D. Eugénia era amiga de casa da nossa família. A minha mãe e D. Eugénia foram amigas desde a infância e por isso não me era difícil conhecer algumas confidências. Através da porta semicerrada do meu quarto, onde eu passava quase todas as tardes a ler os livros de banda desenhada, camuflados entre os manuais de História Universal e as Selectas (naquela altura usava-se o c antes do t) Literárias, ouvia as que queria, as que não queria e, houve tempos até, as que nem entendia. Foi assim que soube o que tinha acontecido ao Saraiva.
Os rapazes, entre um jogo de pião e um de berlinde, entre a barra do lenço ou uma partida de futebol no terreiro para lá do bairro, reuniam-se na esquina do prédio do Dinis para dois, ou muito mais, dedos de conversa. Quantos toques um gajo era capaz de dar com uma bola de catchú, quantos bilas o patife do Jaime tinha hoje abafado ao artolas do Amadeu e até, desculpem a dureza da expressão, quantas cada um tinha batido à conta de um postal ilustrado que o pai do Chico Peruca (alcunha devido ao capachinho que o seu próprio pai usava e que deixava o Chico em brasa) tinha trazido do estrangeiro e que passava de mão em mão. Imaginem o conteúdo. E era no meio destas parvoíces, que nos faziam rir muito, que de cada vez que passava a Susaninha, o Saraiva dizia sempre em voz alta, ainda um dia vou tomar chá com a Susana. Tantas vezes a Susaninha ouviu isto que, um dia, se dirigiu ao grupo onde alguém terá pensado, lá vem chapada, mas não. E para espanto geral, a Susaninha que já tinha catorze anos e mandava umas maminhas muito gabadas na trupe, disse ao Saraiva que na sexta-feira às quatro, a mãe dela gostaria que ele fosse lá a casa tomar chá. Não sabemos o que terá passado pela cabeça do Saraiva, ficou vermelho, ficou gago, durante largos minutos não disse coisa com coisa, deve até ter pensado no postal ilustrado do pai do Chico Peruca.
Esta parte da história ouvi-a eu contar a D. Eugénia em casa com a minha mãe. De calções com suspensórios, sapato de verniz e lacinho numa camisa branca impecável, lá estava o Saraiva, às quatro da tarde em ponto como combinado, para tomar chá com a Susaninha. Só que, à revelia de D. Eugénia, nem uns biscoitos que a mãe tinha preparado, vieram para a mesa. A Susana fez o Saraiva tomar tanto chá que este, indisposto, viria mesmo a desmaiar. Ambas, mãe e filha, muito aflitas, sem telefone em casa porque isso era um luxo, correram escada acima a chamar o Dr. Crispim que morava no 3º Esquerdo e que, felizmente, se encontrava em casa naquela sexta-feira, com um ataque de bexigas. O Dr. Crispim, auscultou o Saraiva, apalpou-lhe a barriga, observou-lhe os olhos, viu que estava tudo bem com o garoto, deu-lhe a cheirar um éter que o fez acordar de imediato e, sem saber a causa do problema, por omissão da Susaninha, aconselhou a que, mal ele se recompusesse, lhe dessem uma chávena de chá a beber. Esta história que não foi contada até hoje, nem por mim nem pelo Saraiva, não acaba sem vos dizer que este meu amigo ficou uma semana de cama a curar um surto de bexigas e que, naturalmente, nem teve disposição para pensar no postal do pai do Chico.
Nota: O que vos contei hoje veio-me à memória um dia destes em que li que há uma associação de mulheres que pretende que sejam incluídos o piropo e o assobio na lista de crimes por assédio sexual. Longe de mim qualquer comportamento machista, nem mesmo em pensamento, mas acho ou que a história ou está mal contada ou estamos a entrar num extremismo conservador que nem na comunidade Amish dos Estados Unidos da América, provavelmente, existe. Mas adiante que o objectivo do Constantino foi contar um conto a que acrescentou um ponto.
Texto e foto do autor (pernas de uma amiga). Todos os direitos reservados (a minha amiga reserva as pernas para os fins que ela bem entender, nomeadamente caminhar).