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segunda-feira, 9 de abril de 2012

122. Ismael (42) Fernandinha não matou Isabella

(ou a santa paciência para ler textos de duas páginas A4 num blog)




Quando o inspetor Ismael Sacadura Flores começou a dissecar, um a um, os personagens e o seu possível envolvimento no crime que vitimou Isabella Vicentini, fê-lo na tasca do meu amigo Ismael Gusmán, como todos já sabem e nem noutro local poderia ser, já que esta narrativa se passa fundamentalmente à volta da taberna, à volta de Ismael e à volta da minha cabeça, deixando-me por vezes com a dita às voltas. E a primeira referência que o Inspetor fez foi à nossa bem conhecida Fernandinha, autora dos melhores pastéis de bacalhau que já alguma vez alguém presente neste conjunto de contos saboreou. Disse-me Fernandinha uma vez, que o segredo não estava apenas no bacalhau nem no modo como se confecionam, mas essencialmente na qualidade da batata, sem nunca me ter dito qual era a espécie de tubérculos que usava na sua (deles, pastéis) elaboração. Todos sabemos que há pessoas que só passam segredos de pais para filhos, por mania ou por tradição, vá-se lá saber porquê, mas que, para já, não vem ao caso. Tudo o que agora vai ser escrito, não é imaginação do narrador, antes porém fora argumentado por Ismael Sacadura Flores, que até ousou acender um charuto que deixou roído de inveja o Dr. Ismael ben-Avraham, a quem teve o descaramento de pedir lume. Com o seu porte altivo, o ar superior de quem desvenda mistérios, nem que para isso lhe tenha servido de inspiração a alcova da melhor escritora de manuscritos confusos de que há memória na história dos romancistas e, diria mesmo, superiormente ajudado pelo cheiro do arroz de grelos com pataniscas de pescada, que tão bem era servido naquela tasca do meu amigo Ismael Gusmán, falou sem ser interrompido e, quando alguém fazia tenção de o fazer, lá estava ele a esticar o braço, autoritário, com um só gesto mandando-o (ou a) sentar ou calar, conforme a amplitude, direção, raio de ação e verticalidade do movimento e a graciosidade do gesto, ouvindo-se então apenas um abafado balbuciar. E continuava, altaneiro, com o seu discurso direto. Vamos então, que já é tempo, ler o que ele, naquele dia, disse sobre Fernandinha.

Fernandinha foi-nos apresentada pelo nosso escritor do romance policial e narrador dos contos à volta de um carapau de escabeche já os anos setenta estavam nos seus meados. Nessa altura, Fernandinha era ainda uma jovem e roliça beirã que, enganada por um conde francês na região de Marselha, de quem foi criada de servir e a quem destruiu uma boa meia dúzia de garrafas de vinho tinto, caríssimas por sinal e pertencentes à sua coleção particular, se viu impelida a regressar a Portugal. Quis o destino que depois de acolhida por uma amiga da família, moradora na Rua da Madalena, paredes meias com o Largo do Caldas, também ela ex-emigrante e regressada a Portugal logo depois do 25 de Abril de 1974, cheia de esperanças num outro Portugal mas de que não vou esmiuçar nesta análise, tivesse vindo a habitar, um anexo da moradia de uns senhores que eram comerciantes de móveis, em plena Quinta do Conde, onde, todos sabem, moram ou moraram muitos de vós aqui presentes e outros que não chamei, mormente alguns amigos do narrador e um carpinteiro que lhe costuma fazer as molduras para as suas telas a acrílico, já para não falar de primos, da veterinária, de alguns amigos da infância e da adolescência, pois não fazem parte desta história.

E continuou Ismael Sacadura Flores, o nosso inspetor, empolgado com o seu discurso e deixando rostos de admiração à sua volta e algumas vontades de interrupção de quantos o escutavam com suprema atenção e sem perder o mínimo detalhe.

Por outro lado, Fernandinha dorme numa pensão de um tradicional bairro de Lisboa, não só conhecido pelo fado, canção que virá a ser daqui a muitos anos património imaterial da humanidade, que aí se canta, mas também pelas costumeiras cenas de faca e alguidar, com um tipo rico da alta finança, que como quase nenhum de vós imagina, viria, mais tarde, a ser envolvido num escândalo de vidas depravadas e pedofilia, conhecido por ballet rose, prontamente abafado pelas autoridades, exatamente na noite em que se veio a consomar o crime que, como é do vosso conhecimento e também do conhecimento futuro de quem comprar este livro ao nosso putativamente ilustre narrador, aqui nos trouxe, já que não é minha intenção repetir que foi perpetrado na pessoa da malograda corista que apanhou, sete facadas, quase sem saber ler nem escrever, pois eventualmente, dir-nos-ão os relatórios da Medicina Legal, só terá sentido a primeira.

Neste momento o narrador abana a cabeça num gesto de desagrado pois se não queria repetir, repetiu, o que, sabe o narrador de fonte segura, maça de sobremaneira os seus leitores, enquanto Ismael Flores já se via com ar triunfal a sentenciar e Fernandinha, de cabeça baixa, roía as unhas.

Pois minhas senhoras e meus senhores, deu uma gargalhada quando disse isto, vá-se lá saber porque é que as pessoas quando se sentem triunfantes, quiçá até de costas quentes, dão gargalhadas e, virando-se para Francisca, exclamou, isto é tudo falso! Ou, se quiserem, sem tantas considerações de permeio, com vírgulas e tudo, o que o inspetor Ismael S. Flores disse foi o seguinte: «Pois minhas senhoras e meus senhores, isto é tudo falso!». E então aqui que ele dá a tal gargalhada enquanto se voltava para Francisca.

Ouviu-se um longo bruá na sala. Durante a pausa que concedeu ao seu discurso, Ismael Sacadura Flores com o evidente intuito de saborear esta sua pequena vitória, já que ao longo da tarde-noite outras estariam para vir, foi intenso o burburinho e o sussurrar entre os presentes. Ismael Gusmán serviu uma rodada de tintos aos homens e abriu uma garrafa de gasosa espanhola de litro para servir às senhoras. Depois da pausa, continuou o nosso polícia mor, o grande inspetor Ismael Sacadura Flores.

E a falsidade está na cronologia, que é como vocês também sabem a sequência ordenada no tempo dos vários acontecimentos. Pois bem, já perceberam que se em meados dos anos setenta Fernandinha era uma jovem e roliça beirã, filha de emigrantes e também ela emigrante que cresceu em França para onde foi levada em pequenina e a quem o narrador, também ele jovem universitário, batia os olhos nos finais de tarde, quando passava para apanhar o barco no Terreiro do Paço e que, por paixão de quem, ainda apanhou uma ou outra piela, não acostumado que estava a beber e quando só o cheirinho do tinto do Cartaxo já bastava para o inebriar, não poderia ser, ao mesmo tempo, vinte anos antes, quando se deu o crime da Rua dos Correeiros, a bela jovem que se encontrava enrolada em lençóis com um velho ricaço e porco fascista como se veio a provar, a dormir ou a fingir que dormia numa pensão do Bairro Alto. E é por isso que ilibo Fernandinha de ser autora ou coautora deste horrendo crime, por aparentemente não passar de uma personagem de ficção, fruto não só da confusa cabeça do narrador mas também das confusões temporais que surgem a quem escreve para um blog, dia a dia, sem saber como é que isto poderá acabar. Mas há que reconhecer, disse num aparte o inspetor, que assim, o autor encerra uma carga dramática ao texto e testa também a atenção dos seus leitores. Posta que foi a verdade sobre Fernandinha, ordeno-lhe que saia de imediato desta sala, que regresse ao futuro, de novo aos anos setenta ma que, antes que saia, também lhe ordeno que nos traga uma travessa dos seus deliciosos pastéis de bacalhau.

Confusos ficaram os presentes se o nosso inspetor gostava mais de dar ordens em nome da lei ou de pastéis de bacalhau.

E no silêncio em que esta revelação os deixou só se ouviu na sala o leve mastigar dos presentes e um estalo com a língua, que o inspetor deu, depois de virar em jeito de penalti, o seu copo de três de vinho tinto.




domingo, 1 de abril de 2012

119. Ismael (41) . As tortas de Azeitão e o capítulo 5



O Espinheira andava encantado. Não com a história de Isabella, nem com as dicas que Francisca tinha deixado no seu manuscrito e que tanto trabalho lhe davam a decifrar mas que, de facto, constituíram a chave para descobrir o crime, como talvez o narrador tenha vontade de um dia o mostrar aqui. No entanto, se isso for a sua vontade, soará mais adiante. Tomou Espinheira a decisão de ir até à Estação dos CTT mais próxima, naquela época em Vila Nogueira de Azeitão, a alguns quilómetros da Quinta do Conde, porque naquele tempo não havia posto de correios na dita Quinta e aproveitou para comer uma das famosas tortas de Azeitão num dos estabelecimentos mais caraterísticos da Vila, mais propriamente na pastelaria Cego, casa fundada em 1901, chás e cafés, passe a publicidade, sendo que na volta ainda trouxe uma quarta de “esses”, que também são uma delícia, para fazer uma ligação telefónica e quanto às tortas que o Espinheira comeu terei de ser mais preciso, não comeu uma, nem duas, mas sim três. À parte a contagem das tortas comidas pelo Espinheira, os meus leitores, ou perderam-se no parágrafo, ou estavam à espera que o escritor, que sou eu, Constantino, ao vosso dispor, se perdesse, tal foi a distância em que se disse que o Espinheira fora a Vila Nogueira de Azeitão e o objeto desta deslocação que foi, como se viu mais à frente, o de fazer uma chamada telefónica no posto dos CTT. Pois não me perdi e vou já continuar, embora, com isto, arrisque uma má crítica literária, uma vez não ter a certeza de que alguns dos críticos saibam ler parágrafos tão grandes. Mas isso agora não vem ao caso, já que o que eu vos quero mesmo contar é porque é que o Espinheira andava tão radiante.

À primeira vistas este telefonema parece encerrar uma desnecessária perda de tempo já que a Espinheira, também ele morador na Quinta do Conde, bastar-lhe-ia ter atravessado três ruas paralelas e depois virar à direita e na primeira transversal encontrar a casa onde habitava Francisca. Isto não lhe teria tomado mais do que catorze minutos a pé ou três de bicicleta, que era como ele gostava de se deslocar. Para atingir este seu desiderato, como dizem os treinadores de futebol nos seus discursos, tinha comprado uma pasteleira em segunda mão em Almada, na loja do Zé Menino, na Rua Capitão Leitão, estabelecimento infelizmente já desaparecido, que vendia, alugava e reparava bicicletas e motociclos e tinha-a levado ele próprio, pedalando na Nacional 10, que naquele tempo via passar um carro de tempo a tempo, um ou outro autocarro de carreira, uma ou outra motorizada, quiçá alugada no Zé Menino ou em outro estabelecimento congénere e de, isso sim, muitas carroças puxadas por machos ou por mulas, desde Almada até à Quinta do Conde. O receio de ser mal compreendido pela vizinhança, melhor dizendo o receio da má-língua do mundo, que especulasse que entre ele, um jovem universitário, enfim, bem apessoado, e Francisca, uma quarentona divorciada na sua, dela, grande pujança balzaquiana, houvesse uma relação mais intima, uma situação que não era muito bem vista naquele tempo. Apesar de que entre eles, pode vos garantir o narrador, nunca tenha havido nada, não é agora que o próprio narrador vai criar um, mais que provável, mal-entendido que estrague a reputação a ambos. Mas nunca fiar, porque este narrador gosta de arranjar caldinhos para dar mais sabor à novela. Tudo isto terá passado pela cabeça do Espinheira não fosse quem escreveu isto ter sabido de fonte segura que este não terá sido mais do que um pretexto do Espinheira, um tarado por tortas de Azeitão, para se deslocar à origem das mesmas para as desfrutar e poder, além disso, o escritor, adiantar que tal era o fétiche do Espinheira pelas ditas tortas que estas constituíam a oferta preferida dele quando dos seus encontros românticos, substituindo assim por um embrulhinho com meia dúzia das macias tortas, recheadas com doce de ovos e com o travo a canela, qualquer vaporoso ramo de rosas, mesmo que de vermelhas se tratassem. E se não parecesse coscuvilhice contaria aqui o narrador, ou melhor, narraria aqui o episódio de uma tarde em que ele chorou de raiva quando, já homem maduro, em vésperas de ser avô, se esqueceu de uma embalagem de tortas e de um guarda-chuva no assento de um autocarro. Todos sabemos que não foi por causa da perda de um guarda-chuva que o Espinheira chorou.

E neste momento da narrativa, desesperam com o narrador, os que aqui ainda tiveram a paciência de chegar, e suplicam-lhe para que este desembuche, de uma vez por todas, sobre o teor do telefonema e também, se não principalmente, o motivo pelo qual Espinheira andava de sorriso trinta e dois por tudo quanto era canto deste distrito de Setúbal e do Concelho de Lisboa, já que o homem não era de viajar muito. E assim vos digo de rajada pois, como já foi escrito em episódios anteriores, este escritor é homem que gosta de ir direto aos assuntos, sem rodeios nem floreados, que o telefonema era a pedir autorização a Francisca para atribuir ao seu conto o nome de “Conto das ilhas de lá”, ao que Francisca deixou no ar um enigmático, logo se vê. Quanto ao motivo do seu encantamento e satisfação era, nem mais nem menos, o quinto episódio do referido conto, que para quem o tem andado a seguir aqui fica a sua transcrição. E enquanto leem, o narrador vai ali até à tasca do seu amigo Ismael beber um branquinho de Pegões, porque já está com a garganta seca.

Capítulo V
«Os seios da jovem apresentavam-se hirtos. Os mamilos, de um castanho-escuro, pronunciado, destacavam-se da tez cor de mel do próprio peito. Olhando ao redor, nenhuma das fêmeas, diga-se em abono da verdade, bem mais idosas, tinha semelhanças com aquela. De resto, o homozigotismo não parecia ser a característica daquela variante da raça humana. Sem nunca deixar de se insinuar, pegou-me na mão e encaminhamo-nos para uma enxerga de vime, estrategicamente colocada, onde todos e cada um dos presentes poderiam observar-nos. Fiquei de joelhos em frente de um corpo estendido. Imotos. O jovem corpo feminino e eu próprio. O rapaz imberbe e nu, aproximou-se. Numa mão aportava uma folha de papiro que me apresentou e uma faca que mais parecia uma catana miniaturizada. Na outra, uma jaca. Passou-me a folha de papiro para as mãos e quase me obrigou a ler. A disposição dos caracteres, a fazerem-me lembrar línguas estranhas, códigos antigos, como que indecifráveis hieróglifos, tinha todo o aspeto de um hipocraz. Fez-me entalar a jaca entre os dentes, a qual, instintivamente, mordi, no momento em que um corte fino no meu dedo indicador era perpetrado pelo próprio jovem. A dor aguda fez-me trincar a jaca em duas metades. O dedo, sangrando, foi-me feito colocar, como que assinando um testamento. Depois, virou as costas e foi tomar um dos dois lugares mais altos da plateia, ao lado do chefe da tribo. O hipocraz que um dos, aparentemente, súbditos de menor estatuto, me fez ingerir, seria feito, não da maneira convencional, pois em vez do costumeiro vinho na sua constituição, teria uma espécie de aguardente pura de alto teor alcoólico. A partir desse momento, apenas os seios da jovem concentravam a minha atenção».


sexta-feira, 30 de março de 2012

118. Ismael (40) - Uma certa pomada



O meu velho amigo Ismael nunca teve um blog. Quando este fenómeno apareceu e conversamos sobre ele, apenas me disse que já estava velho para estas coisas de computador. Para vos falar a verdade, o meu amigo Ismael nem uma máquina de calcular usava. Pegava num molhe de folhas A4, de papel pardo cortava-as em quatro pedaços iguais, fazia-lhes um furo, passava um cordel pelo furo e atava-o. Ali estava o bloco dele, que pendurava num prego por baixo de uma prateleira atrás do balcão, que tanto servia para fazer as contas dos clientes que eram servidos ao balcão como para apontar os fiados. Eu disse ao balcão porque nas mesas ele fazia-as mesmo em cima da tolha de papel. Quando apareceu a moda dos clientes pedirem fatura, ele pegava num bloco de faturas numeradas, para controlo das finanças e escrevia, 2 almoços, um traço longo à frente e na coluna dos valores 87$50. Lê-se oitenta e sete e quinhentos e estou a falar eme escudos,  que era quanto custavam dois almoços na sua tasca em mil novecentos e setenta e cinco, quando a comecei a frequentar, com direito a sopa, prato, um jarrinho de meio litro, sobremesa e café e, se o cliente gostasse, ele oferecia um bagacinho da casa. Às vezes havia um ou outro que pedia um pastel de bacalhau para fazer boca antes da chegada da comida e então o almoço acabava por ficar um pouco mais caro, mas não muito. E porque é que comecei a contar esta história falando em blog, estão com certeza os leitores deste livro a perguntar. Se isto é, primeiro, uma espécie de livro de contos, segundo, uma espécie de livro policial, terceiro, uma espécie de meio para divulgar os contos da Francisca, que morreu em dois mil e três, com oitenta e nove anos, á beira dos noventa, sem nunca ter visto publicado nenhuma das suas criações, mormente o “Conto das ilhas de lá”, obra na qual ela depositava uma grande esperança de vir a tornar-se um best-seller. O narrador destes contos, que é também o escritor desta espécie de livro está em condições de divulgar que Francisca, numa noite de fados num restaurante muito próximo da Quinta do Conde, onde morou quase a vida inteira, recitou três dos seus mais bonitos poemas, um deles intitulado “Se eu fosse uma folha de nenúfar” que um músico famoso lá da terra acabou por musicar e que, sem espanto do narrador, veio a ser canção do genérico de uma série televisiva num canal de cabo.

Na nossa conversa sobre o blog, perguntava-me Ismael Gusmán, se havia alguma coisa que me preocupasse no blog, enquanto provávamos uma pomada de uma produção particular que ele tinha descoberto através dum caixeiro viajante, familiar de um velho frequentador da tasca, que se não falha a memória ao narrador se chama Rogério e comíamos uma posta de bacalhau desfiado numa das mais saborosas punhetas que se comem em tascas portuguesas, cuja receita é simples, a posta de bacalhau desfiada em cru deve ter sido previamente bem demolhada e ser temperada com um tempero simples de alho picado, cebola cortada em meias luas muito finas, azeite virgem extra, de preferência de boa qualidade, vinagre e pimenta branca em pó e depois de bem remexida a mistura, a punheta fica de se lhe tirar o chapéu e, se a pomada for igual àquele tinto que bebemos, não sei se vale a pena continuar a narrativa ou ficar a degustar os derradeiros sabores que ainda resistem nas papilas gustativas. Acompanhamos o nosso petisco com um casqueiro de Mafra, que lhe chegava todos os dias, ainda quentinho pela manhã, numa carrinha branca Ford Transit a bater ponteiras, mas que o Jaquim Saloio cuidava como se fosse a menina dos seus olhos. Ao que eu lhe respondi que efetivamente um blog deve ter leitores para atingir os seus objetivos e que, se os não tiver acaba quase por ser um diário, mas que, em vez do caráter reservado que é apanágio dos diários, permite alguma devassa. Esperto como Ismael era, não concordou em absoluto comigo, dissertou sobre a escrita pública e a escrita privada, deu mesmo o exemplo de um jornal que se publicava numa Freguesia minhota onde morava uma prima dele em terceiro grau e que ele só sabe disso porque foi lá uma vez visitá-la e viu que era com aquele jornal que ela forrava as gavetas e os armários da cozinha. Acrescentou que ela lhe disse, mas que me transmitiu sob reserva pois ele não ficou muito convencido, que às vezes também era lido no barbeiro enquanto os homens esperavam a sua vez para cortar o cabelo. Depois confidenciou-me que isso tinha sido antes de na última página eles terem passado a inserir uma fotografia de mulher em trajes mínimos e além das palavras cruzadas terem também uma secção de anedotas. Essa conversa com ele veio-me à cabeça um dia destes quando fui ver o contador de visita deste blog. E fiquei a pensar se vocês gostam ou não das minhas fotos ou se devo começar a investir em lingerie, pois que para contar anedotas eu não tenho jeitinho nenhum.


terça-feira, 27 de março de 2012

117. Ismael (39) - Talvez Ekatrina Smirnova. Ou quiçá...



Ekatrina Smirnova tem andado um tudo-nada triste nestes dias. Talvez o facto de estar longe a sua afirmação na Companhia de Bailado também lhe esteja a afetar o espírito. Quando saiu do seu país, o protocolo não era muito claro, mas ela tinha decidido que, custasse o que custasse, só regressaria quando já fosse uma grande bailarina. Talvez prima. Talvez a relação com o Chefe de Brigada da Polícia Judiciária, Ismaelix, não esteja nos seus melhores dias. Ekatrina , desconfiada e ciumenta, não gostava nada dos olhares que o homem de bigode à Chalana, porém branco, com uma longa trança, como que saído de uma banda desenhada de Uderzo,  trocava com a sua colega de quarto, a corista de revista no Parque Mayer cujo nome, bem sabemos, é Isabella Vicentini. Talvez a missão que ela considerava secreta, tão classificada que até o narrador teve dificuldade em saber qual era, que lhe tinha sido incumbida e de que não poderia falhar sob pena de não só pôr em risco toda uma carreira na qual havia apostado todas as suas gotas de suor, não raro algum sangue e muitas, muitas lágrimas, mas também a sua própria vida, pois ela sabia que com os Serviços Secretos não se podia vacilar. Talvez nunca se tivesse acostumado à comida mediterrânica de base nacional constituída por batata e feijão catarino, couve ratinha e toucinho, de quando em vez um frango de capoeira ou um par de alheiras de Mirandela que uma familiar, bem provavelmente prima, de uma misteriosa senhora de Trás-os-Montes, sua vizinha do quinto andar, não sei se esquerdo ou se frente, pois do direito não é com certeza, lhe trazia lá da terra quando vinha fazer limpeza de rotina, pelo menos o pó e ver se estava tudo no lugar, enquanto a prima passava a sua temporada no Canadá, já que a sua condição de bailarina requeria uma dieta especial para nunca aumentar o peso e poder voar como, anos mais tarde, o Zé Gato voaria entre os postes defendendo a baliza do Glorioso. Talvez Ekatrina, que conhecia bem o segredo da medalha que a sua companheira de quarto, a corista de revista no Parque Mayer, acho que já tinha escrito isto acima, possuía, ou guardava, ou escondia, ou exibia, ou liberava, ou o diabo que a carregue pois ela, nunca lhe tinha posto a vista em cima e se o tinha, não era a medalha da missão, mas sim uma imitação falsa, ou o seu pai, desaparecido sem deixar rasto e sem nunca se ter sabido o motivo, não constando que alguma vez tenha ido ao Uzbequistão para comprar cigarros ou apanhar uma bebedeira de vodka a Helsínquia, não fosse ele um exímio ourives, quiçá o melhor de, à época assim chamada, Leninegrado, quiçá o mais famoso também. A ela, coisas do ouro nada lhe escapava e talvez fosse, por isso mesmo, que de entre todas as bailarinas do Bolshoi, ela a escolhida para a missão. Talvez porque Ekatrina soubesse que, à volta de uma taberna onde se comiam belos petiscos, onde intelectuais se sentavam a ler jornais e a beber ginjinhas, onde se faziam os mais famosos pasteis de bacalhau da Baixa lisboeta mas que ela não comia pois era obrigada a dispensar os fritos, onde um pide se sentava num canto e nunca tirava o chapéu preto da cabeça, onde rufias discutiam se o fado das tabernas era mais puro que o fado dos salões, onde navalhas não serviam apenas para cortar a côdea de um pão mais duro ou a casca de uma castanha crua, rondavam, entravam e saiam estranhos suspeitos de se virem a interessar pela medalha, sombras bizarras, fossem judeus coxos e velhos ou estranhos médicos dos quais não consta nenhum registo em nenhum Hospital conhecido, fossem marinheiros de suspeito comportamento com as mulheres, fossem velhas misteriosas e de suspeitas viagens cá e lá entre Lisboa e a Quinta do Conde, entre a Quinta do Conde e Toronto, entre Toronto e Lisboa, com fugazes passagens por Mirandela, fossem almas vencidas, filhas de suspeitos sapateiros de apelido Bate-sola que é nome que não existe lá na sua longínqua União Soviética. Talvez ela soubesse que entre as mulheres desta história houvesse amor e ciúme. Talvez que para ela, todos fossem suspeitos e mais aqueles que o inspetor Ismael Sacadura Flores iria juntar ao processo que se abriu após o vil, sanguinário, horrendo, indescritível crime que vitimou a sua companheira de quarto, corista de revista no Parque Mayer, com sete facadas, isto eu não tinha dito ainda neste capítulo. Nem que tudo isto eram cinzas e eram lume. Ou talvez porque ela soubesse que uma desgraça estaria em breve para acontecer. Talvez por isto tudo, Ekatrina Smirnova tem andado um pouco triste, como se tudo isto fosse um fado. Ou talvez porque ela não saiba como é que há de dizer ao seu amado escritor e narrador destes contos que o gajo é um incorrigível chato. Quiçá.


sábado, 24 de março de 2012

116. Ismael (38) - Ela tem um álibi




Não se faz. Isto não se faz. Isto não se faz a uma mulher como eu. Não há direito fazerem-me isto. E fungava, e limpava os olhos rasos de lágrimas e tapava a cara. Não, mas isto não pode ficar assim, não pode. Quem é que aquele inspetor pensa que é? Pois eu vou dizer-lhe quem sou, ele vai provar do meu veneno. E fechava os dois punhos e elevava os braços aos ares com os punhos fechados e ao mesmo tempo lançava a cabeça para trás. Depois, desatava os nós do lenço preto, ajeitava o cabelo, colocava de novo o lenço na cabeça e dava-lhe dois nós. Não, não, isto não fica assim, intimar-me, ele? Interrogar-me, ele? Mas quem é que ele pensa que é, hein? Mas quem é que ele pensa que eu sou, hein? Sente-se aí minha senhora, o farsante, a tratar-me por minha senhora, quando sempre me tratou pelo meu nome próprio. Cínico! Cínico é o que ele é. E depois vem com falinhas mansas, patati, patatá, coisa e tal, que tinha que me interrogar, que não era um simples proforma, era a obrigação dele, não que eu fosse suspeita, mas porque eu poderia saber mais do que tinha referido e escrito e outras palermices sem nexo. Mas interrogar-me? E aquele desgraçado do Sacadura ainda me fala em álibis e outras coisas cretinas do género. Álibi, eu? Estava onde, minha senhora, na noite em que mataram Isabella Vicentini? Farsante! Farsante, cínico e não lhe chamo mais nomes porque é um agente da autoridade. Um pulha! Estava onde, minha senhora, na noite em que mataram a corista? Minha senhora? Minha senhora, o raio que o parta, a mim que toda a gente sabe o meu nome e ele com muito mais propriedade. E tem testemunhas disso? Testemunhas? Ai meu Deus, que eu passo-me. Então eu digo-lhe, para o processo, é claro, que passei a noite toda na Quinta do Conde (e ele sabia-o bem) e de repente pergunta-me se eu tenho testemunhas? Palerma! Ele paga-mas, ai paga-mas ou não me chame Francisca! Pois este anexo é para isso mesmo. O pulha do Ismael Sacadura Flores passa a noite comigo, na minha cama, numa casinha simples mas muito séria, na mesma rua onde, dessa sim ele devia desconfiar, onde mora uma misteriosa senhora de Trás-os-Montes, que nessa noite não pôs as pantufas em casa, desculpando-se que ouviu uns passos no andar de cima e pergunta-me por testemunhas? Pois eu não disse que ias provar do meu veneno, não disse? Então chama-me de novo à Judiciária e vais ver quem é a testemunha. És tu, meu pulha, és tu mesmo. E depois quero ver se escreves isso no processo. Dormes comigo na cama e perguntas-me se tenho testemunhas. Sabes o que é que eu te digo, meu inspetor de meia-tigela, meu Poirot de pacotilha, meu Sherlock Holmes de Sacavém, meu Gabriel Allon da Gomes Freire, sabes? O inspetor Sacadura dorme comigo na cama pelo menos uma vez por semana, o pulha, sempre naquela de que mais dia, menos dia, resolve o assunto com D. Inocência, o grande mentiroso e chama-me para depor, depois de eu lhe ter dado de mão beijada o meu manuscrito? Ele paga-mas! Paga-mas!

O jovem Espinheira que só viria a descobrir este anexo muitos anos depois, quando já não era jovem, uma vez, em conversa com o inspetor Ismael Sacadura Flores, insinuou-lhe que ele sabia muito mais sobre a Francisca do que ele dizia nos breefings sobre o caso. E, de repente, lembrou-se do dia em que o inspetor, em Cacilhas, com um embrulhinho feito pelas mãos do próprio Ismael Gusmán, o meu amigo galego dono da tasca da Rua dos Correeiros, com meia dúzia de pastéis de bacalhau e quatro croquetes de sangacho de atum, apanhou o autocarro para a Quinta do Conde.

segunda-feira, 19 de março de 2012

114. Ismael (37) - Disclaimer




Se eu tivesse escrito isto no início, antes ou após o prefácio, sendo que neste caso o efeito teria sido minimizado, mas nem por isso menos desastroso, este livro não se venderia. Qualquer potencial leitor ao pegar no objeto impresso, de capa dura ou mole, com ou sem badanas, rapidamente o devolveria ao escaparate. Já estou a imaginar o namorado a perguntar à namorada, que se for verão vai de minissaia ao seu lado, mostrando um belo par de coxas, mas com óculos de aros pretos retangulares e cabelo curto dando-lhe um ar intelectual anos setenta ou, em alternativa, se for inverno, de shorts de ganga bem curtinhos sobre umas leggings pretas e boyas com um debrum de pele sintética,, camisa aos quadrados com um nó na cintura, ar blaisé, cabelos cacheados (no verão usam-se mais curtos), então não levas o livro? e a namorada, não, e o namorado, então porquê?,  e a namorada, a responder meio incomodada, este gajo não existe, não, não é o namorado, é o escritor, e o namorado incomodado também, quem eu?, e ela, a namorada, não, não és tu, amor, é o escritor, usando ali a palavra amor para acalmar um pouco a tensão que o mal entendido poderia gerar nele e ele, o namorado, já que o escritor nem está presente, a terminar a conversa, mas sem sucesso porque a última palavra será dela, deixa lá, não estou a perceber, escolhemos outro e ela, a namorada, a concordar e a dizer, também acho, virando as costas à patanisca com arroz de feijão, ao manuscrito de Francisca, ao bigode à Chalana de Ismaelix, porém branco, ao bonzão do Sebastião, que se as épocas não fossem diferentes se iria fazer à namorada do otário, que nem quis saber porque é que ela rejeitou o livro.

Se eu tivesse escrito isto no fim do livro, após o epílogo, porque se fosse antes não seria no fim do livro, talvez depois do índice se eu tivesse decidido colocar um índice, ou, pelo menos antes da contracapa, o efeito seria muito similar, já que leitor que é leitor folheia sempre um livro ou uma revista de trás para a frente antes de o fazer da frente para trás, quiçá à espera de alguma notícia de última hora como se um livro pudesse ser confundido com um jornal. Um casal que entrasse numa livraria ao deparar-se na estante, escaparate, ou mostruário, com “Contos à sombra de um carapau de escabeche” e o senhor, bem posto na vida,  na casa dos cinquenta, já com o cabelo a ficar grisalho e a fazer notar alguma barriga, mostrando ser um amante dos prazeres da mesa, apesar da senhora, uma quarentona escorreita, que obviamente ainda rompe meias solas sem ter de subir a calçada, como a nossa conhecida Luísa, ao pegar no livro, ao folheá-lo de trás para a frente como tinha feito duas prateleiras antes ao jornal A Bola e, duas antes da prateleira dos jornais, à revista Sábado que tinha sobrado da semana passada, leria uma coisa destas e rejeitaria imediatamente o objeto, não sem que a quarentona, que ainda rompe meias solas sem subir a calçada, lhe perguntasse o porquê dessa aversão e o senhor dos cabelos a ficarem grisalhos lhe respondesse, ora, porque sim, e ela resignada provavelmente olhando para as solas dos sapatos, com vontade de as rasgar e novo pela metade, pronto está bem se tu o dizes e ele, com ar de quem é sabedor e perentório nas suas atitudes a concluir, ainda bem que compreendes. E depois, passando-lhe as costas da mão suavemente no rosto, como que a desculpar-se da última frase, acabou mesmo por se desculpar com o chavão, outra coisa não era de esperar de ti. E deu-lhe o braço, e afastaram-se e não voltaram a falar do livro, ficando assim mais um casal na ignorância das qualidades de Ismael, o galego, das faculdades de Espinheira, o jovem e o mais velho, das formas redondas e das faces rosadas de Fernandinha e muito menos, o que é praticamente indesculpável, de que forma Isabella Vicentini foi assassinada.

Pelas razões expostas acima, resolvi escrever este disclaimer aqui no meio do livro. Agora que os meus leitores, os que compraram o livro e os que estão entusiasmados a ler, capítulo a capítulo, página a página, parágrafo a parágrafo, linha a linha, pontuação a pontuação, esperando pelo fim do livro de Francisca que vai no capítulo IV, querendo conhecer mais histórias que o Constantino vivenciou à volta de uma gasosa e de um pastel de bacalhau e, talvez, queiram também, suponho eu, saber se acabaram nos calabouços de Ismael Sacadura Flores, o ou os algozes que tiraram a vida com sete facadas à pobre corista italiana que brilhava no Parque Mayer, tanto quanto brilhava um fio de ouro com uma medalha ao seu pescoço, já vão num estado avançado de leitura, não os estou a ver virarem-se para o companheiro ou para a companheira, num diálogo surrealista e dizerem, desisto e ela ou ele perguntarem, porquê?, e ele ou ela responderem, está à vista e ela ou ele, ainda baralhada ou baralhado, ripostar com nova pergunta, está à vista o quê?, e ele ou ela virarem-lhe a folha e atalharem, isto:

“os factos relatados neste livro são pura imaginação do autor; se algum tiver um fundo de verdade não queiram saber qual é, porque o autor também o não sabe. Os personagens são de ficção e qualquer semelhança com pessoas vivas, falecidas ou em estado de coma é pura coincidência. Apenas o autor se pode garantir como autêntico, enquanto personagem, mesmo que por vezes aqui apareça baralhado no tempo”

Ai meu Deus, vocês não imaginam quanto eu aspirei, um dia, em vir a escrever um disclaimer.

quinta-feira, 15 de março de 2012

113. Ismael (36) - Escadas rolantes



No tempo em que trabalhar aos treze anos de idade não era considerado trabalho infantil, o Constantino, (aqui o je) trocava as suas férias de verão por uma atividade remunerada. Era assim o compromisso entre o filho do operário que andava no liceu e o pai operário do menino que quis estudar no liceu. Não é que isso tenha tido muita graça mas para que o Constantino pudesse “guardar vacas e sonhos” não andaria com um cajado, mas entregava fatos e camisas em casa dos clientes em Lisboa e concelhos limítrofes, carregando sacos de roupa por vezes maiores que ele, a subir o elétrico, a mandar parar o autocarro ou a picar o bilhete do metro. Era assim a vida de um paquete de uma loja de confeções. Uns dias a limpar o pó das roupas, outros à porta da loja a perguntar a algum cliente em que é podia ajudar, outros ainda, Lisboa fora ou fora de Lisboa. E quando pelo caminho lhe sobrava tempo, saía na estação de metro do Parque Eduardo VII e subia e descia, vezes sem conta, melhor dizendo, vezes com conta pois tinha de voltar à loja, as escadas rolantes, enormes e saborosas. Era tão bom andar de escadas rolantes.

Com treze anos, quando eu chegava a casa, vindo do trabalho, ainda era dia. Trabalhava nas férias de verão, os dias eram longos, sabia-me bem apanhar o barco no Terreiro do Paço pelo fresquinho do fim de tarde, depois o autocarro em Cacilhas. Como era baixinho atrevia-me a pedir meio bilhete e só se o revisor desconfiava e me perguntava a idade é que respondia, pronto, é um bilhete inteiro, o revisor fazia cara de mau e eu dava uma gargalhada. Depois era a alegria de beijar os meus pais, de despir o fatinho que me faria falta amanhã, de vestir qualquer coisa mais fresca, de trincar uma maçã riscadinha ou de comer um alperce ou uma ameixa e dizer à mãe que ia até lá abaixo. Não te demores que o jantar está quase pronto e já sabes que o teu pai não gosta de esperar. E uma bola já saltava escada abaixo, dois chutes na praceta, um mano a mano com o Zé Carlos e eu a chegar esbaforido para o jantar com a cara mais vermelha que um tomate, um duche à pressa, que o pai não gostava, não gostava mesmo nada, de esperar para o jantar. E nesse dia à mesa, sobre as escadas rolantes fazia silêncio. Ai de mim se a mãe soubesse.

Com treze anos, jogava ao pião, à macaca e aos cobóis. Dois anos antes tinha partido um braço a saltar ao eixo o que me incutiu um medo particular por esta brincadeira. Por outro lado a minha altura, assim a modos como o mais baixote (a par do Carradas), também não me incentivava muito a pular por cima dos “calmeirões”. No pião era um ás, quer a lançar, quer a apanhar, quer a pilar os outros piões e fazê-lo sair da rodinha. Admiro-me de que com esta pontaria nunca tenha tido a mínima vontade de ser caçador. Por falar em pontaria também era um ás a jogar ao carolo, que era como na minha zona se chamava ao berlinde. Fosse às covinhas, ao renas ou ao ganhas, onde eu gostava mais de ser marralhos, fosse à rodinha-bota-fora ou ao pixe, chegava a casa sempre cheio de bilas ganhos, a não ser que algum pirata de catorze ou de quinze anos, lá aparecesse com um abafador e me abafasse os carolos todos. Mas esses, alguns deles, claro, tinham o castigo que mereciam. Não sabiam, nem haveriam de saber que no parque Eduardo VII havia escadinhas rolantes. O mais certo mesmo era não saberem o que eram escadinhas rolantes.

Naquele dia, o senhor Ismael estava com cara de caso. Olhava muito para mim e não me dizia nada. Dei-lhe a marmita para aquecer e pedi uma gasosa. Dei-lhe os doze tostões e agradeci quando me trouxe um prato com a comida. Aos outros putos e alguns adolescentes e até adultos, aquecia-lhes as marmitas e trazia-lhes a comida assim mesmo, pousando-as em cima da mesa de madeira. A mim não, porque o senhor Ismael era amigo do meu pai, a comida vinha sempre num prato. A tasca do senhor Ismael tinha uma parte para quem trazia comida de casa. Eram outros tempos. Mas já ouvi falar que já não só os operários que levam a marmita. Dizem nas televisões, só pode ser mentira, já se vê, que as pessoas, até alguns empregados de escritório, que no meu tempo de miúdo eram gente fina, agora também levam a marmita para o emprego. Alguns, por vergonha, não a vão aquecer à tasca. Comem mesmo no escritório, quase às escondidas. Bom na verdade, tascas como a do senhor Ismael já não há muitas. Mas a cara do senhor Ismael naquele dia não era para brincadeiras. Quase que me fulminava com os olhos. Foi quando vi entrar aquele senhor de bigode à Chalana, porém branco, apesar de naquele tempo ainda não haver Chalana, só Simões, Cavém, José Augusto, Torres, Jaime Graça, Coluna, Eusébio e José Águas, que percebi o que é que se estava a passar. Eu bem o vi lá ao fundo da estação, mas não o conhecia, embora ele já me topasse. E assim, veio o nosso velho Ismaelix a chibar-se ao senhor Ismael que o Constantino, o filho do seu amigo da outra banda, andava para baixo e para cima nas escadinhas rolantes do Parque. E eu, com uma lágrima no canto do olho, perguntei ao senhor Ismael se tinha pudim flan e pedi-lhe encarecidamente, não diga nada ao meu pai.


segunda-feira, 12 de março de 2012

112. Ismael (35) - Assim contado não tem piada nenhuma




Foi só quando o Espinheira, depois de ter feito umas investigações a antigos arquivos por causa de uma herança de umas casas na Baixa, veio ter comigo e me falar de um crime ao qual ele não tinha ainda encontrado o desfecho, ocorrido muitos anos antes na Rua dos Correeiros, 43, 6º andar, que as nossas relações começaram a ficar tensas. Primeiro porque o Espinheira não tinha nada que meter o bedelho onde não era chamado, já que o crime de que ele estava pretensamente a falar nunca ocorrera, uma vez ter sido uma invenção minha para o livro, que por acaso ainda não tem nome mas que estou tentado a chamar-lhe qualquer coisa do tipo “Crime à sombra de um carapau de escabeche” . Em segundo porque, indiscretamente ou por distração, poderia vir a público revelar ou insinuar quem tinha sido o assassino de Isabella Vicentini, já que quando me referiu a ausência de desfecho, frisou bem o advérbio ainda e isso estragar-me-ia o enredo. Pois assim, quase de costas voltadas, entramos na tasca de Ismael Gusmán, que era até há bem pouco tempo, um local de puro relax, um local onde todas as tensões se quebravam, um local de onde até casais desavindos saiam de braço dado e de onde outros, casais não formalmente constituídos, eventualmente adúlteros, saiam à procura de uma pensão com ou sem águas quentes e frias. Era assim como que um antro de paz e reconciliação e toda a gente sabia que não havia discussão, mau estar, tensão pessoal ou conflito protoexistencial que resistisse a um pastel de bacalhau e a um tinto das Gaeiras, em vez de um crepe de rebentos de soja e a uma coca-cola gelada, fruto da globalização, da imigração chinesa e da invasão imperialista. A velha laranjada AUA já era, a gasosa La Casera, que era muito apreciada, apesar de ser um produto espanhol, facto que muito orgulhava o meu amigo galego, dera o seu lugar à sevenape e à sepraite.  Mas na tasca do Ismael mantinha-se a tradição e ainda se podia apreciar um bom pastel de bacalhau, talvez herança dos tempos em que Fernandinha brilhava naquela cozinha e o tinto, que agora jorrava de caixas de cartão, já não era bebido em fininhos do Cartaxo, mas ainda assim, Ismael tinha garbo em vender do melhor e, se algum cliente o pedia, numa prateleira superior, a fazer lembrar o antigo terceiro anel do Estádio da Luz, deitadas para molhar a rolha, como deve ser, lá tinha ele uma boa dúzia de garrafas de vinhos DOC e VQPRD, das melhores regiões nacionais.

O dia estava fresco, era o fim de uma manhã de início de Outono, pedi dois pastéis de bacalhau e uma fatia de pão, só para fazer boquinha, mandei abrir uma garrafa de tinto da granja da Amareleja, ignorando se o Espinheira o merecia ou não, o meu amigo Ismael perguntou se íamos almoçar e eu perguntei-lhe, como resposta, o que é que era a ementa nesse dia. Ele gaguejou um pouco, começava já a desculpar-se dos tempos modernos e tal, falava em hambúrgueres e bitoques, eu abri-lhe um pouco mais os olhos do que ele estava à espera e já curvado nos seus setenta e tal anos, deu meia volta e soltou uma sonora gargalhada e, passada que não era ainda uma meia hora já nos trazia duas belas postas de bacalhau à lagareiro com batata a murro e tudo, que lá nisso, o galego nunca deixou os seus créditos por mãos alheias. E entre conversa de circunstância do tipo, o Espinheira a esfregar as mãos e a dizer que com este tempo este azeite quentinho com alho é que vai saber bem e veja lá, os chineses, não sei quê e tal e eu então disse-lhe no meio de duas garfadas, Pronto! Está decidido. E ele, o quê? E eu, já sei como resolver todo este imbróglio. E ele, como assim? E ainda acrescentou, não estou a perceber. E eu, mas primeiro tem de me dar uma garantia. E ele, oh senhor Constantino só para lhe ver esse sorriso número vinte e sete, dou-lhe todas as garantias. E eu, não brinque porque isto é coisa séria e tem que ficar combinado. E ele, combinado o quê? E eu, você não fala do crime da Rua dos Correeiros a ninguém, não menciona o nome de Isabella a ninguém, não insinua, sequer, que alguém morreu com sete facadas num sexto andar de um prédio da baixa a ninguém, não diz… E ele, interrompendo-me, está bem, mas diga lá de uma vez por todas o que me quer dizer senhor Constantino, isso nem parece seu, por aí a enrolar as coisas. E eu, pronto, não se exalte Espinheira, mas você é que é culpado por me estar sempre a interromper. E ele, desculpe, e eu, pronto, desculpado e ele, obrigado, e eu, não tem de quê, mas você garante-me o que lhe pedi e eu meto-o na história como um jovem estudante da Faculdade de Letras e avençado do Estado a colaborar com a polícia judiciária, mormente com o inspetor Ismael Sacadura Flores. E antes que ele me perguntasse como é que eu sabia que ele tinha andado a estudar na Faculdade de Letras, acrescentei, sim porque eu sei muito do seu passado e você vai ver que não se vai arrepender de fazer parte de algumas páginas do meu livro. Apertamos as mãos e acabamos de comer o nosso bacalhau à lagareiro, além de termos brindado à Isabella Vicentini e à Fernandinha, à medida que o vinho recuava na garrafa e avançava na nossa circulação sanguínea, brindamos também ao fio de ouro com uma medalhinha, ao velho Ishamil Baruch que é coxo, à idosa e misteriosa senhora de Trás-os-Montes, ao falecido Günter Freitag e às pensões com águas quentes e frias.

Irresistível mesmo, foi, após o cafezinho e aquele bagaço de vinho verde que repetimos, o Espinheira ,já a cambalear, tirar dois caderninhos do bolso do casaco, um deles de capa preta, mostrarmos e dizer-me, este você reconhece e eu, sim esse é o manuscrito de Francisca, e ele, acertou e eu, então e outro? E ele, calma e eu? Tanto mistério porquê? E ele, já vai ver, e eu, O que é isso? E ele, é um anexo. A páginas 145, diz-me entusiasmado, Francisca refere-se a um anexo e só passados estes anos todos é que eu o vim a descobrir e nem lhe digo onde. E eu, onde? E ele, não lhe digo. E eu, diga lá. E ele, não. Pediu o seu terceiro bagacinho e só visto, porque contado não tem graça, caiu sentado no banco corrido da nossa mesa na tasca do Ismael e deixou-se adormecer sobre o anexo. Irresistível aquele momento, que só visto, pois contado não tem a mínima piada.

sábado, 10 de março de 2012

111. Ismael (34) - O doutor e a enfermeira feia



O inspetor Ismael Sacadura quis ter a certeza que o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham tinha consistência. Para isso nada melhor do que ir ao próprio hospital para verificar os registos. Foi isso que, naquela inusitada manhã, que tudo fazia crer ser pacífica, calma, brilhante e primaveril, não aconteceu. E o que não aconteceu não foi só o inspetor Ismael Sacadura Flores não ter saído de lá convicto de que o alibi de Ismael ben-Avraham era consistente, mas também o facto de a manhã não ter sido pacífica, calma ou brilhante, já que de primavera ninguém o pode negar, dado o episódio se ter passado em pleno mês de maio.

Passou primeiro pela tasca do nosso amigo Ismael Gusmán onde foi matabichar. Para tirar o jejum, o inspetor, que nunca usou da máxima, não bebo em serviço, pediu uma sandes de torresmos e uma tacinha de branco. O meu amigo galego ainda lhe perguntou se ele preferia um verde do garrafão que ele tinha acabado de abrir e que, segundo ele, era do bom, do de Monção, mas o inspetor, naquele dia, preferiu mesmo o maduro da Adega Cooperativa de Torres porque o meu amigo Gusmán, lá isso, ele não vendia zurrapa nenhuma. Foi logo ali na tasca que o dia não começou a ser pacífico. Numa correria louca, entram dois tipos, um a correr atrás do outro, dão a volta a uma data de mesas, continuam numa daquelas de gato e de rato, que até o Rogério, que se tinha levantado mais cedo e se sentava já para ler o Século, deu um salto com o susto que apanhou, coitado. Mas o inspetor, com a sua calma e sabedoria de polícia experimentado, esticou uma perna e o tipo que fugia à frente estatelou-se no chão que foi uma beleza. O que o perseguia, aos gritos de ladrão e de vagabundo, trazia uma bengala na mão, cujo cabo nos pareceu ser de prata e nem esperou que o larápio se levantasse, começou à bengalada nas costas e na cabeça do ladrão que foi um ver se te avias, de tal forma que naquela noite, tal foi a força e a precisão da bengala, nos calabouços da polícia ninguém dormiu com os ais, fiteiros mas a propósito, de Ismael Torquato, mais conhecido pelo turco, que gemeu toda a santa noite. Mas isto de ladrões que roubavam por esticão e carteiristas era o que naqueles tempos não faltava na cidade de Lisboa. Quem sabe, um dia mais tarde, ainda vos conte uma história real passada no elevador da Glória e que, se ela é dramática, não deixa de ser hilariante. Mas adiante que a prosa já vai longa, não haveria novidade nenhuma em se caçar um carteirista se o turco, cujo nome completo é Ismael da Siva Torquato, nascido em Lisboa, freguesia do Alto do Pina, não fosse o célebre rececionista de uma pensão na Mouraria, pensão essa que tinha serviço de águas quentes e frias. Também não foi brilhante porque em maio, mês de trovoadas por excelência, mal o nosso inspetor entregou o caso do turco aos seus colegas da polícia municipal, com a recomendação de que, após o auto por roubo, o turco deveria passar para o foro da judiciária, já que havia algumas desconfianças de envolvimento no assassinato de Isabella Vicentini, que não vale a pena repetir, mas que se relembra era corista de revista no Parque Mayer, a quem foram infligidas sete facadas no seu próprio apartamento da baixa, começou a cair uma daquelas bátegas de água, bem acompanhada por assustadores relâmpagos e não menos temerosos ribombares de trovões que só por algum acanhamento não o colocou de joelhos a rezar a Santa Bárbara. Isto acabou por atrasar o nosso inspetor na sua missão no Hospital dos Capuchos e todo este relato acaba também por atrasar os meus leitores, pois o que mais eles querem saber, neste momento, é se o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham se confirma ou não.

Não foi calma a manhã do inspetor Flores, Ismael de sua graça. Para além do que se acabou de relatar, se isto fosse verdadeiramente um livro, apareceria aqui uma série de complicações burocráticas até que a Judiciária se conseguisse apropriar da informação que tanta falta lhe faz. Mas não, isto não é um livro, é apenas um blogotexto, escrito em Calibri 11 no word e depois transcrito para o espaço que me foi concedido pela blogger dot com e por isso é que o narrador costuma ir, logo de rajada, direto ao assunto. E seria isso que estaria a fazer neste momento se por acaso não tivesse tido a desdita de supra referir que a manhã não tinha sido calma, pacífica e brilhante. E, se já vimos que não foi pacífica nem brilhante, não foi calma porque o diretor do hospital não só começou por negar ali alguma vez ter trabalhado o tal doutor judeu Ismael ben-Avraham, mas também porque lhe negou o acesso aos registos sem uma ordem de um Juiz de Direito. O que o narrador está aqui a dizer, faz parecer aos seus leitores que, em 1956, Portugal era um estado de direito, cumpridor com os direitos dos seus cidadãos e também a fazer crer que a polícia, naquele tempo, não era de uma prepotência atroz, a todos os níveis tolerada pela hierarquia e pela tutela. Mas fica bem falar bem do país, passe a duplicação de termos, pois nada me garante que isto não venha a ser lido por algum estrangeiro e não basta, hoje em dia, o país andar tão de rasto com a aquela coisa das agências de rating e coisas assim e tal. Mas continuando a ir direto ao assunto, como é apanágio de quem aqui escreve, lá teve o nosso inspetor de pedir um mandato ao juiz Ismael Fagundes de Oliveira, que naquele dia era quem estava de serviço na comarca, mas poderia ter sido assinado por outro qualquer já que o diretor do hospital, na época o senhor professor doutor Ismael Gutierres Fernandes, facto que pode ser confirmado nos arquivos do referido hospital, nem olhou para o nome do juiz e mal viu uma assinatura com um selo branco logo lhe franqueou todos os acessos.

Infelizmente não vai ser hoje, porque o texto já vai longo, que saberemos se o alibi do Dr. Ismael ben-Avraham pode ser confirmado, quando ele, no primeiro interrogatório que lhe foi feito, referiu que teria estado a trabalhar nas urgências do referido hospital, vinte e quatro horas seguidas, só tendo saído de serviço ao meio dia, já após o crime ter acontecido na pessoa da malograda Isabella. Uma testemunha anónima, uma enfermeira feia, de quem não podemos revelar o nome por causa do segredo de justiça e que por mais de uma vez tinha levado negas do médico judeu, afirmou em surdina que antes das seis da manhã o doutor se ausentou um pouco, indo na sua cola a jovem enfermeira Meireles e que só regressaram perto da oito da manhã, o que levantou algum burburinho entre os colegas mais púdicos. Ninguém sabe se a enfermeira feia estava a inventar aquilo por uma questão de vingança ou se teria sido verdade pois não havia registo de ausências na folha de serviço hospitalar. Mas Francisca é perentória a escrever no seu manuscrito ao sublinhar o adjetivo feia logo a seguir a enfermeira, embora seja um pouco dúbia no que respeita às relações de ben-Avraham com a enfermeira Meireles. O que os meus leitores não estranharão com certeza é que o escritor diga que talvez mais tarde venhamos a saber sobre a validade deste alibi, mas admirar-se-ão, sem sombra de dúvidas, por a Quinta do Conde não ter tido protagonismo neste episódio.


quarta-feira, 7 de março de 2012

110. Ismael (33) - Capítulo 4



Na página noventa e três, Francisca continua a desenvolver o seu conto a que eu, abusivamente, vou chamando o “Conto das ilhas de lá”, sendo que o capítulo quatro não destoa dos três primeiros e espero que continue. O jovem Espinheira, contratado para lhe decifrar o manuscrito, com uma parca avença que apenas lhe dá para as passagens desde a Quinta do Conde à Rua dos Correeiros e para comprar uns morangos de Sintra, numa carroça parada em Cacilhas, junto ao Farol, sim porque naquele tempo ainda havia o pequeno, mas muito doce, morango de Sintra, estava preparado para começar a ler.

Alguns dos leitores deste que será um potencial livro a ser vendido um ano depois de editado na Feira de Corroios por um ou dois euros, para desempatar dinheiro à editora, começaram a ler estas páginas já a procissão ia no adro. Por outras palavras, já Ismael se tinha introduzido nas minhas histórias e já o contista Constantino tinha inventado um crime na Baixa Pombalina da cidade de Lisboa. Se no meio das suas histórias, o tipo que assina estas prosas tivesse começado a escrever um Tratado de Economia defendendo o neoliberalismo como o futuro da globalização, não sei se Francisca estaria à altura de dar pistas ao Espinheira para que este ajudasse alguém a decifrar hieróglifos mas talvez viesse, um dia, a ter a sorte de ser convidado para Ministro. Mas talvez não fosse tão confuso e não baralhasse tanto os seus leitores, nem a moça que um dia encontrou num café. Principalmente porque no meio de um Tratado de Economia de carater neoliberal o “Conto das ilhas de lá” não faria sentido e a Fernandinha não seria tão roliça já que o tempo é, efetivamente, de vacas magras. De qualquer maneira, se a tasca de Ismael não tivesse já sido substituída por uma hamburgueria americana franchisada ou fechada para especulação imobiliária, ainda se comeria lá um caldinho verde e uma sandes de ovo ao balcão e uma bica para rebater, que é assim que a classe média em decadência se alimenta nos pequenos intervalos para almoço que lhe são concedidos. Ah, estava a esquecer-me. E um copo de água da torneira, que sai mais em conta.

Estava o Constantino nos seus pensamentos futuristas, quando, como que por magia,  o inspetor Ismael Sacadura Flores lhe fez estalar dois dedos, a saber, o polegar com o médio, mesmo à frente do seu nariz e lhe perguntou, mas você quer ouvir o que a Francisca escreveu, ou não quer? E foi com a boca cheia que o contista, que mastigava um panado de porco numa bola de mistura, com um esguicho de condimento de mostarda, que por pouco não lhe sujava a camisa e bebia uma imperial (reparem como se não fosse por magia, cronologicamente isto seria impossível, a não ser que o puto Constantino, que ainda usava fraldas já se metesse nos álcoois, quanto muito estaria a mamar um biberon de leite de vaca, com um babete à frente), ficou de olhos vidrados na beleza da escrita de Francisca. Abrindo o manuscrito na página noventa e três e socorrendo-se de uma pequena cábula em papel quadriculado, com desenhos e traduções, o jovem Espinheira leu. À sua roda, Ismael, Fernandinha, Rogério e Sacadura mantinham-se em silêncio. Já não sei hei-de dizer que o contista também estava presente ou se se tinha ausentado a fim de mudar a fraldinha mijada. Efeito das bejecas, pensarão alguns. O jovem Espinheira, com toda a certeza, posso-vos afirmar, estava lá e leu.

Horas e horas sem me alimentar, atentava-me uma mesa assim. Não sabia a composição dos alimentos, mas isso não era importante. No entanto, permaneci imoto. Seria imperdoável tomar a iniciativa. Mais que imperdoável, inadequado e imbecil. O chefe tinha um ar rude, a atingir laivos de imane. Qualquer tentativa, mesmo que imaculada poderia ser considerada uma imisção nos costumes. Esperei. A cena que se seguiu foi imperdível, mesmo para um observador externo. Dois jovens, um rapaz imberbe e uma moça implume, aproximaram-se, nus. Alguns dos indígenas desviaram-se abrindo caminho para o jovem par. O que se passou de seguida é, para um leigo nos costumes, inarrável. Como que impetrando, os olhos da rapariga dirigiram-se a mim. Não teria mais de 16 anos, o que me começava a incomodar. Embora celibatário, qualquer relação que pudesse haver entre nós me pareceria ímpia. Mas, as circunstâncias, não me permitiriam impeticar com os anfitriões. Deu-me a mão e obrigou-me a levantar. Uma a uma, num ritual de sensualidade, retirou-me as vestes. Senti-me impotente para parar aquela espiral de emoções. Nunca fui casado, nunca tive filhos, mas qualquer ato que eu cometesse me acometia de incestuoso. Se alguém, da minha cultura, me visse, face a tão inusitados preparos, me acharia inábil. No entanto, o jogo iria continuar".

Ai, estou com tanto medo que a Francisca não consiga acabar este conto, suspirou Ismael Sacadura Flores. Depois, agarrou num braço da Teresa, que entretanto tinha chegado, pé ante pé, para não fazer barulho e perguntou-lhe, estás a perceber alguma coisa disto?



segunda-feira, 5 de março de 2012

109. Ismael (32) . Um álibi com lençóis



Costumo ler três livros de cada vez, outras vezes quatro e já cheguei ao cúmulo de estar a ler cinco livros em paralelo. Neste momento, não contando com a Bíblia que é um livro que leio amiúde e quase diariamente, só estou a ler mais dois. O “Abraço” do José Luís Peixoto e “Almas que não foram fardadas” do Rogério Pereira. Ambos contam histórias e este é um meio onde gosto de estar e que, quando me movimento, me movimento com algum à vontade. São obras leves, nada de romances de enredos complexos e isso permitiu-me no mesmo entretanto ler ainda “Já não se fazem homens como antigamente”, uma pequena coletânea de contos de quatro autores, o Miguel Almeida, a Daniela Pereira, o João Pedro Duarte e o Pedro Miguel Rocha. Esperem aí que eu vou fazer chichi e já volto. Pronto! Voltei. Desculpem a interrupção. Mas há algo que ainda não vos disse. É que, em simultâneo, ando a acompanhar o jovem Espinheira a decifrar a caligrafia horrível, chamar horrível é um eufemismo, de Francisca num precioso manuscrito que nos deixou, embora incompleto, a não ser que se descubra um segundo caderno, para que se possa desvendar o crime. Como bem estão recordados, refiro-me ao hediondo, sanguinário, diria mesmo que indescritível de horrendo, assassinato da bailarina, há quem lhe chame corista de revista do parque Mayer, no início da segunda metade da década de cinquenta do século passado, espero que tenham gostado do preciosismo cronológico, com sete facadas, a maioria no peito, mas que a polícia, até à data em que se desenrola esta narração, não nos permite divulgar mais pormenores. Ora hoje, depois de ter arrumado o livro do Peixoto na estante da casa de banho, onde aproveito todo o tempo “morto” para ler e o livro do Rogério aqui ao lado do meus comprimidos para o colesterol e as pautas de música para cavaquinho, peguei numas páginas do manuscrito da Francisca e comecei a ler.

Na véspera dos acontecimentos (pressupõe-se que se refere ao hediondo, sanguinário, adiante, ao crime…), Fernandinha recebeu o telefonema de um primo em segundo grau, sobrinho de D. Laurentina que, como todos ainda estão recordados, foi a tia que recolheu Fernandinha, não no rés-do-chão do número 43, como Ismael Gusmán me tinha sugerido em tempos, mas sim numa pequena casa, uma pequena vivenda com cozinha, uma sala e dois quartos, na Quinta do Conde que, quis o destino, não tinha seguido o destino, a redundância aqui é propositada, diz a própria Francisca, da família e não emigrou. Estava a comunicação complicada, entre a Fernandinha e esse seu primo em segundo grau, quase tão complicada como a frase que constituiu o parágrafo anterior, pois telefonar de uma aldeia da freguesia de Lajeosa no Concelho de Celorico da Beira para a Quinta do Conde era ainda mais difícil do que fazer como o narrador deste texto, que mistura factos de hoje em dia com os acontecimentos da época e ainda tem a paciência de ler três livros ao mesmo tempo, que não se conseguiu perceber o nome do primo, tal era o ruído. Continua então Francisca, a comunicação estava complicada mas deu para se perceber que alguém importante no meio financeiro nacional, a teria tentado contatar em Lajeosa mas que aí o informaram que Fernandinha vivia com um Barão francês em Marselha. Ele insistiu, apesar das dificuldades de comunicação, patati-patatá lá vai o narrador repetir-se e conseguiu saber por portas e travessas que a Fernandinha já estava em Portugal e que era tal a sua competência na cozinha que, se ela fosse personagem de uma história, cinquenta anos mais tarde, seria, numa daquelas reclassificações de funções feitas por consultoras internacionais, uma técnica superior de cozinha com especialização em salgadinhos na variante pastel de bacalhau. E aqui entra o narrador para perguntar se Francisca é familiar dalgum profeta ou se se está a fazer ao piso. Na verdade, Fernandinha veio a receber uma nova chamada, alguns minutos mais tarde, do tal senhor da finança, tendo até pedido ao patrão, um galego dono de uma tasca na Rua dos Correeiros, pessoa muito estimada, adepta do Benfica e do Liceo da Coruña, de sua graça Ismael Gusmán, para sair aí por volta das sete da tarde pois ainda teria que ir lavar os sovacos e outras partes que ela se ruborizaria em dizer, já que se ia encontrar com uma pessoa importante. Disseram-me mais tarde, continua Francisca, que o casal foi visto a jantar no João do Grão e que foi depois aos fados na Severa, em plena Mouraria e que, finalmente, deu entrada numa pensão com serviço de águas quentes e frias e pequeno-almoço tipo francez, sim escrito com um z numa placa metálica, junto a um candeeiro a petróleo, sita na parede do mesmo prédio da dita pensão e que, em noites de vendaval, range de tal maneira que quem dorme no quarto com janela para a dita placa não prega olho toda a noite, pelo que os donos da pensão lhes fazem uma atençãozinha no momento de fazer contas. Pois o casal, que depois dos fados se instalou na pensão, terá lá passado a noite, já que, no depoimento prestado pelo rececionista da pensão, ao chefe de brigada Ismaelix, isto já não diz a Francisca, pois o manuscrito é anterior às investigações, mas sabe-o o narrador de fonte segura e próxima da Judiciária, dizia, garantiu a pés juntos que naquela pensão, depois das duas da manhã, os únicos ruídos que se ouviam era de algumas camas, que pela idade dos entalhes já não eram o que foram antigamente ou algum flato mais sonoro por descuido de algum dos hóspedes. Portanto não houve o mínimo movimento na receção e a porta só se voltou a abrir por volta das oito da manhã, já que um rapazinho minhoto, dos seus treze anos de idade, que é marçano numa mercearia na Rua Áurea, paredes meias com o elevador de Santa Justa e que por favor dos patrões que são também os donos da pensão o deixam morar lá no cubículo e que sai sempre àquela hora para ir pegar ao trabalho.

Atendendo ao manuscrito da Francisca e ao que o narrador e contista, que todos conhecem como Constantino, acabou de escrever, parece que Fernandinha tem um irrebatível álibi já que, segundo consta nos autos que o Espinheira, uns anos mais tarde, veio a descobrir nuns arquivos da polícia e que o contista já não se lembra, ao fim destas páginas todas se já foi dito ou não, o crime ter-se-á dado por volta das sete da manhã. Ah sim, é verdade, não foi o contista e narrador quem o disse, terá sido um desabafo de uma misteriosa senhora de Trás-os-Montes ao chefe de brigada Ismael de Almeida quando este se disfarçava do homem que dá milho aos pombos. Pois ao outro, ao tal do bigode como o Chalana, porém branco, ao nosso conhecido Ismaelix, também ele, soubemos há dias, chefe de brigada da Judiciária, pois a esse, ninguém lhe faz o ninho atrás da orelha. E há de, mais dia, menos dia, dar um contributo importante para se desvendar este caso. Ou não andasse ele a dormir com Ekatrina Smirnova e o seu primeiro encontro não tivesse sido na pensão Estrela de Alva, águas quentes e frias.


sexta-feira, 2 de março de 2012

108. Ismael (31) - Um ato falhado. Ou dois...


Certa vez foi à noitinha, o Chico do Cachené, chamou-me e disse Farinha, e por aí a fora. É mais ou menos assim que começa um fado de Lisboa cantado pelo saudoso Fernando Farinha a contar resumidamente a história da vida do Chico do Cachené. Uma ocasião, é assim que começa um amigo meu cada vez que quer contar uma história. Também acho interessante a fórmula, porque cada história começa num determinado momento que pode muito bem ser ocasional. Por era uma vez, começa a maioria das histórias que conhecemos, que nos foram contadas pelos nossos avós, pelos nossos pais e que agora continuamos a contar aos nossos filhos e aos nossos netos. Pois sendo eu um contador de histórias, nenhum dos meus leitores me perdoaria se eu, neste primeiro volume de uma trilogia que se adivinha, a saber, as “histórias da tasca na baixa”, os “contos da floresta virgem” e as “fábulas da folha de couve”, não tivesse pelo menos um conto, uma história, um folhetim, um episódio, um simples passo, que não começasse por era uma vez… pois então que não me perdoem, porque ainda não será hoje que eu vou começar a minha história pela tão célebre frase.

Já que me mostraste a tua, agora vou-te mostrar a minha. Pode ter sido um ato falhado. A minha amiga madeirense (*) que coça pulgas como ninguém e avó de umas quantas, resolveu virar-se para o seu senhor e atirar-lhe com essa pérola durante um passeio que faziam pelo Norte de Portugal. Ato falhado, acho eu e não sei como é que aquela rural acabou por explicar ao seu homem por onde andavam os seus pensamentos. Tanto quanto ela nos explicou, deveria ter dito ao marido, Já que mostraste o Tua, agora vou-te mostrar o Minho. Nem sempre o que parece é, nem sempre o que é, parece.

Todas as tardes, durante um largo período de tempo, até que o pide de serviço achasse que aqueles jogos não eram mais que um pretexto para estarem mais de três juntos, um comportamento considerado muito suspeito pelo salazarismo, jogou-se à sueca na tasca do meu amigo Ismael. O Rogério era dos poucos que não jogava mas assistia e se vos vou contar esta história foi porque ele ma contou, pois eu nessa época não teria idade para frequentar locais onde se jogassem cartas. Entre as três e as seis, o movimento na tasca do galego era muito reduzido. Os almoços já tinham terminado de ser servidos, um ou outro cliente entrava e saía depois de ter bebido o seu morangueiro ou o bagacinho caseiro que o Ismael servia à socapa, raramente alguém para um carapauzinho de escabeche ou mesmo para uma ginjinha e muito menos para um pastel de bacalhau. Turistas eram poucos, já que  naquele tempo Lisboa não estava na moda e o resto andava a trabalhar e, sendo assim, principalmente no verão, a baixa era um autêntico deserto. Nos intervalos das viagens o Sebastião não tirava, literalmente, o cu, ou, literariamente, o rabiosque da tasca do Ismael, só para “morder” (entre aspas, claro) a Fernandinha, um desgraçado daqueles que, às quatro da manhã, quando a Isabella, entretanto assassinada, vá lá saber-se por quem (**), chegava do teatro, ia logo meter-se na cama da italiana. O ardina, o jovem imberbe Ismael da Sacola, como era conhecido, porém já com os seus dezanove anos completos, à espera de ser chamado para as sortes. O nosso conhecido Ishmail Baruch, velho sabido, campeão da bisca lambida, mas de reconhecidos méritos na sueca, com muitas renúncias à mistura e o filho do senhor Ismael da Farmácia que, por não se lhe conhecer profissão, também era conhecido pelo vadio da outra banda e que saía todas as manhãs, perto do meio-dia da madrugada, da Quinta do Conde para vir arranjar emprego em Lisboa, mas que nem tentava, pois o pai ia-lhe dando para os gastos. As tardes, quando não havia sueca na tasca do Ismael, passava-as ele no Largo do Carmo, com um bandolim mal afinado a tocar polkas para dar nas vistas.

Os quatro sentados à roda de uma mesa e o mais que sabido e um tanto ou quanto batoteiro, nosso conhecido Sebastião, a não perder a oportunidade para espreitar a mão de Fernandinha, bisbilhotando-lhe o jogo e daí tirando vantagens. Fernandinha estava mais que ruborizada de tanto descaramento e irritadíssima por o seu jogo estar as ser devassado a cada jogada. E numa afirmação de inconformismo marcou a sua posição,  se você volta a despir as calças… ainda tentou emendar, corrigindo para, se você volta a me ver as cartas, mas já ninguém a ouviu. O ato falhado é assim mesmo. Nem que seja numa tasca de vinhos e petiscos, à roda de uma mesa de sueca e quando uma gargalhada não chega para colmatar o embaraço de quem o tem.

(*) O autor refere-se a uma blogger muito apreciada que se apresenta como avó de pulgas.
(**) Segundo o autor, com sete facadas, logo sete o que tornou o crime deveras sangrento.


quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

107. Ismael (30) - Mas afinal quem é que é esse tal Castro Ribeiro?



Francisca escreve muito bem, dizia o inspetor Ismael Sacadura Flores olhando para o jovem Espinheira, depois deste lhe ter lido a página noventa do manuscrito. O jovem paleólogo tinha conseguido decifrar a terceira parte do conto de Francisca enquanto, por outro lado, se ocupava das biografias que ela escreveu de alguns dos personagens, eventualmente envolvidos na morte por esfaqueamento da pobre corista italiana. Sete facadas é coisa que não se faz a ninguém, mas esta infeliz não conseguiu ter melhor sorte. Leia-me isso outra vez pedia, quase encarecido, o inspetor Ismael Flores ao jovem estudante de Letras e avençado do Estado, leia-me outra vez, Espinheira, que isso é tão bonito. E o Espinheira leu.

«A idiossincrasia do que parecia ser o chefe do grupo, dado que todos os restantes pareciam idolatrá-lo, criou-me a ilusão de que seria idóneo. Quando me desloquei a caminho do deserto, estava realmente convencido que o era. No entanto pequenos igarapés cortavam o terreno em quase todo o seu comprimento e em toda a sua largura, criando malhas incomensuráveis de água, o que nos obrigou a dividirmo-nos em ínfimos grupos de apenas três indivíduos mas que mal cabíamos nas igaras estacionadas em fila. Chegamos finalmente a uma pequena ilha, ao fim de mais de 12 horas de viagem sem nada comermos. Apenas um gole de água, que um dos indígenas me ofereceu, por uma única vez. Quando chegamos, o meu aspeto apresentava-me como um ser ignóbil. A ilha estava iluminada aparentando ser uma igreja natural. De repente, tive a sensação de me ter deixado iliçar. Ígneos archotes debruavam um caminho que me conduziria ao mais ignoto dos mundos. Eu, que não era da igualha destes autóctones, estava a ser convidado a sentar-me à volta de uma mesa coberta das mais exóticas iguarias. Não arranjei coragem para ilidir. Só pensava se sairia dali ileso»

É ou não é lindo, Espinheira?, confesse lá. Espinheira que não era pago para dar opiniões ou para confessar o que quer que fosse, mas apenas para decifrar os quase hieróglifos cursivos de Francisca, assentiu com a cabeça e perguntou ao inspetor se afinal queria saber alguma coisa sobre o Dr. Castro Ribeiro ou não. O inspetor Ismael Sacadura, olhou para o relógio e ao reparar que ali por perto estava o Rogério, cumprimentou-o tirando a boina basca que por vezes usava, principalmente quando estava frio. Rogério que se tinha sentado na mesa ao lado era todo ouvidos no conto de Francisca que, penso eu, narrador destes feitos, ainda poderá vir a ser uma coisa interessante. Levantou-se então o inspetor, arrastando consigo o jovem futuro licenciado em filologia românica, sentando-se ambos numa mesa mais recatada. E entre dois carapaus de escabeche e um branquinho caseiro dos lados de Torres Vedras, diz Espinheira que a páginas quarenta e oito e também sessenta e dois, Francisca se refere ao seu ex-marido nos seguintes termos.

“O Castro Ribeiro era um homem muito interessante na sua juventude. O padrinho dele, um padre de uma freguesia do concelho de Carrazeda de Ansiães, depois de ter mandado o menino estudar no Seminário Maior do Porto, ainda o enviou para Coimbra terminar o ensino liceal, dado que o Nuno, seu primeiro nome, não era dado às coisas da Igreja. Vivendo numa República, Castro Ribeiro terminou os cinco anos do curso de Direito em oito, mas entre bebedeiras e mulheres ficou-lhe uma famosa reputação de advogado honesto e competente, com escritório montado em Vila Nova de Gaia. Especializado em importações e exportações logo se deu com os maiores produtores de vinho do Porto, com as suas festas privadas e com as inevitáveis bacantes. Vinho e mulheres, mulheres e vinho. Bem me avisaram quando me casei com ele...”, lamentava-se Francisca às tantas, mas o inspetor pediu a Espinheira que saltasse as partes piegas que isso seria coisa mais falada no futuro e nada adiantaria para desvendar o crime. E assim Espinheira obedeceu, de modo que ouvimo-lo, quero dizer, ouvimo-lo não, eu é que inventei isto pois sou o narrador, mas fica bem dizer ouvimo-lo continuar, já saltando alguns parágrafos. “Contratado que foi para descobrir o que se teria passado com uma conta de um judeu famoso, de origens russas, aberta em Zurique, vem Castro Ribeiro muitas vezes a Lisboa”. Senhor Inspetor, vou agora saltar aqui umas frases que, ou são piegas ou são carnavalescas se não se importa, solicitou a permissão, o jovem Espinheira, ao inspetor encarregado por este homicídio, que todos sabemos ser Ismael Sacadura Flores. Entretanto, Ismael Sacadura Flores, pediu a Ismael Gusman, o dono da tasca da Rua dos Correeiros e meu amigo, galego de nascimento, que lhe trouxesse mais dois carapaus, com bastante molho e uma fatia de pão, enquanto Espinheira acabava de arrotar o gás de um pirolito, com sabor a limão, que tinha acabado de beber. Salte sim, Espinheira, deixe para outra ocasião as pieguices e fale-me lá dessa conta na Suíça, anuiu o inspetor ao pedido de Espinheira, sem qualquer tipo de contestação. Oh senhor Inspetor, retorquiu o Espinheira um bocado embaraçado. Se eu lhe contar tudo agora não fica nada para dar algum suspense à cena. Não acha que deveríamos deixar para depois do escabeche. É que até a mim me estão a apetecer uns carapauzinhos.

Enquanto os dois comiam, levantei-me, dirigi-me discretamente ao balcão, olhei para o decote de Fernandinha, hoje um pouco mais atrevido do que é costume, ainda mais atendendo à época e falei baixinho ao ouvido do meu amigo Ismael Gúsman. Sabe meu caro, eu suponho que aquele número atrás da medalhinha que os judeus andam à procura tem alguma coisa a ver com a conta na Suíça, o que é que você acha? E depois de o ver franzir os dois sobrolhos de uma só vez é que me atrevi a perguntar. Mas diga-me cá uma coisa amigo Ismael, o que é que isso pode ter a ver com o facto do Dr. Castro Ribeiro andar às seis da manhã, em pleno Cais do Sodré, quando a Ribeira já se enche de pescado, frutas e legumes, orégãos e flores, entre elas gladíolos e magnólias, aos gritos de “eu mato aquela puta, eu mato aquela puta”? O Ismael olhou para mim com um ar muito sério, quase como se fosse meu pai e repreendeu-me. Constantino, estamos em mil novecentos e cinquenta e seis, o menino ainda nem fez um ano de idade, isso são palavrões que se digam? É por estas e por outras que eu gosto mais de escrever ficção científicas do que romances de época. Acho que um dia destes ainda escreverei, “2087, o assassínio de uma corista em Andrómeda”.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

105. Ismael (29) - Uma tasca sempre às vossas ordens



Quando tento escrever algo com mais sentido, coerência ou até graça, não me sai nada da cabeça. É por isso que me socorro muitas vezes de livros escritos há mais de duzentos anos, por autores completamente desconhecidos do grande público, encontrados aqui e além em alfarrabistas anónimos e lhes roubo meia dúzia de ideias, leio almanaques do primeiro quartel do século XX com anedotas do Bocage e desfaço-as em contos e leio alguns livros de filosofia para debitar umas frases com enfase e erudição. Costumam dizer os críticos que o escritor fulano de tal sofre a influência do grande romance realista queirosiano, ou que beltrano é um fruto do novelismo contestatário camiliano, ou, ainda, que sicrano é mais um que seguiu a escola da poesia parnasiana. Outros desenvolvem a sua escrita socorrendo-se por exemplo do filósofo judeu sefardita Edgar Morin para construírem algo que se pareça fruto de um pensamento complexo, mesmo que só fique bem na adjetivação da sua obra ou, outros ainda, são tão lineares e racionais que, diriam os críticos com toda a pompa e alguma circunstância, os seus romances, ensaios e ficções são mais cartesianos que o próprio pensamento de Descartes. Pois eu, para além das dicas sobre os truques que uso e que já foram supra referidas, antes que a crítica me venha a classificar e englobar num qualquer grupo ou numa qualquer escola literária, classifico-me a mim próprio, passe a redundância, como um homem de escrita de influência predominantemente franciscana. E não me venham falar que de S. Francisco de Assis não se conhecem obras escritas mas sim as mais variadas biografias, que talvez eu estivesse a confundir-me com o padre António Vieira e tal, mas aí já seria jesuíta. E como eu não lhes quereria responder apenas, pois! tenho, portanto, que esclarecer que o meu franciscanismo não provém de nenhum santo ou padre mas sim do facto da maioria da minha sustentação literária estar, última e praticamente, confinada ao manuscrito de Francisca, esse sim, um compêndio escrito de alto a baixo, nas margens e nos rodapés, profícuo em contos como os ”Contos das ilhas de lá”, em novelas policiais como “O Dia da morte de uma bailarina”, cujo texto já é quase todo do vosso conhecimento,  em ficção como “A chapa das notas de vinte paus”, já para não falar na série de contos “Na taberna do galego”, onde eu me inspirei para que hoje em dia ande a escrever um bloglivro.  Também me inspiro nas suas capacidades de biógrafa não autorizada, sendo que bebi muito na obra de Francisca desde a biografia do  “Dr. Nuno Castro Ribeiro” subtitulada  “proeminente e honrado advogado de Vila Nova de Gaia”, à biografia da grande bailarina neoclássica Ekatrina Smirnova, neta de um velho judeu russo, expulso pelo czar Nicolau II, durante os famosos progroms passando pela, de entre as mais importantes, obra biográfica e histórica  “Fernandinha, a roliça beirã”, como ela mesmo a intitulou. Desta inspiração franciscana poderão sair e deverão mesmo sair mais alguns episódios de Ismael mas isto só será possível enquanto a taberna estiver aberta, os clientes continuarem a cá vir, nem que seja comer um pãozinho com cheiro, que coisa boa de comer e beber não irá faltar nesta tasca, assim os governos no-lo permitam. Enquanto a Teresa, a Luísa, a Assíria, o Rogério, a Janita, a Teté, a Margarida, o Eufrázio, o Manel, a Cida, a Manu, a Eva, o Maceta, o Chuva, a Paula, o Carlos, a Piedade, a AvoGi, a Fatyly, a Canto, a Justine, o Rafeiro, a Catarina, a Custódia, a Eva, a Lis, a Maray, o Peras e tantas e tantos outros aqui entrarem, o negócio da taberna vai dando para os trocos, não fechará a porta por falência e terão aqui alguém fortemente inspirado pela manuscritora Francisca a escrever para vocês.

E nesta tertúlia, que se reúne aqui pela tasca do meu amigo Ismael ainda há tempo e apetite para uns croquetes de atum com arroz de pimentos e um verde de Ponte de Lima. Alguém alinha?


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

104. Ismael (28) - O dia em que o inspetor Ismael Sacadura Flores desvendou quem matou Isabella




Era hoje. Ia ser desvendado quem foi que matou Isabella. A reunião foi convocada num misto de passa-palavra, de convites e de intimações. Nem de outro modo poderia ser, dado o caráter heterogéneo dos intimados e convidados e, dadas as circunstâncias. O inspetor Ismael Sacadura Flores não era apenas o mais qualificado diretor de departamento da PJ, mas também o grande estratega da corporação. Apenas uma ligeira desavença, devido a coisa de somenos importância, que se um dia me aprouver vos contarei, mas que adianto, para que vejam como os homens se chateiam uns com os outros, chegam até a vias de facto ou guerreiam-se em conflitos locais e por vezes mundiais. Um desentendimento por causa de um arroz de lampreia entre o inspetor Sacadura e o senhor Ministro da Justiça, fez com que o primeiro nunca tenha chegado a diretor nessa mesma polícia criminal, embora todos saibamos que, na liça, quem tinha razão era mesmo o inspetor Ismael Sacadura Flores. Mas adiante, o que hoje interessa menos são as incidências de um arroz de lampreia mal sucedido e mais o crime, hediondo já se sabe e como ele deve ser tratado. Pois se restassem dúvidas aos meus leitores e leitoras relembro que estou a referir-me às sete facadas que prostraram no soalho daquele sexto andar do número quarenta e três, já sem vida, a linda, a elegante e até simpática, atrever-me-ia a escrever deveras simpática, corista italiana do teatro de revista.

O Dr. Castro Ribeiro recebeu um telegrama de Francisca, sua ex-esposa, um telegrama em que referia assuntos de comum interesse. O local do encontro seria na célebre taberna, superiormente gerida, como se diz hoje, pelo meu amigo e empreendedor, como também se diz hoje, Ismael Gúsman. Já o Rogério não precisou nem de ser intimado nem de ser convidado pois, para ele, não havia melhor convite do que o cheiro dos passarinhos fritos. A Isaurinha bate-sola, que não perdia uma para ficar frente a frente com a Fernandinha, a vontade dela era puxar-lhe os cabelos nem que fosse em pensamento, quando soube que Sebastião também lá ia estar, cancelou um compromisso com um construtor civil que estava a erigir, em dois lotes na Quinta do Conde, prédios de três andares com loja e sobreloja. Para o Espinheira bastou um telefonema do inspetor Sacadura, aliás o mesmo inspetor que fez o favor de chegar a Toronto no Canadá um bilhete de ida e volta e uma intimação da Interpol para que a misteriosa idosa de Trás-os-Montes não se pudesse recusar a estrar presente. O velhinho Ismail Baruch que andava a chá de limão e Saridon, para tratar de uma grande constipação que só o fazia sair de casa às cinco da tarde para, às escondidas do sobrinho ir beber uma ginjinha e espreitar as pernas da Fernandinha, lá estaria também. Difícil foi conseguir as presenças de Ekatrina Smirnova, a braços com um invulgar trabalho de pernas para a estreia do bailado da Companhia no próximo fim-de-semana e o Dr. Ismael ben-Avraham que alegou estar de serviço nas urgências dos Capuchos, embora não haja nenhum registo de que este médico alguma vez tenha feito serviço naquela unidade hospitalar (unidade hospitalar em vez de hospital, deste estilismo é vocês não estavam à espera, confessem). Se um piscar de olho do chefe de brigada Ismaelix foi o suficiente para trazer Ekatrina com ele, diziam na época que eram mais as vezes que Ekatrina dormia na cama de Ismaelix do que na sua cama, no mesmo apartamento onde a vítima veio a ser esfaqueada, já para convencer o judeu foi necessário que o outro chefe de brigada Ismael de Almeida, que já conhecemos dos seus dotes especiais para alimentar pombos a milho,  lhe acenasse com dois Montecristo nº 3 e mesmo assim ficasse ainda de arranjar uns Partagas Lusitaneas  que um contrabandista famoso, que costumava parar no Barba Roxa, um bar mal afamado do Largo de S. Paulo, lhe arranjava todos os meses, vindos diretamente de Cuba. Francisca essa, altiva e presunçosa tinha a certeza que a sua presença seria indispensável e fez-se representar sem convite, nem intimação. Sebastião, acabado de chegar de uma viagem que fez como ajudante de cozinheiro num paquete italiano, que levava europeus para trabalharem nas américas, ajudava a tia Francisca a subir e a descer dos autocarros e a entrar e a sair do vapor, pois, naquele tempo, a viagem da Quinta do Conde, num velho autocarro dos Belos e uma viagem no Sul Expresso, um cacilheiro que mais parecia um charuto, não era coisa pouca. E se já sabemos que Sebastião tinha um forte alibi, pois andava embarcado no dia em que mataram Isabella, pobrezinha, com sete facadas e que além disso andava embeiçado pela criatura, também acabou por fazer parte dos presentes. Mas este com intimação policial, o que, como acabei de escrever nas três ou quatro linhas acima da necessidade de acompanhar a tia Francisca, não teria sido preciso.

E se às sete horas da tarde já todos estavam a postos para escutar as alegações policias, passava já da meia-noite, entre iscas com elas, lombinhos na chapa, passarinhos fritos, saladas de orelha, pasteis de bacalhau, sandes de torresmos, carapaus de escabeche, ovos cozidos com e sem sal, sangacho de atum com feijão-frade, vinho tinto do Cartaxo, morangueiro de Ponte de Lima, laranjadas e pirolitos, para além da caixa em forma de pirâmide triangular dos palitos Confiança, os melhores para palitar dentes, que esteve sempre em cima da mesa, vários maços de tabaco consumidos, quando, num ambiente pesado, com uma nuvem de fumo a pairar-lhes sobre as melenas, o Inspetor Ismael Sacadura Flores concluiu e anunciou quem matou Isabella Vicentini. Alguns viraram as cabeças para um lado, outros para o outro. Os restantes baixaram a cabeça, exceto uma pessoa que olhou pra o teto, mas não nos pareceu, que alguém tivesse ficado admirado.