Liguei-lhe. Afinal de
contas sempre fomos dois bons amigos e eu, homem de palavra, tenho dito e insistido
que um dia ainda contarei a sua história. Ou pelo menos tanto quanto sei da sua
história. E se ainda não o fiz temos apenas que lamentar o facto de um dia ter
somente vinte e quatro horas e não as necessárias e suficientes para que tudo o
que engendramos o façamos. Liguei-lhe mais de uma vez. A primeira foi ter ao voice mail. Aliás, não foi. O cliente
não tinha voice mail ativo, dizia uma
gravação da operadora em entoação radiofónica. À segunda pareceu-me ter ouvido
um clique de desligar. Talvez fosse impressão minha, mas fiz um compasso de
espera. À terceira atendeu. Já sei que já estão a pensar no cliché que diz que
à terceira é de vez. Pois bem. Foi mesmo à terceira e lá estava ele, com voz de
quem tinha acabado de acordar. Convidei-o a irmos tomar café à Costa. Verdade
seja dita que na Costa mora ele. Desde que se enrolou com uma sexagenária viúva
que foi morar em concubinagem com a dita, se bem que ele se não é sexagenário
para lá caminha, não lhe falta muito, cabelos brancos já os tem e nem sequer os
disfarça, diz que dá charme. Eu moro um bom bocado mais longe mas como quando
lhe liguei já estava escanhoado e de banho tomado, lesto me aprontei e ao
caminho me pus, percorrendo os, não muitos verdade seja dita, quilómetros nos
separavam. Escusado será dizer que Eduardo demoraria mais de meia hora a se me
juntar. Deu-me um abraço como se não nos víssemos há anos, o que não me
espantou já que estes gestos eram caraterísticos deste meu extravagante amigo
de quem um dia contarei a história de vida. E como não podia deixar de ser
falamos dos estragos que o temporal e as marés vivas fizeram na Costa, cujo
degradado espólio desacorçoadamente contemplávamos, falamos um pouco de política
que era uma das paixões de Eduardo, a seguir às mulheres e aos bons whisky de
malte escoceses, não pude deixar de ouvir, quiçá pela trigésima vez a história,
se bem que desta vez resumida da sua viagem às Highlands, onde terá visitado destilarias e jura ter adormecido por
baixo de um alambique. Inevitável mesmo foi falarmos dos serões em casa de D.
Micá. Ele não está certo do que terá levado D. Micá a fechar as portas do
salão, mas isso um dia esclarecer-se-á. A verdade, verdadinha e aqui não há como
duvidar, é que Eduardo, a quem eu pensei que o convidaria para um café no
intuito de o apanhar de surpresa, sabia perfeitamente, pois que a via regressar
bastas vezes dos pontões de pedra na costa, montada na sua bicicleta, canas de
pesca amarradas ao quadro, as galochas enfiadas no cesto das traseiras. Não há
dúvidas nenhumas. D. Micá tinha-se dedicado, efetivamente à pesca.
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segunda-feira, 16 de junho de 2014
segunda-feira, 27 de maio de 2013
209. Poderia ser uma solução, D. Micá
D. Micá andava chateada. Tinha começado, há vários
serões atrás, a contar a história de D. Bonifácio e da sua falecida Antonieta,
em forma de fantasma que, com uma caixa misteriosa enviada ao viúvo, o tinha
tentado perturbar. O problema é que D. Micá misturou nesta história personagens
reais e outras de ficção, mormente o Aristides e agora estava com grandes
dificuldades em dar a volta à coisa. Não que não tivesse engenho e arte para o
fazer, ou não fosse ela a exímia contadora de histórias que todos conhecemos,
principalmente de contos cor-de-rosa, mas sim porque ela é uma mulher política
e socialmente correta. E o seu grande receio de melindrar algum dos seus amigos
e amigas estava a funcionar nela como uma sufocante autocensura. Mas se isso a
constrangia, não era bem isso que a chateava. O que a andava a deixar com a
moral em baixo, com um considerável deficit
de autoestima, era o cisma em que caíra. É que se ela parasse agora de contar a
história de D. Bonifácio poderia o seu carisma de contadora começar a perder-se
e isso ela não aguentaria. Antes abdicar do nobre título de Presidente de uma
Fundação do que o de melhor contadora de histórias aos serões. E também estava
a reagir mal à pressão. Sempre que a receção das quintas-feiras aos seus
confrades se iniciava, logo havia um ou outro que, com sub-reptícia ironia ou
apenas por mera curiosidade, lhe perguntava “É hoje que vamos ficar a saber do
conteúdo da caixinha, é?” ou então, “Será hoje que vamos conhecer o finalzinho
da história, D. Micá?”, quer num caso, quer noutro, utilizando diminutivos,
como caixinha ou finalzinho dando um tão aparente quanto cínico ar de
paternalismo, mas que não deixava de ser uma bicada no latente narcisismo de D.
Micá que, como vedeta de toda esta sequela, não poderia deixar de o ser.
Num dos cantos da sala, com um copo de whisky na
mão, uma gravata Hermès comprada a bordo de um avião da Air France, fato escuro
de Mariotti Francelo, sapatos Scarpi Chaussure, camisa Paco Jimenez e fumando
uma Partagas comprada na Havanesa Central do Alto do Pina, estava o dr.
Cristino Pedrogão que desde há pelo menos dois anos não frequentava o salão de
D. Micá, devido a uma desavença com, o também de longa data ausente, Salustiano
Tristão, um comerciante de fruta bem sucedido, desde que começou a negociar com
o Chile, com a África do Sul e com uns produtores do Bombarral. Era o dr.
Cristino que comandava a animada conversa que embora apanhada a meio ainda pode
ser relatada:
- Pois é meus amigos, aos sábados, dispo os fatos
e as camisas de cambraia, dispo também alguns preconceitos e de sapatilhas ou
de galochas, conforme o local, lanço as canas e passo o dia inteiro à pesca. E
olhem que não me saio muito mal…
E começou a gabar-se das douradas que pescava, dos
linguados e das fanecas, dos robalos e dos alcorrazes e outras espécies que,
pescando ou não, enumerava como safra sua.
D. Micá, sempre atenta, ia pensando com os seus
botões que, se calhar, o melhor seria ela também dedicar-se à pesca.
quarta-feira, 15 de maio de 2013
207. Nos serões de D. Micá, a maioria é do Benfica
“D.
Bonifácio houvera decidido que passaria uns bons pares de dias na mansão. Não
que fosse uma pessoa que gostasse de isolamento, mas há certos momentos da vida
em que um retiro não se pode dispensar. Chamara Aristides a quem comunicou que
estaria dispensado por duas semanas dos serviços de motorista, tirou da
carteira duas notas verdes de 100,00 € e disse-lhe que aquele era por conta
dele. Sugeriu-lhe que fizesse uma viagem, que Aristides ao agradecer lhe
disse, que sendo assim se retiraria uns dias para Mirandela, onde ainda tinha
uns primos e uma tia da parte da mãe que eram exímios em preparar alheiras.
-
Ai Bonifácio, nem sabes como tenho saudades daquelas alheiras caseiras... - suspirou Aristides.
-
Bem, eu estava a sugerir-te que desses um passeio maior, sei lá, a Espanha, comer
umas angulas ou um cocinillo, mas tu é que sabes – concluiu deixando a opção só
e exclusivamente com o amigo e motorista Aristides.
-
Não há porco como o da minha terra, Bonifácio. Mas se precisares de qualquer
coisa não hesites. Agora já há telemóveis e as autoestradas rasgam o país todo.
Estarei cá em poucas horas. – Sossegou-o Aristides estendendo a mão, sacudindo enérgicamete a do patrão e amigo e apertando-o num caloroso abraço.
Bonifácio,
com uma pequena lágrima no olho, deixou sair o chauffeur e pensou com os seus
botões que não ficaria sozinho. Tinha Gatófio, o gato e Penafiel, o cão, para
além dos seguranças, do jardineiro e do fantasma de frei Bento Patinho. Teria
também com certeza que contar com o fantasma de Antonieta e, last but not
least, ainda lhe pairava sobre a cabeça o fantasma do campeonato, acabado de
perder para o seu arquirrival do norte”.
Um estrondoso apupo se fez ouvir na sala. D. Micá
corou um pouco e pediu desculpa por ter referido assunto tão melindroso,
enquanto o meu amigo Aragão, rejubilava e ria descaradamente com a abordagem de
D. Micá. O Dr. Luís Lopes Lacerda, o nosso conhecido otorrinolaringologista, é
que não teve papas na língua e virando-se para Eduardo contou-lhe a história da
hiena que ri, apesar de se alimentar de excrementos de outros animais. É que
Eduardo Aragão é adepto de um clube da segunda circular de Lisboa que não só
ficou em 7º lugar do campeonato mas também, o que é pior a muito mais de trinta
pontos do primeiro. E Lacerda, voltou a lançar-lhe o repto «de que é que te
estás a rir?».
quinta-feira, 9 de maio de 2013
207. Os serões da D. Micá já são noticiados nos jornais
Temos andado justamente entretidos a contar o que
se vai passando nos serões da nossa anfitriã e amiga e raramente damos conta do
que os outros dizem sobre os mesmos. Foi assim com algum espanto que demos
conta que nós não somos os únicos fiéis narradores do que naquele amplo salão
se passa, mas que haverá alguém mais atento ao evento, sendo que desconfiamos
de quem seja, mormente por questões de geografia mas não só, basta que
atentemos ao estilo, que a nossa desconfiança irá, naturalmente, desaguar em
certeza. Deixaremos assim para a imaginação e perspicácia dos nossos leitores o
desvendar do autor de tão saborosas linhas que nos acabaram de chegar em
recorte de “A Voz de Albergaria”, datado do mês passado e que nós, por
acumulação de afazeres, ainda não tínhamos tido oportunidade de trazer ao vosso
conhecimento, se bem que o assunto, não se enquadrando nos serões de
quinta-feira, não deixou de se constituir em evento de caráter social notável
que aqui já deveria ter sido descrito com a pompa e a circunstância que
merecia. Ficaremos então com a redação da local no referido periódico que, como
é bastamente do conhecimento de quem faz o favor de nos ler atentamente e de
seguir a sequência de acontecimentos em casa de D. Micá e de sua ditosa mãe, é
a terra de nascimento do falecido comendador Jovelino Azeredo.
Como seria apanágio do meu grande amigo Eduardo
Aragão, tenho a certeza que nesta fase da escrita ou se quiserem, da narrativa,
como aliás se poderão certificar quando aqui vos contar a sua relação próxima
de poetas e de prosistas e de outros trovadores, atividade que ele também não
desdenha e executa a preceito, pois dizia eu, o meu amigo Eduardo teria já
dito, «desembuchem logo com a notícia do jornal, que isto é um serão de
literatos e não um cenário de Hitchcock», mostrando à saciedade de que ele,
Eduardo Aragão, não só é um homem pragmático que gosta, tal como o escritor
destas linhas, ou não fossemos amigos de infância e adolescência, mais desta do
que daquela, que não é apenas uma pessoa ligada às letras, mas que também lhe
corre no sangue o líquido do conhecimento cinematográfico e, neste caso
particular, lhe fervilha o gosto pelos mestres do suspense. Só faltou que ele
tivesse acrescentado ao cenário de Hitchcock, os enigmas de Lynch e todos os
que nos leem dissipariam inculcadas dúvidas, se é que alguma vez as tiveram, de
que Eduardo Aragão é de uma versatilidade que só visto ou que, como seria mais
correto dizer, de uma versatilidade que só lido.
Já o dr. Jorge Mendonça, que tem feito da sua
vida, toda uma vida de enigmas, desde os tempos em que o pai, um agricultor
alentejano, de quem se não vai aqui repetir a descrição, basta que percorram
com os vossos próprios dedos algumas das páginas iniciais, o mandou estudar
medicina para Coimbra e o então jovem Jorge, misturava aparelhos circulatórios
com tricanas de trouxa de roupa à beira Mondego, passe a pouca inspirada tirada
do autor, querendo com esta dizer que o coração anatómico se misturava com o
casulo da paixão e que utilizava o aparelho locomotor não para o estudo dos
ossos, das articulações, dos músculos e dos tendões, mas para palmilhar as ruas
da académica cidade, batendo as tabernas e vielas e, ao trinar das guitarras,
traçar a capa sobre a batina e, qual rouxinol em choupal, trovar à janela da
linda Carolina que corria o reposteiro, abrindo de par em par as portadas da
janela do varandim, onde bambinelas de seda mostravam o luxo em que a família
Serapião vivia e acabando casado mais tarde com Clarinha, uma moça escorreita
mas de famílias modestas, aqui conhecida por Clarinha Mendonça, nada se importa
com o tempo que o narrador toma para colocar aqui a local de “A Voz de Albergaria”,
pois isso dar-lhe-á mais tempo para ir contemplando a roliça, rosada e por
vezes nédia Rosalina, deixando D. Ermelinda a suspirar sozinha a um canto, ela
que sempre se envolveu platonicamente com um homem, que poderia ser seu filho e
a quem ela não negaria um pouco de calor maternal, sentando-o ao seu colo e
deixando que ele voltasse a cheirar o perfume das rendas dos seus sutiãs, se
bem que amamentar apenas são conjeturas de mentes mais ou menos conspurcadas de
alguém que por estas alturas poderá estar a ler tão púdico relato dos serões da
quase quarentona D. Micá, cujo aniversário não será com certeza deixado passar
em claro aqui pelo vosso autor preferido, a não ser que “A Voz de Albergaria”
se antecipe e nos venha a estragar a festa.
sábado, 4 de maio de 2013
206. Gente gira ou O dia em que se falou do Padre Felício nos serões da D. Micá
Ontem, o serão em casa de D. Micá foi deveras sui generis. Ou então não foi tão
diferente quanto o habitual, mas Constantino esteve mais atento do que é costume.
Na sala formaram-se grupinhos. Num canto, junto à pintura da Paula Rego reinava
a animação. O Fagundes era o centro das atenções e qualquer brejeirice que
viesse do Pedro Rebocho fazia-o corar mais do que daquela vez em que foi visto
cheio de nódoas, de calções e chinelas havaianas, em plenas avenidas novas,
depois de Graziela lhe ter enfeitado a testa. Mas a conversa nem era para que
ele se sentisse envergonhado. Afinal de contas falavam do bem estar que o
incidente da traição de Graziela lhe acabou por proporcionar considerando-a
mesmo, à traição, a cereja no topo do bolo. A sua vida era agora completamente
diferente, toda cheia de qualidade, boa mesa, viagens aonde nunca sonhou ir,
programas culturais de grande gabarito, teatro, exposições, cinema, saraus
poéticos, trajava como um lorde, ele, um simples e modesto professor de
Geografia, que já nem aos prontos-a-vestir espanhóis, que proliferam nos
centros comercias da cidade, vai, pois que, desde que se concubinou com a
quarentona mas sílfide viúva, senhora de bens, são os melhores alfaiates que
lhe confecionam os fatos, as camisas são do mais fino recorte italiano e até os
sapatos usam gáspeas de couro de bisonte selvagem do Alaska. E se assim não é,
tal é a finura da elegância dos calcantes com que Fagundes se passeia, que ao
escritor se lhe permitem estes excessos de prosa. Quem nunca fica muito à
vontade com as diatribes linguísticas e o vernáculo do Pedro Rebocho, na
realidade um jovem à vista dos outros dois e portanto com uma forma de estar
propícia a conflitos geracionais, é o Justino Carlos. Todos ainda estamos
recordados do hílare subterfúgio que usou para considerar que o amante da
mulher era de facto o corno mas, no entanto, sempre que se falava de
ornamentação cabeçal logo o Justino Carlos pigarreava e tentava mudar o rumo à
conversa. Era por isso que naquele canto reinava a animação. Eu tentarei
explicar. O Pedro Rebocho, tendo lido bem o fácies de cada um dos seus dois
interlocutores, fez uma inversão de marcha e, embora o facto já fosse conhecido
e a história antiga, contou, acrescentando os pontos que se acrescentam quando
se contam contos, do dia em que o padre Felício fora visto galgando, numa louca
correria, os degraus do portão da sacristia, já aparamentado para a eucaristia
dessa manhã aos “ai que ele me mata, ai
que o homem me quer matar, ai que está louco” tropeçando na sotaina,
derrapando nas esquinas das ruas, topando com as biqueiras dos sapatos nos
lancis dos passeios, o pai da Sebastiana, atrás do padre Felício, com uma
espingarda de caçar pardais, disparando chumbinhos a torto e a direito, sem lhe
acertar nem matando passarinhos “ai
desgraçado que me desgraçaste, ai desgraçado que te desgraço eu” e a Sebastiana
a correr atrás dos dois “ai paizinho que
se desgraça, ai paizinho nos desgraça a todos” e o pai, virando a cabeça e
olhando por cima dos ombros, sem nunca parar de correr “ai que te calas já,
meretriz, que me envergonhas” e repetiu sem saber que mais ais haveria de
gritar “ai que te calas já, meretriz, que me envergonhas” até que o padre
Felício se estatela numa poça de água, o pai de Sebastiana bate com a cabeça
numa oliveira e a Sebastiana sem saber o que fazer, se acudir ao padre com quem
se andava a desgraçar ou acudir ao pai a quem andava a envergonhar, “ai quem me acode que eles se matam?!” e
reforçando, ao ver os dois pelo chão, “ai
quem me acode que eles estão mortos!?”. Fica o escritor a perguntar a ele próprio
que graça é que isto teve para que aqueles três pacóvios quase se engasguem de
tanto rir, pelo que decidiu passar aos outros grupos da sala.
E como o texto já vai longo ficará para o próximo
capítulo contar-vos do que falava o meu célebre amigo Eduardo Aragão, encostado
ao aparador de laca, numa erudita cavaqueira com a Filomena Carlos, mulher de
Justino Carlos e o Columbano Queiroz que exclamava alto e bom som “Meu caro Eduardo que grande declamador que
o amigo me saiu, mas que grande poeta” e insistia com mais que isto e mais
que aquilo, no meio das frases, sabendo nós que ele não pronuncia o Q nem o C,
quando este se pronuncia com a valência do Q. Façam então o favor de reler a
frase anterior que se encontra devidamente identificada com as respetivas aspas
para entenderem o que quero dizer.
domingo, 28 de abril de 2013
205. D. Micá foi à Ovibeja
D. Micá mandou-me um SMS a informar-me que esta
quinta-feira não haveria serão em sua casa. Ainda pensei que fosse pelo facto
de ser feriado, de se comemorar o dia da Liberdade, mas não foi, como poderão
ler adiante. D. Micá nasceu no ano anterior ao da revolução, sendo que em
jovem, quando ainda era uma estudante universitária e incorporava os movimentos
marxistas-leninistas-maoistas, já em decadência nos anos noventa, não só porque
os jovens da sua idade já pouco sabiam de Mao mas principalmente porque o muro
de Berlim havia caído e a União Soviética desmoronava-se, costumava dizer que
ela sim, encorpava o verdadeiro espírito revolucionário, sendo mais
revolucionária que a própria revolução pois a ela se havia antecipado. Hoje em
dia D. Micá seguiu os passos de muitos maoistas da época, está bem instalada na
vida, assume-se como uma burguesa classe média, que gere empresas e fundos, que
não quer nada com a política, mas que sabemos não ser bem verdade, pois todas
as quinzenas é convidada para um painel televisivo, onde se discute economia e
como todos sabemos não se pode dissociar uma coisa da outra.
Eduardo Aragão telefonou-me alguns segundos depois
de eu ter lido a mensagem. Também ele tinha recebido o mesmo SMS e estava intrigado.
«Ouve lá, Constantino, sabes o que é que se passa com a Micá? Então ela foi
logo cancelar o serão desta quinta-feira, quando eu já tinha mandado entregar
lá em casa seis dúzias de cravos vermelhos para a Rosalina enfeitar as jarras?
Se queres que te diga não entendo nada daquela gaja», rematou com ar indignado.
Respondi-lhe que também eu não fazia a mínima ideia mas que me iria informar.
Tentei ligar diretamente à Micá mas o seu telemóvel dava-me sempre impedido
como se D. Micá estivesse numa longo namoro telefónico, até que D. Ermelinda me
esclareceu. Afinal não era nada de grave, antes pelo contrário, era uma questão
de negócios, D. Micá iria estar todo o fim de semana envolvida na Ovibeja. Pela
primeira vez, a FPADEIACDLMCC
tinha sido convidada para ter um stande na grande feira do sul e D. Micá, nunca
connosco tinha comentado. Disse-nos à parte D. Ermelinda que era para nos fazer
uma surpresa e só não o fez porque as coisas parece que não estavam a correr a
preceito. Telefonei de imediato ao Eduardo, encontramo-nos no Fogueteiro e
seguimos os dois no meu carro para Beja.
Não foi com
surpresa que pagamos sete euros cada um para entrar no recinto. Estas coisas
não se fazem à borla e portanto há que pagar e ponto final. Mal entramos e
depois de nos esquivarmos à publicidade, primeiro de um banco depois de uma
empresa de comunicações entramos no pavilhão onde era suposto darmos de caras
com a D. Micá. Em vez disso deparou-se-nos o cheiro irresistível das farturas,
mas como tínhamos almoçado, pelo caminho, um excelente cozido de grão e umas
migas com secretos de porco preto, resolvemos não cair em tentação. Entramos e
nem sinal de D. Micá. Nem nas exposições de azeite, nem nas provas de vinho, o
que aliás não era de espantar, nem no picadeiro onde se jogava um desporto que
confesso não sei o nome mas que me pareceu ser basquetebol equídeo, nem na fila
para os WC, nem junto às sessões fotográficas com araras e muito menos, como
aliás seria de supor, junto às máquinas agrícolas. Ainda nos atrevemos a ir até
aos standes de automóveis e, mais improvavelmente, à zona do gado, onde entre ovelhas,
porcos, cabras e bodes, alpacas e burros e limousines da mais apurada raça,
touros e vacas imponentes, alguns dos quais, os bois é claro, pais de vasta
prole entre machos e fêmeas e vacas já com cinco bem sucedidos partos, a
atender aos escorreitos e bem encorpados novilhos que nos eram apresentados.
Não tem nada de insinuante esta nossa busca por D. Micá entre as vacas, pois,
como é sabido, uma presidente de uma fundação que se dedica ao leite, se bem
que magro e misturado com chocolate, nada de mais normal que esta se
encontrasse entre tetas. Mas não. Nem sombra de D. Micá.
O tempo
decorria, a fome começava já a apertar e face a tão tentadora oferta para o
nosso palato, acabamos por abancar numa tenda de petiscos regionais. Eduardo,
um lambão de primeira, de quem vos falarei dos seus devaneios gastronómicos um
dia destes, pediu logo duas doses de enchidos, uma de quentes e outra de frios,
apesar do meu protesto pois, para mim, umas azeitonas britadas e um jarrinho de
tinto de Borba com uma fatia de queijo de Serpa já me encheria as medidas, que
não, que sair dali sem provar a bela paleta de porco preto ou a não menos bela
farinheira assada não era ir à Ovibeja. Lá acedi, mas fiquei um pouco aquém das
minhas espectativas. Apesar do certame este ano estar completamente virado para
o vinho e para o azeite, azeitonas só de conserva, diga-se de passagem de boa
qualidade, mas nada que nos trouxesse novidade pois qualquer supermercado já as
apresenta há tempos. Valeu-nos a prova de alguns dos melhores vinhos embora de
um deles, quiséssemos provar mas não estava em degustação. Depois conseguimos
perceber porquê. É que cada garrafinha de meio litro, sim de meio litro,
custava a módica quantia de 32 euros, ou, por extenso, para que não restem
dúvidas, trinta e dois euros. Olhamos um para o outro e o Eduardo, sempre com
uma piadinha na ponta da língua, perguntou-me se eu costumava jogar no
euromilhões. Sorrimos para não ofender ninguém e eureka, demos com a D. Micá.
O
seu pequeno mas bonito stande, decorado com imagens de vaquinhas pretas e
brancas e plantas do cacau (confessemos que as paisagens suíças estava um pouco
a contragosto o que, por mim, poderá ser motivo de análise no próximo serão),
estava encaixado entre a barraca das caipirinhas e a loja da ginjinha de Óbidos.
E, como diria neste tipo de situações o célebre diácono Remédios, «não havia
necessidade».
segunda-feira, 22 de abril de 2013
204. D. Micá e os infiéis (prendam esses patifes a ferrolho)
D. Ermelinda estava sentada no sofá pequeno com um
xaile de cachemira sobre as pernas e com o Tareco no seu colo dormitando. Suavemente
ia-lhe alisando o pelo, com a mão, percorrendo o lombo do gato desde a cabeça
até à cauda. O bichano, deliciado, ronronava. A seu lado, Clara Mendonça que tirava
da mala um lenço branco de mão, com um bordado de Viana do Castelo, que
ostentava a frase “o meu curassão só por ti sespira”, entre corações e pombas e
raminhos de oliveira, choramingava. D. Ermelinda esperou que Clara limpasse os
olhos e se assoasse, o que ela fez delicadamente, como uma senhora que era, o
faz. Depois suspirou, provavelmente inspirada pelos dizeres do lenço de Viana,
e rematou o suspiro com um suave “ai”. D. Ermelinda quis saber como é que iam
correndo as coisas entre ela e o Jorge Mendonça.
- Nem me fale dele, D. Ermelinda. É um mulherengo
– e, num misto de tristeza e fúria rematou: Um putanheiro!
Ao esgar reprovativo de D. Ermelinda, cuidando de
que se trataria de crítica à linguagem utilizada, acrescentou hesitante um
pedido de desculpas:
- Desculpe-me a grosseria da palavra, D.
Ermelinda, mas eu não suporto mais este constante cobiçar de outras saias, este
permanente estado de adultério. – Depois, atiçando-se contra o belo sexo como
se ela não fosse um magnífico exemplar da espécie, vilipendiou-as: - As
mulheres têm sido a causa da nossa desgraça.
- Eu
entendo, Clarinha, eu entendo – tentou consolá-la, D. Ermelinda que, diga-se a
propósito, era uma santa alma e acrescentou, desta vez atacando o sexo oposto, como
que em contraponto ao que Clarinha acabara de dizer – os homens são uns
patifórios.
«São todos assim, não escapa nenhum», continuou D.
Ermelinda que em pegando na palavra tinha sempre alguma dificuldade em
largá-la. E foi exatamente o que aconteceu de seguida pois que nunca mais se
deteve «que o diga eu, Clarinha. O meu Jovelino, que Deus Nosso Senhor tenha a
sua alma em descanso», disse-o benzendo-se, «era um perdido por mulheres. Saiba
a Clarinha que um dia, saiu-me de casa todo apinocado, exatamente como
costumava ir para a empresa, de fato completo, naquele dia um lindo fato azul-escuro
com uma risca fininha em cinza, bom pano, que o comprei e mandei fazer na alfaiataria
do senhor Desidério, não sei se a Clarinha o chegou a conhecer, um alfaiate que
usava bigode à século XIX, fininho e enrolado nas pontas e que fumava uns cigarros
pretos que eram um fedor», depois atalhando face à expressão desinteressada de
Clarinha, «bom, talvez não fosse do seu tempo». Continuou com a narrativa das
peripécias de Jovelino. «Dizia-lhe eu, então, com aquele fato de três peças, o
colete com botõezinhos de madrepérola, corrente, sim corrente, que o meu
Jovelino nunca saía para reuniões com gente fina sem a sua corrente em ouro,
onde sustinha um relógio, também ele de ouro, adquirido a um lavrador a quem a
vida não lhe tinha corrido muito bem, mas isso são outras histórias. Vou-lhe
contar o que interessa, o meu Jovelino disse-me que ia para a empresa, que
vinham uns senhores de uma fábrica em Santa Iria de Azóia, a Clarinha que é de cá
de Lisboa deve saber onde fica Santa Iria de Azóia, ora não? Pois é verdade
isto que lhe vou contar, tão verdade como estarmos aqui as duas sentadas neste
sofá à espera que a minha Micazinha recomece a contar a história do D.
Bonifácio. Sabe que ela a mim nunca ma contou, Clarinha? Ah pois, não, não
contou, não senhora e olhe que eu acho que ela não está a inventar. Aquilo ou é
coisa que ela leu em algum livro ou então não sei. Porque para lhe ser franca,
Clarinha, eu não acredito em fantasmas. Nem tenho medo. Sabe de quem tenho medo
mesmo, Clarinha? É dos que cá estão. É dos vivos sim senhora. Que Deus tenha em
paz e sossego as almas daqueles que já partiram. Mas os que cá estão, Clarinha,
esses é que são perigosos. Então não é verdade que têm sido essas intrujonas
que se têm atirado ao seu rico marido, que não desfazendo, é uma joia de homem?
E pelo que me dizem, até ganha bem. Uns bons contos de reis por mês, Clarinha.
Mas isso são coisas da vossa vida, sabem vossemecês e fazem vossemecês muito
bem. Ninguém tem nada com isso ou andar por aí a contar as suas vidas. Olhe
Clarinha, aqui nos nossos serões, que lá nisso temos de fazer justiça à minha
Micá, nem ela nem eu, posso jurar à fé de quem eu sou, autorizaríamos outra
coisa. Fala-se de muitos assuntos, muita coisa da cultura, música, poesia e
como a Clarinha deve saber, até já se representou uma peça ali no salão. Foi
tão lindo, Clarinha! Foi um êxito. Parece que ainda estou a ouvir as
pancadinhas de Molière, pum pum pum pum e a minha Micá a fazer de velha
alcoviteira, só de me lembrar, Clarinha, me dá uma vontade tão grande de rir»,
deu D. Ermelinda uma gargalhada e sem perder o ritmo, continuou «querendo casar
a menina Marta com o Fagundes e o Fagundes, coitado, que nunca tinha feito uma
peça de teatro a ficar muito corado por estar em frente da própria mulher,
prestes a se enrabichar por outra, mas que era só a fingir, era teatro. E para
lhe dizer o que me vai na alma, Clarinha, não sei para que é que serviu tanto
acabrunhamento. No final das contas, na vida real, quem acabou por encornar o
Fagundes foi a mulher dele e o coitado que andou por aí a exibir nódoas na
camisa acabou por ser o pobre do Fagundes. Mas fala-se que ele está bem, agora
tem um caso com uma senhora rica, parece que não lhe falta nada e nunca mais o
ouvimos a barafustar contra o Governo por causa do salário e de outras afrontas
aos professores. Mas aqui não falamos das vidas dos outros, como a Clarinha
sabe. O que é pena, Clarinha, é que já não vou ter tempo de lhe contar o resto
da história do dia em que o meu Jovelino saiu de casa, mais perfumado do que o
costume, já que aperaltado ele andava sempre e foram-no encontrar ao fim da
tarde, em Aveiro, a empanturrar-se de ovos moles, ele que sofria do fígado e
fazia uma dieta com leite magro e saladas» relembrou D. Ermelinda consternada,
continuando já com uma pequena expressão de fúria maledicente, mas ao mesmo
tempo aparentando um certo conformismo. «O pior é que foi apanhado em
flagrante, nesses devaneios a que a gula conduz, por uma rapariguita lá de
Albergaria, que estava de criada de servir no Hotel Bela-Ria e que,
inadvertidamente, quando ia para colocar os últimos preparos para os clientes,
se enganou na porta do quarto e abriu aquela que não devia, ou como se costuma
dizer a Providência é Divina, Amén. Foi a pequena dar de caras com o meu finado
Jovelino, só de cuecas, que lá nisso ele era homem muito respeitador, rodeado
por duas espanholas, em trajes que nem lhe descrevo, pois a Clarinha iria ficar
mais corada do que um tomate maduro e com mais de uma dúzia de ovos moles
espalhados sobre a colcha da cama, capaz de se sujar e ter ainda que pagar uma
conta elevada da lavandaria do hotel. Mas depois que a minha Micá acabe a
história eu conto-lhe o resto. Estou curiosa em saber porque é que defunta
Antonieta andou a aparecer assim tantas vezes ao velho Bonifácio. E já agora,
Clarinha, olhe que a menina, que dizem por aí que anda a tratar do divórcio com
o dr. Jorge, faz muitíssimo bem. São uns diabos. E quando são putanheiros...
Dizendo isto, D.. Ermelinda colocou a mão em
concha, a tapar a boca semiaberta e ficou a senhora com o rosto mais rubro do
que a criada Rosalina que como sabemos é roliça, coradinha e tem buço.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
203. Sarau poético em casa de D. Micá
- Deixe-se disso, Eduardo. Você não vê que eu sou
uma mulher solteira? – dizia com ar pouco austero, antes porém com o seu
maravilhoso sorriso nos lábios, D. Micá, que não levava o meu amigo Eduardo
Aragão muito a sério.
Sois a flor que no meu vaso desponta
Quando o matinal Sol meu lençol vem beijar
E cujo perfume me deixa inebriado, em tonta
E incontrolável vertigem de te amar.
Não desistiu Eduardo de terminar o poema que com
um joelho no chão e um cotovelo apoiado na coxa da outra perna recitava a D.
Micá, como nos bons velhos tempos em que em Coimbra se atirava à esposa do
comendador Formoso Reimão, o que lhe valeu um R na cadeira de Patologias
Tropicais, quando, por insistência de um velho tio que era padre, o meu amigo
Eduardo Aragão entrou no curso de Veterinária, contrariando a sua grande e
antiga vocação que sempre fora o Direito. Talvez seja agora a hora de vos falar
um pouco deste meu amigo, que desde muito jovem se perde por mulheres casadas e
que colecionou RR atrás de RR na Universidade nunca tendo passado do segundo
ano e que, por felicidade ou desígnio de Deus, nunca desgostou o velho tio, já
que o Senhor o resolveu chamar à sua presença antes que dos desviantes caminhos
do sobrinho achasse conhecimento, ele que o nutria dos maiores desvelos.
Conheci Eduardo Aragão quando eu era um imberbe
adolescente. Uma amiga da minha mãe desposou um rico agricultor provinciano que
a levou a viver para uma pequena aldeia no Concelho de Arganil, onde possuía um
solar e era farto em criadagem. A minha mãe e essa amiga correspondiam-se por
carta, é claro, e um dia a D. Edmunda, que era assim o nome dela, convidou a
minha mãe a ir visitá-la. Que não se preocupasse, ela pagaria não só as
passagens mas também, enquanto a minha mãe lá quisesse ficar, a estadia seria
por conta dela. Logicamente, este convite só pode ser aceite nas nossas férias
escolares e, num pretérito mês de Julho, lá fomos arrastados para uma aldeia
desconhecida, para casa de quem não fazíamos ideia de quem fosse pois lá em
casa só ouvíamos falar em “Mundita” para cá, “Mundita” para lá. E num dos nosso
passeios pela região, sempre no automóvel do senhor Ferreira, nome que me fazia
muita confusão pois estava acostumado a conhecer os amigos dos meus pais pelo
nome próprio e aquele, para os meus doze anos, era apenas o senhor Ferreira, de
tal modo que eu pensei que ele se chamasse Ferreira-qualquer-coisa, paramos
para lanchar numa pastelaria de uma vila vizinha, mais propriamente em Coja,
nome do qual nunca mais me esqueci e que já tive a oportunidade de visitar em
adulto. Na mesa ao lado, um casal muito bem vestido, o homem de fato completo,
colarinhos levantados, gravata, sapatos de verniz, colocava o guardanapo de
pano sobre uma perna e comia uma fatia de bolo com faca e garfo, muito
diferente do senhor Ferreira que era o que a esta distância poderíamos chamar
de burgesso, mas rico, que vestia umas calças de fazenda, embora limpas porque
a D. Edmunda era muito asseada, mas muito assaloiadas, um casaco de fazenda
grossa, botas de couro cru e um boné de fazenda com pala, em vez de chapéu e
que mandou logo vir um prato com meia dúzia de pasteis para as senhoras e para
as crianças e para ele uma sandes de presunto e um copo de vinho, que comeu sem
tirar o boné da cabeça, com a boca aberta e a deixar cair as migalhas. A
senhora do casal também ela muito fina cuja aparência me impressionou com os
seus lábios pintados de carmim, a sua camiseira às flores, um colar de pérolas
ou de imitação, uma saia plissada de fino recorte e um blaser curto de bandas arredondadas. D. Edmunda, que não tinha nada
a ver com a boçalidade do marido, era uma senhora de pouco mais de trinta anos,
muito bonita, que se maquilhava a contragosto do senhor Ferreira, que a
questionava sempre com um ar enjoado, que se ela já tinha a quem agradar porque
é que se pintava, palavras que caiam sempre muito mal a D. Edmunda e que não
era raro vê-la (pelo menos eu vi nos dias em que lá estive) com uma furtiva
lágrima no olho. E um rapazinho que acompanhava o casal, mais ou menos para a
minha idade nos seus doze, treze anos, de fato completo de casaquinho e calção,
com uma camisa branca com folhos e uma gravata fininha que caia como duas fitas
de seda. Ao fim de alguns minutos, aproximou-se de mim, pareceu-me até que um
pouco tímido, ao contrário do que se viria posteriormente a revelar e
perguntou-me:
- Queres brincar?
Aceitei e fomos para a rua, onde não havia perigos
e onde os únicos dois carros, que se podiam ver à distância que os nossos olhos
alcançavam, eram o do pai dele e o do Sr. Ferreira, mas estacionados, pelo que
não representavam nenhum perigo. O outro menino, em vez de tirar do bolso um
pião ou dois berlindes, perguntou-me baixinho:
- Qual das duas senhoras é a tua mãe?
- Então esta noite vou sonhar com a outra.
Nunca mais perdemos o contato, exceto quando
Eduardo andou pelo Brasil, vindo mais tarde a pedir-me desculpa, mas que os
negócios, de que um dia vos falarei, não lhe davam tempo nem para um bilhete-postal.
Quando Eduardo se levantou e sacudiu as calças no
joelho, deu uma gargalhada e sossegou D. Micá:
- Ó D. Micá, não se assuste. Estes são os versos
que escrevi para a menina Lucinda que veja lá, coitadinha, foi atacada pelas
artroses.
D. Micá fingiu respirar fundo e dirigiu-se ao
canapé, onde o seu lugar estava reservado para continuar a contar a história de
Antonieta e de D. Bonifácio.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
202. D. Micá e as meias pretas da Marta Caracinha.
D. Micá anda a querer fazer surpresa mas todos
sabem como sou desbocado e na passada quinta-feira dei com ela, antes do nosso
serão começar, com uma viola na mão, uns papéis com uns acordes à frente, uma
tablatura de uma conhecida canção espanhola e um stress dos diabos. Mas D. Micá
não se atrapalha e quando eu cheguei nem fez questão de disfarçar. Ficamos ali
a conversar sobre aprendizagem destes instrumentos de corda, falei-lhe que
também eu ando a aprender a tocar cavaquinho e rimos a bom rir quando sugeri
que um dia destes, apresentaríamos nos famosos serões da sua casa o duo
Constantino e Micá. Ela que não, que ou seria Micá e Constantino ou nada feito
até que, como já disse atrás perdemo-nos de riso quando assentamos num nome bem
pimba, Tino e Micá, só ficando por decidir quem seriam as bailarinas que nos
iriam acompanhar no palco, com aqueles calções curtinhos de mostrar as nádegas
por cima de meias de renda, de preferência pretas.
Foi num estado de autêntico delírio, comigo quase
a rebolar no chão e a D. Micá com as pinturas todas borradas das lágrimas de
tanto rir, que Eduardo Aragão, literalmente, nos caçou.
- Que história é essa da Marta e da Geninha serem
bailarinas? – perguntou, intrigado, o Eduardo, sem fazer a mínima ideia do que
estávamos a conversar e estranhando nunca ter sabido que as nossas conhecidas,
a exótica Marta Caracinha e a viciada em bebidas brancas, a célebre Geninha,
seriam bailarinas.
- Não são mas vão ser – respondi, sem bem
conseguir disfarçar o riso.
- E que mal tem isso? Parece que estás a gozar um
pratinho do qual não estou sequer a sentir a piada – ripostou Eduardo com uma
cara de enjoado, enquanto já bem mais tranquila, D. Micá se ausentava para
retocar a maquilhagem.
- Vão ser as nossas bailarinas exclusivas,
Eduardo! E o mais interessante é que elas nem sequer desconfiam – acrescentei sem
sequer ter pensado em descodificar-lhe a situação.
- Eu não te disse que tu só gostas de enigmas?
Vais-me contar o que se está a passar aqui ou preferes fazer-me um desenho.
Pedi-lhe que me esperasse um pouco enquanto eu ia
ao carro. Rosalina serviu-lhe um whisky e Pedro Rebocho chegou entretanto com
Marta Caracinha. O Fagundes também já estava a estacionar o carro dele, a muito
custo pois na Lapa não é fácil encontrar lugares vagos à noite e o Mendonça,
que hoje trazia uma bengala para o ajudar a subir as escadas (ele disse-nos que
era para o ajudar a descer) pois andava bem pior do joelho esquerdo, mazela de
que já sofre há tempo, não obteve de Rosalina mais do que desprezo, pois a
anafada empregada de D. Micá está muito chocada com o facto de ele a ter andado
a enganar. Vá-se lá explicar esta propensão do Dr. Jorge Mendonça para criadas,
ele é a Adriana, ele é a Rosalina e só não teve nada com a Eduardinha, sabemos
agora, porque ela andava muito mais à caça de uns cobres de que de um par de
olhos azuis e o Alfredo, nisso, dava cartas. Aos poucos, os nossos amigos que
costumam frequentar o salão de D. Micá iam chegando, não faltaram sequer o
senhor Hortênsio, o Faria e a viúva que agora é sua namorada, o Justino Carlos,
o Armindo e a Tansinha que estão em Lisboa em negócios, mas que cada vez que cá
chegam morrem de saudades do seu Porto, o Julião Guedes, a Efigénia, a
Henriqueta e obviamente a nossa, já lhe podemos chamar assim, Geninha. No
portão de entrada dei de caras com o otorrinolaringologista Luís Lopes Lacerda
e logo de seguida chegou o casal Carlota e Paciência Monteiro. Com tanta gente
ilustre ainda ouvi o meu amigo Eduardo pedir desculpas a D. Ermelinda pelo
facto de a menina Lucinda não o acompanhar já há várias semanas mas tem andado,
segundo ele, com uns problemas nas artroses, sabendo eu que D. Ermelinda sabe
perfeitamente que o senhor comandante tem estado desembarcado há mais de dois
meses porque a fragata está em doca seca para reparação.
Quando entrei com o meu estojo com o cavaquinho,
Eduardo olhou para mim com um esgar cúmplice e dirigindo-se ao piano esperou
que eu me preparasse e tocou as primeiras notas de “Laurindinha”. As cordas do
cavaquinho vibraram e os corpos de Marta e de Geninha balancearam-se. À Marta
Caracinha só lhe faltavam as meias de renda preta.
segunda-feira, 8 de abril de 2013
201. D. Micá - A sabedoria popular
- Tu não estás a ver bem, pois não Eduardo?
- Nem sei do que é que estás a falar Constantino.
Queres explicar-te?
- Sugiro que lhe ponhas um travão.
- Ó Constantino, vamos lá a ver se nos entendemos.
De quem é que estás a falar?
- Ora, de quem é que achas que estou a falar?
Daquela ali.
- Da Geninha? Por causa da vodka? Deixa lá, já não
há nada a fazer…
- Não esteja a virar o texto, sabes bem que estou
a falar da Micá.
- Da Micá? Da Micá o quê? O que é que tem a Micá?
- Ela vai-se desbocar. Não duvides.
- Lá estás tu, Constantino. De novo com enredos e
mistérios. Gostas muito de deixar as pessoas a pensarem.
- Eduardo, pela nossa amizade. E olha que quem te
avisa teu amigo é.
- Eu sei. E também sei que homem prevenido vale
por dois.
- Também é isso, mas não só Eduardo. Bem sabes que
quem anda à chuva molha-se.
- Diz-me lá Constantino o que é que esta série de
ditados populares tem a ver comigo e com a D. Micá?
- Tem tudo Eduardo. Tu és inteligente. Aliás, um
dia destes irei aqui contar um bocado da tua história e os nossos leitores vão
saber porquê e com certeza concordar comigo que de facto és inteligente. O que
penso é que te está a fazer de cego. E olha que o pior cego é aquele que não
quer ver.
- Mas Constantino, vamos lá a ser claro! Porque
nem todos os teus leitores estão a entender e não podes ficar pelas meias
palavras. Bem sei que para bom entendedor meia palavra basta, mas…
- Então vou ser mais específico. Quiçá vá já
direito ao assunto. Mas não de uma maneira precipitada. Sem atalhos. Porque
quem se mete em atalhos, mete-se em trabalhos.
- Agradeço-te. Porque não gosto de coisas mal
esclarecidas. Não gosto de gatos escondidos com o rabo de fora.
- Então, Eduardo vou-te falar. Mas sem rodeios.
Vou ser conciso e não vou falar muito. Porque quem muito fala pouco acerta e eu
não quero ser desses.
- Sou então todo ouvidos. Mas desde já te aviso
que a palavras loucas, orelhas moucas.
- Pois então Eduardo, cá vai que já se está
fazendo tarde.
- Estava a ver que não. Mas sou paciente
Constantino e sou daqueles que acham que mais vale tarde que nunca.
- Apoio-te nessa afirmação. Saber esperar é uma
grande virtude, Eduardo.
- Então fazes o favor de desembuchar? Não gosto
que fiquemos aqui em segredinhos quando o serão está ali tão animado. A
propósito queres tomar algo?
- Eu ia num copinho de leite magro com chocolate e
tu?
- Já sabes que não dispenso um espirituoso, Constantino
e hoje o que me apetece mais é uma ginja.
- Diz que há cá uma ginjinha de Óbidos de se lhe
tirar o chapéu, Eduardo. Já fiz sinal à Rosalina.
- Ó Rosalina está vermelha que nem um tomate,
rapariga. O que foi que lhe aconteceu?
- Ó senhor Constantino, então o senhor não sabe
que água mole em pedra dura tanto dá até que fura?
- Isso eu sei, mas o que é isso a faz corar,
Rosalina?
- Ó senhor Constantino, vossemecê não sabe? É o
dr. Jorge…
- Qual Jorge, Rosalina, acho que a menina anda com
muitas confianças…
- Ai desculpe-me dr. Aragão, mas eu não o disse
por mal. Quero dizer… é o dr. Mendonça. Está muito abusador e eu não sou de
ferro, ai meu Deus que tenho tanto medo de ceder.
- Mas ó Eduardo, diz-me cá uma coisa. Não foste tu
que me disseste que o Jorge Mendonça e a Clara estavam a separar-se porque ela
o apanhou com a criada, espera lá, Adriana, não é?
- Ai nem me diga isso senhor dr. Constantino, que
se eu encontrar por aí um buraco, já me vou enfiar nele. Então esse
desavergonhado a dar-me esperanças, que tem um filho por criar e coisa e tal e
que eu faria o lugar que a menina Clara nunca soube fazer e mais isto e mais
aquilo. Ai o malandro. Pois olhe que já lhe irei pôr tudo em prantos limpos.
Ele que venha cá com avanços, ai dele.
- Pois Rosalina, deixe lá isso agora e traga-nos cá
duas ginjinhas. E olhe que queremos da melhor, daquela que a D. Ermelinda
costuma beber. E tu Eduardo, não sabias que quem não quer ser lobo não lhe
veste a pele? Olha esse sonso do Jorge…
- O que tu queres dizer, Constantino é que o
Mendonça é um lobo com pele de cordeiro. Mas quem vê caras não vê corações, não
é o que costuma dizer?
- É verdade Eduardo, mas voltando à vaca fria do
almoço, tens de lhe parar a verve.
- Claro que te estás a referir de novo à Micá, não
é?
- Pois claro, a quem é que devia de ser? E olha
que ao diabo e à mulher nunca falta o que fazer.
- O que tu queres dizer é que se ela meter a boca
no trombone vai sobrar para mim, é isso?
- E não tenhas dúvidas de que ela conhece a
história toda. Ainda te lembras como é que ela conheceu D. Bonifácio…
- Foi através do falecido pai, não foi? Que Deus
lhe tenha a alma em descanso.
- Por causa dos negócios do cacau e do leite.
Sabes as influências nos negócios externos, da diplomacia…
- E também sabes que, embora mais jovem, ela ainda
foi amiga da Antonieta?
- Também sei Constantino.
- E tens assistido à história que ela tem estado a
contar?
- Tenho sim, claro que tenho.
- Então espera pela pancada.
- Pois é verdade mas olha que até ao lavar dos
cestos é vindima.
- Não me queres dizer, Eduardo, que quem ri por
último é quem ri melhor, pois não?
- Não, não, Constantino. Com o fogo não se brinca.
- Então ficamos assim.
- Olha. Brindemos então com esta ginjinha e não se
esqueça Rosalina que esta também serve para si. Cautela e caldos de galinha
nunca fizeram mal a ninguém.
terça-feira, 2 de abril de 2013
200. Terá sido o Tareco de D. Micá?
“Sabes
meu caro Aristides, a minha vida com Antonieta nunca foi uma vida fácil. Nem
fácil nem pacífica. Antonieta era uma mulher muito bonita. Diria mesmo, sem
exagerar, que ela era fascinante. Tu lembras-te, com certeza, pois em jovens
muito íamos ao cinema juntos, aquelas divas do preto e branco primeiro e do
Technicolor uns anos mais tarde? Ahahahah, até parecemos dois velhos marretas a
desfiar memórias. Ó Aristides, tu vais com quantos? Sessenta e oito? Bem me
parecia. Eu sou um pouco mais velho, não muito, fui às sortes, deixa cá ver, em
cinquenta e nove, se não me falha a memória. Nasci em quarenta. Eu era um belo
rapaz, Aristides. Não é para me gabar, mas era. E era um pimpão! Arreava bem.
Os meus pais, aristocratas, muito boa gente, nunca quiseram nada com o velho
ditador e, olha, se eu tive lugar de relevo na diplomacia não foi por
colaboracionismo. Antes pelo contrário, creio até que foi por receio. O velho botas
não se queria dar mal com as velhas famílias nobres, o meu pai, que Deus tenha
a sua alma em descanso, não alinhando com a política dele, também não o
hostilizava. Dizia-me às vezes em segredo, pois à polícia política tudo lhes
cheirava a conspiração, que os monárquicos um dia voltariam ao poder para a
honrar a memória do senhor D. Carlos. Coisas dele. Mas não era disso que eu
estava a falar, mas entende, famílias finas, aqui o teu amigo vestia muito bem,
usava sempre chapéu, Aristides, que não é como agora, essa juventude nem garbo
tem com o traje, ele é calças de ganga, blusas sem rei nem roque, sapatilhas,
bonés de basebol. Não! Eu ia sempre na marcança. Ainda me lembro de um fato completo,
bege claro, do chapéu, a que chamavam palhinhas, mas o meu não era de palha,
era de verguinha entrelaçada, comprado na Chapelaria Janota, não era qualquer vendedor
ambulante que fornecia aqui o rapaz, eu sempre com o lenço a sair do casaco, a
condizer com as gravatas que a minha mãe mandava vir de fora pela mala
diplomática, as camisas italianas. Enfim… E andava sempre de automóvel. Quando
cheguei à Graça, no dia que fui às sortes, foi de automóvel. E eram aqueles
labregos todos, das quintas de Almada e da Charneca, das terras da Porcalhota e
de Caneças, a olharem para mim, a assobiarem e comentarem, olha não querem lá ver
o pipi? O meu falecido pai tinha um Ford Coupé de 1936, que com mais de vinte
anos parecia novo. Havias de ter gostado de conduzi-lo, Aristides. Não era uma
bomba, mas era muito bonito. Eu saía daquele Ford preto, de fato bege e chapéu
como te dizia há pouco e parecia o Al Capone. De mulheres, então, nem te falo.
Infelizmente nunca assentei para me decidir a casar. Mais tarde, quando
enveredei pela diplomacia, seguindo os passos do meu velho pai, depois de me
ter formado na Faculdade de Letras, fui-me dividindo entre a profissão e as
acompanhantes. Em Londres, meu caro Aristides, posso-te dizer que o meu quarto
era mais cosmopolita que toda a cidade de Lisboa alguma vez se imaginaria vir a
ser. Por lá passaram bailarinas italianas, esquiadoras norueguesas, ciganas
romenas, princesas árabes, revolucionárias soviéticas, gueixas japonesas,
floristas holandesas, roliças lavadeiras portuguesas, fotógrafas francesas e se
mais não te digo é porque, mais uma vez afirmo, não gosto de me gabar. Mas não
assentei e quando já pensava que iria adotar o sobrenome de tio, eis que me
deparo com a linda Antonieta. Pois a Greta Garbo, a Rita Hayworth, a Elizabeth
Taylor, a Joan Crowford, a Bette Davis, a Bergman, a Monroe, a Bacall, com ela
iam a meças, ouviste? Sabes que chego a ter pena que não possas vislumbrar a
aura do seu fantasma, quando ela me aparece aqui na mansão? Mas dito isto, D.
Bonifácio calou-se repentinamente e ele e Aristides voltaram em simultâneo a
cabeça para a porta do amplo salão nobre da mansão. Pensou-se que o gato
Gatófio, só poderia ter sido ele, tenha soltado um estridente miado e como que
rolassem berlindes, ouviu-se no silêncio do salão e na agora calmaria da noite
um barulho que atacava o soalho, caindo em ritmo compassado como se caíssem de
uma prateleira. Um a um, o que pareciam ser berlindes, caiam, ecoavam no vazio
do aposento, rolavam pelo soalho e Gatófio depois do susto inicial que pregou
aos dois interlocutores, parecia uma criança a brincar com eles no mosaico da
cozinha”.
D. Micá parou de contar, numa atitude tão
repentina como a dos personagens da sua história. Espontaneamente, todos os
assistentes ao conto que D. Micá retomava, uma vez mais, numa das suas famosas
soirées da Lapa, com exceção da Rosalina que ficou estarrecida, qual estátua
viva, viraram à uma a cabeça em direção da porta da cozinha. Geninha também não
resistiu e caiu para o lado, vítima da garrafa de vodka que foi reduzindo em
muitos pequenos shots. Marta Caracinha nervosamente tirava e recolocava o
elástico dos totós. Fagundes pôs os apontamentos de geografia debaixo do braço
e ficou em posição de quem vai sair cheio de pressa. Justino Carlos roía as
unhas. Dona Ermelinda, a contas com uma enxaqueca, dormitava no canapé e não
dera por nada e Eduardo Aragão, que sempre foi um exemplo de coragem, a
propósito da qual vos contarei em breve um ou dois episódios, abriu de supetão
a porta da cozinha de D. Micá e de olhos brilhantes, com um sorriso nos lábios,
informou a plateia:
- Oh, não é nada. Foi o Tareco que entornou o
pacote das amêndoas lisa-cores e agora anda a brincar com elas, como se fosse
uma criança.
Mas ninguém ficou descansado. Ali havia fantasmas
como no conto de D. Micá.
quarta-feira, 27 de março de 2013
199. O mau tempo já passou e os fantasmas vão de vento em popa
“D.
Bonifácio, fez aquela referência e calou-se” , recomeçou a
contar a sua história D. Micá, praticamente refeita de várias apoquentações,
desde logo o episódio da matraca, a perda da Eduardinha, que a esta hora deve
estar a servir um cafezinho ao Alfredo, a febre que a gripe lhe trouxe e outras
que a tinham impedido de cumprir o desígnio de que, quer fizesse chuva ou sol,
trovoada ou vendaval, canícula ou frio
de rachar, as quintas-feiras à noite eram sagradas e seriam exclusivamente
dedicadas aos serões na sua residência. Continuou, D. Micá. “Calou-se e ficou pensativo. Depois, como
que resignado, virou-se para Aristides
-
Meu caro Aristides – disse bocejando. – Estou cheio de sono.
-
Ó Bonifácio - como sabem, o tratamento
informal quando estavam a sós derrubava qualquer barreira entre patrão e
motorista – mas nem o teu pijama trouxemos. E ainda se fosse só o pijama. Os
teus comprimidos do colesterol, os da tiroide e o principal, os antiestamínicos
ficaram em casa. E tu bem sabes como sofres com o pó desta velha mansão.
Felizmente que a humidade de hoje fê-lo acalmar e assentar sobre estantes e
prateleiras, mas não estamos a salvo das correntes de ar como ainda há pouco
acabamos de sentir”.
Foi a vez de D. Micá fazer a pausa e perguntar
para os presentes se estavam ou não a achar maçadora esta história de fantasmas,
que se arrasta mais do que uma serpente atrás de uma ratazana, passe a
arrepiante, para a ratazana, claro está, comparação. É então que o meu amigo
Eduardo Aragão, que hoje veio sozinho mas muito janota, o que fez com que quase
todos e todas ali presentes conjeturassem qual seria o destino de Eduardo mal
arrefecesse na caneca o leite magro com chocolate, que Rosalina, recomposta do
vómito e já com o chazinho tomado, tinha voltado a aquecer, o mesmo será dizer,
já que hoje me deu para as metáforas, para onde é que iria esta noite Eduardo,
mal o serão acabasse, vestido que nem um lorde, de fato completo de tweed em
espinha, cinzento não muito escuro, de corte fino italiano, uns sapatos que se
nota que são produção artesanal de altíssima qualidade, provavelmente feitos à
mão por algum mestre sapateiro de S. João da Madeira e sem qualquer sombra de
dúvida, modelo único, a camisa, impecavelmente branca e da mais pura cambraia,
plissando nos peitilhos, com duas pequenas pregas em cada lado, estilo meados
dos anos 70 e no bolso do paletó um lenço em seda, exatamente igual ao laço que
lhe substituía a costumeira, mas não menos fina e garbosa gravata com que habitualmente
se indumenta, se levantasse, tomasse a palavra e eloquentemente discursasse:
- Senhora e senhores, minhas amigas e meus amigos,
deixem-me cumprimentar com o enfâse que merecem as nossas anfitriãs, as
queridas senhora D. Ermelinda, minha senhora, espero que vá melhor das suas
artroses e a D. Micá a exímia contadora de histórias cor-de-rosa, a quem
aproveito também a solenidade deste momento para lhe endereçar os meus mais
sinceros parabéns pela recente aquisição da roliça Rosalina, que por sinal a
vejo ali ao fundo a corar, não core menina que eu apenas estou a ser sincero.
Depois do cumprimento, com os apartes que Eduardo
introduziu, fruto de vários workshops que
frequentou, dos quais destaco “Relações intrapessoais em ambientes hostis”, “A
arte da comunicação e a anedota proposital” e ainda “Como cativar uma plateia
em cinco minutos ou desistir” facultados por consultores norte-americanos,
Eduardo Aragão, que foi uma pessoa muito viajada na sua adolescência, viagens
que vão desde os inter-rails às boleias em estradas britânicas, onde Eduardo se
acostumou a pedir boleia com a mão esquerda dado o fluxo do trânsito se fazer
em sentido inverso ao das estradas continentais, mas que, infelizmente para vós
que estão ansiosos para que vos fale do passado, riquíssimo diga-se a talhe de
foice, de Eduardo Aragão, não vem hoje muito a propósito ficando para melhor
oportunidade, continuou, num discurso emotivo, pedindo quase encarecidamente
para que D. Micá não interrompesse tão bela história de fantasmas e enigmas
que, pese embora o facto de esta ainda se encontrar praticamente no início,
apesar de já vir a ser contada quase desde que este livro começou a ser
escrito, todos acreditam que seja fascinante. Foi tão exacerbado o discurso e
tão belamente adjetivado, pela riqueza da língua portuguesa que nem sempre é
valorizada, preferindo-se discutir se o novo Acordo Ortográfico deve ou não ser
aplicado, tão eloquente a sua prosápia, tão empolgante a retórica, que se em
alguns se viam testas suando a outros fez saltar uma ou outra furtiva lágrima,
principalmente às senhoras que, como se sabe, são criaturas belas e sensíveis.
A própria Geninha, já não sabia se havia primeiro de virar novo shot de vodka
ou se deveria limpar com elegância a lágrima no canto do seu olho esquerdo,
pois que já começava a mostrar sinais de vir a esborratar o rímel. E virando-se para Constantino
disse-lhe sem papas na língua:
- E tu, Constantino, não te atrevas a deixar por
acabar este delicioso e fantasmagórico conto. A Francisca já morreu e isto não
são carapaus de escabeche.
sábado, 23 de março de 2013
198. D. Micá tem uma nova criada
Recompuseram-se algumas situações. D. Micá
melhorou muito, graças ao paracetamol e a um xarope que comprou numa ervanária
da Baixa e a garganta já vai ficando capaz, pois deliciou-nos com um pouco mais
da história de D. Bonifácio e dos seus fantasmas. Nem uma palavra acerca da
provocação, o tempo da matraca já lá vai e quem só começou a ler esta história
neste momento nem sabe o que já perdeu. Mas há pessoas para tudo, até para
começarem a ler um livro pelo meio, vá-se lá saber qual a razão. Por outro lado
Rosalina já chegou. E que bem que lhe fica o nome de Rosalina. Veio diretamente
de Albergaria, velhos conhecimentos entre D. Micá, D. Ermelinda e a mãe da
jovem provinciana que, desde que Eduardinha se amantizou com o Alfredo, o
serviço andava muito por baixo. Por sorte, praticamente não houve serões, por
mor da gripe de D. Micá e ainda devido ao estado semidepressivo em que andou,
porque não é impunemente que se é alcunhada de matraca por um personagem de uma
história que a própria conta. E se esta miscigenação entre narrador e narrado
já é coisa vista nas figuras de estilo da literatura portuguesa, não é menos
verdade que, uma criadita adolescente, vinda das berças, faces rosadas, um
ligeiro buço e mais ou menos roliça, é um protótipo que os nossos maiores
vultos da poesia e do romance já usavam nos seus muito apreciados clássicos.
Não admira pois que, nós, escribas bem mais modestos, quer seja o Constantino,
quer seja D. Micá, que são os que mais contribuem para que estes episódios e
até histórias completas, tenhamos encontrado para substituir a bela Eduardinha,
uma filha da ruralidade, com a fisionomia que se descreveu e que se chama
Rosalina. De Rosalina, suas venturas e desventuras se falará no tempo próprio,
desde a depilação laser, que a deixou sem qualquer pelinho no rosto e que, se
não fosse por pudor, diríamos mesmo que sem qualquer pelo nos sovacos e nas
pernas, aspeto físico que passou apenas a ser uma ténue memória de um passado
não muito remoto e que ousaríamos supor, porque não foi possível fazer passar
Rosalina por um crivo inspecional mais rigoroso, que nem na púbis se poderá
encontrar qualquer vestígio de excrescência pilosa, até ao seu atribulado
namoro com um ex-militar do antigo Regimento de Artilharia de Costa que tem um
agora um barquinho de pesca na Trafaria e que se dedica ao arrasto clandestino
da ameijoa. Mas por enquanto Rosalina ainda não usa blushs nem sombras, o seu
ar rosado é completamente natural e se alguma vez alguém, em frente dela, lhe
fala em pó-de-arroz, é para ela, com o ar mais púdico que se possa imaginar,
colocar os três dedos, o médio, o anelar e o indicador bem juntinhos sobre os
lábios e rir disfarçadamente pois que lhe vem à lembrança a filha da D.
Doroteia, que saía todas os fins de tarde completamente pintada e só se sabia
que ela regressava de madrugada porque o Idalécio taxista, o único que levava
pessoas da aldeia até Albergaria ida e volta era, um boca de charroco, “pior
que as mulheres” como se dizia lá na terra, e que aqui não se reitera porque eu
não sou machista, mas que lá que ele não guardava um segredo, lá isso pode-se
jurar. Era por isso que à memória das pinturas do rosto da Sandrinha, as suas
meias pretas de fantasia, com rendas no lugar das ligas, a minissaia muito
curta, passe o ênfase, os grandes decotes, as botas de cano alto e o cigarro
fumado com boquilha, Rosalina levava primeiro os três referidos dedos à boca,
sorria com ironia, corava ainda mais e depois benzia-se três vezes. E mais se
benzeu quando, pela primeira vez, ouviu D. Micá contar uma parte da história de
D. Bonifácio, a parte em que ele e Aristides falam sobre a confissão a frei
Bento Patinho, que como todos sabemos é um fantasma e dos antigos. Não vos
queria adiantar muito, mas ainda vos digo que Rosalina arreou uma bandeja com
duas caneca de leite magro morninho com chocolate sobre o aparador, saiu a correr
direita à casa de banho, primeiro começou com náuseas, depois um forte vómito,
foram-se-lhe as cores rosáceas, a moça começou a ficar branca, D. Micá
aflitíssima gritava não se sabe para quem, “Um chá! Um chá! Alguém que me
arranje um chá!” e segurava a cabeça de Rosalina que com os olhos ainda
bastante encovados e muito a custo lhe respondeu “deixe-me ficar melhor minha
senhora, que já lhe vou arranjar um chazinho”.
terça-feira, 12 de março de 2013
196. Fruta da época em casa de D. Micá ou a história de Eduardinha e Alfredo
Nestas últimas semanas não tem havido serões na
casa da D. Micá. O prazer de se ouvir contar histórias, mormente pela exímia
contadora de contos cor-de-rosa que é a nossa anfitriã, ainda que acompanhadas
com leite magro com chocolate ou whisky com e sem gelo ou ainda por algum
licor, nomeadamente de amêndoa amarga, não parece ter sido suficiente para que
os tão famosos serões não fossem interrompidos. Infelizmente é esta época fria
e chuvosa a comandar os desígnios de tanta gente por esse país fora que os
assíduos frequentadores do famoso salão não poderiam ficar imunes. D. Ermelinda
bem vai repreendendo a sua estimada filha. «Eu bem te disse para tomares a
vacina, mas tu és teimosa. Sais ao teu pai. Em se lhe metendo uma coisa na
cabeça, não havia quem o demovesse. Que Deus lá tenha a sua alma em descanso,
coitadinho, que se finou tão cedo». Depois benze-se, fazendo primeiro o sinal
da cruz. À filha, que já conhece a lengalenga toda da mãe, com destaque para as
comparações que costuma fazer com o defunto, pois sempre que se refere a algo
da filha, coisa boa ou coisa má, repete-se a conversa «és tal e qual o teu
falecido pai», entra-lhe por ou ouvido e sai-lhe por outro, não sem antes dar
uma palavra de justificação ou consolação por respeito à mãe que ela adora de
verdade. «Não se inquiete minha mãe que eu já tomei um comprimido e sei que
isto vai logo passar», depois dá-lhe um beijo respeitoso na testa e um afago na
cabeça, enquanto se dirige ao piano para tocar uma melodia triste ou melancólica
que o seu estado febril não lhe permite polkas nem marchas. Por falar em
música, desde que o Bruninho Mendonça, que como sabem já toca guitarra
portuguesa apesar dos seus oito anos e que sempre achou que aqueles serões onde
ele tinha de regressar a casa às dez da noite eram uma seca, deixou de ir, que
não se tem cantado o fado em casa de D. Micá. O Dr. Jorge, que agora frequenta
sozinho aquela tertúlia, à falta do filho que acabou por se decidir a ficar em
casa com a mãe, tenta ele próprio arranhar a guitarra. Mas a uma guitarra, não
é qualquer que a agarra e a faz vibrar porque é exatamente como uma mulher. E
por ter falado em mulher, dir-vos-ei, a talhe de foice, que a Clara, de quem D.
Ermelinda nem gostava muito, disse-nos a D. Micá, está com um processo de
divórcio em marcha. Sim porque o Dr. Jorge Mendonça, vejam lá, a pretexto de
uma das sua célebres camisas de cambraia estar com uma ruga, foi à casinha dos
serviços e demorou-se mais que a conta. Clara Mendonça, que já andava
desconfiada com qualquer coisa, viu o marido enrolado com Adriana a sua criada
de casa, de quem, logo no início prometi que falava dela e não estou esquecido.
Parece que D. Ermelinda agora, apesar de não gostar muito de Clara, porque
sempre teve uma pontinha de ciúme do seu casamento, de Clara, com o seu, de D.
Ermelinda, amor platónico, se aproximou mais da esposa enganada e dizem, anda
com umas ganas de Adriana, que se a D. Micá um dia destes não puser tudo a nu,
ela própria desmascara essa impostora da criada dos Mendonça que tem uma
história de vida de arrepiar. Mas retornando, o que me fez voltar a falar dos
serões de D. Micá foi, precisamente, a ausência desses serões. D. Micá com
gripe, o Eduardo Aragão que piorou, e de que maneira, do joelho esquerdo, o que
nem lhe tem permitido fazer aquelas saborosas caminhadas matinais de que tanto
gosta e que desfruta com regozijo e diz que sair à noite é bem pior, pois que
se lhe mete uma humidade nas articulações e que nem com anti-inflamatórios a
coisa tem resultado e a Eduardinha. E o que é que tem Eduardinha a ver com a gripe
de D. Micá e as dores no joelho do Eduardo Aragão ou a crise de tosse cavada do
Fagundes que teve de meter baixa, deixando os alunos de geografia uma semana
sem aulas? Nada. Era só para dizer que a Eduardinha, também ela, deixou de
comparecer. Despediu-se. Despediu-se sim senhor. Ela já não parecia muito
talhada para aquela vida mas quando o Alfredo lá apareceu… Ainda não vos falei
do Alfredo, mas o Alfredo é aquele empresário de bares e danceterias de não
muito boa fama, que só muito esporadicamente frequenta os serões de dona Micá e
fá-lo em memória do senhor Comendador a quem uma vez Alfredo ficou a dever um
grande favor, por mor de umas penhoras que Jovelino Azeredo lhe pagou antes que
fosse tudo por água abaixo e que, se um dia tiver tempo vos contarei lá para a
frente. Dizia eu que desde que o Alfredo lá apareceu, de fato completo, sempre
claro e sempre completo com colete e tudo, fosse verão ou inverno, pois Alfredo
tinha sempre um ar jovem e bem-disposto, já com o cabelo branco, nos seus quase
setenta anos, fumando charuto e usando camisas estampadas, dispensando a gravata
mas nunca por nunca ser, o cachené de seda, lhe acenou com umas notas grandes
de euro, só para lhe aquecer os pés neste frio e chuvoso inverno, ela que nunca
precisou de paracetamol, aceitou. E diz ela, para quem a quer ouvir, que em vez
de andar de bandeja na mão a servir este e aquele, é agora ela, servidinha em
bandeja. E o Alfredo aprecia. Ah leão!
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