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domingo, 11 de novembro de 2012

178. A janela de Efigénia



Passou a correr Marieta, a chuva começava a cair. Molhou os sapatos numa poça de água à beira do passeio. Molhou os peúgos brancos que lhe chegavam ao joelho. Não molhou a saia, Marietta. Disse-lhe adeus através dos vidros fechados. Marieta sorriu e agitou o braço. Marieta ainda corria e desapareceu na esquina da rua. Pedalava lento o Pedrito saboreando a chuva miudinha que lhe salpicava as melenas. Sentiu água nas grandes pestanas e sorriu a pensar que se Idalisa ali estivesse lhe beijaria as pálpebras, saboreando o salobro da água da chuva nas suas pestanas reviradas. Idalisa não estava nem passou por ali. D. Leopoldina carregava dois sacos, um em cada mão. Em passo lento, curvada nos seus quase oitenta anos, não lhe incomodava a cacimba. Nos ombros o casaco de malha já pesava alguns gramas mais, mas isso era o menos. Tomara que Pedrito ou Idalisa por ela passassem e a ajudassem na carga. Pedrito já tinha passado. Idalisa não iria passar. Passou um cão branco de pelo encaracolado, pequeno e irrequieto, sem o dono. Passou um dono depois com calça de golfe, quadrados largos, de tecido escocês, usava um boné, fumava cachimbo, sem o cão. Cão e dono se encontrariam já depois da curva da rua que se fazia para a esquerda. Ele levantaria a patita de trás e mijaria contra um candeeiro. Ou contra uma árvore. O cão. À direita tinha uma esquina por onde se tinha deixado de ver Marieta. À esquerda tinha uma curva por onde se tinha deixado de ver o cão e o dono do cão. Antes da curva o dono voltou-se e olhou para cima. Estendeu o braço e virou a mão, primeiro a palma para cima depois virou-a de novo e as costas da mão ficaram viradas para as nuvens. Tirou o chapéu e coçou a cabeça. Assobiou duas vezes em silvos estridentes. O cão branco, de encaracolado pelo, não se lhe chegou. Limpou a água, que lhe tinha molhado as costas da mão, à perna da calça de lã escocesa, quadrados verde e pretos desenhados a linhas amarelas. Não o conhecia por isso não lhe acenou. Mas acenou a D. Leopoldina, que de curva nas costas e olhos no chão não lhe reparou no gesto. Não retribuiu o aceno D. Leopoldina, nem o Camilo da lambreta que hoje vinha a pé. Às quartas-feiras folga o Camilo da lambreta que trabalha na pastelaria do senhor Francisco Sebastião. O Camilo da lambreta vai e volta do emprego sempre de lambreta. Mora a oitenta metros da pastelaria e diz que é porque não quer que a lambreta se não habitue a não trabalhar. Também lhe chamam Camilo padeiro mas ele afina porque diz não ser padeiro, mas sim pasteleiro. Talvez por isso, para que não seja incomodado pelo caminho, se desloca de lambreta. Hoje vinha a pé porque era quarta-feira. Quando alguém, às quartas-feiras se lhe dirige, clamando-o como Camilo padeiro, ele não responde. À quarta-feira ele está totalmente de folga. Não é nem padeiro, nem pasteleiro, nem tem de se justificar. Passou um casal de namorados, já a chuva tinha parado. Ainda assim, enquanto ele segurava um guarda-chuva de cor grená, aberto por cima das suas cabeças, mas não necessário, pois já não chovia, ela abraçava-o pela cintura para que se não afastasse de modo que o guarda-chuva cumprisse a sua função quando fosse caso de ter função para cumprir. E como não era de facto necessário, aproveitaram para se beijarem. O guarda-chuva tapou-lhes a visão da vidraça da janela, onde entre vidros, que agora já podiam ser abertos, ela os observava e os cumprimentava. Por isso não lhes acenou e por isso eles não lhe acenaram. Abriu a janela. Chegou-se à sacada. Um gato miava na varanda da vizinha. A vizinha não estava, o gato estava. Só. A janela fechada, o gato na varanda. O gato queria saltar e a altura, tal como qualquer desmancha-prazeres a desmotivá-lo. A água da chuva, que lhe caíra no pelo, desconfortava-o. Ela teve pena do gato e mandou-lhe uma carícia verbal. Chamou-lhe Tareco e se assim lhe chamou é porque era Tareco. Para ela todos os gatos são Tarecos, todos os cães são Bobis. Um Bobi de pelo encaracolado branco regressava agora vindo da curva da estrada e atrás dele, também com as pontas dos cabelos encaracolados e ruivos, o dono com um cachimbo apagado no canto da boca, vestindo calças escocesas e assobiando Flower of Scotland. Um Bife. Para ela todos os estrangeiros são Bifes. Todos os cães são Bobis e todos os gatos, Tarecos. Passou um amola-tesouras com calças de bombazina e uma flauta de beiço. Reparava guarda-chuvas, pano e varetas e afiava facas. Punha rebites em tachos de alumínio. Ela recuou 30 anos. Há trinta anos, da mesma janela via a peixeira passar com a canastra à cabeça, apregoando sardinhas, carapaus e chaputas frescas. Via passar um chinês com uma corrente de couro ao pescoço onde se suspendia um suporte de gravatas. O chinês apregoava gravatas substituindo o erre pelo ele. Achava glaça ouvir o chinês. O ardina apregoava o Século pela manhã e voltava à tarde para vender o Lisboa e o Popular. Vendiam-se figos da capa-rota e passava todas as tardes o senhor Gervásio que já faleceu, para visitar a mãezinha dele que também já morreu. Hoje lembrou-se do senhor Gervásio quando viu a neta dele, a Henriqueta. Coitadinha, caiu na vida, mas é tão simpática. Disse-lhe adeus, como lhe diz todas as manhãs, bem junto ao meio-dia quando sai para tomar o pequeno almoço. De manhã não se aperalta, mas à tardinha sai sempre de minissaia e botas altas. Seja verão, seja inverno. Parara de chover e o passeio estava escorregadio. Passou o 42 que parou na paragem em frente ao consultório do dentista. Entraram duas pessoas que ela não reconheceu e saiu a D. Evita da veterinária. Pôs mal o pé, espalhou-se ao comprido. Ficou toda molhada e um pouco enlameada. Benfeita, pois tinha sido por culpa dela que passou uma tarde da semana passada a chorar. Não lhe salvou o Bobi, coitadinho, o seu melhor amigo.

D. Micá pediu a Efigénia que lhe ajudasse a animar o serão. Efigénia não era uma pessoa alegre. Ainda era relativamente jovem, não tinha sequer completado os cinquenta. Era solteirona e fazia garbo nisso. Dizia que não queria sentir a trela de um dono. Se nem o Bobi usou trela… Efigénia sempre disse que não sabia contar histórias que não tinha o dom de D. Micá, que a sua vida não daria um filme. «Ó, mulher, conte o que vê quando vai à janela», disse em voz alta o meu amigo Eduardo Aragão, de quem um dia vos falarei. E Efigénia contou.


domingo, 4 de novembro de 2012

177. Micá já sabia que ele gostava de bola




Eduardo Aragão entrou triunfante. Fato completo, príncipe de Gales, cor de mel e gravata vermelha, sobre camisa lisa bege, lenço no bolso superior a condizer, um sorriso rasgado nos lábios. Eduardo Aragão um amigo meu, creio que o sabem, falar-vos-ei do seu feitio um dia destes, estava eufórico. D. Micá que lhe conhece a pinta, quase que poderia adivinhar o que se passava, mas não se abriu, não deu a entender. Quem conhece D. Micá como eu a conheço, saberia que ela estava, na calada dos costumes, a gozar o pratinho. Passou por Felisberto Passinhas e piscou-lhe o olho. Passou por Sebastião Jerónimo e deu-lhe uma palmada nas costas. Passou por Ezequiel Canário e, agarrando-lhe um braço, puxou-o para se juntar ao grupo de comedores de tapas de atum com maionese e tostinhas com salmão e cebola, acompanhadas de espumante da Bairrada, apesar de Ezequiel Canário não ser um tão seu indefetível correligionário como o gesto de Eduardo, aparentemente, o deixaria antever. Quem não quis perder nada do que se ia passar foi D. Micá que, de vestido de seda vermelho, um xaile carmim e uma boquilha madrepérola, fumava um cigarro mentolado, quase que estabelecia o par perfeito com Eduardo, o meu amigo de quem se diz ser ainda aparentado com os Martins da Maia, uma família aristocrática da alta de Lisboa com apartamento nas Avenidas Novas e casa apalaçada, ou melhor dizendo, uma verdadeira mansão na Covilhã, brasonados, da tradicional e secular família Maia que deu, como um dos seus filhos maiores, D. Policarpo da Maia, insigne monge e erudito prosador e poeta. Eu que, desde que os tempos têm memória, o conheço como um pelintra, embora exímio nos expedientes e cujo bem-estar social, chamemos-lhe assim, advém de um casamento mal consumado com D. Hermengarda de Santo António e Pireza, mas que vos proponho contar mais tarde, não sou nenhum desmancha-prazeres, deixo-o vadiar na sua gabarolice, alinho no seu bom humor, rio com os seus devaneios, chego a arrepiar-me com a sua veia dramática de que não perco pitada, aproximei-me também do grupo e fui-lhe escutar a história que os seus brilhantes olhos nos teriam para contar.

De pouco nos serviu tanta importância dedicada à alegria de Eduardo Aragão. D. Micá, para seguir aquela euforia, tinha interrompido, uma vez mais, a história de de Bonifácio d’Assunção e, Graziela, a baixinha empregada dos Carocha & Co. que hoje tinham sido contratados para o catering do serão, onde não pode faltar o croquete e o rissol de camarão, não sabia para onde se havia de virar, estando mesmo quase a passar-se com o Julião Guedes que lhe apalpava o rabo sempre que ela passava. Cheguei mesmo a pensar sair deste episódio, debruçar-me sobre o varandim já que, embora todo o dia tenha chovido, a noite apresentava-se serena e ainda luminosa de luar e ficar por ali a saborear uma pequena cigarrilha que me havida sido ofertada pelo poeta Santa Rita de Azurara, só não o tendo feito por consideração  ao entusiasmo de D. Micá e à amizade que tenho por Eduardo, meu amigo de quem voltarei a falar.

Eduardo com a voz embargada falava da sua satisfação pela vitória por três a zero do seu Glorioso. E eu, encolhendo os ombros pensei, «olha que novidade». D. Micá, embora feliz com o desfecho, abandonou o grupo ao mesmo tempo que eu e disse-me ao ouvido: «e ainda nos  roubaram dois penalties».

domingo, 28 de outubro de 2012

176. A ovelha do Ricardo segundo D. Micá



Acordei com a fronha da almofada ligeiramente sangrada e a rir às gargalhadas. Gosto de acordar assim. Não, não gosto de acordar com a almofada suja mas gosto de acordar bem disposto. Às vezes até acabo, eu, por desatar a rir do pretenso disparate de acordar a rir. Parece confuso mas não é, só que agora não tenho tempo de vos desfazer este laço de risos e contra risos. Mas tenho para vos contar porque é que acordei a rir e também porque é que acordei com a fronha com uma mancha de sangue. Abro entretanto um parêntesis, para referir que a minha mulher me fez uma observação descabida. Dizia-me ela que sendo o conjunto de cama de fina cambraia branca de algodão, as rendas dos lençóis e das almofadas de bilros genuínos de Peniche e a cama feita de lavado, porque é que, tendo eu ido ao dentista na véspera, não protegera a almofada com uma fraldinha do meu neto? Claro que é descabida. A criança usa fraldas descartáveis. Mas, fraldas à parte era qui mesmo que eu queria chegar. Na véspera, uma desgraçada dor de dentes tinha-me mandado para o consultório do dentista. Como a coisa se precipitou e eu não tinha consulta marcada, o Dr. Eurípedes não teve compaixão. Mandou-me esperar, com uma gaze embebida em álcool etílico feita um pasto junto ao dente e um lenço de assoar de fino pano, que por sinal era ainda da minha toilette do casamento da minha filha, em verde-claro que condizia com a gravata e com o lenço de lapela que usei nesse dia, monografado, onde, do lado de fora da bochecha eu encostava a mão, de cabeça inclinada, num ar dramático e de sofrimento que quem por ali passasse saberia que estava a olhar para um coitadinho. E foi por causa deste episódio doloroso e sangrento, que cheguei atrasado ao serão na casa da D, Micá, a minha amiga contadora de histórias cor-de-rosa e órfã do magnata do leite com chocolate, à dimensão deste cantinho à beira mar plantado, como seria apanágio o poeta dizê-lo. O magnata, claro.

Quando entrei no majestoso salão de D. Micá, onde o chão de carvalho sueco tinha acabado de ser embelezado com uma maravilhosa carpete de Arraiolos, no canto onde o piano se situava, fazendo de chão ao mesmo, o que acabou por dar uma qualidade superior à já inconfundível vibração das cordas do Steinway, um magote de convivas, entre os quais o Ricardo, ria à gargalhada, O Ricardo era a exceção pois, ao redor de um tema que o embaraçava, D. Micá tinha acabado de contar a história dessa noite. Ainda muito desinsofrido do meu passado recente, que não contava mais de uma hora de antiguidade, protagonizado na cadeira do dentista e que não passou despercebido aos meus companheiros de serão, muito menos a D. Micá que, com um maternal «então senhor Constantino, o que é que lhe aconteceu?», sem que eu pudesse balbuciar mais do que uma ou duas palavras impercetíveis, resolveu contar, quase só para mim, o que tinha sido motivo de tanta risada naquele grupinho. O Ricardo, saiu de mansinho, disse-nos até já, foi para o varandim saborear um Glenlivet longe da chacota, acompanhado de Rafaela, que também tinha ido ao serão, a quem convidou a olhar para as estrelas e a identificarem as constelações. Lá dentro, D. Micá estava imparável e a história foi esta.

Ricardo saíra de um bar com alguns companheiros, numa das pausas de quinze dias para preparação de exames, que o curso de arquitetura, que frequentava em Lisboa, lhe concedia. O bar situava-se fora das paredes da cidade, numa região semirrural. Para lá irem, ter-se-iam de deslocar de carro. Ricardo conduziu o todo-o-terreno do tio Artur, que era o carro com que normalmente se deslocava nestes períodos de miniférias. Quando saíram do bar, onde duas brasileiras e uma ucraniana, dançavam e se despiam contra um varão de aço inoxidável e os shots de vodka e as cervejas importadas tomavam conta da cabeça dos clientes, eles que tinham começado brejeiramente a fazer trocadilhos com a palavra vaca, a propósito não se sabe de quê ou de quem, sem demora passaram a discutir chocas, cavalos, toiros e touradas, uns prós e outros contra, resolveram que estava na hora de fazerem uma pega de caras. É claro que nem Ricardo, nem os seus companheiros, tinham arcaboiço para pegar um boi, nem tão pouco um vitelo de dois meses, nada melhor do que pegarem de caras uma ovelha. E ainda com o álcool a falar mais alto do que eles, roubaram um borrego ao rebanho do ti Benevides, cujo dito rebanho bem berrou da invasão mas, de cujo facto, o ti Benevides nem deu conta, pois que era surdo que nem uma porta. Afastados que estavam do bar, do rebanho, com a vodka a tomar-lhes conta da lembrança, sem o borrego avançar, também ele um pouco amorfo, com sono e sem saber o que era investir contra uma t-shirt vermelha, apenas berrando uns estridentes més. Acabaram por meter o borrego no jeep. E pela manhã, sem saber mais o que fazer, Ricardo levou o borrego para casa com a promessa do Adriano de que iria lá resolver a situação. Na pior das hipóteses matavam o borrego, tiravam-lhe a lã para mandar fazer um casaquinho para a Rafaela e deliciar-se-iam com uns ensopados e umas costeletas grelhadas na brasa. A verdade é que o Adriano, nunca mais se lembrou da história, varreu-se-lhe da cabeça como se um tufão lhe tivesse soprado, naquela noite, o crânio, desatou a estudar para os exames, desligou o telemóvel e esteve quinze dias incontatável. Ricardo dormiu, dizem as más-línguas, quinze dias com o borrego, alimentou-o, deu-lhe carinhos. Maldizem outros que até Rafaela teve ciúmes. Eu, pessoalmente, tantas eram as dores na minha boca, não consegui nem rir nem desdenhar da sorte de Ricardo. Mas na manhã seguinte acordei a rir às gargalhadas. E não foi apenas da história. Foi por causa do agasalho que a Rafaela tinha vestido nessa noite. Parecia uma ovelhinha num casaco rústico de lã, comprado numa loja de artesanato da Serra da Estrela. A verdade é que segundo nos disse a própria D. Micá, assim trajada, ela sentia-se muito mais acarinhada por Ricardo, que até comidinha lhe dava à boca. E foi isso que me fez dar aquelas gargalhadas.   


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

175. D. Micá e uma história com chifres



Talvez há mais de um ano que não via o artista. Justino Carlos é um grande amigo meu. O que eu não sabia era que o Justino também era amigo dela. Foi com surpresa que o encontrei lá numa das nossas famosas soirées literárias onde pontuam os contos da D. Micá. Mas há quem, à sua revelia, vá também contando histórias, em pequenos grupos que se formam no salão e muitas vezes contadas na primeira pessoa pelos próprios protagonistas. Foi o que aconteceu esta noite em que, depois de ouvir esta delícia, decidi pedir licença à D. Micá, ausentei-me uns quinze minutos, fui ao carro, tirei o iPad do porta-luvas e escrevi-a todinha para não me esquecer de nada.

O Justino Carlos era o centro das atenções. Normalmente o Justino era um tipo discreto no vestir. A sua roupa mais usual era jeans e polo de três botões de marcas suspeitas, o crocodilo nunca parecia o original e outros símbolos que são as griffes mais conhecidas no mercado da moda eram produto de contrafação. Mas arreava bem. Não era nenhum borrabotas. Mesmo com esta casualidade ao vestir, o Justino nunca andava de sapatos de ténis e os sapatos, podiam não ser de grande qualidade mas andavam sempre limpos e tinham quase sempre um aspeto novo. Quando se apresentava em lugares em que o dress code fosse mais rigoroso, vestias blasers e calças finas, camisas de risca ou até mesmo fato completo, algumas vezes de três peças e bonitas gravatas. Admirei-me pois de o ver no serão da D. Micá, vestindo como se fosse um yuppie bem sucedido, a virar classe média alta e só não digo como é que se apresentou para que o Gaspar não lhe vá mais aos bolsos. À sua volta ria-se à gargalhada e quando me viu não só me deu um abraço que me ia esmagando as costelas, mas também me passou um copo de champanhe, convidou-me a juntar-me ao grupo e quando eu inquiri o motivo de tão boa disposição respondeu-me «ainda tu não ouviste nada».

Pedi-lhe apenas um momento, que não começasse sem eu voltar e, paulatinamente dirigi-me a D. Micá, segredei-lhe o que se estava a passar e aguçando-lhe o apetite trouxe-a pelo meu braço até ao grupo de quatro homens e três senhoras, uma das quais não conheço mas vim a saber que se trata da nova namorada do meu amigo Eduardo Aragão, de quem vos falarei oportunamente e provoquei-o «Então conta lá Justino. Quais são as novas?», perguntei-lhe, presumindo que ele as tinha na ponta da língua e que “morria e estalava” para no-las contar. E foi assim que o Justino Carlos contou a sua história recente:

«A semana passada surpreendi a minha mulher em casa na cama com outro... Devagar fui à sala buscar uma pistola que costumo ter escondida numa gaveta, com a intenção de matar os dois… parei para pensar e fui percebendo como a minha vida de casado tinha melhorado nos últimos tempos. A minha mulher já me não pedia dinheiro para comprar carne ou peixe, fruta e legumes, aliás, nem para comprar lingerie, vestidos, joias e sapatos, apesar de todos os dias aparecer com um vestido novo, uma sandalinha da moda, lindas e rendadas cuecas, fio dental que ela nunca tinha usado antes e uma vez por outra, um bonito anel, uma pulseira, uma gargantilha. Os meus filhos mudaram da escola oficial para o externato mais fino lá da zona. Só para verem, ela trocou um opel astra que tínhamos comprado a prestações por um audi a3, sem sequer me avisar e sem termos de fazer contas, se o podia fazer ou não, pois há quatro anos que estou sem aumento e termos decidido dar um corte radical na mesada que lhe costumava dar, já que sem subsídio de férias nem subsídio de Natal e com o IRS a subir não tinha maneira de a manter. Quanto à despensa recheada e ao frigorífico e arca congeladora, nem se fala. Lá em casa nunca tivemos tanta fartura quanto ultimamente. E as contas da luz, água, gás, telefone, internet, telemóvel e cartão de crédito, faz tempo que ela não me pede um tostão e quando vou para as pagar, está sempre tudo pago. Vocês ainda se lembram de como é jeitosa a Filomena, não se lembram? Pois agora ela está um autêntico avião, frequenta ginásio, faz depilação laser, tem sessões de yoga, a gaja nunca esteve tão boa nem tão apresentável em toda a vida dela. 

Resolvi guardar de novo a arma. Saí, pé ante pé para não incomodar nenhum deles e, escada abaixo, vim a pensar sozinho: O tipo paga o empréstimo da casa ao banco, o supermercado, a escola das crianças, as contas da casa, o carro, o shopping, todas as despesas e eu ainda vou para cama com ela todas as noites, o que é que eu quero mais?».

É evidente que à perplexidade que se seguiu e que foi generalizada, boquiabertos que estávamos com a história, pensando, alguns de nós se aquilo era verdade ou mentira pois nos pareceu muito efabulada, sem saber o que dizer, se assentar ou se criticar, não podíamos deixar de, em uníssono, presentearmos o nosso Justino Carlos com uma sonora gralhada e até com uma grande salva de palmas. Não é que Justino rematou a faena com esta pérola?

«Pois meus amigos, é que eu cheguei à brilhante conclusão de que afinal de contas quem é o corno é ele e não eu».



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

174. D. Bonifácio entrou no portão



Tenho muita vontade em vos falar do meu amigo Eduardo Aragão. E não podia escolher melhor época do que a estação da queda das folhas, a estação das chuvas. Mal os plátanos começam a encher o chão do jardim com folhas castanhas, Eduardo Sequeira Aragão, meu amigo de há muitos anos, começa a entrar em depressão. Mas não é o único da família pois o seu primo Pedro, o Pedro Pinto Aragão, tem o mesmo problema. Só que enquanto o Eduardo planta nos roupeiros, à espera que a primavera volte, os seus fatos de calça branca e blaser azul, de calça bege e polo Fred Perry azul claro, os lenços de seda de bolso ou os que lhe fazem gargantilha, as calças de caqui e camisas de meia manga aos quadrados e sapatos vela, que usa para, nos fins de tarde, dar um salto até ao bar do Quim Geraldes, um rapaz, também da nossa criação que sempre sonhou ter um bar de praia com karaoke e écrans gigantes a projetarem, em sessões contínuas, imagens de desportos náuticos, de quem vos terei ocasião de falar, eu ou a D. Micá, pois ele é, para ela, como o irmão que nunca teve e que, tirando aquelas tardes de canícula em que não dá para abandonar o barco, que é como quem diz, o balcão dos cocktails, não falta a um serão no salão mais famoso da Lapa, o Pedro há muitos anos que não sabe o que são, nem outonos nem invernos. Quando a temperatura do ar baixa dos vinte graus, uma pequena mala com alguns parcos haveres e produtos de higiene para as primeiras horas e ala que se faz tarde, já o Pedro está no aeroporto com bilhete para o Rio de Janeiro. Ele diz que é por causa das alergias, mas ninguém acredita nisso.

Pedro conhece perfeitamente o Rio. Viveu lá, em jovem, com os pais, quando o senhor Segismundo Aragão foi nomeado Encarregado de Negócios no Rio de Janeiro e São Paulo. Infelizmente para uma maior proximidade entre Eduardo e Pedro, D. Custódia, mãe deste, não tem afinidades com a tia Perpétua, a mãe do Eduardo, embora entre eles haja amizade e até algum companheirismo e cumplicidade, sempre que podem. E por falar em poder, algumas vezes planearam irem os dois passar o inverno europeu nos 40 graus do Leblon, nos chopes em Copacabana, assistir ao Carnaval mais quente do mundo, «em tudo» diz o Pedro e repete «em tudo, em tudo». Mas não, nunca se concretizou, a família Pinto e a família Sequeira já se conhecem há décadas e nunca se deram bem. Coisas de família, invejas, namoros cruzados, umas terras na Charneca da Caparica, uns pinheiros que eram de uma e afinal, vai-se a ver as cadernetas eram da outra, enfim uma trapalhada das antigas, que já contava duas, três gerações e com a agravante de Custódia e Perpétua terem acabado por casar com os irmãos Aragão, Segismundo e Alfredo. E como se não bastassem os problemas e conflitos antigos, trocaram-se namoros, primeiro a filha do Sequeira namorou com um, vindo depois a casar com o outro e vice-versa no que diz respeito à filha do Pinto, parece que calhando a fava aos coitados dos irmãos Aragão. Para agravar e complicar a coisa se o Pedro e o Eduardo não fossem primos, seriam praticamente gémeos, nasceram com três dias de diferença. Nos bastidores das famílias diz-se à boca pequena, que é como quem diz em surdina, que ninguém tem a certeza quem é o pai de quem, obviamente falamos de Pedro e Eduardo e isso, além de ter atiçado as desavenças entre os Pinto e os Sequeira, desde há mais de cinquenta anos que tem trazido as agora septuagenárias numa pilha de nervos e em mútuos ódios.

A esta hora, Pedro já viaja ou já estará instalado no Caesar Park de Ipanema ou no Pestana Atlântico só não se sabendo ao certo porque, é como D. Micá sempre diz, ele morre de amores tanto por Ipanema como por Copacabana e que nunca sabe onde há-de ficar, tendo por costume desempatar em Angra dos Reis. Ia eu a pensar nisto quando, ao sair de um cocktail bar ali para Santos e ao subir calmamente a Rua das Trinas para me desviar e me perder do Museu da Rádio, uma das minhas grandes paixões, fazendo tempo para me encontrar com Eduardo com quem iria jantar antes de nos dirigirmos ao palacete de D. Micá para o nosso serão das quintas-feiras, dou de caras com a própria Micá. Pedi-lhe imensa desculpa por na última noite ter tido de sair antes dela acabar o conto que estava contando, mas um desarranjo intestinal impedia-me de continuar no serão, sob pena da minha presença se tornar incomodativa para os restantes convidados. D. Micá riu-se, ou porque achou piada ao dichote ou porque se pôs a imaginar a cena e não se fazendo rogada acompanhou-me ao museu e recontou-me a história da semana anterior.

“D. Bonifácio saiu do carro depois de Aristides lhe ter aberto a porta. Não foi fácil para um homem, que embora não seja ainda um idoso, teve uma trombose que o deixou muto maltratado. Hoje desloca-se sempre com a ajuda de uma bengala, uma bengala personalizada, feita em amaranto com punho em osso de tartaruga das Seychelles, efetivamente muito bonita, com as suas iniciais incrustadas em bronze polido, fabricada por um famoso ebanista francês. O seu ar imponente, o chapéu alto, o sobretudo em pura lã, clássico, a bengala personalizada com as iniciais BA, faziam-no parecer um homem não de hoje, mas de meados do século passado. D. Bonifácio era um conservador, um homem de porte, uma pessoa elegante. O portão abriu-se e D. Bonifácio seguiu a pé, acompanhado pelos dois homens que traziam as lanternas na mão e um pastor belga, de pelo lindo bem tratado, altivo e dócil. Um dos homens segurou no guarda-chuva que entretanto Aristides lhe passara, protegendo o patrão, o outro foi alumiando o caminho. Desde que aquela herdade lhe pertencia, nunca D. Bonifácio transpusera o portão que não fosse a pé. Quando conduzia, deixava o carro na parte de fora e era um dos criados que o estacionava no parque da casa. Agora é Aristides quem o faz. Superstição, alguém comentava. Afinal são só trinta metros, sempre se desculpou. O vulto que o esperava na escadaria da porta principal intrigou-o. Fechou os olhos e parou. Teve uma vontade enorme de voltar para trás, mas hesitou. O pastor belga, parou e sentou-se ao seu lado e, com a língua de fora, olhava para onde D. Bonifácio olhava”.

Entramos no museu e visitámo-lo em silêncio. Isso faz com que não posso continuar a falar do meu amigo Eduardo. Fá-lo-ei, com certeza numa próxima oportunidade.


sexta-feira, 12 de outubro de 2012

173. O Fagundes, um amigo de D. Micá.


Encontrei o Fagundes. Anda feito um maltrapilho. Ele que era todo cheio de nove horas andava no centro da cidade de calções velhos, chinelas havaianas, uma camiseta amarrotada e absolutamente despenteado. Pareceu-me ver até uma nódoa na t-shirt, mas podia não ser, podia ser reflexo das estampagens. Quem o viu e quem o vê. Por sinal eu ia acompanhado da Catarina que é toda avantgarde e que não liga nada ao como os outros se indumentam, pois, na verdade, a Catarina é um bocado narcisista e adora ser o centro das atenções e é com ela que se preocupa. Falarei mais da Catarina pois ela é muito boa moça e eu gosto de algumas das extravagâncias dela. Fiquei a cismar foi no que iria pensar a D. Micá se visse o Fagundes naqueles preparos. Cumprimentou-me com um aperto de mão pouco másculo, o que me deixa sempre a impressão de que estou a apertar um pedaço de plasticina, e perguntou-me «tens lá ido?». Pensei alguns segundo sobre a que é que ele se referia e percebi, então, que falava dos serões de D. Micá. «Tenho», respondi, «e tenho também estranhado a tua ausência».

D. Micá continuava, serena, a contar a sua história da noite e foi logo avisando que hoje, porque a história era comprida, iria fazer um intervalo na narrativa para bebermos um leitinho com chocolate, ao que foi saudada com um sorriso por todos os homens que lhe levantaram os seus copos de whisky e de vinho do Porto e alguns acentos de cabeça das senhoras presentes, até mesmo da sirigaita da Geninha que já tinha virado dois shots de vodka e da maravilhosa, ingénua e pura Luísinha Monteiro que só bebia champanhe, pois fora criada com a sua tia Natércia que viveu em França muitos anos, com o Conde Gerard Blanchet, da famosa família dos Blanchets, vinicultores em Reims. Fiz-lhe sinal que no intervalo do conto tinha urgência em falar-lhe e assim entre dentes fui avançando «… é o Fagundes».

«Aristides tinha sido um próspero industrial têxtil, mas desde que a globalização se tornou uma realidade, com os preços das confeções made in China ou made in Indonesia começaram a cair, que os seus negócios sofreram um forte abanão. Era coisa que ele nunca pensou que lhe pudesse acontecer, visto que o seu avô tinha investido em maquinaria de primeiríssima geração e construído um império. D. Bonifácio d’ Assunção conhecia-lhe bem a história de vida. Um estroina, o pai de Aristides, nunca ligou nenhuma importância ao negócio do velho, nem tão pouco à educação dos filhos. Uns emigraram e outros disseram adeus à indústria têxtil, já em decadência, sem dizer nem água vai, nem água vem, sem prestar mesmo nenhuma satisfação ao mano Aristides. Mas Aristides não. Lutou com quantas forças tinha, renovou stocks, contratou estilistas e entre lágrimas de sentimento, pois já estava acostumado aos barulhos que produziam, foi mandando, pouco a pouco, a velha maquinaria do avô para a sucata. Vieram até do Japão os engenheiros para montarem o equipamento todo novo. Era o orgulho de Aristides. Mas nem assim se aguentou. Os juros a pagar pelos empréstimos contraídos, a mercadoria a escoar cada vez menos devido ao enfraquecimento do dólar e de outras moedas dólar-dependentes, deitaram abaixo o bom do Aristides. Despediu o pessoal, vendeu as máquinas, fechou a fábrica. Pôs as contas em dia e fez alguns telefonemas. Hoje Aristides é o motorista de D. Bonifácio da Assunção, um velho amigo com quem fez o serviço militar. Aristides, travou lentamente e parou o Rolls Royce em frente ao portão. Ele conhecia-o bem, embora lá tivesse ido poucas vezes. Não se via o número, nem era preciso. Aproximaram-se algumas lanternas no escuro e ouviu-se o ladrar de cães. Ao longe, o eco ou outros cães respondiam à algazarra dos lebréus».

Não, não foi aqui que D. Micá fez intervalo mas como a história desta noite está para lavar e durar vou interromper a sua narrativa para vos contar o que falamos do Fagundes. Naquele dia não me pude alongar muito em conversas. A presença de Catarina foi um bloqueador e agora, posso dizer-vos que lhe estou agradecido. É que tudo isto contado por D. Micá tem muito mais sumo. Graziela, a mulher do Fagundes, a quem aliás todos davam os parabéns pelo casamento que fez, pois Graziela era tida como uma verdadeira rapariga de família, o pai era gerente bancário e a mãe solicitadora, classe média, remediada, sem propriedades de família mas com rendimentos que lhe puderam dar uma educação de que se orgulhavam, parece ter posto o pé na argola. E, segundo consta, foi lá em casa, na casa da D. Micá que tudo começou. Ela explicou-me assim: O Fagundes depois de acabar o curso de professor de Geografia e História teve a sorte de ser colocado numa escola secundária perto de casa. No primeiro ano correu tudo bem, mas no segundo ano de casados, o desgraçado fora deslocado para Santarém. Ao princípio ia e vinha todos os dias de carro, mas a despesa em combustível estava sempre a aumentar e ele acabou por alugar um quarto perto da escola. Um quarto exíguo, muito mal decorado, mal cabia uma cama de corpo e meio, umas cortinas escabrosas castanho-escuras, as janelas rangiam ao abrir e vedavam mal quando fechadas, um tapete nos pés da cama e uma cómoda que servia também de mesa-de-cabeceira, era tudo o que tinha de mobília. A casa de banho era partilhada com a idosa, dona da casa, que vivia só com um papagaio que se chamava Jacó. E ali passava as noites de segunda a sexta-feira o professor Fagundes, a preparar lições, a corrigir pontos de Geografia e de História, umas vezes a rir à gargalhada com certas respostas dos alunos, outras com uma raiva a que se somava a saudade por Graziela, a inquietude, a dúvida. Mas às sextas-feiras, mal o toque de saída soava às cinco e meia da tarde, metia-se no carro onde previamente já tinha arrumado a mala da roupa suja e corria para os braços de Graziela.
Fagundes não vinha aos serões de D. Micá. Os serões eram, e continuam a ser, às quintas-feiras e durante todo esse ano letivo era exatamente às quintas-feiras que mais lhe batia a nostalgia, saudades daquele salão do palacete da Lapa. Mas o Fagundes não era rapaz de muitas borgas pelo que, nesses dias de quase depressão, desligava o rádio a pilhas (Fagundes detestava a televisão), tapava a cabeça com o lençol ou com o cobertor conforme os caprichos atmosféricos e adormecia a sonhar com histórias cor-de-rosa, com leite com chocolate, com pianos brancos incrustados a Swarovsky, com a sua linda Graziela. Graziela, por sua vez tinha encontrado em Faria o consolo para as ausências do marido. Passava os serões de quinta-feira na conversa com o Faria, um estudante de engenharia aeroespacial, amigo do Eduardo Aragão, só interrompendo para aplaudir alguma peça ao piano ou algum trecho na guitarra portuguesa, quando o Bruninho, o garoto dos Mendonça nos fazia companhia ou, obviamente, durante as narrativas, intensas, emocionantes, de suspense ou de fazer chorar, contadas pela melhor contadora de histórias que alguma vez se ouviu em Lisboa. Quando Eduardo introduziu o Faria nas soirées culturais de D. Micá, todos ficavam espantados com a verve do estudante, projeto de expert na NASA, filho de famílias abastadas, eloquente no falar, D. Juan na arte de cativar o belo sexo. Quando pela primeira vez Graziela mostrou os seus seios nus ao Faria e mais que o pudor impediu D. Micá de me contar, verificou que o quarto onde este morava era ainda mais modesto do que o que Fagundes arrendara em Santarém. E se Fagundes tinha um apartamento agradável, a ser pago em prestações é verdade, ao Montepio, com máquinas de lavar loiça e roupa, frigorífico e micro-ondas, internet wireless, um dálmata de porcelana no hall de entrada que lhes ofereceu a sogra, um conjunto de sofás, uma estante de parede a parede e um candeeiro de pé, comprados no IKEA, um pequeno bar com algumas garrafas de bebidas espirituosas, uma varanda com vista para a baía do Seixal, uma cama em MDF lacado, duas mesas-de-cabeceira, um guarda-fato onde Graziela mantinha impecáveis os seus dois únicos fatos, alguns pares de calças, um blaser azul-escuro com botões de latão amarelo, com uma fateixa em relevo, dois pares de sapatos pretos de atacadores, exatamente iguais, uma dúzia de camisas, sendo algumas de manga curta e alguma roupa casual como várias camisetas, uma das quais oferecida pela organização da meia maratona de Lisboa e outra da Escola Básica 2 + 3 da Arrifana, onde um dia foi com uns alunos numa visita de estudo e onde lhe foi oferecida além da camiseta, também uma caneca de barro com a menção Recordação do Algarve, já o Faria não tinha nada de seu. Os fatos que costumava levar aos serões de D. Micá eram alugados a uma senhora que fazia arranjos e que depois dos alugar, à revelia dos seus verdadeiros donos, acendia uma velinha a Nossa Senhora para que fossem devolvidos em condições e a quem o Faria já devia mais de três alugueres, o rapaz não era estudante de coisa nenhuma, era trolha numas obras em Santo António dos Cavaleiros e o perfume que costumava usar, era dos frascos de exposição numa perfumaria de um centro comercial, próximo da loja da senhora dos arranjos. Mas Faria era um Adónis e cheirava bem. E, para quem era um simples alisador de massa de cimento contra tijolo, falava como um doutor, ou, para ser mais preciso, como um futuro engenheiro aeroespacial. Graziela fugiu com ele para parte incerta. O pior foi que, para comprarem os bilhetes de avião, tiveram de vender o recheio da casa e dos armários. Nem os dálmatas escaparam, disse-me a D. Micá. Deixaram uns calções, uma t-shirt e um par de chinelas havaianas. Eu acrescentaria que a blusa tinha uma nódoa.


segunda-feira, 8 de outubro de 2012

172. Os totós de Marta Caracinha



Se há uma coisa que não me cai bem, já para não dizer que embirro, é com a mania que o Pedro Rebocho e a namorada, a Marta Caracinha, têm para acharem que os serões de D. Micá são a entrega de prémios da Caras ou o lançamento de um livro de Margarida Rebelo Pinto no Lux. Porque é que aqueles gajos não vestem normalmente? Será que é mesmo só para darem nas vistas? Já comentei até com a D. Micá, que agora anda com a mania que eu a devo tratar só por Micá, já que é quase vinte anos mais nova do que eu, e que quem tem de ser tratado por Senhor Constantino tenho que ser eu e mais isto e mais aquilo, colocando-me numa situação que não sei se me deixa mais embaraçado ou mais apreensivo com a quantidade de cabelos brancos que já povoam a minha melena. Contestei-a dizendo que isso não estava certo, ela era uma senhora poderosa, filha de um milionário da criação de vacas e do negócio de cacau em grão, em pó, transformado em chocolate e, consequentemente, do leite com chocolate, um homem que, por ventura, não gostaria de ver o seu nome de leiteiro-mor do “reino” associado com um plebeu que escreve prosas e diz poemas em bares e tabernas, desde S. Pedro de Alcântara até ao Jardim do Tabaco, sem esquecer os que circundam a Sé. Ela riu-se, disse-me que o pai, apesar do património, tinha sido um homem simples e adiantou-me que um dos seus grandes desgostos foi ter morrido sem ter visto a filha casada, nomeadamente com um homem como eu. É verdade que me lisonjeou, embora ela saiba que de mim não pode ter esperanças, eu sou um homem casado e se é verdade que a minha mulher raramente vai assistir às nossas soirées, isso é porque a poesia lhe dá enxaquecas, a guitarra portuguesa lhe afeta a tiroide, o notas agudas do piano deixam-lhe os pelos dos braços tão eriçados e as histórias, por mais cor-de-rosa que sejam, lhe dão um soninho de morte. Ela passou-me um dedo pela cana do nariz, deu uma baforada na sua cigarrilha com sabor a mentol, espalhando depois, num sopro malicioso, um cheiro de menta na atmosfera, piscou-me o olho e murmurou carinhosamente «malandreco». Deu meia volta e anunciou que ia começar a contar a sua história de hoje.

«Quando D. Bonifácio da Assunção, abriu a caixa, nunca imaginou que aquele seria o primeiro dia do resto da vida dele. Chamou Aristides, o seu criado de confiança, pediu-lhe a cartola e mandou-o avisar o motorista. Dento de cinco minutos sairiam no Rolls-Royce».

Todos estavam com atenção à história de D. Micá, menos eu. Não parava de olhar para o casal Rebocho e Caracinha. Hoje ele vem todo vestido de preto, fato completo fresco de verão, cujo blaser tem elasticidade para ele puxar a manga para cima até ao meio do antebraço, uma t-shirt Armani também preta e pelo cruzar das pernas, meias negras quase de vidro mas elegantes, e, nos pés, uns elegantes mocassins Dolce & Gabanna a condizer, apresentando um entrelaçado fino no peito do pé, terminados por uma fivela metálica, dando um ar jovial mas requintado, enquanto que a Marta Caracinha parece acabada de sair da Alice no País das Maravilhas ou do Feiticeiro de Oz, parecendo ela que vem para uma sessão de contos infantis, vestida com uma jardineira azul bebé e camiseira branca, calçando umas meias de ténis New Balance rematadas com umas sapatilhas tricolor com a inscrição Google, comprados provavelmente numa netshop. Eu, quando os vi entrar, nem queria acreditar, ele de cabelo empinado com montanhas de wet gel, fazendo uma crista como se fosse o último dos moicanos ou o Cristiano Ronaldo e ela de totós como uma colegial. Mas eles são mesmo assim, extravagantes, o que é que se há de fazer? E mais estranhos parecem ser que cumprimentam todos com três beijos, reminiscências de quando viveram em Aix-en-Provence, na velha Gália do Sul, que é como quem diz em França. Pois então vou deixar-vos com água na boca já que a D. Micá tem uma cena deliciosa deste casalinho, relacionada com ervas e mais não digo. Agora vou prestar atenção a mais um bocadinho da história de D. Micá.

«Chovia. Chovia muito como é costume nas Ilhas Britânicas. Embora D. Bonifácio já tenha regressado há mais de uma década de Londres onde fora responsável pelo programa cultural da embaixada, tudo lhe lembrava a velha Albion. O Rolls Royce parou suavemente em frente a um velho portão de quinta. A chuva lá fora e o breu, não deixavam ver para além da porta…»


terça-feira, 2 de outubro de 2012

171. O pisa-papéis de D. Micá



Hoje é quinta-feira. Fico sempre um pouco excitado às quintas-feiras, o dia em que D. Micá recebe como ninguém na sua nova residência à Lapa. Desde que se mudou de Albergaria para Lisboa e logo que as obras no antigo palacete terminaram, que D. Micá não falha um serão de quinta-feira. É claro que só os amigos têm o privilégio do convite e também alguns familiares. De entre os que já vos falei e os que anda virão a ser mencionados, poucos há de quem eu lhes conheça a vida que não tenha sido através da verve escorreita de D. Micá, que não só é uma mulher atenta ao mundo e às pessoas, mas também, se não a melhor, talvez uma das melhores contadoras de histórias que o nosso burgo conhece. Mas como vos prometi, hoje vou-vos falar de Eduardo Aragão, um velho amigo meu, de quem conheço detalhes que nem passam pela cabeça de D. Micá. Ou talvez não pois que, pensado bem com os meus botões, eu acho que há algumas cumplicidades entre eles. Às vezes fico a pensar como é que uma mulher que ainda não chegou aos quarenta, que se criou numa aldeia perto de Albergaria, que estudou em Coimbra não mais do que uma dedada de uma mão de anos letivos, conhece tanto mundo que é como quem diz tanta gente e alguns lugares. Bem sei que D. Micá o que mais fazia era viajar pois nunca precisou de trabalhar e apesar de ter cursado Direito com distinção, desde que se formou não mais pegou no Código de Direito Administrativo, no Código de Direito Penal, em nenhum tratado internacional, no Código Comercial ou, vejam bem se é possível, no Código de Direito das Sucessões, que não fosse para os arrumar bem arrumadinhos nas estantes de mogno que forram as paredes de uma pequena mas bonita biblioteca na casa onde morava na província, uma mansão que era impossível dissociar da construção de tipo colonial com redes e tudo, a servirem de cama de descanso, em largos alpendres com colunas. A biblioteca do Comendador tinha, por vaidade pessoal deste, já que, embora a sua vida não tenha sido uma vida dedicada à cultura, mas sim bem mais ligada à agricultura e à pecuária, alguns tomos antigos, primeiras edições e algumas ofertas de autores regionais. Destacavam-se na biblioteca do Comendador os quarenta e oito volumes da Enciclopédia Luso-Brasileira Atualizada, um “Tratado de Química dos Adubos na Cultura de Oleaginosas e outras Sementes”, a coleção completa e encadernada em capa de couro genuíno escandinavo tingido a azul e debruado a filigrana dourada, de uma edição em francês da obra mais famosa de cada um dos Prémio Nobel da Literatura, desde o inicio aos nossos dias e ainda, entre obras de grandes mestres, a cartilha de “Bem ordenhar, melhor beber” de autor suíço, cujo nome não fixei, mas que termina em Frei. A verdade é que quando D. Micá se decidiu a viver em Lisboa, arrastando consigo D. Ermelinda, sua mãe, uma sexagenária de muito bom aspeto, que veste e que se penteia muito bem e que, só em jeito de parêntesis pois não me quero desviar do motivo que me levou a escrever hoje, digo-vos que D. Ermelinda não vai à missa sem se pentear na Isabel Lencastre que abre mais cedo cerca de uma hora aos domingos, exclusivamente para ela e que, aos serões das quintas-feiras, faz questão em vestir algo sofisticado e elegante, ora de Augustus, ora de Ana Salazar, (confessou-me uma vez que era íntima de Buchinho, mas eu ainda não o vi nos serões), contava que quando D. Micá e D. Ermelinda vieram para Lisboa, nada trouxeram da casa da terra, onde passam frequentes fins-de-semana, tendo deixado tudo entregue a caseiros. Talvez tenham feito bem porque a casa da Lapa tem a sua própria decoração, pontifica no teto do salão um candeeiro de Peter Gasper e sobre a mesa uma escultura assinada por Gerin além do já referido quadro de Paula Rego, não conviria muito misturar o que não tem osmose. Além disso, D. Micá não é, hoje em dia, uma mulher de muitas leituras, é mais society, entendem, claro, isto retomando o assunto com que comecei o tema. No entanto, voltando à casa de Albergaria, para que não me escape nenhum detalhe e à pequena mas bonita biblioteca, o que mais me fascinou quando lá entrei a primeira vez, a convite da simpática D. Micá, que gostou muito que o meu primo me introduzisse no seu círculo reservado de amigos, «em boa hora», chegou a dizer, foi um pisa-papéis feito em madeira exótica oriental com esculturas miniaturizadas, talhadas na própria superfície esférica, representando as várias posições do kamasutra. Assim como quem não quer a coisa, perguntei a D. Micá se ela me venderia o pisa-papéis, ao que a jovem senhora ficou muito corada. Tão corada como D. Ermelinda, sua mãe, quando a apanhei, um serão aqui atrasado, numa conversa de caráter íntimo com o meu amigo Eduardo Aragão de quem vos falarei um destes dias.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

169. D. Micá conta contos cor-de-rosa




D. Micá conta contos cor-de-rosa. Não é o que mais me atrai nos serões em sua casa. Também não vou lá pelos seus decotes, nem pelos charutos cubanos, embora, confesso, é muito agradável estar na chaise longue, a saborear um Montecristo, enquanto o Bruninho Mendonça, com apenas oito anos de idade já toca na guitarra portuguesa a “Valsa Chilena”, que o Eduardo acompanha, zurzindo de forma exímia a sua guitarra clássica. Depois vou até ao varandim respirar sobre a noite lisboeta o prazer do puro tabaco caribenho. Infelizmente para a soiré,  o Dr. Jorge Mendonça e a Clara saem sempre antes das dez para irem deitar o Bruninho. No entanto, em contrapartida, as liberdades crescem de tom. Há até quem conte anedotas brejeiras e picantes. Já ouvimos Dona Micá dizer que se quiséssemos continuar naquele despropósito que continuássemos, mas que os charutos seriam substituídos por rebuçados de mentol e o whisky dos serões por leite com chocolate. Leite magro claro, pois Fundação que é Fundação não deixa as suas gorduras por mãos alheias. Estas tiradas da D. Micá são sempre motivo para fartas gargalhadas ou porque têm graça ou porque ninguém quer deixar ficar mal a anfitriã, numa de simpáticos engraxadores. Mas não é por nada do que vos falei anteriormente que frequento as soirées de D, Micá. Um dia dir-vos-ei porquê, mas não me parece que seja agora a melhor altura para o fazer. De quem ainda não vos falei, foi dos Mendonça. Vou aproveitar hoje para apresentá-los por duas boas razões. A primeira é porque está um calor abrasador, não se pode estar no salão e embora a D. Micá tenha aberto as largas vidraças das janelas de para em par, o melhor é estar aqui no varandim, a fumar calmamente o meu puro e a desenrolar histórias da vida dos outros. A segunda razão é porque os Mendonça já saíram, foram deitar o Bruninho e se eu tiver de falar mal deles que seja nas costas, não o haverão de saber. Quero ressalvar que, se alguma palavra sobre o casal Mendonça não for de bem a responsabilidade é da D. Micá já que foi ela quem tudo me contou, pois ela é que é uma verdadeira contadora de histórias. O Dr. Jorge Mendonça que ainda não tem quarenta anos, é já, por nós, uma pessoa muito estimada. Um veterano! Nasceu de uma família abastada de lavradores alentejanos e os pais dele, o Sr. Semião Mendonça e D. Catarina Fradinho sempre fizeram questão de ter um filho médico. Mandaram-no até, estudar para Coimbra. O pai, além de herdades a perder de vista, criava gado o que fez com que os seus conhecimentos com o Comendador não fossem fruto do acaso. E por consequência os conhecimentos de Jorge com Micá. E não só. Dizem que D. Ermelinda, nos seus hormónios dos quarenta, em tempos idos, terá tido um fraquinho pelo jovem estudante, Jorge Mendonça, mas a verdade é que o Comendador, homem acostumado a que lhe cobicem namoradas e esposa nunca dera fé disso ou nunca ligara muito. No entanto, parece que D. Ermelinda ainda sente uns calores quando o Dr. Jorge, sempre nas suas camisas de cambraia, muito bem cuidadas pela Adriana, uma criada de quem um dia narrarei o que D. Micá me contou, e nos seus fatos de muito alta qualidade e fashion quanto baste, está presente nos serões. Hoje, quando ele saiu, fiquei a pensar que aquilo não pode ser apenas do rendimento de médico do SNS. Ele trazia vestido um misto de Rosa & Teixeira com Medina Carreira que até fazia doer a vista de brilho, já para não falar na gravata C. Dior amarela. Parece que da Clara Mendonça é que a D. Micá não gosta muito. Mas cá para mim devem ser ciúmes pois consta que o Dr. Jorge, entre uns afagos na D. Ermelinda e um copo de leite com chocolate bem fresquinho, lhe chegou a cheirar a renda do sutiã. De muito perto. Muito perto mesmo. Ela nunca o disse, o que para uma contadora de histórias, parece quase inacreditável. O que ela sempre refere é que a Clara é uma pacóvia, veste mal, não combina duas peças, nem em cor nem em texturas, o cabelo é apenas arranjado em casa, não frequenta salões de cabeleireiro, não faz a manicura, chegou a dizer, numa confidência que a massagista Sissi da clínica Peles e Óleos lhe fez, que a outra não depila as partes íntimas, se isto é coisa que se diga, e que a menino Bruninho nunca vai chegar aos calcanhares de um Chainho ou de um Paredes, vejam lá, um menino que com esta idade já toca tão bem. Mas vamos ao que interessa. A D. Micá está sempre a cortar na casaca da Clara Mendonça, ora porque não estudou, «aquilo é uma burra», ora porque no outro dia lhe saltou um botão de uma camiseira simples, comprada «com certeza na Zara», dizia com desdém, «uma desleixada é o que ela é». A verdade é que Clara foi descoberta por Jorge nos seus tempos de estudante, numa daquelas festas privadas que os alunos costumam fazer à revelia dos pais que, da província, lhe vão pagando os cursos e a borga, mais conhecidas por bacanais, parece que a moça não só não tem quaisquer estudos, mas também que não se lhe é de gabar o seu porte em solteira. A própria D. Micá, diz que se não fosse por consideração ao Dr. Jorge, que é médico da mãe desde que esta veio para Lisboa, pudera digo eu, o Dr. Jorge não deve ser nenhum santo, digo eu também, e que é já, por inerência, o médico da casa, só faltando dar consultas ao Pantufa, o gato persa e ao Esticadinho, o galgo espanhol encontrado abandonado numa estrada perto de Badajoz, a Clara Mendonça não teria cabidela nos seus serões. O que faz o ciúme, digo eu mais uma vez. Quando estava a ouvir esta história, enquanto o meu primo tomava um chá de camomila em companhia de D. Ermelinda a quem não parava de gabar a filha, acho que já enfastiando a pobre, salvo seja, que de pobre nada tem, viúva do Comendador, atrevi-me a dizer-lhe «D. Micá, olhe que para a sua reputação de contadora de histórias cor-de-rosa, o quadro que pinta da Clara Mendonça, é um bocado cinzento». Ao que ela me respondeu «Negro, meu caro Constantino, negro, ainda você não sabe da missa a metade». Senti-me um pouco acabrunhado, bebi um gole de whisky, passei ligeiramente a língua pelos lábios, levantei o cálice em direção a D. Micá numa saudação complementar e fui falar com o Eduardo Aragão, um velho amigo meu e que costuma tocar guitarra clássica nos serões da filha do falecido Comendador Jovelino Azeredo. Mas dele contarei eu a história pois conheço-a muito melhor do que D. Micá.

domingo, 23 de setembro de 2012

168. D. Micá, a contadora de histórias



A D. Micá é uma contadora de histórias. Micá de Azeredo, filha do Comendador Jovelino Azeredo, um beirão a quem o cacau tentou em S. Tomé, sem saber como nem porquê. Quando o jovem Jovelino saiu de Albergaria para vir para Lisboa, esperava tudo menos embarcar para África. É através de um primo, que tinha conhecimentos junto dos engajadores do Campo das Cebolas que, no trabalho de estiva, vem a conhecer o imediato Elisiário Godofredo de Almeida, homem de muitas mulheres e de outras que não se sabe, inclusive de uma amantizada de Jovelino, a quem este, por estratégia, fechava os olhos nos seus avanços com o imediato. Este comportamento passivo de Jovelino Azeredo valeu-lhe as boas graças do imediato que, para que chatices não viessem a surgir no futuro, quando os “apalpansos” passassem a deboche e a coisa se complicasse, pois nunca se sabe como se comporta um homem quando passa de candidato a corno, a chifrudo de pleno direito. Assim, convida o Godofredo a Azeredo para que este embarcasse no pequeno navio e o deixou, com uma mão à frente e outra atrás, como soe dizer-se, na ilha de S. Tomé, torrada pelo equador e onde o cacau já era rei. Sem meios nem linhagem, difícil ficava para o jovem Jovelino se embrenhar no meio dos plantadores, fulanos de influência e ligações aos meios militares, a bem dizer, fulanos de tal. Não perdeu tempo, homem de raça que era, em entender o negócio e não vale a pena aqui explicar detalhadamente, porque para contar histórias temos a D. Micá, Jovelino Azeredo acabou como exportador de cacau tendo feito fortuna. Regressou a Portugal em 1976 com quase sessenta anos de idade, solteiro rico e dizem até que não era mau rapaz. Mas não se ficou por aqui, pois num saltinho às berças, veio a conhecer uma bela senhora, que ainda não tinha feito os quarenta anos, a D. Ermelinda Sebastião, casaram e vieram a gerar Maria Catarina Sebastião Azeredo, Micá para os amigos, D. Micá para os conhecidos, grupo onde me incluo. Está visto que é preciso contar como é que o senhor Jovelino veio a ser comendador mas isso conta-se mais rápido do que qualquer história que D. Micá conta aos serões que costuma dar na sua casa apalaçada ali para os lados da Lapa. Tendo ficado órfã de pai, arrastou D. Ermelinda para Lisboa onde o dinheiro e um arquiteto, por acaso de nomeada, de uma firma de Arquitetos que só podemos aqui dizer que se tratava de Fulano, Sicrano e Associados, pois D. Micá, por causa de umas alterações que foram feitas à casa, sem que ela as tivesse avalizado, jurou nunca lhes fazer publicidade, mas dizíamos que o dinheiro e o arquiteto transformaram um velho palacete numa residência moderna. Decorada já nos finais dos anos 90 do século XX, a casa perdeu aquele ar pesado neocolonial para que a modernidade sofisticada se encarregasse de fazer o resto. É assim que um piano Steinway & Sons, totalmente branco com incrustações Swarovsky pontuava na ampla sala, com também amplas janelas de vidro triplo e caixilharia em pau-brasil aclarado e um pequeno varandim onde só cabem duas pessoas de cada vez, quiçá com algumas intimidades. Os tetos e o chão foram forrados de placas de carvalho sueco e uma parede em mármore cinza claro contém uma lareira a gás, incrustada. No centro, uma mesa redonda baixinha em ébano sobre uma grande tapeçaria persa e uma chaise longue acolchoada a couro italiano. Num canto da sala, com vista para o Tejo, dois espaçosos sofás de quatro lugares cada, dispostos em L de tons branco sujo. O único móvel era um aparador em laca onde se encontrava camuflada uma excelente aparelhagem de som e a sua coleção de CDs de música pop-rock anos oitenta. Nas paredes, apenas dois elementos decorativos. Uma pintura de Paula Rego e um retrato emoldurado do Senhor Comendador, de autor desconhecido. Quando o senhor Jovelino regressou, não quis que o seu dinheiro ficasse parado e associou-se com um cunhado de D. Ermelinda Sebastião que era criador de vacas leiteiras. Pois não só criaram uma sociedade de sucesso, mas também uma fundação, a Fundação do Leite Magro com Chocolate, associando o espirito da alimentação saudável com o gosto inconfundível e indispensável do cacau e cuja atividade nunca foi relevante, pois dela nunca se ouviu falar, mas também nunca deixou de receber o devido subsídio estatal. Um certo 10 de Junho recebeu uma comenda, dizem que por causa da sua Fundação, mas que não se sabe se foi bem assim. Coitado, de pouco lhe valeu pois um fulminante ataque cardíaco acabaria por o mandar desta para melhor, apenas alguns meses depois de agraciado. Vivem agora D. Micá, nos seus pouco mais de trinta anos de idade com a sua ainda roliça e bem tratada mãe, de rendimentos e de serões, não vá o tédio matá-las. E se vos falei hoje de Jovelino Azeredo foi porque ouvi contar, da boca da própria D. Micá, um dia que fui convidado para o serão por um primo meu que é seu amigo e que por sinal também é meu amigo, pois senão não me faria tais convites e que arrasta a asa a D. Micá, a contadora de histórias. Dela ainda ouviremos falar bastas vezes nesta sequência de histórias por ela contadas e outras não.