem o Félix de vontade afiada para dar um batismo de Mediterrâneo aqui ao desgraçado do escriba. E como o fotógrafo não estava lá desataram as meninas a fazer o relato gráfico do embaraço e presentearam o narrador com o desenho que acima se reproduz.

Pois minhas queridas meninas, que tal como eu sois descendentes de girinos e não há livros de mortos, quero dizer, enciclopédicas médicas que o desmintam, pois os tais tesóides são parecidos com girinos, eu quase me atrevia a dizer mais bonitinhos, fiquei tão feliz ao receber o vosso desenho que não resisti a mostrar ao mundo inteiro a vossa genialidade. E a vossa avó que me desculpe mas tenho de dizer a esse mundo bonito que aqui chega qual é o blog da e ensinar os meus comentadores a saltar à corda no quintal. Posso?

Texto do autor, desenho das netas da Bó. Ambos os direitos são reservados.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

40. Destinos



No momento em que despejei a última gota de whisky no copo ouvi um grito. Na verdade não foi exatamente um grito, mais se assemelhando a um suspiro. Um ai que se situava entre a dor e o desespero com um não sei quê de resignação. Ela estava a dar as últimas e precisava desabafar.

Praticamente em discurso direto, quase sem deixar que eu a interrompesse, sempre me foi dizendo que a vida dela não tinha sido fácil. Durante milhares de anos, que nem ela sabe quantos, foi rocha. Foi rocha dura, sentada entre outras rochas que faziam, como ela, o papel de serem duras. Só quando os mares as começaram a fustigar e os ventos também, por ventos e marés se desfez em areia mais tarde feita praia. E os tormentos não terminaram por aí. Pisada por pés pequenos, pisada por pés adultos, mexida e remexida, foi efémero castelo de areia, desfeito por uma bola de futebol perdida na praia e recolhida pela pá de um trator. Foi um passeio curto mas aquela mudança de ambiente pareceu-lhe bem. Depois, achando-a suja, deram-lhe um grande banho de agulheta o que a deixou um pouco ferida mas fresca e de alma lavada, como nova, isenta de sal o que, como já tinha ouvido dizer, far-lhe-ia bem à tensão. Não gostou de ter sido encerrada num armazém escuro mas pelo menos ficou a saber o nome dela. À entrada um cartaz com a designação de areia lavada servia de ornamento ao portão. Que pomposo. Dona Areia Lavada. Estava a gostar de ter nome mas a felicidade durou pouco. Sujeitaram-na a um calor enorme no meio de queixas e lamúrias de arenosos familiares que por ali convergiam mas, como não há mal que sempre dure, logo veio um ser humano soprá-la, arrefecê-la, moldá-la, depois tocar-lhe e acariciar-lhe o bojo. Para que não se sentisse tão infeliz, deu-lhe um novo bilhete de identidade. Agora, para onde quer que fosse seria conhecida por D. Garrafa. Deram-lhe um novo banho, que só não foi mais agradável porque um produto, a que lhe ouviu chamar detergente, era um tipo tão agressivo que lhe fez arder o gargalo. Mas depois disso, tudo bem, juntaram-lhe umas amigas gémeas, tão bonitas como ela e acima de tudo transparentes, levaram-nas para a destilaria, encheram-nas com um licor agradável com um ligeiro travo a malte destilado e envelhecido e, quando a vida dela parecia correr melhor, acontecera-lhe isto.

Contou-me toda esta história quase de um só fôlego. Não tive coragem de interrompê-la tal era o seu empolgamento. Mas uma coisa me estava a deixar intrigado. O que é que ela quereria dizer com aquele, acontecera-lhe isto? E foi aí que a interroguei. Fez um ar de espanto e perguntou-me se eu não sabia que ela, daqui a pouco iria ser encerrada numa caixa verde de plástico, mais tarde desfeita em mil pedacinhos, triturada, lavada e de novo mandada para o inferno. E se no fim, quando a soprassem e acariciassem, não tivesse a sorte de se enredar com um pipo perfeito capaz de a encher com um prazer de 12 anos e virasse uma simples garrafa de aguarrás, enchida à pressão por uma vulgar mangueira de borracha?

Texto (hoje meio esquisito) e foto do autor. Todos os direitos reservados. 



segunda-feira, 13 de junho de 2011

39. Saraiva


D. Eugénia era amiga de casa da nossa família. A minha mãe e D. Eugénia foram amigas desde a infância e por isso não me era difícil conhecer algumas confidências. Através da porta semicerrada do meu quarto, onde eu passava quase todas as tardes a ler os livros de banda desenhada, camuflados entre os manuais de História Universal e as Selectas (naquela altura usava-se o c antes do t) Literárias, ouvia as que queria, as que não queria e, houve tempos até, as que nem entendia. Foi assim que soube o que tinha acontecido ao Saraiva.

Os rapazes, entre um jogo de pião e um de berlinde, entre a barra do lenço ou uma partida de futebol no terreiro para lá do bairro, reuniam-se na esquina do prédio do Dinis para dois, ou muito mais, dedos de conversa. Quantos toques um gajo era capaz de dar com uma bola de catchú, quantos bilas o patife do Jaime tinha hoje abafado ao artolas do Amadeu e até, desculpem a dureza da expressão, quantas cada um tinha batido à conta de um postal ilustrado que o pai do Chico Peruca (alcunha devido ao capachinho que o seu próprio pai usava e que deixava o Chico em brasa) tinha trazido do estrangeiro e que passava de mão em mão. Imaginem o conteúdo. E era no meio destas parvoíces, que nos faziam rir muito, que de cada vez que passava a Susaninha, o Saraiva dizia sempre em voz alta, ainda um dia vou tomar chá com a Susana. Tantas vezes a Susaninha ouviu isto que, um dia, se dirigiu ao grupo onde alguém terá pensado, lá vem chapada, mas não. E para espanto geral, a Susaninha que já tinha catorze anos e mandava umas maminhas muito gabadas na trupe, disse ao Saraiva que na sexta-feira às quatro, a mãe dela gostaria que ele fosse lá a casa tomar chá. Não sabemos o que terá passado pela cabeça do Saraiva, ficou vermelho, ficou gago, durante largos minutos não disse coisa com coisa, deve até ter pensado no postal ilustrado do pai do Chico Peruca.

Esta parte da história ouvi-a eu contar a D. Eugénia em casa com a minha mãe. De calções com suspensórios, sapato de verniz e lacinho numa camisa branca impecável, lá estava o Saraiva, às quatro da tarde em ponto como combinado, para tomar chá com a Susaninha. Só que, à revelia de D. Eugénia, nem uns biscoitos que a mãe tinha preparado, vieram para a mesa. A Susana fez o Saraiva tomar tanto chá que este, indisposto, viria mesmo a desmaiar. Ambas, mãe e filha, muito aflitas, sem telefone em casa porque isso era um luxo, correram escada acima a chamar o Dr. Crispim que morava no 3º Esquerdo e que, felizmente, se encontrava em casa naquela sexta-feira, com um ataque de bexigas. O Dr. Crispim, auscultou o Saraiva, apalpou-lhe a barriga, observou-lhe os olhos, viu que estava tudo bem com o garoto, deu-lhe a cheirar um éter que o fez acordar de imediato e, sem saber a causa do problema, por omissão da Susaninha, aconselhou a que, mal ele se recompusesse, lhe dessem uma chávena de chá a beber. Esta história que não foi contada até hoje, nem por mim nem pelo Saraiva, não acaba sem vos dizer que este meu amigo ficou uma semana de cama a curar um surto de bexigas e que, naturalmente, nem teve disposição para pensar no postal do pai do Chico.

Nota:  O que vos contei hoje veio-me à memória um dia destes em que li que há uma associação de mulheres que pretende que sejam incluídos o piropo e o assobio na lista de crimes por assédio sexual. Longe de mim qualquer comportamento machista, nem mesmo em pensamento, mas acho ou que a história ou está mal contada ou estamos a entrar num extremismo conservador que nem na comunidade Amish dos Estados Unidos da América, provavelmente, existe. Mas adiante que o objectivo do Constantino foi contar um conto a que acrescentou um ponto.

Texto e foto do autor (pernas de uma amiga). Todos os direitos reservados (a minha amiga reserva as pernas para os fins que ela bem entender, nomeadamente caminhar).

sábado, 11 de junho de 2011

38. Trutas



Várias vezes me alertou para que quando eu pusesse as amêijoas na frigideira, o azeite já estivesse bem quente. E que os alhos não seriam descascados mas sim apenas esmagados para que não queimassem. A especialidade dele não era as amêijoas à Bulhão Pato. Nem sei qual era a especialidade dele. Ele era um cozinheiro exímio, o melhor que eu conheci. Amador, dizia sempre, para que não houvesse confusões.

Se não me falha a memória, não, não falha, foi apenas uma força de expressão, conhecemo-nos na quinta de um amigo nosso, ainda adolescentes, onde ele tinha a mania de saltar para a cozinha enquanto nós saltávamos para a piscina. Quando o cheiro atacava, como se fosse um filme de desenhos animados, seguíamos-lhe o rasto, saltávamos borda fora, neste caso da água para terra firme, planávamos de nariz esticado e lá estava o Carolino, que raio de nome mas era mesmo o dele, de petisco acabado, a gente a babar e o gajo embevecido a ver- nos devorar pratos, talheres, frigideiras e tachos. Tenho a impressão que algum de nós terá mesmo comido a tampa de uma panela. Não foi por acaso que o Carolino seguiu a escola de hotelaria e turismo enquanto nós, hoje gordos, anafados para os mais sensíveis, cheios de colesterol, ácido úrico e diabetes, nos sentamos em frente a secretárias a olhar para papéis de contabilidade, maquetas e projetos ou a dormitar sobre teclados de computador. E não venham cá pôr as culpas no Carolino. É que além dos tachos e das panelas, ele não descuidava o exercício físico e sempre nos dizia que uma alimentação sã num corpo são era até um ditado latino. Prometo-vos que num destes dias vos deixarei algumas das melhores receitas do Carolino, comida regional, com tempero regional, onde não faltará a hortelã da ribeira, o poejo, a manjerona, o rosmaninho, o tomilho ou alho de cheiro. E a perdiz de caça à moda da Aldeia Nova era uma criação sua que ainda hoje, quem provou não lhe consegue apor adjectivos.

Infelizmente, nem sempre as histórias mais olorosas ou feitas de paladares indescritíveis têm os finais mais felizes. Carolino faleceu em condições ainda hoje não esclarecidas, tendo aparecido a boiar num rio do interior. Toda a gente crê que estaria a pescar trutas, que ele próprio confeccionava e servia abafadas e frias com um vinho verde de Amarante, sempre que nos recepcionava para dois dedos de conversa. Mas a verdade tem de ser dita. No seu funeral ele ia tão bonito de avental branquinho com um galo de Barcelos estampado.

Foto e texto do autor. Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

37. Robot


Era um tipo marcado pelas rotinas. Todos os dias se levantava à mesma hora, todos os dias se deitava à mesma hora. Desde que tinha a noção do tempo que não se lembrava de ter dormido mais do que seis horas por dia. Quando se levantava, já depois da sua higiene básica diária, mesmo antes de ir tomar banho, abria a janela do quarto, quer chovesse ou fizesse sol. Colocava os cotovelos no parapeito e fumava um cigarro. Era o único cigarro que fumava em todo o dia. O pequeno almoço só variava na qualidade do doce. Escolhia no frigorífico o frasco, colocava em cima da mesa, tostava uma fatia de pão de forma e bebia um copo de leite para acompanhar. Só depois tirava a toalha do banho de volta da cintura e vestia-se. As peças de roupa, uma a uma, seguiam uma ordem austera. Primeiro as cuecas, depois as meias. Nunca usava camisola interior, para não ter de mudar hábitos do verão para o inverno. Só condescendia em vestir um blusão nos dias mais invernosos que testava na hora de fumar. O autocarro das seis e trinta e quatro, o barco das seis e cinquenta e dois, o comboio das sete e dezassete, a camioneta das sete e trinta e nove. Quando chegava ao largo da escola, entrava no café do senhor João e bebia um café sem açúcar. Seguiam-se as aulas, às oito da manhã, o almoço às doze e quinze, a partida de cartas que quer tivesse terminado ou não ele abandonava às treze e vinte e quatro. A tarde estava sob controlo e o regresso fazia-se sempre com uma precisão suíça de sentido inverso ao da manhã. Fazia parte da rotina vespertina a compra do Diário de Lisboa ao senhor Mário, o ardina à entrada do vapor. Como está senhor Mário? O ardina respondia-lhe e perguntava bem, obrigado e tu?,  estendia-lhe o Lisboa  e recebia os quinze tostões. À tardinha, quando a namorada chegava da faculdade, atravessava a rua e ia namorar. Não mais de 15 minutos.

O pior para ele eram as férias. Tudo tinha de mudar. Nas horas de se deitar ou levantar não se mexia. Isso era sagrado. O ritmo até à hora em que habitualmente saía de casa mantinha-se, mas depois ficava-lhe um vazio. Não sabia o que fazer. Tentava ler, não se concentrava. O disco, no gira-discos ficava a fazer plum, plum, plum na agulha, por largos minutos após acabado. Se pensava ir à praia, ou perdia o autocarro, ou esquecia-se dos calções, ou quando reparava nele ia com os chinelos trocados. Chegou mesmo a sair com um havaiano num pé e com um chinelo de quarto no outro.

Quando, numa daquelas manhãs dos primeiros dias de férias, recebeu um telefonema da namorada para que fossem almoçar, ficou radiante. Tinha ainda mais de duas horas para se programar, tudo iria sair certinho. Mesmo não se tratando de uma rotina não falharia. Ainda mais que hoje era o último exame dela, o curso de Economia estava terminado, em breve poderiam casar. O curso dele ainda demoraria mais um ano, mas nada indicava que algo pudesse correr mal. Ela esperá-lo-ia em Entrecampos, junto à Feira Popular. Saiu de casa e apanhou o autocarro das onze e trinta e quatro, o barco das onze e cinquenta e dois, o comboio das doze e dezassete, a camioneta das doze e trinta e nove. Entrou no café do senhor João e bebeu um café sem açúcar. Só quando deparou com portão da escola fechado para férias é que reparou que estava em Paço de Arcos. Não se sabe se a namorada continua à espera dele em Entrecampos. Nem há meio de saber, pois isto já se passou há mais de trinta anos.  

Texto e foto do autor. Todos os direitos reservados.

terça-feira, 7 de junho de 2011

36. Totó!


Hoje vou contar uma história em que o Constantino foi protagonista. É raro falar de mim mas estive a perguntar a vários amigos meus e nenhum quis assumir o papel de totó. Portanto não tive outro remédio.

Quando eu era garotinho, tinha sete anos de idade, fui ao casamento do meu primo Vítor em plena Serra da Peneda. O Vítor conheceu a Fátima na Costa da Caparica, pediu-lhe para lhe guardar a carteira e os óculos, ela aceitou e ele foi tomar banho. Depois, aquilo deu casamento e até divórcio. Foi uma banhada. Encontramo-nos em Braga, depois da D. Eduarda, a minha professora primária, me ter dado autorização para perder dois dias de aulas. Um dia, contarei uma história de tabuadas. Em Braga, a Fátima estava no cabeleireiro. A Fátima era muito bonita e ainda ficou mais bonita com o cabelo arranjado para o casamento. Foi uma seca para um miúdo de sete anos esperar num cabeleireiro durante três horas pela Fátima e, como não tive um amigo que me substituísse a esperar por ela, enquanto eu fosse narrando a história, parece que ninguém quer mesmo ser totó, não tive outro remédio. Pois lá fomos, a seguir, de autocarro até quase ao destino. Quase? Fátima ainda falta muito? Não. É já ali, dizia-me ela de mão dada enquanto caminhávamos por carreiros, veredas ou sobre pedregulhos. O que valeu foi que o casamento foi muito bom, todos sentados e a comermos de faca e garfo. Mais uns passos, pequeninos, que as pernas eram curtas e Fátima, ainda falta muito? Não. É já ali. Até os mais velhotes, naqueles confins da província comiam de faca e garfo. E eu, com as minhas perninhas a tremerem e sem poder chegar às cerejas nas ramagens altas das cerejeiras que orlavam as azinhagas e os caminhos das cabras, Fátima, ainda falta muito? Não. É já ali.

Lembrei-me de tudo isto quando vos ia contar a história de hoje. Tive, por motivos profissionais, que viajar algumas vezes à Califórnia. Normalmente não escolheria um amigo para me substituir na viagem porque adoro passear. Mas quando quis ter um para fazer o papel do totó, não encontrei ninguém (eu já tinha escrito isto hoje?).Deveria, então, de desembarcar no aeroporto de Oakland e dirigir-me a Walnut Creek. Se nesse tempo houvesse Google maps ou até o Google Earth eu teria dado um olhinho primeiro e não me preocuparia. Mas quando aquele meu amigo americano, que não sabe comer de faca e garfo mas que era uma excelente pessoa e super prestável, me deu um papelhinho a dizer red light turn right through I5 (seria esta?) e sais na direcção de Walnut Creek, eu pensei, juro que pensei, é já ali! Aluguei um carro na Hertz, saí do parque e, por azar do totó, o semáforo estava verde. Não deveria estar vermelho? Segui em frente e perdi-me. Pronto. Totó! Ninguém quer continuar na história, não? Está bem, se não há remédio eu vou continuar a protagonizar o resto. Lá dei umas quantas voltas, passei por barracões plenos de vidros partidos, lembrei-me de filmes de gangsters e malfeitores, fiz grandes filmes na minha cabeça, regressei ao parque da Hertz, tomei a mesma rua, nem quis saber se a light estava red ou green, virei á direita e ufa, lá apanhei a autoestrada. Mas o meu amigo não me podia ter dito que na Califórnia também havia hora de ponta? E eu, que para fazer 26 miles, demorei uma hora e meia, era já ali? Era? Mas à noite vinguei-me. Jantei no restaurante do hotel, não comi hambúrguer e usei a faca e o garfo.

Texto e foto do autor. Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

35. Yo no te entiendo



Maria de Santa Cruz Palhais y Castilla era filha de José Camacho Palhais e de D. Pilar del Sacramiento de Castilla y Azurara uma descendente de uruguaios, cujos avós se tinham fixado havia várias gerações nas ilhas Canárias. O Sr. José Palhais e sua filha Maria de Santa Cruz embarcaram para a ilha da Madeira, terra natal do senhor José, uma semana após a morte, por enfarte de miocárdio, de D. Pilar del Sacramiento de Castilla y Azurara.

Navegávamos, em provas de mar, apenas há algumas horas desde que saímos do porto de Bilbau. Os testes de segurança eram obrigatórios e as companhias de seguros eram irredutíveis. Dos dois motores que operavam os canhões de água do convés, do sistema contra incêndios, apenas um estava a funcionar o que era legal e contratualmente permitido. Quis o acaso que durante os ensaios este também avariasse pelo que não havia hipóteses de continuar viagem. Estávamos ao largo das ilhas Canárias o que, aliás, nos foi muito útil para fazer a trasfega do motor para terra. Este seguiria para a Alemanha para ser reparado e regressaria três dias depois. Quando da tomada de decisão eu estava a terminar o meu quarto de serviço. Sairia ao meio-dia e só voltaria a trabalhar às oito da noite. Daria tempo para ir a terra conhecer a cidade e passear. Em plena cidade de Las Palmas de Gran Canaria, conheci Maria de Santa Cruz Palhais y Castilla. Quando a vi pela primeira vez, ela estava no meio de um magote de gente. Maria era guia-intérprete e explicava, num castelhano que me pareceu escorreito embora com sotaque, tudo o que a rodeava. Sei que o fazia, não só porque a podia ouvir perfeitamente mas também porque o dedo dela, em riste, apontava em direcção dos objectos da sua explicação. Quando os turistas tomaram o autocarro, Maria de Santa Cruz ficou. Arrumou uns prospetos numa pasta fina de couro preto e começou a andar. Tinha terminado o seu serviço por hoje. Foi quando a abordei para lhe pedir ajuda. Queria desfrutar daquela meia dúzia de horas até voltar a bordo e precisava de informações. Foi assim que conheci Maria, e destas horas, nos três dias que estivemos fundeados, poderei falar noutra história.

Durante muito tempo trocamos correspondência, sempre breves palavras nas costas de postais ilustrados. Aos poucos, Maria de Santa Cruz passou do castelhano para um português arrevesado, misto de algumas palavras do vocabulário regional madeirense, do português corrente e do castelhano com “sotaque” canário. Era uma tal algaraviada que temi que se um dia nos falássemos de viva voz não iria entender uma única palavra do que ela dissesse. Quando num dos últimos postais que recebi, me informou que viria a Lisboa, nem hesitei em esperá-la no aeroporto.

Demos um abraço de quem não se via há 30 anos. Graças a algumas fotografias que trocávamos não me foi difícil reconhecer Maria de Santa Cruz Palhais y Castilla na porta de saída. Não era a mesma Maria, nem eu o mesmo Constantino que nos tínhamos visto nas Canárias, mas éramos as mesmas pessoas, acima de tudo amigas e divertidas. Disse-me para onde queria ir e, como estávamos no princípio da tarde, não me foi demorado chegar a Palmela. Desta vez o guia turístico seria eu, embora, quando no castelo, ela me tenha surpreendido com o facto de conhecer os nomes dos locais que a magnífica localização do Castelo, na Serra da Arrábida, nos propiciava, conhecimento este fruto de uma cuidada formação profissional. Ofereci-lhe uma caixa de doces de laranja, típicos da região e convidei-a para uma bebida. Ela sugeriu que jantássemos, pois agora deveria ir ao hotel, tomar banho e descansar um pouco. Quando lhe perguntei onde iria ficar ela apresentou-me o voucher com a morada. Retornei a Lisboa e deixei-a na rua Duque de Palmela.

Foto e texto do autor. Todos os direitos reservados.